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sábado, 11 de maio de 2013

Por Entre as Rosas.


Por: Ramon Giraldi



O raio de sol atravessou as frestas da janela, atingindo os olhinhos de garota que dormia. Ela torceu o rosto, fazendo uma careta devido à luz. Em seguida veio um longo bocejo. Tentou abrir os olhos, mas precisou esfregá-los com as mãos, antes de conseguir abri-los totalmente.

    No segundo seguinte, pulou da cama, jogando o edredom para o lado; era como se sua preguiça matinal estivesse acabado em um segundo. Cambaleou até a janela e abriu com pressa. O sol brilhava suave no céu, parece ser um lindo dia, mas ela estava pouco interessada no quão bonito ou feio o clima poderia estar. Seus olhinhos correram pelo chão de grama e pela cerca de madeira branca. A cerca era formada de tabuas brancas enfileiradas. Rente à cerca, uma roseira de rosas vermelhas da sua mãe, e do outro lado, a casa de Jaqueline, sua vizinha.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Sozinho


Em memória de Katiely - Manda um beijo pro pai!

Meia noite de um domingo qualquer. Fumo um cigarro qualquer e viro um copo de Scotch com apenas um único e solitário gelo. Admiro com ódio um quadro de Nova York onde a multidão de táxis amarelos admira a Marilyn Monroe e a Estátua da liberdade. Há um contraste tão grande no que sou e no que quero ser. Diante dessa multidão sou apenas como aquele pequeno gelo derretendo no copo.

Verto o restante da água derretida deixando parte do gelo. Levanto-me para ir para a cama, mas o álcool não deixa. Antes de atravessar a sala caio de bruços no chão e sinto o coração gelar. Uma pequena dor rasga meu peito e encosta gentilmente no órgão vital. Estou tendo uma parada cardíaca.

Ainda com dor e sentindo o braço esquerdo tilintar um formigamento incomoda, viro-me para golar umas doses de ar. Estou sozinho em casa sentindo a vida escapar pelos dedos como a areia ou água  tanto faz o clichê. O que importa é que preciso de ligar urgentemente para a emergência. Minha vida precisa disso.

sábado, 9 de março de 2013

O que a terra levou. Parte final.

Por: Rodrigo C. Cittadino.
Dr. Ilusão estava recostado contra a barricada improvisada na frente de seu laboratório. Pálido e fedendo a éter e a pestilência, estampava no rosto as pestanas cerradas e um esgar de asco que semelhava curiosamente um sorriso. O rapaz lhe sorriu de volta: com ele morto não teria de lidar com barganhas inconvenientes. Mas achava – ou uma parte ainda escrupulosa de si achava – que não devia ignorá-lo ali, jogado, à mercê das aves carniceiras. Carregou-o para dentro do laboratório. Pegou o que necessitava: seringas e frascos com a Substância, bisturi, estilete, colher e uma lâmpada-acendedora, que produzia fogo. Depois empilhou mais barris e caixas junto à porta do local de trabalho do doutor. Assentiu satisfeito: o túmulo estava fechado. E rumou para o cemitério, para escancarar outro túmulo.

Atravessou ruas familiares, as mesmas que tinha atravessado meses antes, quando teimava em depositar flores sobre a cova de Helena. As flores estavam mortas, ressequidas como a flora daninha das redondezas, mas, afinal, o que contava era a intenção – e a intenção devia bastar. Com o tempo tinha parado de visitar sua amada, por causa da angústia, do medo, do cansaço, da preguiça. E porque a mulher inerte e de pele desbotada sob a terra nada mais era do que uma imitação fajuta de Helena, que sempre tinha esbanjado vivacidade. Agora Oto caminhava para uma última visita, a que traria sua arduamente planejada reconciliação.

Cuspiu para expurgar os maus agouros. As Criaturas na estrada lhe eram familiares também, e ele, a elas. Nenhuma o incomodou, nenhuma se desgarrou dos montículos em que disputavam a carne dos últimos tombados. Oto raciocinou que, se aquela gente tinha desfalecido justo no extremo oeste da cidade – recanto desolado, sem casas à vista, sem abrigo contra os predadores senão um ou dois troncos retorcidos, inatingíveis para mãos e pés debilitados –, então deviam estar no curso de uma procissão desiludida para o cemitério quando o sopro fatal tinha irrompido de suas traqueias ranhosas e por entre seus lábios rachados. Havia algo de remotamente digno em morrer no cemitério. Soava civilizado resgatar antigos valores e ritos que tinham caído em desuso quando, um dia, as entranhas do solo tinham superlotado em função do número exorbitante de cadáveres. Não obstante, muitos enfermos ainda buscavam consolo em seus antepassados e, às portas do sono eterno, se arriscavam para conquistar uma vaga no leito deles; embora fosse péssimo o cheiro, parecia correto agir assim. O rapaz, todavia, não estava indo render-se à peste.

sábado, 2 de março de 2013

O que a terra levou. Parte I de II

Por: Rodrigo C. Cittadino

Oto trincava os dentes enquanto as ratazanas pretas roíam-lhe as unhas dos pés. Faziam-lhe cócegas. “Malditas Criaturas.” Por um instante se arrependeu de ter desovado suas botas num lixão, mas elas já pouco lhe serviam, esburacadas que estavam e com as solas pela metade, e afinal não teriam durado por muito mais tempo. Os animais infames as tinham mordiscado a cada vez em que ele tinha se atrevido a deixar a casa. Provavelmente mal restava couro na vizinhança ou mesmo no raio de uma vintena de quilômetros. Nem sequer calçados. As Criaturas consumiam tudo com sua voracidade desvairada.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Victor (Ou: “Não perca as crianças de vista”.)


“Mãe, eu preciso desligar agora. Tenho que ir. Tem algo acontecendo. Avisa a Rita.”, e Victor sentiu que a resposta de mãe a isso tinha sido dolorosa. Ela nunca tinha concordado com a carreira que ele escolheu e, agora, as coisas estavam ficando piores a cada dia, literalmente. “É como em O Espírito do Mal. Ela tem razão.”, refletiu enquanto corria em direção à viatura. O sargento Almeida fazia gestos muito violentos, indicando a urgência da situação.

“Parece que rolou uma desinteligência muito séria na Praça da Independência, cabo. ‘Bora logo.”, e já foi arrancando antes mesmo de Victor estar com todo o corpo dentro do veículo. Contudo, a praça ficava a menos de um quilômetro dali – era algo mais grave do que aparentava, pelo jeito. E isso era péssimo, com certeza.