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quarta-feira, 24 de abril de 2013

A Vingança de Kali - Parte Seis

Não Fique Perdido.Leia antes Parte I, Parte II, Parte III, Parte IV e Parte V




Conto por: Tatiana E Karen


Emanuel ouviu aquelas palavras e sentiu o sangue gelar.

– O que ta acontecendo aí, Karen? – um som estranho, de algo caindo, se fez ouvir – Alô! Karen? Caralho, Karen, responde!!! Porra! – virou para o colega mais próximo e ordenou que continuasse tentando acionar Hedomon e Edilton. – Eu vou atrás daquela maluca.

Confirmou que a arma estava carregada, por via das duvidas levou mais um ou dois pentes cheios. “Só pro caso de precisar” dizia a si mesmo, na vã tentativa de se convencer que tudo ficaria bem sem precisar recorrer a isso.

***

– Merda, merda, merda, merda...

Karen não parava de repetir enquanto olhava para os lados, tentando descobrir o que fazer. A chamada tinha sido finalizada, o barulho ainda estava longe o suficiente pra saber que tinha vantagem se tentasse fugir, embora não soubesse exatamente quanta. Foi até Tatiana, analisar os danos. Ela tinha pulso, embora não muito forte, e respirava. Já era algo bom, pelo menos estava viva. Estavam em pleno escuro, o que não facilitava muito para enxergar, mas pôde notar que – apesar do tanto de sangue – o ferimento não era tão grave. Pelo menos aparentemente.

– Acorda... Tatiana, acorda... – falava baixo, perto do ouvido dela, enquanto chacoalhava seu braço – Por tudo de sagrado, acorda!

Começava a se desesperar. O que quer que fosse aquilo, já devia estar sentindo o cheiro ferroso e viria por elas. A jovem se mexeu levemente e Karen deu graças aos céus. Começou a chacoalha-la um pouco mais forte até ver seus olhos se abrindo. O que aconteceria com ela depois era um mistério, não sabia se tinha algum ferimento interno ou algo perigoso, mas naquele momento não importava. Tinham de sair dali, não poderia deixa-la para trás.

– Vem, tem alguma coisa atrás da gente, temos que ir depressa. – começou a puxa-la enquanto, desorientada, Tatiana tentava se erguer.

– O que... houve? Eu... – levou a mão até a nuca, que doía como o inferno, e sentiu algo molhado. Ao levar a mão até bem perto dos olhos deu um grito. Karen se apressou em tapar sua boca.

– Você tá louca? Quer nos foder de vez? – Karen disse baixo, mas fora de si, num misto de pavor e raiva – Eu te digo que tem algo atrás de nós e você grita? Como se o nosso sangue já não fosse suficiente pra isso nos achar. Cala essa boca e vem logo, antes que não tenhamos mais nenhuma chance! Vem, eu te ajudo.

Começaram a caminhar no passo que conseguiam. Karen apoiando Tatiana – a bem da verdade, praticamente a arrastando –, sempre tentando se certificar de que não havia nada por ali. O barulho tinha sumido e aquele silencio a preocupava. Alcançou o celular e andou apenas mais o suficiente para um pino de sinal, então novamente chamou Emanuel.

– Emanuel, cadê você? Eu te falei que a moça ta machucada, eu to precisando de ajuda! – Karen havia deixado Tatiana sentada na raiz de uma arvore e começou a caminhar enquanto falava. Estava tão tensa que não conseguia ficar parada. Ficou em um vai e vem quase hipnótico, a cada ida e volta se afastava um pouco mais do ponto de partida.

– Eu já te falei que aqui tá complicado! Tu é surda ou o que? Não dá pra eu largar toda essa merda nas mãos de estagiários imbecis e novatos. Alguém tem que cuidar dessa zona. – o delegado respondeu, com raiva.

– Ah tá. E pra eles não ficarem sozinhos nós é que ficamos, né? – “Boa, chefe! Continue assim... Seu Filho duma...” seus olhos se arregalaram e em seu pensamento mal pôde terminar de formular aquele e todos os outros xingamentos destinados ao patrão. Sentiu uma mão invisível apertando sua garganta: eram as lagrimas, que a sufocavam, buscando um caminho até a saída. O celular escapou de suas mãos e foi ao chão, quicando até próximo ao corpo que estava estirado – motivo de sua agonia.

