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terça-feira, 16 de julho de 2013

Carne crua.

Por: Franz Lima.
Abro os olhos e a dor chega quase que instantaneamente. O mundo está de cabeça para baixo, confuso. Há gritos que me alcançam lentamente. Os dentes doem com a mesma intensidade que os olhos. Meu braço esquerdo está quebrado, sem dúvidas.
Mas o que aconteceu? O que me levou a capotar o carro? Descarto essas questões e parto para o que é mais prático: sobreviver.
Solto o cinto de segurança e meu corpo se choca contra o teto do carro. Os vidros estão quebrados e sinto os cheiros de óleo e gasolina. Isso é péssimo.
A dor me atinge de novo, fazendo questão absoluta de não me deixar esquecer o quanto estou fudido. 
Começo a me arrastar para fora do carro e vejo, não muito longe, uma mulher com um dos olhos furado. Ela grita, mas não consigo compreendê-la. Seus passos são desconexos e trôpegos, o que pode indicar que algo realmente a feriu ou, ainda, que ela está drogada. Ergo o ombro do braço ferido e forço a saída. O que se passa a seguir é quase surreal: um caminhão desgovernado atinge a mulher, matando-a de imediato. As rodas do automóvel passam a centímetros do meu corpo. Era para eu ter morrido junto com a mulher, porém o destino me poupou. 
O choque de ter escapado me despertou para outra realidade. Muitas pessoas estavam mortas em todo o meu raio de visão. Mulheres, crianças... não havia distinção para o massacre. Que merda estava acontecendo?
Ergui meu corpo e comecei a andar. Eu reconheci o lugar onde o carro ficou capotado, uma rua distante apenas algumas quadras da minha casa. 
Mas o que aconteceu?

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O Homem dos Sonhos (II) - Faça suas preces!


Capítulos anteriores:

Nos tempos medievais, as igrejas eram construídas gigantescas, com as imagens de santos e anjos olhando de forma severa para baixo afim de criar a ideia da enormidade de Deus diante da insignificância do homem.
A pequena igreja do pastor Wanderson não era nem de longe tão opulenta quanto as catedrais góticas dos tempos antigos, apenas uma sala pequena com algumas cadeiras de plástico onde as pessoas se sentavam para ouvi-lo falar buscando alívio para seus martírios diários diante do poder divino.
Mas não havia qualquer alívio para Wanderson naquela noite, enquanto ele tentava em vão debater-se contra as amarras que prendiam seus braços abertos de costas para o altar de onde tantas vezes proferira palavras sobre o poder de Deus e sobre o temor que as pessoas o deviam.
Ele orou, com mais força e convicção do que jamais orou para impressionar seus fiéis em suas pregações, talvez pela primeira vez em sua vida verdadeiramente clamando por uma intervenção divina que o liberta-se daquele suplício.
A figura diante dele não tinha nada de divina, entretanto. Wanderson podia ver, mesmo na penumbra que dominava a pequena igreja os chifres que brotavam da cabeça arredondada enquanto sentia as mãos dele prendendo seus pés juntos em uma crucificação macabra, seu toque parecia com o de pequenas criaturas rastejantes subindo pelas suas pernas causando arrepios igualmente de medo e nojo.
Wanderson tentou mais uma vez mover-se. Um único impulso, um chute bem dado no rosto de seu captor poderia ser o suficiente, mas assim como ocorrera quando ele prendera suas mãos, as pernas não o obedeceram.
Fechou os olhos enquanto o cheiro pungente invadiu suas narinas e o som de líquido sendo derramado se espalhou em seus ouvidos. E orou. Orou com toda a força que possuía. Pediu perdão por todos os seus erros, por todo o dinheiro que tomara de seus fiéis, das mulheres cuja fragilidade ele se aproveitou, de todas as mentiras que contou ao longo dos anos.
Um barulho ríspido o fez abrir os olhos quando o fósforo na mão do seu algoz se acendeu iluminando o rosto da criatura. Sim, criatura, porque não era possível que aquilo fosse humano. Mesmo os chifres sendo na verdade orelhas pontudas e salientes, a pele macilenta como de um cadáver e os olhos de um amarelo pustulento não deixavam dúvidas quanto a isso.
Diante desta visão infernal, Wanderson voltou a orar, mas suas preces transformaram-se em gritos conforme as chamas o devoravam lentamente.

