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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A benção da morte.



Eu sei que ela existe. Não do modo como as pessoas pensam. Não a mitológica figura com a foice e sua capa negra, ceifando vidas e conduzindo os mortos ao limbo. Definitivamente, ela existe. E para ser mais sincero, acho que a palavra “ela”, não se aplica. Não há sexo entre os anjos. Com certeza não há.
Desde pequeno eu persigo a oportunidade de vê-la. Minha avó sempre dizia que aqueles que viam a morte frente a frente estavam destinados a receber seu abraço e, com isso, findar sua existência. Porém, o que mais me chamava a atenção era que, segundo as lendas, o homem que a visse ceifando uma vida, no exato momento do toque fatal, receberia o dom da imortalidade. Seria como se a morte se tornasse o seu anjo da guarda, impedindo o mal de se aproximar de você. Interessante, não?
Assim, movido por esse desejo, tornei-me repórter fotográfico de um grande jornal do Rio de Janeiro. Dizer que já presenciei inúmeras mortes, como profissional, torna-se irrelevante, já que sou repórter policial. Retratar a desgraça e a morte é meu passatempo. Não é um obrigação... é um prazer.
Anos se passaram desde meu início como fotógrafo. Sempre busquei estar nos lugares onde o caos reinava. Neles, eu teria a oportunidade buscada desde menino. A oportunidade de encarar a morte nos olhos. A chance de encarar o anjo da morte no instante em que cumpre sua missão. Não havia outro meio de me tornar imortal... e meu tempo estava passando. A cada novo dia, o abraço se aproxima. O beijo da morte se torna mais tangível.
Eu não quero morrer...

sábado, 19 de janeiro de 2013

Como decorar uma parede branca.

Por: Juliano Rossin. 
Desde que se mudara para o apartamento novo, Flavio tinha dúvidas sobre o que fazer com a parede branca da sala, aquela que ficava atrás do sofá creme de três lugares.
Sendo um decorador de nome consolidado na cidade, que já havia decorado a casa de alguns dos mais ricos e famosos da região, e ainda ganho concursos internacionais, ele achava esse fato impossível de acontecer e inadmissível para alguém com o seu talento.
Havia ainda o adicional de que aquela não era uma parede qualquer na qual aplicaria sua criatividade. Aquela era a sua parede, na sua sala e a sua casa devia ter a decoração mais extraordinária já vista. Um exemplo de como o que ele fazia era perfeito e de gosto inquestionável.
O pior foi quando teve de ouvir o comentário de sua empregada – que provavelmente entendia de decoração assim como ele entendia de futebol: absolutamente nada – que primeiro lhe perguntou se deixar aquela parede branca era um novo experimento, e se fosse, que tinha gostado, antes básica assim do que rebuscada como o restante da casa, ela havia completado.
Básico! Como assim básico? Ele estava sendo chamado de básico por alguém que não tinha um pingo de conhecimento técnico na área, mas mesmo assim aquilo lhe subiu o sangue. Ele nunca poderia ser chamado de básico. Aquilo era o mesmo que ser tratado como apenas mais um pintorzinho de paredes qualquer.