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segunda-feira, 29 de julho de 2013

A outra parte de mim (VIII)

  
    Thais e Tatiana estavam boquiabertas; aquele rapaz do sonho, o tal príncipe, era ele ali na frente delas.
  - O que...o que significa isso? - gaguejou Thais, recuando.
    O rapaz bonito desceu um lance de degraus, aproximando-se um pouco mais.
  - Eu sinto muito que tenhamos que nos rever numa situação dessas, depois de tanto tempo.
   As meninas fizeram cara de confusas. O que ele queria dizer com "tanto tempo"? 
   Dentro dos tubos de vidro, as ainda incompletas Sirens se remexiam, de olhos fechados, como se tivessem tendo pesadelos. Os olhos da pequena giravam pelo local; era muita coisa pra uma só mente, ela se sentia totalmente perdida.
   - O que quer dizer com "tanto tempo"? - perguntou a mais velha, arriscando um passo à frente.
   O suposto príncipe franziu a testa e fez cara de desapontado. Soltou um longo suspiro e falou:
   - Ah Garuda... justo você, minha sentinela favorita. Me quebra o coração te ver dessa forma...
   - Vai se foder cara! que historia é essa?
   Ela quis avançar, mas foi segurada por Fred. Protestou e tentou se soltar, mas ele não a deixou.
   - Me solta! a doido? o que ta acontecendo aqui? quem é esse cara e porque ele diz que em conhece?
   Fred não respondeu. Continuou a segura-la por trás, em silencio.
   - Obrigado Krey. - disse ele. - Caminhou até o cientista e sem olha pra ele, disse: - Eu te disse Dr. Barnes, Krey é leal a mim. Era só uma questão de tempo até o garoto digerir a ideia e aceitar seu lugar.
   - Porque ele tá te chamando de Krey?  Fred! fala comigo! o que tá acontecendo?
   Mais uma vez o rapaz bonito suspira tristemente.
   - Eu não aguento isso. Vê-la dessa forma me magoa muito. Depois de todos esses anos, todos esses experimentos... - olhou a sua volta, para as Sirens - recriando esse monte de copias inuteis para finalmente chegar a você... e ainda assim, um fracasso.
  - Eu sinto muito senhor Abssalis. - disse o velho cientista.
  - Não é sua culpa Dr. Barnes. Meu projeto ainda é grande demais para esse mundo e para a atual tecnologia. Mas fico satisfeito em saber que ao menos Krey está comigo mais uma vez, certo Krey?
  Olhou diretamente para Fred.
   - Sim, príncipe Abssalis. Eu estou com o senhor, pela velha glória de Atlantis. Deixe as garotas irem embora. O despertar falhou com elas mas não precisa mata-las. Ainda podemos tentar desperta-las daqui alguns anos.
    - Não Krey. Eu não suporto viver sabendo que meus amigos mais queridos estão vivendo em corpos humanos, apagados da existência. Mate-as Krey, por favor, quanto mais cedo elas morrerem, mais cedo...
     - Não vou mata-las. Chega de mortes, já morreu gente demais. Deixe-as ir.
     Thais estava perplexa; Fred estava conversando com aquele homem, e estava aceitando ser chamado por outro nome. Então ele sabia mesmo o que estava acontecendo, ele sempre soube, aquele tempo todo.
    - Você está desobedecendo uma ordem direta minha Krey?
    - Você ja tem o que queria, não precisa...
    - O QUE EU QUERIA? - grita ele, cortando Fred - O que eu queria era meus amigos comigo mais uma vez! mas só você voltou! Olhe pra essas duas! não são nem a sombra do que costumavam ser! Garuda era leal a mim, você lembra? o que ela tem de parecido com essa menina estranbelhada aí? NADA! Falhei Krey, eu falhei com vocês todos, mais uma vez! Mais uma vez depois de tantos anos!
   O príncipe tomou ar, se recompôs e continuou, mais calmo:
    - Mas está tudo bem. O reconstituidor mental está quase perfeito. Funcionou em você, trouxe você de volta. Wukari já foi morto pelos Frogs, e essas duas também já estariam, se você não estivesse ajudando-as. Estou disposto a perdoar seus erros se as matar agora. Não me force a te matar, velho amigo.
   Fred sentiu Thais amolecendo em seus braços. Iria morrer assim? como se fosse um rato de laboratório que perdeu a utilidade?
    Tatiana continuava quieta, de cabeça baixa.
    - Então vai ter que me matar, meu príncipe. - soltou Thais - Chega de mortes, essas pessoas desse mundo não precisam pagar pelo nosso passado. Acabou! Se não tivesse sido um covarde com deveria ter sido bravo, nada disso teria acontecido. Pode me matar, eu não quero mais servir o covarde sem princípios que você se tornou. 
    Triste, o principe tirou do bolso um tipo de pistola e apontou para ele.
    - Você... como se atreve a me culpar por isso tudo? Atlantis foi destruída. Todos morreram Krey, Todos. Eu consegui preservar as almas de vocês para que um dia pudéssemos ficar juntos mais uma vez... e é assim que me agradece? me chamando de covarde e sem princípios?
    - Olhe a sua volta, Abssalis. Quantas crianças você matou nessa sua brincadeira? Crianças. Pequenas e frágeis crianças. O homem bom e gentil que você era, morreu com nosso mundo. Tudo que sobrou do meu amigo, é uma alma retorcida pelo medo e pela raiva. Meu juramento não foi com tal homem. Não devo por que obedecer.
   - Entendo. Não em deixa outra opção. Adeus Krey.
    Uma bandeja médica voou até o príncipe, arrancando a arma de sua mão. Todos olharam para trás e viram Tatiana, de cabeça erguida, olhando para Abssalis, com firmeza.
   - Tati...? - perguntou Fred.
   - Meu nome é Wendigo... e eu me lembro de tudo.
   Abssalis arregalou os olhos. Então, Wendigo havia despertado no corpo da menina.
   - Tati? - perguntou Thais indo ate ela. - o que você ta falando?
   Tatiana gentilmente a afasta, sem tirar os olhos do príncipe. A voz dela estava firme e forte e seu olhar era igualmente firme.
   - Majestade, eu concordo com Krey - disse a pequena - passou dos limites. As pessoas desse mundo não podem ser massacradas a seu bel prazer só porque tem medo de ficar sozinho.
    - Wendigo! você também está nessa de poupar os humanos? o que há com vocês dois? E quanto à glória de Atlantis?
    - Acabou Atlantis! - gritou ela - Se precisa mesmo continuar com seu massacre à essa raça, pelo menos nos deixe fora disso! Você não sabe o que se passa pelos corações deles, porque você nunca esteve na pele de um! Mas o medo... a dor... tudo neles, é bem real pra nós! Não importa quantas vezes você nos reviva e nem por quantos corpos passaremos, nós não vamos nos unir a você e defender suas ideias doentias.
   - Eu concordo com Wendigo - disse Fred - Se Wukari e Garuda estivessem aqui, pensariam igual. Nós fomos seus guardiões. Amávamos nosso mundo e nosso povo, mas agora acabou. Você mesmo disse, todos morreram. Pare de sujar de sangue o nome de Atlantis. Aceite que acabou. Faço das palavras de Wendigo, as minhas: não importa quantas vezes tente me despertar, eu não vou servi-lo. Pode me matar se quiser.
   Thais estava perdida: agora até Tati estava entendendo tudo, menos ela? ela deveria ser alguém chamada Garuda? e Fred se chama Krey. Tatiana se chama Wendigo?
   - Mas o que que ta acontecendo aqui... alguém me explica, por favor... - chorou ela, mais pra si mesma do que para mais alguém.
    - Não! isso não pode estar acontecendo! eu fiquei séculos nesse mundo, aguentando esse humanos e pra que? pra isso? esse tempo todo, a alma de vocês foi de corpo em corpo, reencarnando, enquanto minha magia sumia! eu tive que esperar esse mundinho evoluir o bastante para poderem recriar algo semelhante à nossa tecnologia, e agora, que o recuperador mental está pronto... vocês se rebelam contra mim!
    Abssalis correu até a pistola caída e a pegou. Apontou-a para Tati e Fred, em desespero. Ele continuava a repetir " não não não!" o tempo todo.
    - Ele ficou louco. - disse Fred. - Fique atenta...digo, atento...
    - Ainda sou eu Fred. Sou Tatiana e Wendigo.
    - É bom não ser mais o único a se lembrar.
    - O que faremos com ele?
   O príncipe apontou a arma para a própria cabeça.
    - Abaixe isso Abssalis. - falou Fred.
   - Eu não tenho mais motivo para viver. Eu fugi e sobrevivi esses anos todos por vocês. Se não querem aproveitar o presente que lhes dou e dispensam minha companhia, então, eu não preciso mais viver. Vou encarar meu destino, com você mesmo disse Krey. Eu só lamento não ter instalado um dispositivo de autodestruição nesse lugar. Seria um ótimo final, como nos filmes, não acham?
   - Abaixe essa arma seu idiota! não vai mudar nada se matando! - gritou Tati.
   - Não vou. Mas não ligo mais.
   Atirou.
   A parede branca atrás dele foi manchada de sangue. O príncipe Abssalis de Atlantis, jazia morto no chão, com a têmpora estourada.
***