* * *

Wanderson levantou gritando com tanta força que empurrou sua esposa quase derrubando-a da cama.
- Santo Deus, Homem! Que demônio te atacou essa noite?
Ele sentou-se arfando. Por um momento olhou para a mulher ao seu lado sem reconhecê-la. Sentou-se na cama e aos poucos o mundo foi voltando para o seu lugar mas a lembrança do sonho ainda era forte, como se suas mãos ainda ardessem em chamas.
- Você está tremendo. - disse sua esposa as suas costas.
- Foi só um sonho ruim. Nada demais. Deixa isso pra lá.
- Mas você anda tremendo a beça. Tem uns dias que eu estou reparando nisso. Já te disse que você tem que ver um médico, mas você é teimoso a beça.
- Eu já disse pra deixar pra lá! - Wanderson gritou se levantando.
O quarto ficou em absoluto silêncio por alguns minutos. De costas para ela, coçava o bigode branco tentando a todo custo ignorar o quanto a sua mão tremia enquanto fazia isso. Quando finalmente se virou, estava sozinho no quarto. Respirou fundo e entrou no banheiro para começar a se arrumar.
Minutos depois, já de banho tomado e vestido com seu terno marrom entrou na cozinha e encontrou a esposa lavando a louça. Ela serviu um café em sua caneca enquanto ele sentava para o café da manhã. Comeu calado, só falando ao tomar o último gole de café.
- O Souza vai passar aqui mais tarde pra deixar uma encomenda. Uma mochila daquelas. Conta pra ver se tá tudo direitinho e deposita na conta da igreja que como se fosse doação.
Ela concordou com um movimento da cabeça, ele levantou-se, deu um beijo na bochecha dela e saiu. Ambos sabiam que não havia necessidade de desculpas, mesmo ela tendo esquecido que a mulher devia ser submissa ao homem, ele a perdoava.

* * *

Boa parte do dia do pastor Wanderson consistia em visitar as casas dos fiéis para levar-lhes palavras de alento e conforto, além de coletar doações destes para a ampliação de sua sagrada igreja.
Ele se demorava mais em alguns do que em outros, pois cada um tinha suas próprias questões. Dava uma atenção especial as mulheres separadas ou viúvas, além de algumas cujos maridos não provinham com carinho e apoio suficientes para elas. Wanderson tinha muito prazer em atender as necessidades dessas irmãs em cristo.
Após passar o dia nesta árdua atividade, chegou no final da tarde a sua igreja onde Maycom o esperava lendo um jornal popular.
- Boa tarde, pastor.
- Boa tarde, Maycom. Como foi seu dia? - cumprimentou enquanto abria as portas da igreja que não era maior do que uma pequena loja.
Por um momento, Wanderson ficou ali parado observando seu diminuto templo enquanto um arrepio lhe corria pela espinha. Ele mal escutava enquanto Maycom falava sobre dependentes de drogas que ele visitara ao longo do dia e que tinha certeza de que conseguiria salvar em honra e glória do Senhor.
Seu pensamento estava longe, imaginava a igreja maior que pretendia alugar para comportar os fiéis que já não cabiam naquelas três míseras fileiras de cadeiras de plástico, sonhava com o dia em que estaria ao lado de pastores que tinham verdadeiras fortunas, talvez até entrasse para a vida pública. Quem sabe, um dia não estaria ele proferindo o nome de Deus no próprio Congresso Nacional?
O toque de Maycom em seu braço, buscando sua atenção o arrancou de seus devaneios.
- O senhor viu que coisa horrível, pastor?
Wanderson piscou uma ou duas vezes para se situar enquanto pegava o jornal que o outro lhe estendia com uma foto de um homem tão ensanguentado que poderia escorrer pela página.
- O que foi, irmão?
- Esse rapaz que foi retalhado no centro da cidade ontem de noite. - comentou compadecido. - não encontraram nenhuma identificação, e o rosto dele está tão desfigurado. Estão achando que é algum mendigo. Aonde este mundo vai parar?
- A causa disso é a perda dos valores da família, Maycom.
- O senhor acha?
- Tenho certeza! Deve ter se metido com uma daquelas prostitutas ou até os travecos que perambulam o centro. Teve o castigo merecido, certamente.
Quando devolveu o jornal, Maycom tomou sua mão.
- O senhor está tremendo de novo.
- Não é nada! - disse rispidamente enquanto puxava sua mão.
- O senhor deveria ir a um médico ver isso. É tão preocupado em cuidar dos outros mas não se cuida.
- Não é nada, já disse! E mesmo se fosse alguma coisa, tenho fé de que Deus cuidaria de mim melhor do que a medicina dos homens.
- Então permita que eu ao menos faça uma oração sobre o senhor, para lhe trazer alento.
Sentou-se enquanto o jovem colocou a mão em sua cabeça pedindo a Deus por sua saúde e proteção. As palavras foram tão sinceras que até trouxeram lágrimas aos seus olhos e aliviaram os seus temores de que estes tremores poderiam significar que estava perdendo o controle sobre o próprio corpo devido a idade já avançada. Este era o seu maior medo.
- Obrigado, Maycom.
- Não por isso, pastor. O senhor me salvou e ainda poderá salvar muitos outros como eu.
Wanderson ficou observando enquanto o outro se afastava para arrumar as cadeiras para o culto dali algumas horas. Ele fora uma das primeiras ovelhas de sua congregação, quando tinha recém-deixado a cadeia. O jovem era um drogado que vivia nas ruas e olhe para ele agora.
Se um dia teria que prestar contas diante do Criador, sabia que pelo menos uma coisa boa havia feito nesta vida.

