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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Miyabi Doll

  
     Havia a muito tempo atrás, uma rica família, que vivia numa casa muito grande. O homem era um comerciante, casado com a filha de um fazendeiro. Eles tinham dois filhos: O mais velho se chamava Kameo e a mais nova, a princesinha da casa se chamava Okiri. 
     Os irmãos eram muito ligados; Kameo passava horas brincando com a irmã, sempre que podia. Quando atingiu certa idade, seu pai começou a leva-lo para o trabalho com ele, para que o garoto aprendesse os negócios da família o quanto antes, deixando a pequena sozinha a maior parte do dia. As vezes, Kameo e o pai chegavam em casa muito tarde, e a menina já tinha ido dormir. 
      Numa manhã, Okiri acordou e viu uma carta ao seu lado; era dos eu irmãozão. Ele tinha deixado para ela na noite passada. Na carta ele dizia o que estava fazendo no trabalho e como sentia a falta dela. Okiri ficou tão feliz que resolveu fazer o mesmo e deixou uma cartinha para ele, sobre a cama dele. A troca de cartinhas virou costume, e assim, mesmo não se vendo tanto, Okiri não se sentia tão sozinha.
      Infelizmente, em 1932, aos 8 anos, Okiri ficou muito fraca por causa de uma doença misteriosa que medico algum sabia dizer o que era. Kameo tentava passar o maior tempo possível com a irmã, sempre lhe dizendo que logo ela ficaria bem. Mas ele sabia da verdade, não havia cura para Okiri e a cada dia, ela ficava pior, mas nunca deixava de sorrir, sempre que o irmão chegava em casa.
      Alguns meses depois, a criança morreu. Seu corpo foi cremado junto com todas as cartinhas que tinha do seu irmão. A família ficou muito triste; a mãe chorava muito, o pai passou a beber e o irmão, ficava horas sozinho, lendo e relendo as cartinhas deixadas pela irmã, onde contava o que ela fazia em casa o dia todo quando ele não estava.
      O quarto da menina continuava intocado, suas roupas e seus brinquedos e suas bonecas. Numa noite, quando estava sem sono, o rapaz teve a ideia de organizar as bonecas na prateleira. As bonecas eram feitas de madeira e todas vestiam quimonos muito bonitos. Com paciência,  Kameo arrumou todas as bonecas de modo que ficasse alinhadas. Quando terminou ele estava para sair do quarto quando resolveu dar uma ultima olhada nos quimonos da sua irmã e foi ai que ele teve uma grande ideia: iria contratar o construtor de bonecas para lhe pedir uma boneca que tivesse exatamente o mesmo tamanho de Okiri, com cabelos do mesmo comprimento e olhos de vidro, seria perfeito! Vestiriam ela com as roupas da garota, e ela seria imortalizada como uma verdadeira boneca, a maior de todas.

        No dia seguinte, o rapaz fez o pedido da boneca e em menos de um mês, lá estava ela: vestida e penteada como Okiri, de joelhos em uma almofada, cercada por todas as outras bonecas. Todas as noites antes de ir dormir, Kameo abria a porta do quarto e dava boa noite à boneca. Numa noite em particular, quando abriu a porta, notou que a cabeça da boneca estava numa posição um pouco diferente do que de costume. Ficou furioso; alguns dos empregados deve ter tocado nela. Entrou no quarto e arrumou-a como deveria ser. Quando estava saindo, notou que a mão dela movia-se lentamente, fechando e abrindo os dedos. Deu um pulo com o susto; olhou bem para a boneca, que não mais movia os dedos. Bobagem, pensou, fechou a porta e foi para o quarto.
       Quando foi deitar-se, viu que havia uma pedacinho de papel branco dobrado em sua cama. Abriu-o e era uma cartinha escrita com a letra de Okiri: " Kameo, não!". Ele tinha certeza que nunca havia visto aquela carta antes, talvez estivesse perdida e algum dos empregado a achou e colocou sobre sua cama para que ele pudesse guardar com as outras. 
         No outro dia, logo que acordou, Kameo encontrou outro papel dobrado sobre sua coisas. A letra também era igual a de Okiri, mas desta vez, parecia que havia raiva na escrita, as letras estavam maiores: " Eu não sou ela!".
         Amassou o papel com raiva, alguém estava brincando com ele. Se vestiu e saiu para ir trabalhar, e ao passar pela porta do quarto da irmã, ouviu um barulho lá dentro, como se fosse algo caindo no chão. Abriu a porta e viu a boneca grande caída. Com paciência, ajeitou-a na almofada como sempre. Foi até a porta do quarto, e pelo espelho, viu a boneca levantar o rosto e olhar para ele com seus frios olhos de vidro. Deu um grito e olhou para trás: a boneca estava como ele havia deixado. Olhou mais uma vez para o espelho... estava tudo ok. Trancou a porta do quarto da menina e levou a chave consigo para o trabalho.
        Naquela noite quando voltou pra casa, sua mãe lhe disse que os empregados ouviram barulhos estranhos no quarto dele durante a tarde. Ao entrar em seu quarto, Kameo se deparou com uma mensagem escrita na parede " Eu odeio aquela boneca! eu não sou ela!"
         Agora a coisa estava séria: ou alguém tava muito afim de morrer ou... Deu uns tapas no próprio rosto, por pensar bobagem. Com pano e agua, removeu a mensagem. Decidiu não dizer nada a sua mãe. Antes de dormir, foi olhar as bonecas. Tudo estava em ordem.
          Mais e mais mensagens começaram a aparecer para ele; em forma de cartas ou nas paredes. As vezes, os empregados ouviam barulhos e gemidos vindos do quarto de Okiri, até que, as mensagens começaram a aparecer pela casa. Kameo não podia mais esconder ou ignorar, quando as paredes da sala estavam cobertas de tinta preta e uma mensagem " Odeio aquela boneca!". Junto à frase, marcas de mãozinhas de criança. Um a um, os empregados abandonaram os patrões.
         A noticia se espalhou de que a filha dos Sato havia voltado para assombra-los e todos pareciam acreditar nisso. Todos menos Kameo e seu pai. Eles estavam certos de que tinha sido uma brincadeira de mal gosto de alguns dos empregados. A senhora Sato, no entanto não gostava nada disso. Numa tarde, ela implorou para o filho queimar a boneca, pois ela não estava deixando sua irmã descansar. A senhora Sato estava ruim da saúde, e o rapaz não queria piorar sua situação, então, decidiu se livrar da boneca naquela noite.
        Quando entrou no quarto, Kameo deu um pulo para trás: todas as bonecas pequenas estavam amarradas pelo pescoço, penduradas no teto. O coração dele acelerou ainda mais quando notou a boneca maior, de pé, no canto do quarto, com o rosto virado para a parede... na verdade, duas delas. No outro canto do quarto, estava uma segunda boneca, na mesma posição, com a mesma roupa e cabelos, exatamente igual.
         "Kameo" disse uma voz. " Qual delas sou eu irmãozão? Você sabe dizer? qual sou eu e qual é a impostora feita de madeira? Sei que sabe, não sabe?" uma risadinha de criança preencheu o quarto, e logo em seguida, a voz tomou um tom mais sério. " Não erre!".
          O rapaz estava apavorado de verdade agora; aquelas bonecas enforcadas sobre ele e aquelas duas bonecas no canto do quarto... e a voz de Okiri... Olhou para as duas: eram idênticas de costas. Fechou os olhos, tentou se concentrar e caminhou ate uma delas. Quando estava perto o bastante para toca-la, ouviu mais uma vez a voz: "Eu sabia que não iria me decepcionar. Obrigada Kameo, eu te amo" e então, a boneca a sua frente sumiu no ar. Soltou o ar que estava preso em seu peito e se deixou chorar.
          Do lado de fora, acendeu uma fogueira para queimar a boneca. Finalmente tinha entendido os sentimentos de Okiri,e poderia deixa-la descansar em paz agora. O fogo consumiu rapidamente o corpo de madeira. Porém, enquanto queimava, aqueles olhos de vidro, tão iguais aos dela, continuavam a olha-lo...


