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segunda-feira, 18 de março de 2013

Carta de um Suicida


Para alguém que se importe.

Só eu sinto, descendo como acido nas entranhas, a lágrima que corrói meu peito. Mas nem eu entendo a razão deste sentimento lacrado no coração. Guardo dentro desse corpo o prisioneiro mais cruel. E hoje ele tirou o dia para rebelar, tocar fogo em colchões e degolar o carcereiro filha da puta que se chama auto-controle.
É tanta força desse sentimento que é impossível não se entregar. Toco o terror, desprezo e falo na lata. Não tenho medo de ferir, e machucar esse bando de imprestáveis que me cerca. Eu, prisioneiro deste corpo frágil me rebelo, domino e subjugo a tudo e a todos apenas para sentir ridículo senso de poder e pensar estar no controle de tudo.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Overdose de Pânico.


Por: Géssica da Rosa

Seu Alcebíades conhecia o homem, mas não se recordou que fosse irmão da moça do quinhentos e doze. Chegou à portaria trajando um terno escuro e pediu a chave do apartamento da irmã. Tinha em mãos uma caixa com um laço verde-esmeralda e disse que queria presentear a moça. O velho avisou que ela não estava em casa, mas ele disse que gostaria de fazer uma surpresa e aproveitaria o fato de ela não estar.
        Hesitante, o porteiro entregou a chave a ele e deixou que subisse. O homem abriu a porta e observou o ambiente. Era um apartamento de quarenta metros quadrados, um quarto só, com a sacada de frente para a rua. Deixou o embrulho sobre a bancada da cozinha americana e foi até o banheiro. Abriu o armário de medicamentos e pegou o frasco de ansiolítico que a irmã usava para controlar as crises de pânico. Substituiu as pílulas pelas de metanfetamina que tinha no bolso da calça. Já presenciara suas crises e sabia que a moça não ingeria apenas um comprimido do medicamento. E com aquelas pílulas não seria diferente. Mas o efeito seria outro, o oposto. E altamente eficaz. Se tudo ocorresse como ele previra, em algumas horas ela estaria sem vida. E o melhor: jamais suspeitariam dele. Afinal, ela própria poderia estar fazendo uso dessa droga para se sentir, digamos, mais alegre. Ou mesmo desejar ter uma overdose e cometer suicídio.
          Após trocar os comprimidos, ele retornou para a sala e a gata veio enroscar-se em suas pernas. Olhou para o animal por um instante e teve uma ideia. Foi à cozinha e retirou a faca da gaveta. Pegou a felina sob miadas de protesto e a levou até a banheira, onde fez o serviço. Com um golpe certeiro, separou a cabeça do corpo peludo, deixando borrifos escarlates nos azulejos imaculadamente brancos. Sentiu o sangue quente do animal lhe provocar arrepios de satisfação em todo o corpo. Ainda bem que não havia se sujado muito, não queria chamar atenção do porteiro quando saísse. Despiu o paletó sujo de sangue e foi à cozinha para pegar um prato no armário. De volta ao lavatório, colocou a cabeça do pobre bicho na louça, formando uma horrenda obra de arte.
         Deixou o corpo do animal dentro da banheira, limpou as digitais da faca e das bordas do prato onde havia tocado. Devolveu o instrumento cortante à gaveta, lavou o pano que usara para limpar os vestígios, e foi até a mesinha do telefone onde destacou uma folha de um bloco e escreveu os seguintes dizeres: “Uma surpresinha para minha querida irmã. Com carinho.”.
Prendeu o bilhete sob o prato, deixando-o sobre o vaso sanitário. Dobrou o paletó de modo a esconder as manchas de sangue e pegou a caixa que ficara na bancada. Limpou as digitais da maçaneta ao sair e desceu pelas escadas. No térreo, o porteiro olhou-o com expressão de interrogação ao vê-lo com o embrulho em mãos. Com um sorriso sedutor nos lábios, o homem respondeu que passaria outro dia para deixar o presente para a irmã.
          O velho recebeu as chaves e, encolhendo os ombros, observou o homem sair pela porta. Ponderou se deveria avisar a moça que o irmão estivera ali, mas logo desistiu da ideia, pois assim estragaria a surpresa que ele preparara para a jovem.
***
         Liana abriu a porta, exausta. Foi até a geladeira e bebeu uma garrafa de água de um gole só. Perguntou-se onde estaria Nico, a gata, que não viera recebê-la com o habitual roçar entre suas pernas. Decidiu tomar um banho para relaxar, mas, ao entrar no banheiro e deparar-se com a diabólica visão do animal esquartejado, sentiu náuseas e as lágrimas brotaram de seus olhos cinzentos. Leu o bilhete que havia sido deixado junto da cabeça sobre o prato, rasgou-o e jogou os pedaços na banheira.
         Subitamente, os tremores invadiram seu corpo e ela vomitou no mesmo lugar onde o corpo sem cabeça da felina jazia banhado em sangue. Era o pânico. Sabia quem havia deixado aquela surpresa macabra. Não conteve o surto, mas começou a limpar aquela parafernália mesmo assim. Jogou o cadáver e a cabeça do animal junto com o prato em um saco preto, ligou o chuveiro para remover as manchas vermelhas e os vestígios do seu almoço da banheira e da parede.
          Aproveitou para tirar a roupa e tomar um banho frio, com a visão infernal da sua gata banhada em sangue embrulhando o estômago. Terminado o banho, enrolou-se na toalha e foi para o quarto vestir-se, deixando o saco com os restos ao lado da banheira. Não conseguia controlar os tremores e a sensação de desorientação. Voltou ao banheiro e abriu o armário de medicamentos. Pegou cinco pílulas do ansiolítico, as lágrimas lavando o seu rosto, e tomou tudo de uma vez só.
Foi para o sofá em prantos e encolheu-se como uma criança em posição fetal. Alguns minutos depois, pôde sentir o coração disparar e uma agitação inexplicável lhe invadir. Sentiu o sangue correr pelas narinas e tremores involuntários nas mãos e pernas. Cambaleante, tentou agarrar o telefone para pedir ajuda, mas caiu no tapete convulsionando. Minutos depois, jazia imóvel no chão da sala.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A benção da morte.