* * *

O culto daquela noite foi inspirado. Wanderson falou sobre o fogo do inferno sobre os pecadores que não abraçavam o caminho de Cristo causando um furor entre os seus fiéis. Até citou a reportagem que Maycom lhe mostrara antes para ilustrar a perda dos valores familiares na sociedade decadente.
Ao final, muitos foram cumprimentá-lo e abraçá-lo, concordando com suas palavras e elogiando o fato de ao menos ele ser um homem com coragem para dizer o que ninguém tem coragem de dizer.
Maycom se aproximou dele acompanhado de uma velha senhora, dizendo ser sua avó que ansiava muito em conhecê-lo. Ela abraçou o pastor muito emocionada agradecendo por ter curado seu netinho querido.
Depois Maycom se desculpou por não poder ficar para ajudá-lo a fechar a igreja porque tinha de acompanhar a avó até em casa. Mesmo contrariado, Wanderson sorriu amarelo e permitiu que ele assim o fizesse e garantindo que não haveria problema algum para ele fechar arrumar tudo quando todos saíssem.
Os últimos fiéis ajudaram o pastor a fazer as arrumações, mas ele se despediu alegando que precisava fazer algumas orações sozinho com Deus. Quando se encontrou sozinho pegou a caixa de dízimos e foi conferir a arrecadação da noite. Percebeu que alguns deixaram de contribuir e fez uma nota mental para incluir um alerta quanto a isso na próxima pregação. Como queriam que Deus realizasse os milagres pedidos se eles não contribuíam para a glória de sua igreja?
Enquanto estava entretido em suas contas, pensando em quanto ainda precisaria para conseguir seu sonhado templo, a luz começou a piscar e por fim se apagou. Ele amaldiçoou, imaginando se tratar apenas de uma lâmpada queimada. Usando a luz do celular para se guiar, guardou a caixa e se dirigiu para a saída, quando a porta da igreja se escancarou de repente, mesmo tendo trancado-a quando o último fiel saiu.
Wanderson foi jogado ao chão pela mesma força que arrobara as portas e viu uma figura de pé a sua frente, iluminada apenas pela luz da lua, deixando apenas enxergar sua silhueta, na qual podia se ver o que pareciam dois pequenos chifres saindo das laterais da cabeça.
O pastor estava apavorado diante da figura que o assombrara em seu pesadelo. Sabia que não eram chifres, mas as pontas de suas orelhas salientes. Também sabia que ele o olhava com olhos amarelos da cor do pus de uma ferida a muito infeccionada. E podia sentir o seu sorriso macabro como se ele escorregasse por sua pele.
- Faça suas preces! - O estranho disse em uma voz rasgada.
E sem poder mover seu corpo, foi o que Wanderson fez...


terça-feira, 28 de maio de 2013

Prisão.


Por: Franz Lima.