– Edilton... Não... – balbuciou. A voz de Emanuel ainda ecoava no celular, mas Karen já não o ouvia. Abaixou-se e checou os sinais vitais e, como já esperava, os encontrou a zero. Foi até Tatiana. Precisavam sair dali. Ao chegar encontrou a moça chorando.

– É tudo culpa minha... Se eu não tivesse ido lá falar com ele... Com ela... Com aquela coisa! Eu nunca devia ter ido la... – parecia em choque, falando sozinha diversas coisas que a investigadora não conseguia entender. Seu olhar permanecia vidrado à frente – Mas você também teve culpa! Se não tivesse decidido fugir assim sem avisar isso jamais teria acontecido! E agora? Como vou explicar isso pra mãe e pro pai? Porra Lais, por que você me forçou a fazer isso?

– Fazer o que? – algo naquela frase gritou na mente de Karen – Fazer o que, Tatiana? O que você fez? – ela apenas repetia “Por quê? Por que me forçou a fazer isso?” e a mulher a chacoalhou desesperada, exigindo uma resposta.

Mas Tatiana se calou. Ela observava algo atrás de Karen e seus olhos se arregalaram em profundo pavor. Karen se virou lentamente – o cheiro e o barulho estavam mais fortes, o que significava que o monstro estava ali. Elas perderam tempo. E agora pagariam por isso.

Havia um bicho enorme observando as duas, urrando para o céu escuro como o lamento de um animal ferido. Ele possuía pelos vermelhos, longas garras e – agora sim aquilo fazia um terrível sentido – pés virados ao contrário. Porém, o mais impressionante era mesmo uma bocarra gigantesca bem no estômago da criatura, que se abria e fechava, mostrando dentes afiadíssimos.

- CORRE! – Karen gritou, esquecendo toda a prudência. Ela puxou as mãos de uma catatônica Tatiana, que a acompanhou primeiramente aos tropeços, mas depois o próprio medo a recompôs e as duas corriam lado a lado, desesperadas. Era uma corrida inútil, porém, já que o monstro tinha pernas muito mais longas que as duas e elas sentiam o cheiro horrível que emanava dele, como o de um gambá. Aquele cheiro atordoava seus sentidos, e Karen já estava sentindo a mente obscurecida, como se estivesse envolta em sombras quando viram um menininho no meio da mata.

- Venham aqui! – ele disse. – Por aqui!

Sem alternativa melhor, as duas seguiram o garoto. Ele estava montado em um porco do mato e seguia rapidamente pela floresta, como se a conhecesse muito bem. À primeira vista, parecia um menino normal, exceto que usava tangas como se fosse o Tarzan ou algo do tipo.

- Essa porra não faz mais sentido nenhum. - Karen disse mais para si mesma do que para qualquer outro, porém surpreendentemente Tatiana respondeu.

- Não. Agora sim está fazendo sentido. E a culpa é minha.

Ainda sentiam o cheiro do monstro atrás delas, derrubando árvores, deixando um rastro de destruição na mata. O garotinho continuava correndo pela mata até que encontraram um rio enorme. O menino parou e apontou para ele.

- Vão! Nadem. Não deixem a margem do rio. Nadem!

- O quê?! – Karen exclamou. – Nadar? Por quê?!

- Aquele monstro não poderá nos perseguir na água. – disse Tatiana e agora era ela quem puxava a mão de Karen. – Vamos, quem sabe a gente ainda consiga sobreviver. – ela se virou para o menino. – Obrigada... Caipora.

O menino sorriu largamente. Karen foi logo à procura dos pés do garoto, porém eles não eram virados para trás. Pelo menos o Caipora ela conhecia, mas aquele menino parecia normal, apesar de excêntrico. De qualquer maneira, aquilo tinha que ficar para outra hora. Karen também acenou com a cabeça, agradecendo, e as duas pularam nas águas frias do rio. Enquanto a correnteza as conduzia, as duas observaram o monstro alcançar a margem do rio. O garoto já tinha sumido. O monstro urrava e gritava, mas não estava sozinho: havia alguém próximo a ele, como uma sombra.

