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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Miosótis - parte dois de dois

Este conto encerra o "Ciclo do Verde". 


Há mais tempo que se pode imaginar e em um lugar que não pode ser descrito, ela podia descansar. Dormir. E era bom. Não existia, ainda, a algaravia e a movimentação frenética que, tempos depois, os seres de pelo causaram. Ela nunca soube explicar porque permitira que isso viesse a acontecer... Provavelmente, por acreditar que seriam um novo divertimento, no futuro. Afinal, atender aos pedidos e lamúrias grunhidas por seus semelhantes – “semelhantes”, mas inferiores – já estava ficando cansativo...

“Divertimento... Divertimento! Divertimento, tramoia e dor para esse pobre e velho corpo!”, gritaria, cuspindo-se de fúria.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

"Miosótis" - parte um de dois


Antes de ler o conto abaixo, talvez seja mais interessante, antes, ler BrendaVictor , Campeão , o da tempestade e a coletividadeEmbora as histórias sejam fechadas, todas fazem parte do mesmo processo... Assim como os próximo conto deste autor. 





Já eram oito semanas sem tomar um banho. E não teria como, tão cedo... Desde que deixara o sítio da avó, e veio viver com a mãe e “o novo padrasto rico”, não podia mergulhar em um igarapé quando bem entendesse. Esse lugar “maravilhoso” não possibilitava “maravilhas”. Contudo, para um adolescente procurado pela polícia e sem recursos, estava se virando bem... Até fez seu primeiro amigo – o único, nesses últimos seis anos.

Fez.

Enquanto tentava evitar a polícia e tudo mais, escondeu-se entre os proscritos e doentes. Quando foi para lá, na verdade, avisaram-no muitas vezes para não ir a certas partes da cidade e não se aproximar de pessoas com certas características. Pessoas doentes, que precisavam de ajuda, mas odiadas por, simplesmente, existirem – depois, como todos os outros, ele descobriria que ela saberia usar isso. Entre esses, nos escombros e na sujeira, conheceu o “moleque doi’de pedra”. Com ele, aprendeu o suficiente para se virar nas ruas. Era incrível como uma criança que mancava permanentemente pudesse ser tão autossuficiente, um sobrevivente... Assim, pouco antes do amiguinho ser tocado por ela e quase matá-lo, ganhou um presente de uma criança que nunca teve nada.

Ele ainda choraria por Matheus.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

"O instinto é coletivo."


Antes de ler o conto abaixo, talvez seja mais interessante, antes, ler BrendaVictor , Campeão e o da tempestade. Embora as histórias sejam fechadas, todas fazem parte do mesmo processo... Assim como os próximos dois contos deste autor. 





Tudo que pode dar errado dará. A situação era urgente e, para variar, estava sem seu carro pessoal – três dias antes, o radiador tinha, praticamente, derretido –, sem uma viatura e, segundo sua mãe, não poderia envolver Rita nisso – ou seja, sem carona. “É um problema de família, literalmente”, advertira dona Carmen. Para piorar, não frequentava o bairro onde passou a infância desde que entrou para a PM – mesmo à paisana, podia ser perigoso. Quando foi possível ingressar uma faculdade e estudar Medicina, se afastou ainda mais daquela realidade... Porém, aquela tempestade levou tudo isso embora; algo horrível estava acontecendo e não podia continuar negando.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

"Será que chove?"


Antes de ler o conto abaixo, talvez seja mais interessante, antes, ler Brenda, Victor e Campeão. Embora as histórias sejam fechadas, todas fazem parte do mesmo processo... Assim como os próximos três contos deste autor. 





Os telejornais, as revistas semanais, os sites de notícias... Até mesmo os programas de “variedades”... Todos falavam e queriam mostrar um pouco mais sobre a “terrível tragédia” que assolou aquelas pobres almas. alguns, quando a pauta estava fraca demais para chamar muita atenção, desenterravam acontecimentos similares com mais de cinquenta anos... Ou traziam suas “celebridades” com uma afinidade remota com o lugar para falar sobre aquela infelicidade ímpar – sem mencionar, claro, que a afinidade era algo como um primo distante que morava na cidade vizinha. Contudo, nenhum deles mostrou o que se seguiu.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Campeão



As manhãs eram a pior parte do dia. Eram solitárias e vazias. Mesmo quando aquela desconhecida que aparecia frequentemente estava na casa, não havia nada que fosse digno de nota. Os muros altos impediam o contato com qualquer outro que, por acaso, poderia estar por perto – e garantir alguma emoção. Por isso, dormir e esperar eram as opções. Dormir, esperar...

Só que isso estava mudando. Não saberia precisar quando, mas era um fato recente: em uma noite, a sede o despertou e, logo, levantou-se para saciá-la. No caminho, algo pareceu errado, fora do lugar... Invadindo. Assim, caminhando de um lado para o outro, procurando em todas as direções possíveis, não conseguia encontrar o que gerava aquela sensação. Não demorou para que algo selvagem tomasse seu espírito. Uma ameaça, mesmo que suposta, a tudo que ele prezava não podia ser ignorada. Assim, passou todo o resto da noite em alerta... Contudo, nada ou ninguém se mostrou.

Ainda.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Victor (Ou: “Não perca as crianças de vista”.)


“Mãe, eu preciso desligar agora. Tenho que ir. Tem algo acontecendo. Avisa a Rita.”, e Victor sentiu que a resposta de mãe a isso tinha sido dolorosa. Ela nunca tinha concordado com a carreira que ele escolheu e, agora, as coisas estavam ficando piores a cada dia, literalmente. “É como em O Espírito do Mal. Ela tem razão.”, refletiu enquanto corria em direção à viatura. O sargento Almeida fazia gestos muito violentos, indicando a urgência da situação.

“Parece que rolou uma desinteligência muito séria na Praça da Independência, cabo. ‘Bora logo.”, e já foi arrancando antes mesmo de Victor estar com todo o corpo dentro do veículo. Contudo, a praça ficava a menos de um quilômetro dali – era algo mais grave do que aparentava, pelo jeito. E isso era péssimo, com certeza.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Brenda



“O que a gente precisa é de um cara decente que lute por nós”, a voz ecoava para as duas únicas pessoas que ouviam todo o relato anterior – e mais um garoto; aquele que sentava sozinho, no fundo, ouvindo música e fazendo origamis; mais um “pária”. Brenda acostumou-se em ficar por todo o intervalo dentro da sala de aula. Para ela, era perigoso e infeliz ir para o pátio, mesmo nesta altura do Ensino Médio... E Luana e Francine a acompanhavam pelo mesmo motivo.