Eu sei que ela existe. Não do modo como as pessoas pensam. Não a mitológica figura com a foice e sua capa negra, ceifando vidas e conduzindo os mortos ao limbo. Definitivamente, ela existe. E para ser mais sincero, acho que a palavra “ela”, não se aplica. Não há sexo entre os anjos. Com certeza não há.
Desde pequeno eu persigo a oportunidade de vê-la. Minha avó sempre dizia que aqueles que viam a morte frente a frente estavam destinados a receber seu abraço e, com isso, findar sua existência. Porém, o que mais me chamava a atenção era que, segundo as lendas, o homem que a visse ceifando uma vida, no exato momento do toque fatal, receberia o dom da imortalidade. Seria como se a morte se tornasse o seu anjo da guarda, impedindo o mal de se aproximar de você. Interessante, não?
Assim, movido por esse desejo, tornei-me repórter fotográfico de um grande jornal do Rio de Janeiro. Dizer que já presenciei inúmeras mortes, como profissional, torna-se irrelevante, já que sou repórter policial. Retratar a desgraça e a morte é meu passatempo. Não é um obrigação... é um prazer.
Anos se passaram desde meu início como fotógrafo. Sempre busquei estar nos lugares onde o caos reinava. Neles, eu teria a oportunidade buscada desde menino. A oportunidade de encarar a morte nos olhos. A chance de encarar o anjo da morte no instante em que cumpre sua missão. Não havia outro meio de me tornar imortal... e meu tempo estava passando. A cada novo dia, o abraço se aproxima. O beijo da morte se torna mais tangível.
Eu não quero morrer...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Morrendo pelo renascimento. O diário de um suicída.

Quantas faces, pensamentos e ideais.
Homens, mulheres, todos com uma única meta: sobreviver.
São diferentes. Odeiam-se a ponto de um matar o outro e, ainda assim, oram pelo amor universal. Pura demagogia.
Alguns me observam com desprezo, apesar de não me conhecerem. Coisa típica de metrópoles, cidades-selva.
Olho para o alto e vejo os arranha-céus. Verdadeiras “Torres de Babel”, onde decisões são tomadas, destinos traçados, sem o conhecimento dos habitantes.
Neste lugar, o trabalhador é algo raro. Quase tudo funciona por botões, painéis computadorizados e senhas de acesso. Os poucos homens que existem dependem também da tecnologia.
Há muita diferença de trinta, quarenta anos atrás, quando o cérebro era o líder, ao invés de um “chip”.
Esse maldito ritmo nos faz esquecer o amor, a atenção à família e como é bom viver.
Por isso, eu perdi os que amava. A cada andar que subo, fica mais longínquo o ruído inumano dos poderosos.
Ao atingir o pico da montanha de concreto, chego a imaginar como Ícaro sentiu-se livre, afastado dos olhos incompreensivos e críticos de seres que não sabiam o quanto é difícil romper barreiras, tomar atitudes extremas.
Olho para as pessoas que estão muito abaixo e gostaria de saber o que elas imaginam agora.
Aqui venta forte, atingindo-me tão frio que seria capaz de apagar as chamas infernais.
Eu tenho medo de altura.
Imagens misturam-se à minha frente mostrando episódios passados de minha vida.
Meu corpo projeta-se ao ar. Os ventos atingem-me provocando dor e alívio. Nunca tive tanta liberdade em toda minha existência. Existência esta que chega ao grande final. Claro, nem tudo que aparenta estar finalizando, realmente está...
Quando meu corpo mescla-se ao solo rígido, tenho a nítida impressão de que serei algo além de um monte de vísceras humanas. Serei mais um a recusar-se em ser torturado, pondo um fim definitivo em tudo que me desagradava, inclusive eu mesmo.
O medo se foi...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O Enfermeiro Negro.