- É ela... – Tatiana murmurou. – Ela está aqui.


[Continua...]

PS.: Me sinto muito feliz de poder fazer parte desse projeto, e agradeço à Karen Alvares por ser minha parceira nesse momento tão decisivo da historia. Aproveito e deixo meu agradecimento especial aos leitores, que tem sido compreensivos com nossos pequenos percalços e continuam nos acompanhando sempre.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Promoção: concorra ao filme 'O Pacto dos Lobos' + HQ Batman - Cavaleiro das Trevas 2

 PROMOÇÃO E NOVIDADES

Olá, amigos do Um Ano de Medo. Estamos atualmente passando por um breve reformulação. A autora Tatiana Ruiz é a nova escritora das quartas-feiras em substituição ao Edilton que, por motivos particulares, encontra-se impossibilitado de colaborar conosco. 

Mas continuamos nos esforçando para atender sua sede de sangue e medo. 

A boa nova de hoje fica por conta da primeira promoção do blog. Os prêmios? Bem, que tal um DVD com o clássico filme de terror e ação 'O Pacto dos Lobos' e também as 3 HQ que integram Batman - O Cavaleiro das Trevas 2, de Frank Miller?


Para concorrer é muito simples. Siga o blog através do twitter @umanodemedo e faça seu comentário nest post contando-nos o que mais gosta e o que menos gosta no Um Ano. Fácil, não? 

O resultado sairá no dia 15 de maio. Mas lembre-se que é obrigatório tecer seu comentário (com conteúdo) para efetivamente concorrer, além de ser um seguidor do Um Ano. 



 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Sheol Tehilim 23


A morte é meu destino, nada me salvará

Deitar-me faz em trem nefasto,
guia-me em turbulência a dura armadilha.

Dilacera a minha alma;
Guia-me por caminhos de carniça,
Por calor sede e fome.

Ainda que andasse pela vila da vida e da sorte.
Temeria a todo mal,
Porque tu estás comigo.
A tua foice e teu hálito me provocam.

Preparas uma cova perante mim na presença dos meus inimigos.
Enches a minha cabeça de ódio
Contra épica horda.

Certamente que a fúria e seu furor me seguirão todos os dias da minha  vida
E morrerei nas mãos do ceifador
E habitarei no inferno por longos dias.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A Vingança de Kali - Parte Cinco


Tatiana abriu a porta e deu de cara com uma mulher jovem, porém com o rosto tão cansado que aparentava vários anos a mais. O coração de Tatiana saltava no peito: ela não abriria a porta de sua casa para uma estranha qualquer, mas a mulher disse que era da polícia e que precisava muito falar com Tatiana.
- É sobre sua irmã, Laís. – ela disse. Não foram as credenciais que a mulher apresentou ou a palavra “polícia” que fizeram Tatiana abrir a porta. Foram essas últimas palavras.
- O que aconteceu com a minha irmã? – Tatiana perguntou sobressaltada. Pensou em muitas coisas. Pensou no bolo de dinheiro, no lenço, no sorriso com dentes podres daquela vidente e na imagem na parede daquele lugar, aquela imagem da mulher azul com uma saia de braços e um colar de crânios.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Sozinho


Em memória de Katiely - Manda um beijo pro pai!

Meia noite de um domingo qualquer. Fumo um cigarro qualquer e viro um copo de Scotch com apenas um único e solitário gelo. Admiro com ódio um quadro de Nova York onde a multidão de táxis amarelos admira a Marilyn Monroe e a Estátua da liberdade. Há um contraste tão grande no que sou e no que quero ser. Diante dessa multidão sou apenas como aquele pequeno gelo derretendo no copo.

Verto o restante da água derretida deixando parte do gelo. Levanto-me para ir para a cama, mas o álcool não deixa. Antes de atravessar a sala caio de bruços no chão e sinto o coração gelar. Uma pequena dor rasga meu peito e encosta gentilmente no órgão vital. Estou tendo uma parada cardíaca.

Ainda com dor e sentindo o braço esquerdo tilintar um formigamento incomoda, viro-me para golar umas doses de ar. Estou sozinho em casa sentindo a vida escapar pelos dedos como a areia ou água  tanto faz o clichê. O que importa é que preciso de ligar urgentemente para a emergência. Minha vida precisa disso.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Nota explicativa ao público.