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Sem saída


    A  sala era pequena, com paredes brancas. Uma mesa de madeira no meio e duas cadeiras. Uma terceira parede, era na verdade um grande vidro espelhado. Ele sabia que havia uma câmera ligada do outro lado do vidro, filmando e gravando tudo naquela sala.
     Estava com os braços abaixados. Olhar triste, acabado. Nada mais importava pra ele; responderia todas as perguntas que lhe fizessem.
     O detetive Carter entrou na sala e fechou a porta atrás de si. Olhou para o vidro e fez um sinal coma  mão, depois voltou-se para ele, puxou a cadeira e sentou-se.
    - Ok senhor Levin, pode me dizer o que aconteceu ontem a noite na sua fazenda?
    Ele olhou com olhos muito tristes para o detetive e soltou um longo suspiro.
    - O mesmo que eu ja disse antes, detetive. Mas ninguém acredita. Não tem mais nada que eu possa fazer.
    - Apenas responda as perguntas no melhor que puder, tudo bem? O que fazia ontem, a essa hora da noite?
      Mai um longo suspiro. Olhou para o detetive respondeu:
     - Estava na minha casa, na fazenda. Ouvia o jogo no rádio, em minha sala.
     -  Pistons contra Atlanta?
     - Sim.
     - E sua família, o que faziam?
     - A Cassidy tava pondo a mesa do jantar. Ela tinha em chamado pra ir comer, mas eu queria ouvir o fim do jogo.
     - E sua filha?
     - A Sara... - pausa.
     -  Sim senhor Levin, a Sara. O que a Sara estava fazendo?
     - No quarto dela, eu acho... conversando com alguma amiga pelo telefone.
     - A ultima ligação do celular dela era para uma garota chamada Ellen Tallarasse.É alguma amiga que o senhor conheça?
     - Ellen, sim, eu a conheço. Eram amigas.
     - Ela foi interrogada hoje mais cedo. Disse que estavam ao telefone quando ouviu Sara gritar e em seguida a ligação caiu.
     O homem baixa a cabeça e não diz mais nada.
     Depois de um breve silencio, o detetive continuou.
     - Por que a Sara gritou, senhor Levin?
     - Porque o homem comprido estava na janela dela...
     - O Homem comprido.... - repetiu o detetive, num tom de desdém. - Já ouvi a lenda: um homem bem alto, com braços e pernas bem longas não é?
     - Sim. Ele mesmo. Desde que eu era criança eu o via rodando a fazenda, mas todos me diziam que era só coisa da minha cabeça.
     - Não! - respondeu num tom de raiva. - ele é real.
     - Então foi o homem comprido que matou Cassidy e Sara?
     - Não foi....
     - Então quem matou elas?
     - Eu... - disse com voz tremula, cheia de dor e pesar.
     - Então o senhor admite ter atirado nas duas?
     - Sim.
     - E por que as matou?
     - Porque elas pediram...- respondeu baixo.
     - Por que?
     - Porque elas me pediram! - levantou a voz.
     - Como assim, elas pediram para o senhor pegar seu rifle e as matar?
     - Sim. Eu estava na sala quando ouvi o grito de Sara. Foi só um grito. Minha mulher foi ver o que era, e ai, eu ouvi o grito dela também. Peguei meu rifle de caça e sai correndo e gritando o nome delas e entao...
     - Então o que...?
     - Eu vi ele. Ele era enorme, parecia estar em toda parte. A luz do quarto oscilava com a presença dele. Desde criança, quando a luz falhava, eu sabia que era ele por perto.
     - Pode descrever ele?

