Seus cachos dourados costumavam brincavam com o vento, seus olhos verdes ainda enxergavam o mundo com a doce inocência e ingenuidade que uma criança de dez anos tem. Era linda a minha filha querida, meu maior amor e paixão.
Lembro-me de sua jovialidade, do seu sorriso sempre aberto pronto para receber o mundo com aventura e alegria. Lembro de suas brincadeiras no parque ao lado de casa onde ela sujava o seu vestido rosado favorito. Presente da mãe já ausente. Lembro como ela sentada no balanço, mexendo as pernas para frente e para trás conseguia encher minha vida da alegria que a falta de sua mãe deixou.
Chamamos de vida é o que planejamos enquanto a vida acontece, na verdade não há escolhas, nunca houve, nem nunca haverá. Assim que o destino decidir ele te joga em qualquer latrina e lá nós enfim conhecemos a realidade.
Foi na semana
passada que me atrasei, cheguei em casa uma hora mais tarde que o de costume. Ao
entrar, chamei minha filha, como sempre fiz - "Julia, o papai chegou." - E ela viria
correndo me dar um abraço, contaria-me sobre o seu dia, sobre a escola, os amigos, a sua vidinha sem problemas ou dificuldades aparentes. A Josefa, que
cuidava dela me daria boa noite e iria embora, enquanto eu permaneceria com
aquela bela garota em meus cuidados.
Ela era um anjo, um
anjo vindo dos céus para me dar alegria, mas naquele dia não. Naquele dia elas não responderam meu chamado. Encontrei uma mancha vermelha na geladeira escorrendo ao chão até encontrar a pobre mulher com uma ferida
mortal na cabeça. Junto ao corpo e pedaços rosados de seu cérebro havia um martelo
encravado em sua fronte. Seus dentes estavam quebrados, havia marcas rocheadas nos braços e mãos, assim como em toda a sua face desfigurada e quebrada.