Olá, amigos. 
Para quem ainda não me conhece, sou Franz Lima e também colaboro neste blog de contos de horror. Estamos entrando no 4º mês de vida do projeto e é uma grande honra fazer parte de um grupo tão seleto e coeso.
Entretanto, creio que perceberam, nós tivemos alguns contratempos que ou atrasaram ou impediram a publicação de contos. Como o próprio nome do blog já diz, a proposta nossa é a de levar a vocês, diariamente, um terror com qualidade e sempre de forma inédita, fato que torna esse projeto ímpar. Claro, imprevistos acontecem e nem mesmo nós estamos livres de problemas. 
Assim, assumo o papel de porta-voz dos outros escritores e lhes peço sinceras desculpas. Sabemos que há muitos leitores que acessam diariamente o blog para ler nossos escritos. Não posso prometer que nada mais irá afetar o grupo a ponto de estarmos acima dos imprevistos, porém saibam que estamos redobrando os esforços para publicar sempre em dia. Outro grande esforço é a busca pela excelência em contos novos, realmente inéditos.
As datas onde ainda há lacunas serão, brevemente, preenchidas. 
Agora, já cientes de nossas imperfeições, vamos à boa notícia. O blog está recebendo a ajuda de um desenhista que, assim como cada um dos escritores, também busca dispor sempre de material inédito e ótima qualidade. Seu nome? Daniel MM. Vocês poderão ver alguns de seus trabalhos na primeira parte do conto A Vingança de Kali e, em breve, nas demais partes da saga de terror e mistério que vem conquistando mais e mais leitores.
O projeto vive e irá mostrar conforme o tempo flui, como é possível escrever e atender as expectativas... e medos dos leitores. 
Obrigado por estarem ao nosso lado em nossos pesadelos!

 

 

terça-feira, 19 de março de 2013

A Vingança de Kali: segunda parte.


Mortes eram algo comum na rotina de Ed e seus amigos. Mesmo aposentado, não era possível ficar distante dos noticiários policiais e da violência. Nada do que ocorresse poderia ser classificado como 'surpreendente'... até agora.
Ed desligou o telefone e ficou ruminando as últimas notícias. Morte em família. A sensação era exatamente essa. Rainier, Laís e Franz brutalmente assassinados. Sem motivos. Sem piedade.
Vocês serão vingados, meus amigos - pensou Hedomon. Quem lhes tirou a possibilidade de um futuro terá o mesmo tratamento. Sem piedade.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Carta de um Suicida


Para alguém que se importe.

Só eu sinto, descendo como acido nas entranhas, a lágrima que corrói meu peito. Mas nem eu entendo a razão deste sentimento lacrado no coração. Guardo dentro desse corpo o prisioneiro mais cruel. E hoje ele tirou o dia para rebelar, tocar fogo em colchões e degolar o carcereiro filha da puta que se chama auto-controle.
É tanta força desse sentimento que é impossível não se entregar. Toco o terror, desprezo e falo na lata. Não tenho medo de ferir, e machucar esse bando de imprestáveis que me cerca. Eu, prisioneiro deste corpo frágil me rebelo, domino e subjugo a tudo e a todos apenas para sentir ridículo senso de poder e pensar estar no controle de tudo.

segunda-feira, 11 de março de 2013

A Vingança de Kali


"Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte." - Sigmund Freud

Quanto o telefone tocou quis ignorar, sem sucesso. Uma voz sussurrou na alma, o coração apertou, acelerando num compasso sem ritmo, pulsações de dor que cruzaram por todo o corpo. Minha mão guiada por Kali, deusa da morte, tomou o aparelho deixando que seu dedo azul apertasse o botão verde. Mesmo lendo o nome Emanuel Nespusse na tela do celular, eu atendi, disse alô e aguardei uma resposta.


– Bom dia, delegado Hedomon. - Realmente deveria estar maluco ou realmente possuído. Receber uma ligação do delegado que me substituiu numa manhã de domingo era certeza de problema, Emanuel era meu aprendiz, ainda um moleque, e essa formalidade que ele nunca teve me irritou. –  Tudo bem com você?