   - A janela tava aberta, ele tava com o corpo pra dentro, esticado, magro e comprido. Ele tinha braços muito longos, mas tinha uns tentáculos ou algo assim, que saiam das costas dele... eles se agitavam e preenchiam todo o quarto.
     - E sua familia?
     - Cassidy e Sara estavam nos braços dele. Elas me olhavam com um olhar vazio e perdido. Ouvi a Sara me chamando, mas parecia que ela tava sonhando e não acordada. A Cassidy pedia socorro, mas também não se mexia, tava no braço dele.
    - E depois?
    - Ele virou o rosto pra mim. Não tinha nada na cara dele. era como um saco de pano branco. Não tinha nariz, nem boca nem olhos. Nada. E ai ele puxou o corpo pra fora e levou elas. Eu corri pra fora também, pulei a janela. Ele tinha uns 3 metros ao todo e as carregava para a floresta.
   - Foi aí que você atirou nelas?
   - Sim... Eu tentei acertar ele, mas não consegui. As balas pareciam passar direto. Como se ele nem fosse real. mas então, a Cassidy pediu, chorando, para eu a matar. Eu nunca a vi tão desesperada. Ela gritava, dizendo que não queria ser levada. Ela me implorava para mata-la, para permitir que ele a levasse para a floresta escura. Eu fecho os olhos e escuto o grito dela.
   - E então, voce atirou nas duas.
   - Eu não quis! Mas era isso ou deixar ele as levar. Não tinha mais nada que eu pudesse fazer, entende? Ele iria sumir com elas pra sempre! eu queria pelo menos ter um cadáver pra poder enterrar!
     O detetive ficou pensativo por uns segundos. Definitivamente não acreditava em nada daquilo, mas não podia negar que aquele homem estava muito alterado. Ele viu algo assustador noite passada, isso era certeza.
    A luz oscilou.
    O senhor Levin deu um pulo da cadeira.
    - É ele! ele veio me buscar!
    - Senhor Levin fique calmo! não existe homem comprido! isso foi só um problema com a energia, acontece sempre!
     Em seguida, a luz apagou completamente: o senhor Levin começou a gritar e chamar o nome de Deus. O detetive gritou para ele se acalmar, mas então sentiu uma força empurrando-o...
    Gritos dos dois e barulhos de tiros. O grito do senhor Levin foi silenciado de repente, como se tivesse sido subitamente interrompido. A luz voltou. Os outros policiais na outra sala, apertaram os olhos contra o vidro para ter certeza do que estavam vendo: A mesa da sala estava quebrada, as cadeiras caídas. O detetive Cartes caído num canto, mole como uma marionete sem cordas... e nem sinal do Senhor Levin.
    Quando investigaram a sala, os policiais não viram nada que pudesse justificar o desaparecimento dele. Nenhuma marca na parece e a janela estava intacta... e o que quer te tenha matado o detetive, tinha muita força, foi muitos dos ossos dele estavam quebrados.
    O caso foi encerrado. O fazendeiro levou a culpa pelo assassinato da sua família e também do detetive. Foi dado como foragido e perigoso, mas nunca mais foi encontrado.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

A outra parte de mim (VII)


  Dormir do lado de fora não era fácil. Barulho estranhos, insetos, pedras... Não que ela tivesse muito luxo em sua antiga cela... Os restos da fogueira ardiam em brasa ao seu lado, usando um tronco como travesseiro, ela esticou o corpo no chão e o deixou relaxar. Olhou para o céu; estava limpo e cheio de estrelas. Em algum lugar, seus pais também olhavam as mesmas estrelas. Será que ainda pensavam nela?
    Já tinha mais de dois anos desde o incidente na escola. Lembra-se melhor agora que conseguiu controlar melhor a besta em si. Dois anos é tempo demais; cresceu muito desde aqueles dias, não só na altura; sentia-se toda crescida. Sentiu raiva.
    Por dois anos, esses caras, sejam lá o que são eles, a sequestraram e a fizeram coisas horrendas com ela... mas, e se ela sempre tivera sido um monstro? e se o motivo de estar nesse pedaço de terra esquecida fosse exatamente ser um monstro? Caiu no sono, imaginando os horrores que veria no dia seguinte.
    
    Viu uma cidade. Era linda, quase toda feita de prata, com cachoeiras cristalinas por toda parte. As pessoas vestiam roupas de varias cores e pareciam felizes. Um casal de jovens caminhava por entre um jardim cheio de rosas vermelhas, ambos eram muito bonitos e pareciam apaixonados. Quando estavam prestes a se beijarem, um clarão os cegou, seguido de uma explosão. As rosas, o jardim e todos ali presentes ardiam e queimavam. A moça gritava conforme seu rosto derretia como geleia. olhou para as próprias mãos e viu sua carne escorrer por seus ossos.
     " O príncipe! protejam o príncipe!"

   Acordou num pulo. Estava no refugiu improvisado entre as pedras. Fred estava a alguns metros dela, em sua forme de tigre. Em suas patas alguns peixes.
   Esfregou os olhos, tentando esconder o susto, mas ele era mais esperto que isso.
  - Sonhos ruins? - perguntou com sua voz grave de tigre.
  - Não sei... meio estranho... uma cidade...
  - Toda prateada com cachoeiras, jardins e um casal bonito? - completou ele, sem deixar ela falar. - Eu sei.
  - Como assim? você... 
  - A Thaís também. Íamos te falar, mas preferimos deixar você conhecer sozinha. Agora com você, somos três que tem o mesmo sonho, isso deve significar algo.
   Largou os peixes em cima de uma pedra e sentou-se no chão. Converteu-se para a forma humana, sob os olhares da pequena.
  - O que é aquela explosão e quem é o príncipe?
  - Sei tanto quanto você. Olhe, vamos esperar a Thais voltar dai comemos e vamos perguntar pessoalmente, o que acha?
   Concordou em silencio. Alguns minutos depois, o peixe no fogo começou a cheirar bem, o que fez o estomago dela roncar.
   - Transforme-se. - pediu Fred, do nada.
   - Que!?
   - Transforme-se! agora, sem estimulo algum, por si só. Sem raiva ou angustia. Traga o lobo por sua vontade.
   - Eu não consigo, já tentei!
   - Tente de novo. dessa vez, não pense em nada a não ser no que há dentro de você, no seu outro eu. O que está ai não é um monstro. É você e pode ser controlado. Feche os olhos e consente-se.
    Contrariada, ela obedeceu. Fechou os olhos e tentou pensar apenas no que sentia quando era o lobo. A força, a agilidade, as garras, a liberdade que aquilo tudo lhe fazia sentir. Quando era o lobo, ela sentia como se nada pudesse impedi-la.
     Imersa na própria mente como num transe, permaneceu sentada de pernas cruzadas, tentando se entender melhor. Viu-se numa clareira no meio de uma mata vasta. Ao longe, um lobo uivava para a linda lua que brilhava no céu. Aproximou-se do lobo e os dois trocaram olhares. Olhou intensamente nos olhos da besta. Era grande, linda e poderosa. Num instante seguinte, a besta não estava mais diante de si. Fora substituída por uma garota magrela, feiosinha e de cabelo embaraçado. Viu-se então, no corpo do lobo, olhando para si mesma, em forma humana.
    Voltou a si.
    Por impulso, levou a mão ao cabelo e o sentiu embaraçado e sujo, ele estava horrível mesmo.
    Thais ja estava ali, ela e Fred estavam comendo. Ambos olharam pra ela.
   - Tá tudo bem? - perguntou Thais.
   - Sim. - disse ela, levantando-se e catando um peixe, estava faminta.
   - Consegue se transformar? - perguntou o rapaz.
   - Consigo. - respondeu com a boca cheia de peixe. - Confiem em mim.
   - É o que temos pra hoje. - disse ele  um tom de desdém.

