Eu sei que ela existe. Não
do modo como as pessoas pensam. Não a mitológica figura com a foice e sua capa
negra, ceifando vidas e conduzindo os mortos ao limbo. Definitivamente, ela
existe. E para ser mais sincero, acho que a palavra “ela”, não se aplica. Não
há sexo entre os anjos. Com certeza não há.
Desde pequeno eu persigo a
oportunidade de vê-la. Minha avó sempre dizia que aqueles que viam a morte
frente a frente estavam destinados a receber seu abraço e, com isso, findar sua
existência. Porém, o que mais me chamava a atenção era que, segundo as lendas,
o homem que a visse ceifando uma vida, no exato momento do toque fatal,
receberia o dom da imortalidade. Seria como se a morte se tornasse o seu anjo
da guarda, impedindo o mal de se aproximar de você. Interessante, não?
Assim, movido por esse
desejo, tornei-me repórter fotográfico de um grande jornal do Rio de Janeiro.
Dizer que já presenciei inúmeras mortes, como profissional, torna-se
irrelevante, já que sou repórter policial. Retratar a desgraça e a morte é meu
passatempo. Não é um obrigação... é um prazer.
Anos se passaram desde meu
início como fotógrafo. Sempre busquei estar nos lugares onde o caos reinava.
Neles, eu teria a oportunidade buscada desde menino. A oportunidade de encarar
a morte nos olhos. A chance de encarar o anjo da morte no instante em que
cumpre sua missão. Não havia outro meio de me tornar imortal... e meu tempo
estava passando. A cada novo dia, o abraço se aproxima. O beijo da morte se
torna mais tangível.
Eu não quero morrer...