– Porra, Emanuel, não precisa falar comigo assim, nem quando trabalhávamos juntos você rasgava essa seda. O que você manda?


segunda-feira, 4 de março de 2013

Indomável - VI - Liberdade


Session Finale: INDOMAVEL 



– Regra dez: Você nunca sairá vivo daqui.

Com essas palavras o homem me deu uma pancada na nuca e desfaleci. Depois de ter confessado  o meu crime e meus motivos que percebi que o torturador, complexado com tudo o que eu disse, permaneceu imóvel, escutando cada centímetro da minha história.

Talvez o mais cruel dos homens também ache que um estuprador é um monstro, mas neste mundo ainda há quem ache que eles merecem uma segunda chance. Eu confesso que todo pai, se tivesse a oportunidade que eu tive faria o mesmo, sem hipocrisia. Ser hipócrita é não concordar que a morte é a única punição para um monstro desses, e ainda assim é pouco.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Indomável - V - De Vingança



Vim da cozinha com um pote de sal nas mãos, abri a porta e encontrei o demônio se remexendo para tentar escapar. Ri, com uma risada cínica. A vingança correu em meu sangue, respirei ódio e bufei mais ódio ainda. Ao me ver ele sentiu-se acuado e tentou murmurar algo, sem sucesso, pois sua boca estava com uma fita ao redor.

Com cinco ou seis movimentos na boca ele arrancou a fita e começou a gritar - "Socorro, pelo amor de Deus, socorro" - Utilizei o sal que jogaria em suas feridas para calar sua boca jogando todo o conteúdo do pote em sua boca, fui para trás da cadeira abracei seu pescoço com um braço e com o outro apertei a nuca, entretanto, ao invés de apertar seu pescoço, pressionei sua boca para se manter fechada. O sal secou toda a boca e garganta. Ao tossir ele jorrava sal pelas narinas e sentia tudo dentro de si queimando. Eu apenas comecei a aprender os caminhos da tortura.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Indomável - IV - Menina dos meus olhos




Seus cachos dourados costumavam brincavam com o vento, seus olhos verdes ainda enxergavam o mundo com a doce inocência e ingenuidade que uma criança de dez anos tem. Era linda a minha filha querida, meu maior amor e paixão. 

Lembro-me de sua jovialidade, do seu sorriso sempre aberto pronto para receber o mundo com aventura e alegria. Lembro de suas brincadeiras no parque ao lado de casa onde ela sujava o seu vestido rosado favorito. Presente da mãe já ausente. Lembro como ela sentada no balanço, mexendo as pernas para frente e para trás conseguia encher minha vida da alegria que a falta de sua mãe deixou.

Chamamos de vida é o que planejamos enquanto a vida acontece, na verdade não há escolhas, nunca houve, nem nunca haverá. Assim que o destino decidir ele te joga em qualquer latrina e lá nós enfim conhecemos a realidade.

Foi na semana passada que me atrasei, cheguei em casa uma hora mais tarde que o de costume. Ao entrar, chamei minha filha, como sempre fiz - "Julia, o papai chegou." - E ela viria correndo me dar um abraço, contaria-me sobre o seu dia, sobre a escola, os amigos, a sua vidinha sem problemas ou dificuldades aparentes. A Josefa, que cuidava dela me daria boa noite e iria embora, enquanto eu permaneceria com aquela bela garota em meus cuidados.

Ela era um anjo, um anjo vindo dos céus para me dar alegria, mas naquele dia não. Naquele dia elas não responderam meu chamado. Encontrei uma mancha vermelha na geladeira escorrendo ao chão até encontrar a pobre mulher com uma ferida mortal na cabeça. Junto ao corpo e pedaços rosados de seu cérebro havia um martelo encravado em sua fronte. Seus dentes estavam quebrados, havia marcas rocheadas nos braços e mãos, assim como em toda a sua face desfigurada e quebrada.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Indomável - III - Dez mandamentos.

Leia antes: Indomável - II - Fome e sede


Fui arrastado para uma sala escura. Pela primeira vez em dias, semanas, meses ou anos abri o olho sem medo. Não há uma luz sequer, senão a que vêm da cabeça de um homem todo vestido de escuro. Dos pés à cabeça, não enxergava nada senão aquela luz que emana de sua cabeça.