Dedico este conto à Alisson Zimermann, pois roubei a idéia dele!

- Você nunca pensou em fazer isto? – Já havia pensado milhões de vezes à esta tendencia viciosa que nossa mente tem de desistir de tudo, mas havia resistido à esta tentação. – Nunca desejou largar tudo o que tem para trás e se jogar?
A tentadora proposta não veio do velho barbudo que batia na janela do meu carro às sete e quinze em ponto em busca de suas moedinhas, o que me surpreendeu: Jovem e bem vestido a única coisa que entregaria as idéias do sujeito era a sua cara de cansaço a barba de ontem e olhos vermelhos, talvez de drogas, talvez de choro ou mesmo ambos.
- Eu já. Cansei de sentar aqui e ficar apenas olhando o quão insignificantes somos. – Seu olhar manteve fixo no reflexo que a lua produzia na água, mas o corpo vacilava. – Somos que nem uma gota de aguá no oceano. – Cuspiu para pensar.
Eu também tinha cansado, cansei do meu emprego de enfermeiro. Cansei de ver gente morrendo em minhas mãos e estava determinado a não permitir mais uma dessas no meu turno. Tudo bem que não estava a trabalho, estava apenas caminhando por aí, Mas eu sei o que esse jovem vai fazer, ou pelo menos o que pensa fazer.
Pensei em dizer algo, mas é provável que só piorasse a situação. Aproximei um pouco e cuspi observando a queda demorada, tanto do cuspe, quanto da lágrima que brotou dos olhos e terminou nas mãos que ele mordia inquietamente. Ele olhou em meus olhos, mas deixou o olhar cair na borda do chão, talvez em meus sapatos escuro, ainda manchados do sangue da ultima paciente.
- Esse mundo é injusto – riu chorando – É uma piada de péssimo gosto, só pode ser – A mente dele compreendeu a peça que a vida lhe pregava. Sim, se eu estou aqui é porque algo vai acontecer. É inevitável. Como somente aqueles que estão preparados tem tato comigo, toquei suas costas e senti um arrepio cortar meu corpo. Ele é mais um dos meus.
Sou o princípio do fim e atendo ao último chamado humano. Tranquilizo meus pacientes em seus últimos momentos, como um enfermeiro que prepara o paciente para cirurgia. Em breve o médico virá separar corpo do espírito. O que me resta senão tranquilizar aquele que está prestes a morrer? Ao mesmo tempo, o que me resta dizer à um suicida ao qual já tenho certeza que morrerá?
Mal percebi que ele já estava de pé, inclinando o corpo pra frente. Como posso ser tão idiota, não falei nada com o cara, nem notei o que ele estava fazendo! Ele fechou os olhos e respirou fundo, caramba é agora.
Ele mal desfez os nós com o qual seus dedos se laçavam ao corrimão e eu já saltei em sua direção agarrando o braço direito. Fui puxado com intensidade, batendo os primeiros ossos da costela no mesmo corrimão. Tinha o homem pendurado em minhas mãos, mas ele escorregava urrando socorro.
Cada centímetro de tecido que deslizou de minhas mãos, cada linha a mais que perdia daquele homem era uma navalha na minha alma. Quando a camisa acabou e comecei a puxar sua pele, o desespero pareceu correr mais forte em nossas veias.
Inclinado e com as mãos cansadas, eu vi aquele corpo balançar freneticamente, tentando sem sucesso subir os pés na ponte novamente. Cada vez mais longe de mim, senti que perderia aquele homem pra sempre até que sua mão direita conseguiu se firmar em mim.
Um pouco mais racional, pedi para que ele se segurasse firme, assim como tentasse segurar com sua outra mão em mim. – No três eu te puxo. Um, dois, três. HUMPF…
Ele subiu o suficiente para conseguir colocar o pé esquerdo na ponte, onde depois de um bom esforço, conseguiu uma ridícula, mas já suficiente estabilidade. Respirei um pouco mais forte, já me preparando para o esforço de tentar levantar e segurar o jovem.
Após ficar de pé, do outro lado do corrimão, abracei-o tentando dar segurança para ele pular para o lado de cá do corrimão. Ele passou uma perna, depois a outra, tropeçou e caiu no asfalto. O farol iluminou sua face antes de acertar-lhe com um golpe seco e preciso. Seu cérebro enfeitou de rosa suave o asfalto e seus olhos ainda estatelados, jogados no canto da rua, me olhavam vermelhos pedindo piedade.
Sim, se eu estava aqui é porque algo ia acontecer. Era inevitável. Somente aqueles que estão preparados tem tato comigo. Se não fosse, nunca teria tocado em seu corpo ou sentido seu desespero me gritar: Ele era mais um dos meus.