    Depois que comeram, apagaram o fogo e se reuniram para uma ultima conversa antes da investida.
    - Vamos em forma humana até a única entrada que conhecemos, de lá, viramos bicho e forçamos a entrada. Vamos matar  que nos jogarem, um por um, até que os responsáveis mostrem a cara e comecem a se explicar! - disse Fred.
  - É uma merda de plano mas é o que vai ser, não vou viver fugindo pra sempre! - completou Thais.
    Correram mata a dentro.
    O sangue pulsava forte em suas veias, não tinha ideia do que iria acontecer nas próximas horas. Muito provavelmente estaria morta, mas não sentia um pingo de medo; dadas as recentes circunstâncias, morrer não parecia ser uma má ideia.
    Ao chegarem, uma brisa trouxe um cheiro pútrido terrível, que quase a fez vomitar; a entrada do laboratório ainda estava coberta de cadáveres e tripas. Guardas e crianças mortas. Fred da um soco numa árvore com raiva.
  - Elas morreram porque eu as libertei. os guardas atiraram nelas sem nem pensar, e os poucos que consegui salvar, morreram para os frogs!
   - Mas eu ainda to viva - respondeu Tati. Ela também era parte do grupo de fugitivos.
   - Desculpe eu... só... queria ter feito mais.
   - Você fez o que pôde. Agora vamos terminar isso logo - disse Thais - não tão achando isso muito abandonado?
    Tudo era silencio. nenhuma alma viva. O trio saiu do mato e adentrou os portões abertos.
   - Será que matamos o ultimo lote?
   - Mais provável que estejam nos esperando.
   A porta de metal por onde tivera saído ainda estava do mesmo jeito que ela deixou ontem. Ninguém MESMO andou por ali desde então.
   - Isso ta muito estranho, to com um pressentimento ruim. - disse Thais.
   - E se for uma armadilha? - perguntou a pequena.
   - Então, nós caímos nela.
   Mal terminou a frase e já meteu o pé na porta, escancarando-a.
   À frente, o corredor de cadáveres de cientistas e guardas. Fred alegou ser o autor daquela chacina.
    O térreo era onde ficavam as celas, todas estavam abertas. As que não estavam vazias, habitavam pessoas mortas por marcas de bala. Era um ambiente de morte horrível, o clima do lugar era muito pesado e caia sobre o trio de forma poderosa, lentamente drenando a moral deles.
   - Vamos logo para o andar dos experimentos! onde me fizeram as cicatrizes! tenho certeza que lá nós vamos encontrar algumas respostas.
    Quando chegaram à porta do elevador, uma voz pode ser ouvida por todo o lugar.
    - Esperávamos vocês, preciosos intrusos. Por favor, venham nos visitar no segundo andar, o laboratório de genética 1. Bem vindo ao lar Freddy.
    As duas o olharam, esperando uma resposta.
     - Você não entenderiam!
     - Eu sabia que você tava escondendo alguma coisa! - gritou Thais. - como quer que confiemos em você?
     - Não é o que pensam! Aquele era meu pai, o principal motivo de eu querer acabar com tudo isso!
     -  Seu... seu pai!? - Thais parecia confusa e irritada.
    - Ele é o cientista chefe, e não o responsável, tá? olha não temos tempo pra isso, vamos logo e tudo vai se encaixar nos eixos.
    - Vai é? como posso confiar em você agora?
    - Porque eu te amo, sua imbecil! - gritou.
    Silencio.
    Tati estava muito desconfortável no meio deles. Thais olhava Fred incrédula, e ele, bufava nervoso.
    - Por isso... eu não vou deixar ninguém te machucar.
    Em silencio, os três entram no elevador. A própria Thais aperta o botão do segundo andar.
    O clima do elevador estava estranho.
    Quando a porta abre, eles se veem em uma sala com várias maquinas estranhas. Por todo canto, tubos de vidro com pessoas dentro. Os tres sairam do elevador, horrorizados, eram crianças eram...
    - Sirens! - chorou Tatiana.
    Eram meninas, cobertas de cortes pelo corpo todo. As costas, farrapos que um dia vão ser asas. Era  como se estivessem em úteros artificiais, nascendo aos poucos.
    Aquela sala era familiar para Thais. Foi dalí que ela fugira. A maldita sala onde a fizeram aqueles cortes. A imagem das Sirens gemendo e se contorcendo ao redor deles, eram repulsiva, nem repararam no velho senhor de Jaleco branco logo à frente dele.
    - Sejam bem vindos. Olá Freddy.
    O sangue de Thais ferveu no mesmo instante. Ela correu e agarrou o velho pelo colarinho.
   - O QUE FEZ COMIGO? O QUE FEZ COMIGO?
    Ela o sacudia com raiva, mas o senhor não dizia nada.
    - Solta ele Thais!
    Fred tentava acalma-la, mas nao dava muito resultado.
    - EU VOU TE MATAR SE NÃO ABRIR A BOCA!
    Então, uma porta abriu ao fundo da sala.
    Uma presença congelante, fez com que todos parassem de falar, até mesmo a irritada Thais.
    Ele era jovem, estava vestido elegantemente. Seu cabelos eram longos e castanhos. Seus olhos pareciam diamantes e seus sorriso era confiante e calmo.
     Thais soltou o velho em suas mãos e todos olharam boquiabertos para o jovem de beleza ímpar.
     - Sejam bem vindos - disse ele, com uma voz macia. - Meus amigos. estou feliz em finalmente tê-los aqui.
     Aquele rosto... nenhum deles tinham qualquer duvida...
     - O príncipe...- sussurrou Tatiana.

CONTINUA
    

terça-feira, 16 de julho de 2013

Carne crua.