Ouço sons de metais sendo manejados e sinto a espinha congelar a cada vez que tilintavam. Tento levantar minha cabeça para enxergar algo mais, mesmo sem conseguir movimentar a cabeça que estava presa com uma tira de couro. Um grito explode da minha boca - "Puta que o pariu" -  assim que identifico um bisturi enorme refletindo a luz em direção aos meus olhos.  Junto com a luz veio a voz do homem que estava de costas pra mim, manipulando as ferramentas.

- Vejo que você é novato. Em breve você conhecerá todas as regras. Perdoarei seu primeiro erro pois sou piedoso.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Indomável - II - Fome e sede




Acordo sentindo meus dentes colados no lábio cortado. A ferida enorme está coberta de sangue que coagula e une lábios, dentes e língua numa só carne e transformando o sabor produzido pelo vomito, sangue e bola de catarro que permaneceu ali, numa mistura salgada e tenra. Engulo a seco parte do conteúdo que há em minha boca e sinto meu estomago jubilar de alegria pela podridão que desce pelo esôfago. Devo estar deitado neste chão há séculos. Não consigo nem imaginar quanto tempo estou aqui e sinto que há um enorme vazio dentro de mim.

Primeiro porque me separaram daquela garota maravilhosa. Seu sorriso doce enquanto balançava nos brinquedos que haviam na praça próxima de casa me encantavam. Seu vestido rosado que ela tanto amava e fazia questão de sempre vestir era belíssimo e mostravam o quão bela aquela adorável garota seria ao completar os seus dezoito anos. Daria um trabalho e tanto e seria cobiçada por muitos. Mesmo em seus dez anos de idade já era cobiçada, imagina nos dezoito!

Segundo porque estou com fome.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Indomável - I - Lar doce lar


Na mesma velocidade em que um raio corta o céu, a dor daquele cassetete encontrando meu cotovelo explode em milhares de fragmentos através de meu corpo. Ouço o eco repetido do meu grito ecoando pela prisão e desmonto completamente, perdendo todo o controle das pernas, bexiga e anus. Aqui estou como uma criança de cinco anos, cagada e mijada rolando de dor no chão.

A agonia de não saber se é dia, noite ou eternidade; a luz ofuscante perfurando os olhos eternamente; o ranger incessante das botas no piso congelante e mesmo os urros dos prisioneiros se tornaram a paz e calma que sempre sonhei quando, de encontro ao chão, senti e entendi o que acontecera.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A Cor da Morte.



Quando vi a face dela, pálida e seca como a bruma, me dei conta de que a morte não se veste de preto, ela é branca, silenciosa e sutil. Não há nada de escuro na morte, obscura é a vida negra e obscura, já a morte é claramente o fim de tudo. 

A visão que temos do céu é um lugar de brilho intenso onde a estrela da manhã invade cada canto que enxerga os olhos, se é que olhos e todo o resto de nossos corpos carnais existem nos céus. Não nos céus tudo é estridente de tão pálido. Tudo reluz, tudo reflete, tudo é tão claro. Nossas almas, brancas, saem de nossos corpos em direção ao brilhante céu. E se há céu, há o inferno onde tudo também brilha, mas na cor da lava laranja. 

É isso, tudo o que brilha demais é morte. Veja só, como os insetos seguem cegamente à luz que os mata! Basta acender uma fogueira em um acampamento que milhares de seres tolos se jogam na fornalha. Preste atenção em como mosquitos se jogam em suas cadeiras elétricas bastando apenas uma luz azul intensa para chamar sua atenção! 

Entrei em meu carro, liguei o motor e tomei o caminho para casa pensando no que aquela face pálida me ensinou que a luz é morte! E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz, já diz o livro sagrado. Alias, sempre tive medo de anjos e suas espadas de fogo; Sempre tive medo da religião que nos ilumina, mas causa as maiores guerras do mundo. Sempre tive medo de uma explosão atômica e da energia brilhante que irradia dela e mesmo tendo medo de uma explosão solar, que nos aniquilará, amanhã ou daqui há dez milhões de anos, sempre achei belo o poder destrutivo de uma supernova. 