   - Difícil acreditar... - disse Thais, ainda em choque. -Então eu fui alguém chamado Garuda, um dos quatro guardiões de um mundo chamado Atlantis que não existe a séculos... e minha forma de águia é na verdade a verdadeira face de Garuda? meu outro eu?
   - Sim - concordou Fred - e por você não se lembrar de quem tinha sido, ele queria te matar, assim sua alma renasceria em outro corpo e ele poderia mais uma vez tentar te despertar com o recuperador mental.
    Estavam num tipo de sala de espera, naquele mesmo andar. Thais estava largada num sofá, ainda em choque, tentando engolir aquilo tudo. o Dr. Barnes estava ali num canto em total silencio. 
    Tatiana, em sua forma de lobo, entra na sala, carregando duas mochilas cheias de coisas. Ela solta as mochilas no chão junto com outras três
     - Acho que eu pai falou a verdade, não tem mais ninguém aqui. Isso é tudo que pude encontrar de útil. - apontou para as 5 mochilas no chão.
     - O que fazemos agora? - perguntou Thais, chorando.
     - O dr. Barnes...  meu pai disse que há um barco nas docas ainda. O ultimo que sobrou desde que todos fugiram. Vamos embora.
     - Pra onde? não temos casa, não temos nada! e porque vamos levar seu pai cientista maluco junto?
     - Precisamos dele para o barco. Escuta, vamos ficar bem. Recolhemos suprimentos e coisas de valor desse lugar. Vamos voltar para a civilização e vamos fazer nossa vida nova, só eu, você e a Tati.
     - Eu e Fred? ou eu e Krey?
     - Nada em mim mudou. Desde que me conhece, sou assim, ainda sou o mesmo de antes. A Tati ainda é a mesma... ou quase.
     - Ainda sou uma menininha chorona de 14 anos... que as vezes vira um lobo cinzento, antigo guardião de Atlantis. Só isso.
       A menina mais velha olhou para todos ali presentes. Só ela ainda não tava aceitando aquilo tudo?
     - E as sirens? o que elas são? e o que vai ser delas?
     - Elas foram uma tentativa de te clonar... tentar recriar Garuda, artificialmente, dentro do corpo de outra pessoa. não aconteceu bem como o esperado, mas Abssalis soube aproveitar o resultado. Meu pai desligou os aparelhos que as mantinha vivas. Elas vão simplesmente dormir e nunca mais acordar.
     Ela se encolheu no sofá, abraçou os joelhos e chorou. Fred a abraçou, tentando acalma-la.
     - Me promete uma coisa? - perguntou ela, depois de chorar um pouco.
     - O que?
     - Que vamos ficar bem.
     - Prometo.