Por: Franz Lima.
Abro os olhos e a dor chega quase que instantaneamente. O mundo está de cabeça para baixo, confuso. Há gritos que me alcançam lentamente. Os dentes doem com a mesma intensidade que os olhos. Meu braço esquerdo está quebrado, sem dúvidas.
Mas o que aconteceu? O que me levou a capotar o carro? Descarto essas questões e parto para o que é mais prático: sobreviver.
Solto o cinto de segurança e meu corpo se choca contra o teto do carro. Os vidros estão quebrados e sinto os cheiros de óleo e gasolina. Isso é péssimo.
A dor me atinge de novo, fazendo questão absoluta de não me deixar esquecer o quanto estou fudido. 
Começo a me arrastar para fora do carro e vejo, não muito longe, uma mulher com um dos olhos furado. Ela grita, mas não consigo compreendê-la. Seus passos são desconexos e trôpegos, o que pode indicar que algo realmente a feriu ou, ainda, que ela está drogada. Ergo o ombro do braço ferido e forço a saída. O que se passa a seguir é quase surreal: um caminhão desgovernado atinge a mulher, matando-a de imediato. As rodas do automóvel passam a centímetros do meu corpo. Era para eu ter morrido junto com a mulher, porém o destino me poupou. 
O choque de ter escapado me despertou para outra realidade. Muitas pessoas estavam mortas em todo o meu raio de visão. Mulheres, crianças... não havia distinção para o massacre. Que merda estava acontecendo?
Ergui meu corpo e comecei a andar. Eu reconheci o lugar onde o carro ficou capotado, uma rua distante apenas algumas quadras da minha casa. 
Mas o que aconteceu?