E o que é a vida, senão escuridão? Não sabemos de um segundo de nossas vidas; não sabemos o que acontecerá na próxima curva; não sabemos qual será nosso próximo passo, onde estamos e para onde vamos. Sei que nada sei, não é isso? Sabemos que somos cegos e nunca notamos isto. Escuridão é vida! É na escuridão da noite que nossos corpos se aquecem em outras carnes, é na escuridão da noite que nossa mente descansa e que nos encontramos em paz em nossos sonhos. Durante a escuridão recuperamos as forças para enfrentar a luz, a morte em doses diárias e rotineiras. É na escuridão que conseguimos esconder todos os nosso medos e anseios do mundo e somos enfim quem realmente somos. 

Entro em um túnel e tenho minha ultima visão sobre o assunto. O final da vida não é o túnel negro no qual andamos infinitamente, mas sim a luz intensa que brilha ao seu final. Nós andamos na escuridão e encontramos lá no final a iluminação que nos faltava. É isso! 

Proponho isto: Façamos o branco a cor oficial da morte! Afinal, tudo o que resta de nossos corpos quando morremos são nossos ossos, que são, espante, brancos! Vestiremos em nossos velórios a mesma cor que usamos para celebrar a morte de um ano! Branco! Temamos o branco e celebremos o preto! O preto é sobretudo a marca da vida! 

Sim, tudo ficou claro agora! Não só pelas idéias que enfim iluminaram meus pensamentos, mas também pela luz branca do caminhão que perdeu o controle no fim do túnel, invadiu a contramão e chegou tão perto que senti entrar nela.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O Enfermeiro Negro.



Dedico este conto à Alisson Zimermann, pois roubei a idéia dele!

- Você nunca pensou em fazer isto? – Já havia pensado milhões de vezes à esta tendencia viciosa que nossa mente tem de desistir de tudo, mas havia resistido à esta tentação. – Nunca desejou largar tudo o que tem para trás e se jogar?
A tentadora proposta não veio do velho barbudo que batia na janela do meu carro às sete e quinze em ponto em busca de suas moedinhas, o que me surpreendeu: Jovem e bem vestido a única coisa que entregaria as idéias do sujeito era a sua cara de cansaço a barba de ontem e olhos vermelhos, talvez de drogas, talvez de choro ou mesmo ambos.
- Eu já. Cansei de sentar aqui e ficar apenas olhando o quão insignificantes somos. – Seu olhar manteve fixo no reflexo que a lua produzia na água, mas o corpo vacilava. – Somos que nem uma gota de aguá no oceano. – Cuspiu para pensar.
Eu também tinha cansado, cansei do meu emprego de enfermeiro. Cansei de ver gente morrendo em minhas mãos e estava determinado a não permitir mais uma dessas no meu turno. Tudo bem que não estava a trabalho, estava apenas caminhando por aí, Mas eu sei o que esse jovem vai fazer, ou pelo menos o que pensa fazer.
Pensei em dizer algo, mas é provável que só piorasse a situação. Aproximei um pouco e cuspi observando a queda demorada, tanto do cuspe, quanto da lágrima que brotou dos olhos e terminou nas mãos que ele mordia inquietamente. Ele olhou em meus olhos, mas deixou o olhar cair na borda do chão, talvez em meus sapatos escuro, ainda manchados do sangue da ultima paciente.
- Esse mundo é injusto – riu chorando – É uma piada de péssimo gosto, só pode ser – A mente dele compreendeu a peça que a vida lhe pregava. Sim, se eu estou aqui é porque algo vai acontecer. É inevitável. Como somente aqueles que estão preparados tem tato comigo, toquei suas costas e senti um arrepio cortar meu corpo. Ele é mais um dos meus.
Sou o princípio do fim e atendo ao último chamado humano. Tranquilizo meus pacientes em seus últimos momentos, como um enfermeiro que prepara o paciente para cirurgia. Em breve o médico virá separar corpo do espírito. O que me resta senão tranquilizar aquele que está prestes a morrer? Ao mesmo tempo, o que me resta dizer à um suicida ao qual já tenho certeza que morrerá?
Mal percebi que ele já estava de pé, inclinando o corpo pra frente. Como posso ser tão idiota, não falei nada com o cara, nem notei o que ele estava fazendo! Ele fechou os olhos e respirou fundo, caramba é agora.
Ele mal desfez os nós com o qual seus dedos se laçavam ao corrimão e eu já saltei em sua direção agarrando o braço direito. Fui puxado com intensidade, batendo os primeiros ossos da costela no mesmo corrimão. Tinha o homem pendurado em minhas mãos, mas ele escorregava urrando socorro.
Cada centímetro de tecido que deslizou de minhas mãos, cada linha a mais que perdia daquele homem era uma navalha na minha alma. Quando a camisa acabou e comecei a puxar sua pele, o desespero pareceu correr mais forte em nossas veias.
Inclinado e com as mãos cansadas, eu vi aquele corpo balançar freneticamente, tentando sem sucesso subir os pés na ponte novamente. Cada vez mais longe de mim, senti que perderia aquele homem pra sempre até que sua mão direita conseguiu se firmar em mim.
Um pouco mais racional, pedi para que ele se segurasse firme, assim como tentasse segurar com sua outra mão em mim. – No três eu te puxo. Um, dois, três. HUMPF…
Ele subiu o suficiente para conseguir colocar o pé esquerdo na ponte, onde depois de um bom esforço, conseguiu uma ridícula, mas já suficiente estabilidade. Respirei um pouco mais forte, já me preparando para o esforço de tentar levantar e segurar o jovem.
Após ficar de pé, do outro lado do corrimão, abracei-o tentando dar segurança para ele pular para o lado de cá do corrimão. Ele passou uma perna, depois a outra, tropeçou e caiu no asfalto. O farol iluminou sua face antes de acertar-lhe com um golpe seco e preciso. Seu cérebro enfeitou de rosa suave o asfalto e seus olhos ainda estatelados, jogados no canto da rua, me olhavam vermelhos pedindo piedade.
Sim, se eu estava aqui é porque algo ia acontecer. Era inevitável. Somente aqueles que estão preparados tem tato comigo. Se não fosse, nunca teria tocado em seu corpo ou sentido seu desespero me gritar: Ele era mais um dos meus.