Meus pensamentos se perdem diante da imagem refletida. Não há mais o homem que outrora fui. O reflexo mostra apenas um pálido e frágil indivíduo. O reflexo indica uma verdade que há muito eu fingi não ver: eu estava morto.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O Homem dos Sonhos (I) - Corra!



O centro de todas as grandes cidades é sempre apinhado de gente andando em blocos por todos os lados, todos preocupados com seus trabalhos que consideram tão importantes, seja pela soberba onde as pessoas se colocam uns acima dos outros, seja pela importância de pagar contas no final do mês que os faz aturar trabalhos degradantes e humilhantes.
Naquele momento, entretanto, tarde da noite, o centro da cidade se encontrava deserto. Não havia sequer uma viva alma para ser vista ao longo das ruas estreitas dos prédios antigos, datados da época do Império. Nem mesmo as prostitutas, mendigos e outros marginalizados pela sociedade, tão facilmente encontrados neste cenário noturno podiam ser vistos, como se fosse um momento fora da realidade, um sonho.
Mas o que Frederico vivia naquele momento estava mais para um pesadelo!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Sozinho


Em memória de Katiely - Manda um beijo pro pai!

Meia noite de um domingo qualquer. Fumo um cigarro qualquer e viro um copo de Scotch com apenas um único e solitário gelo. Admiro com ódio um quadro de Nova York onde a multidão de táxis amarelos admira a Marilyn Monroe e a Estátua da liberdade. Há um contraste tão grande no que sou e no que quero ser. Diante dessa multidão sou apenas como aquele pequeno gelo derretendo no copo.

Verto o restante da água derretida deixando parte do gelo. Levanto-me para ir para a cama, mas o álcool não deixa. Antes de atravessar a sala caio de bruços no chão e sinto o coração gelar. Uma pequena dor rasga meu peito e encosta gentilmente no órgão vital. Estou tendo uma parada cardíaca.

Ainda com dor e sentindo o braço esquerdo tilintar um formigamento incomoda, viro-me para golar umas doses de ar. Estou sozinho em casa sentindo a vida escapar pelos dedos como a areia ou água  tanto faz o clichê. O que importa é que preciso de ligar urgentemente para a emergência. Minha vida precisa disso.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Carta de um Suicida


Para alguém que se importe.

Só eu sinto, descendo como acido nas entranhas, a lágrima que corrói meu peito. Mas nem eu entendo a razão deste sentimento lacrado no coração. Guardo dentro desse corpo o prisioneiro mais cruel. E hoje ele tirou o dia para rebelar, tocar fogo em colchões e degolar o carcereiro filha da puta que se chama auto-controle.
É tanta força desse sentimento que é impossível não se entregar. Toco o terror, desprezo e falo na lata. Não tenho medo de ferir, e machucar esse bando de imprestáveis que me cerca. Eu, prisioneiro deste corpo frágil me rebelo, domino e subjugo a tudo e a todos apenas para sentir ridículo senso de poder e pensar estar no controle de tudo.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Devorada


Verônica saiu da casa dos pais aos 15 anos.

Sempre se considerou, para seu próprio bem, esperta e independente demais, apesar de sua idade. Portanto, não precisava responder à “autoridade” de dois velhos – na verdade, a mãe dela mal tinha completado 30 anos, na época – e resolveu enfrentar o mundo, sozinha.

Bom, não exatamente sozinha.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Victor (Ou: “Não perca as crianças de vista”.)


“Mãe, eu preciso desligar agora. Tenho que ir. Tem algo acontecendo. Avisa a Rita.”, e Victor sentiu que a resposta de mãe a isso tinha sido dolorosa. Ela nunca tinha concordado com a carreira que ele escolheu e, agora, as coisas estavam ficando piores a cada dia, literalmente. “É como em O Espírito do Mal. Ela tem razão.”, refletiu enquanto corria em direção à viatura. O sargento Almeida fazia gestos muito violentos, indicando a urgência da situação.

“Parece que rolou uma desinteligência muito séria na Praça da Independência, cabo. ‘Bora logo.”, e já foi arrancando antes mesmo de Victor estar com todo o corpo dentro do veículo. Contudo, a praça ficava a menos de um quilômetro dali – era algo mais grave do que aparentava, pelo jeito. E isso era péssimo, com certeza.