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Sonic. EXE


    Olá. O que passo a relatar aqui será visto como insano, ou sonho. É o que todos dizem para mim, por mais que eu tente provar, mas eu vi, eu sei que vi. Cabe a você, quem quer que seja, acreditar ou não.
   Como toda criança na minha época, eu era fã do Sonic. Sonic e Mario eram os jogos favoritos de quase todo mundo, mas, alguns ficavam mais com o Sonic e outros com o Mario. Eu era mai da turma do azulzinho veloz; meus pais não em deixavam brincar na rua e me davam videogames para passar o tempo, acho que esse foi um dos principais motivos de eu sempre gostar mais do Sonic, ele é livre, pode correr para qualquer lugar e é super rápido; tem muitos amigos e salva os animais. No entanto conforme o tempo passava, a franquia começou a crescer e ganhar plataformas em 3d, o que mudou muito a jogabilidade original e eu aos poucos fui deixando de gostar da saga.
   A vida passa, a infância acaba e a vida adulta chega; hora de deixar o velhos herois de lado e encarar a realidade. Adultos não jogam, adultos estudam e trabalham e foi o que eu fiz entrei pra faculdade;mal tinha tempo para as coisas que eu gostava, quem dirá, jogar vídeo game, que era coisa de criança a toa.
   Um dia porém, mexendo numa caixas de coisas velhas, encontrei meu empoeirado e antigo mega drive. Ao toca-lo, foi como se todas as boas memórias e infância tivessem voltado á mim, lembrei das tardes que passava sentado no chão da sala, tomando coca e jogando ele, e das madrugadas, que jogava escondido da minha mãe. Rejuvenesci na mesma hora: as musicas, os sons, as sequencias de botões, tudo veio à mente, junto com uma enorme vontade de jogar mais uma vez.
    Tirei o pó de cima dele e o liguei na tv do meu quarto e para meu espanto, funcionou! Meu cartucho do Sonic não funcionava mais, infelizmente, entao, coloquei Streets of rage para jogar um pouco, mas logo cansei, não era bem o que eu queria. Então, calcei o tenis, vesti um boné e saí para o centro da cidade, procurar uma dessas lojinha de eletrônicos, onde se encontra coisas velhas quem ninguém mais quer.
     Depois de algum tempo procurando, eu encontrei uma dessas lojas, fui ao vendendo e perguntei: Você teria ai o cartucho do Sonic? aquele antigão mesmo.
        Mal terminei a pergunta o o cara respondeu:
     -   Tenho um aqui sim.
     Ele buscou atra´s do balcão e me entregou um cartucho totalmente preto, sem rotulo, apenas um uma fita branca colocada na frente com o dizeres "Sonic". Torci o nariz, com razão, e o homem continuou:
     - Esse cartucho ta sempre voltando pra cá e considerando as péssimas condições dele, eu te faço por 10 reais, o que acha?
     Considerando que aquilo fosse mesmo Sonic, estava o preço muito bom, afinal, o valor sentimental que eu tinha por aquele jogo era muito maior do que isso. Como eu tinha exatamente 10 reais no bolso comprei-o, atirando a nota sobre o balcão quase automaticamente.
      Corri pra casa para pode jogar logo; em todos aqueles anos que eu deixei de lado os vídeo games, que me forcei a crescer, eu esqueci como é legal e divertido gastar um tempo relaxando com games eletrônicos, e eu estava prestes a reviver isso tudo. Mas antes não tivesse.
       Liguei o jogo e fiquei feliz em ver que era mesmo Sonic. A tela de entrada, com sorrindo sorrindo confiante e agitando o dedo como sempre, porém.... quando apertei start, algo muito bizarro aconteceu que me fez pular do sofá: o céu ficou totalmente escuro, o mar, vermelho como sangue. O sorrio confiante de Sonic era agora um sorriso maligno e seus olhos totalmente negros com um ponto vermelho no meio, era como se a tela de inicio tivesse ido para inferno!
     O jogo nao começou como antes. A invés de ir para Green Hill zone, fui levado a uma tela vermelha com save files, porém, sem a opção de escolhe-los, a não ser uma delas. As outras duas estavam trancadas com um ícone de cadeado, e a musica do fundo era assustadora! era uma versão distorcia e demoníaca da musica da "data select" de sonic, mas num tom melancólico e macabro, como nunca ouvi antes. O Slot disponível tinha apenas a figura de Tails selecionada, tentei apertar tudo, mas parece que apenas poderia jogar com Tails sozinho. Eu odiava ele, queria o Sonic, mas nao parecia ter opção, era como se o jogo quisesse que eu fosse o Tails. Apertei start para seleciona-lo... a luz do meu abajur oscilou quase que na mesma hora. gelei.
      Uma tela preta apareceu na sequencia, onde normalmente estaria escrita o nome da fase( Greenhill zone) apareceu uma mensagem em inglês "Bem vindo de volta". Como assim? o jogo estava falando comigo? em seguida sou jogado na Greenhill zone, mas tudo é apenas uma reta. Começo a correr com Tails e a musica do fundo para estar tocando de trás pra frente. Aquele som estava entrando na minha mente como uma agulha. passos por varias árvores e pedras normais do cenários mas eis que então começam a aparecer rastros de sangue e destroços de animais por toda parte. Continuo a correr para frente, pois a tela trava e não me deixava recuar. Continuei a correr por aquele cenário horrível até que encontrei Sonic. Tails pára de correr, e sem que eu pudesse controla-lo ele caminhou até Sonic. Sonic que estava de braços cruzado e olhos fechados, abriu-os e seus olhos estavam vermelhos como na tela de abertura. A tela escureceu e eu ouvi uma risada que parecia vir de todos os cantos do meu quarto e uma mensagem apareceu na tela, " VOCÊ QUER BRINCAR COMIGO?"
     Em seguida, surgiu a mensagem de título de fase, como aparece em todas a fases que você acaba de entrar, mas ao invés de aparecer o nome de uma fase, apareceu ": esconde esconde".
      A tela seguinte era pavorosa: estava tudo em chamas, Tails estava parado com uma expressão de medo e ele apontava para mim! isso mesmo, para mim, ou para algo atrás de mim. Naquela hora senti um arrepio subindo pelas costas, mas resisti a tentação de olhar para trás. Peguei o controle, suando e comandei Tails a correr por entre aquela terra abrasada. Tão logo ele começou a correr, aquela risada assustadora mais uma vez pode ser ouvida por todo meu quarto, e a imagem do Sonic demoníaco surgiu, correndo atrás de Tails. Eu apertava com força o controlador para que ele fugisse, mas Sonic estava cada vez mais perto, e o que era pior, aquela musica desesperadora de quando se está morrendo afogado no jogo, começou a tocar. Conforme a musica acelerava, Sonic chegava mais e mais perto de Tails.
     Eu estava muito apavorado, eu sabia que algo bom não iria sair daquilo. Quando Sonic finalmente tocou Tails, ele sumiu... e então eu vi Tails, me encarando e chorando. Eu nunca vi tal animação antes, Tails estava olhando para mim e chorando desesperadamente como se implorasse minha ajuda....
     Então Sonic apareceu do nada, na frente dele, com as mãos em sua direção agarrou-o... em toda minha vida, eu nunca tinha ouvido um grito tão aterrador, tão assustador... a tela escureceu, mas o grito de Tails continuou por uns segundos, ecoando meu quarto todo...e meu abajur oscilou mais uma vez.
      Silêncio.
      Mais uma vez ouvi aquela risada e então outra mensagem na minha tela: "VOCÊ FOI MUITO LENTO. QUER BRINCAR DE NOVO?"
      Mais uma vez a tela de "data select" apareceu, mas desta vez, Tails estava cinzento e com lágrimas de sangue escorrendo pelo rosto. Meu deus! Tails estava morto? Sonic o matou enquanto eu jogava? isso não pode ser real, é só um jogo! e jogos são coisas de crianças! coisas divertidas!
      A tela de data select agora indicava que era a vez de Knuckles, o outro amigo, que eu também não achava legal... Sonic queria que eu o visse morrrer? Estava apavorado, mas muito curioso. Apaguei meu abajur e apertei start, selecionado-o. 
      O nome da próxima fazer era "VOCÊ NÃO PODE CORRER" . Era a chemical Plant, mas estava tudo destruído. Knuckles corria para direita e como tails, nao podia voltar, Corri. A certo ponto, o chão começou a ficar coberto por sangue. Continuei a correr sem me importar,quando, a maldita risada de Sonic, que sempre que causava a arrepios soou de novo. Ele aparecia e sumia em flashes, cercando Knuckles, a cada aparição, eu tinha menos espaço para me movimentar, quando então Knuckles cai ao chão exausto e Sonic aparece por trás dele com aquela cara demoníaca....
      A tela apagou e mais uma vez ouvi um grito, dessa vez, de Knuckles. O grito era tão terrível e assustador quanto o de Tails... Meu coração estava acelerado, quem seria agora?
       De volta à tela de data select, assim como Tails, Knuckles estava cinzento e sem vida, chorando sangue, e, para minha surpresa, o próximo slot pertencia ao Dr. Robotinik. Mesmo sabendo o que aconteceria a seguir, eu apertei start.
     A fase seguinte se chamava " ..."
      Robotinik estava seu laboratório, ma haviam marcas de sangue por toda parte. Comecei a correr com ele, mas era um pouco diferente, ele parecia chorar enquanto corria, era como se ele soubesse do que estava por vir; todos morreram, só sobrava ele. Seu laboratorio em ruinas passava por ele, enquanto eu o fazia correr desesperadamente.
      A maldita risada de Sonic ecoava por toda parte e muitas vezes eu sentia como se ele estivesse bem atrás de mim! como se aquilo fosse um castigo por tê-lo esquecido por tanto anos!
      Robotinik correu até a saída do laboratório, onde Sonic o esperava, com um largo sorriso e olhos vermelhos. O Doutor chorava desesperado, quando então a tela escureceu e num flash, surgiu uma imagem que nunca mais consegui esquecer, que sempre que fecho os olhos, eu vejo na minha mente. O rosto de Sonic, deformado, enorme na minha televisão, dizendo "EU SOU DEUS."

  Essa imagem permaneceu estática ai, não importava o que eu fizesse. Apertei o start mais uma vez e a tela mudou para uma cena com Tails, Knuckles e Ronotinik com as cabeças decepadas, e entre eles, Sonic, olhando para mim, com aquele par de olhos frios, como se me dissesse " você é o próximo".
      Pra mim chega! corri até o console para tirar aquele cartucho dali, nunca mais queria vê-lo de novo! minha infância fora totalmente destruída e eu jamais poderia fechar os olhos novamente sem lembrar daquele olhar que me julgava, mas para terminar meu desespero, logo que pus a mão sobre o cartucho para puxa-lo, a cena dos amigos estripados mudou e ai sim, eu percebi... que Sonic estava mandando uma mensagem para mim.... Deus, eu queria nunca... Deus...
 