Apresentação...

O que lhes causa desconforto? Quais são as coisas, fatos ou pesadelos que são capazes de fazer com que sintam medo?
Todos, absolutamente todos os seres humanos tem medo de algo. O medo é uma reação natural que permite que sobrevivamos ao perigo. Não ter medo é quase uma sentença de morte pois, cedo ou tarde, iremos confrontar alguma coisa capaz de nos infligir dor, capaz de travar nossas pernas e pensamentos e, então, será tarde demais. Respeitar esse instinto tão natural é uma questão de sobrevivência.
Mas o que há de tão atraente em temer? Por que lemos, assistimos e pensamos tanto nisso? Há um certo masoquismo em nós, latente e que precisa ser periodicamente alimentado? Estar próximo da morte é um vício? Nós acreditamos que sim. Na verdade, nós sete acreditamos nisso tão piamente que resolvemos compartilhar nosso vício com vocês.

Edilton Nunes (Stephen King Brasil), Ednelson Jr (Leitor Cabuloso), Franz Lima (Apogeu do Abismo), Karen Alvares (Por Essas Páginas e Papel e Palavras), Mano (Profundo Desenho e Masmorra Cast) e Rainier Morilla (Roda de Escritores), além de um escritor convidado a cada semana. Nós seremos os responsáveis por fazer com que seus corações batam mais rápido... ou parem. 

Durante os 365 dias do ano nós iremos lhes oferecer contos de terror, suspense e sobrenatural. Um ano inteiro de medo. Um ano convivendo com seus mais profundos temores. E então, estão preparados? Sejam bem-vindos a esse ambicioso projeto, mas não se esqueçam de espalhar a notícia. Temos muito a contar e sabemos que muitos querem ouvir. Divulgue e faça com que nossa rede de pesadelos se espalhe por todas as mentes e corações do mundo. 

Beba de nossa fonte... e saibam que estão vivendo um momento histórico: o nascimento da mais tenebrosa experiência literária do país.