( esta carta foi encontrada dias depois, no corpo de um homem de 23 anos, trancado no banheiro. Seu cadáver estava em posição fetal e era difícil identificar a causa da morte. Nas paredes, uma frase escrita em sangue: você não pode correr.)

sábado, 6 de julho de 2013

Ritos

  
 Ele sentiu os músculos se retraírem levemente... Devagar, podia sentir o movimento voltando aos dedos dos pés e das mãos.
  Sua consciência voltava lentamente de um sono profundo, cujos sonhos ele mal podia se lembrar. Estivera dormindo por quanto tempo? Também não lembrava da noite anterior...
  Moveu os braços para espreguiçar-se e no mesmo momento sentiu o corpo todo ser percorrido por uma dor lacinante que começava perto da garganta e seguia ao longo do peito até a pélvis.
  Recuperando lentamente o ritmo da respiração, alarmada pela dor, abriu os olhos. Sentia as pálpebras pesadas e a cabeça rodando, mas tudo era escuridão. Tentou levantar o braço que bateu em algo a cerca de 30 centímetros acima, e sentiu mais uma fisgada de dor corrente, tocou o peito e algo lhe pareceu muito mal...
Pôde sentir um profundo corte que seguia da base do pescoço até abaixo do umbigo, seus dedos tocavam os pontos, feitos espaçadamente, sem cuidado, e isso lhe causava mais dor e com ela sentia náuseas. Não enxergava nada, tudo era oculto.
  Tentou novamente erguer os braços, mas era impedido por uma parede de madeira...
  O desespero tomava conta dele, tentou chutar, mas a parede não cedia e só lhe fazia aumentar a dor que sentia, logo percebeu que a parede se fechava estreita à sua volta... Estava encaixotado!
  Tentou gritar, chamar por alguém, mas seu coração disparara e sua voz faltara.
  "Meu Deus, eu fui enterrado vivo! VIVO! Mas como? Eu não morri! Eu não me lembro! Como, Meu Deus? COMO? ... "
  Ele começou a empurrar com os joelhos e as mãos, mas a flexão das pernas fez os pontos na sua barriga rasgarem a pele, causando-lhe tamanha dor que o ar também lhe faltou. Podia sentir as lágrimas escorrendo... Fora autopsiado, não sabiam a causa de sua morte.
- Alguém... - murmurou ele, a voz baixa, rouca, somente um sopro.
  De repente o caixão se moveu. Alguém estava ali, levando o caixão, mas ele deslizava...
"Será meu funeral? Ainda não me enterraram!!! Ainda há tempo!"
  O sangue na barriga escorrendo e molhando suas costas, não tinha forças mais para empurrar... As batidas mal faziam som nas laterais do caixão, sentia a cabeça rodar e latejar.
- Socorro...
  Lentamente as lembranças voltavam, do jantar, da noite com ela, o café na cama, o chuveiro, a tontura... e o nada.
  "É isso! Eu desmaiei! Mas como ela não viu que era um desmaio? Será que eu bati a cabeça? Oh Deus! Eu tenho Catalepsia? Como os médicos não viram isso??? Me abriram todo e não viram isso?"
- Socorro... Ajuda...
  No exato segundo entre a última tentativa de pedir auxílio e tentar organizar seus pensamentos em meio aquela dor insuportável e o desespero, sentiu os pés esquentarem...
  No lado de fora, seus parentes, amigos e colegas, choravam sua morte e despediam-se pela última vez do amigo que desde sempre dizia:
"Quando eu morrer, quero ser cremado, igual aos povos antigos! E minhas cinzas quero que joguem sobre o mar..."

por Thaís Rossi

terça-feira, 2 de julho de 2013

Perfume.


Por: Franz Lima.

Nunca vou me cansar. Acredite! Cada dia sempre será uma renovação do meu amor por você. Vê meus olhos cansados e fundos? Eles são fruto do que sinto. Não consigo dormir. Já estou há quase cinco dias sem descansar, pois tenho medo de não despertar. Tenho medo de perdê-la.
Alguns podem levar esse amor para o lado ruim, enquanto outros tenderão a me criticar pelo excesso de meus atos. Que fiquem com suas críticas. Que fiquem com suas vidas fúteis e seus amores rasos. Eu nasci para amar... você.
O destino nos uniu e é com você que sou feliz. São apenas algumas semanas juntos, mas como mensurar o tempo quando há tanto em jogo? Para nós, o tempo parou.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A outra parte de mim III

           

           As crianças se apertam umas às outras, com medo. O Tigre encara a menina lobo com seriedade; logo outros guardas ou coisa pior apareceriam ali, mas ele tinha que fazer algo para proteger as crianças que ainda estavam vivas.

       A loba pula sobre o tigre, tentando rasga-lo com unhas e dentes, mas é habilidosamente imobilizado pelo oponente; o tigre branco segura as mãos da loba, impedindo o ataque. Depois, acerta uma joelhada no estomago dela. Ainda segurando-a pelos pulsos, ele a arremessou de cabeça contra o muro. Estava seguro da força dela, sabia que aqueles golpes não a matariam, mas quem sabe a dor a assustasse?

terça-feira, 28 de maio de 2013

Prisão.


Por: Franz Lima.

Meus pensamentos se perdem diante da imagem refletida. Não há mais o homem que outrora fui. O reflexo mostra apenas um pálido e frágil indivíduo. O reflexo indica uma verdade que há muito eu fingi não ver: eu estava morto.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Diante de Ti.


Por: Franz Lima.

    Estamos finalmente um diante do outro. Há anos esperamos por tal  oportunidade, na qual as dúvidas seriam postas de lado e a mentira extirpada de nosso coração, onde ela já semeou a discórdia.
     Nosso amor era tão belo e sólido. Mas a beleza de uma mesa encoberta por  uma bela toalha  acaba  se  esvaecendo, quando, ao retirarmos a toalha, verificamos que os cupins já a destruíram silenciosamente.
     Eu olho para sua face. Há beleza nela. Há uma paz desconhecida para mim.
    Seus lábios sorriem, levemente rubros. Eu toco cada pequena parte sua, o que me dá muito prazer. Indiferente, você não repara em mim. Confesso, eu jamais esperei por retribuição ao amor que lhe oferto.
     Ficamos nus. Seu corpo tem o cheiro do inverno. Eu, ao contrário, exalo o perfume da fome. É chegada a hora de nos unirmos. É chegada a hora em que irei me alimentar de sua carne e seu sangue. Pois jamais haverá união igual à nossa.
    Nunca surgirá um amor como  este, onde  o sentimento  transcende a  morte  e a paixão, verdadeiramente, alimenta a alma.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Mudança de hábito.


Os olhos se abrem e, imediatamente, a luz atinge-os, provocando uma dor muito forte. O silêncio incomoda e atordoa. Onde, afinal, ele está?
Pequenos lampejos de lembranças chegam e somem com igual velocidade. Ele recorda de ter saído para comprar mais bebida. Também se lembra do sorriso da filha e do cheiro gostoso do churrasco. Mas o que trouxe até aquela sala cheia de plástico? O que estava acontecendo?

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Lírio

Por: R. Giraldi


 Em cima de um muro, num lugar escuro, foi onde eu a encontrei. Um único poste iluminava o lugar, eu mal conseguia ver seu rosto. Era pequena, braços e pernas miúdas. Estava sentada no alto do muro, balançando os pezinhos. A pouca luz me revelou cabelos castanhos, olhos gentis e um sorriso brincalhão. Olhei-a. Meus olhos miravam seu rosto, estava quase à minha altura, Senti um arrepio na espinha, não era normal uma menina daquele tamanho, sozinha num lugar como aquele.
    Abri a boca, mas palavra nenhuma me veio a mente para falar, eu realmente não consegui pensar em nada.
    "Boa noite" ela me disse fechando os olhos e sorrindo.
    “Quem é você?” tentei perguntar.
    Ela abriu seus olhos, ainda agitando os pés.
     "Alguém", respondeu-me.
     Desci meus olhos por seu corpo pequeno. Ela tinha a pele muito branca e manchas de sangue nas pernas.
    “Quer ajuda?” Perguntei. Ela sorriu mais uma vez.
    "Não. Quero um amigo. Brinca comigo?"
    Emudeci.
    Arrisquei um passo à frente, meus olhos já estavam se acostumando com a baixa luz. Seu rosto ganhou um pouco mais de forma diante de meus olhos; era redondo e branco, sendo os lábios, igualmente, mas o que me chamou atenção foram marcas escuras em suas bochechas, como se fossem hematomas. Não só no rosto. Nos braços e pernas também. Alguém a feriu, definitivamente.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Meu presente amaldiçoado.

Por: Franz Lima.
Hoje completamos 22 anos de brigas. Na verdade, lutamos para tirar a vida um do outro quase que incansavelmente. Entretanto, não foi sempre assim. Houve um período em que éramos irmãos, com pequenas nuances de comportamento, mas gêmeos na essência do significado dessa palavra. 
Isso até o dia em que lhe dei meu presente...

terça-feira, 23 de abril de 2013

Inspiração.

Por: Franz Lima.
Eu escrevo. A caneta flui em minha mão com uma velocidade incomum. As ideias também fluem, deixando-me desnorteado. Mas não há a menor possibilidade de interromper essa atividade. Nada poderá interromper esta missão. Nada.

Meses atrás eu vagava por entre viadutos, inconformado com a vida. Meu estômago vibrava - literalmente - com a fome. Minha pele suja era uma clara indicação de que meus dias se passavam nas ruas. Essa era a sina de um catador de lixo, um mendigo. Como cheguei a esse ponto? Acredite, isso é irrelevante. Porém garanto que irá querer descobrir como saí. Sim, você irá...

terça-feira, 16 de abril de 2013

Ouço.


Por: Franz Lima.
Qual o som do silêncio? Esta pergunta sempre ronda os que amam Alan, nascido como surdo-mudo. Ninguém jamais ouviu um som sequer vindo dele. Ele também jamais ouviu um único ruído. Mas havia algo que o fazia se tornar uma pessoa diferente: sua beleza.
Desde pequeno o menino destacou-se por uma face quase angelical. Olhos de um azul muito claro, rosto perfeito e um sorriso que cativaria até o mais nefasto dos seres humanos. Não havia como não amar aquela criança e foi assim que o menino cresceu e transformou-se em um homem.
Mas não há como narrar essa história sem destacar que o homem foi moldado à base de muita malícia. E o que poderiam esperar as pessoas de um indivíduo que teve tudo por ser 'especial'? Usando sua limitação física, Alan cresceu como um manipulador. Ele obtinha tudo que desejasse, bastando apelar para sua condição de surdo-mudo. Diante das pessoas, não ouvir ou falar eram condições torturantes, algo próximo do sofrimento absoluto e, por isso, todos faziam o máximo para agradar a criança. 
O pai do jovem foi o principal responsável por essa involução. Joaquim cobriu-o de presentes, fez todas as suas vontades e jamais lhe disse um único não. Negar algo para Alan era inconcebível para seu pai.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Sheol Tehilim 23


A morte é meu destino, nada me salvará

Deitar-me faz em trem nefasto,
guia-me em turbulência a dura armadilha.

Dilacera a minha alma;
Guia-me por caminhos de carniça,
Por calor sede e fome.

Ainda que andasse pela vila da vida e da sorte.
Temeria a todo mal,
Porque tu estás comigo.
A tua foice e teu hálito me provocam.

Preparas uma cova perante mim na presença dos meus inimigos.
Enches a minha cabeça de ódio
Contra épica horda.

Certamente que a fúria e seu furor me seguirão todos os dias da minha  vida
E morrerei nas mãos do ceifador
E habitarei no inferno por longos dias.

sábado, 13 de abril de 2013

A Juíza.

Por: Franz Lima.
          
           Lábios frios, qual o motivo que tens para tocardes os meus?
Sois vós os caminhos por onde passam palavras duras, tão cortantes quanto o fio de uma espada, que me atingem sem levar em conta os resultados.
É justamente de vós que tirei os mais intensos momentos de prazer e, em oposição, o mais puro pesar.
Falastes em amor como nunca fora antes dito. Havia verdade em tais sons... o que fiz para que mudasses tanto?
Distante é o tempo em que duas almas se conheceram. Quis o destino que assim fosse, sem considerar as prováveis conseqüências.