  Naquela mesma tarde, os quatro estavam embarcando para sumir daquela ilha. O sol se punha enquanto a ilha ficava cada vez menor. estavam todos nervosos. conseguiriam se adaptar a viver entre pessoas novamente? só com o tempo saberiam. Thaís estava pensando nisso tudo, observando a maldita ilha sumir no horizonte. Tatiana se aproximou dela.
   - Tá tudo bem?
   - Eu tava pensando... eu esperava algo bem diferente...
   - Do que?
   - De como tudo acabaria. Todos esses dias eu pensava em como seria a verdade... seriamos, robôs? aliens? vitimas de experiências? mutantes? mas não. Nós somos reencarnações de guardiões antigos.
   - Eu também pensava nessas coisas, mas... a mente de Wendigo despertou na minha, e quando eu e ele viramos um só, tudo ficou claro. Não fique chateada por não se lembrar. Eu preferia não lembrar dos nossos amigos morrendo e nosso mundo sendo destruído.
   - Obrigada...

    O destino não era certo para aqueles três jovens. Pra onde quer que vão, levaram consigo, memorias de dor, terror e sofrimento. Suas vidas eram um mistério, mas seja o que for, eles estão certo que vão superar, pois já viveram coisa muito pior. 
   Tati olha pela ultima vez para a ilha. Será que seus pais ainda pensam nela? qual seria a reação delas ao voltar a vê-la? seria sensato tentar voltar pra eles ou seria melhor simplesmente fazer como disse Fred; seguir em frente criar uma vida nova. Seja como for, Wendigo estará com ela, e não há nada mais para temer.


FIM.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

A outra parte de mim (VII)


  Dormir do lado de fora não era fácil. Barulho estranhos, insetos, pedras... Não que ela tivesse muito luxo em sua antiga cela... Os restos da fogueira ardiam em brasa ao seu lado, usando um tronco como travesseiro, ela esticou o corpo no chão e o deixou relaxar. Olhou para o céu; estava limpo e cheio de estrelas. Em algum lugar, seus pais também olhavam as mesmas estrelas. Será que ainda pensavam nela?
    Já tinha mais de dois anos desde o incidente na escola. Lembra-se melhor agora que conseguiu controlar melhor a besta em si. Dois anos é tempo demais; cresceu muito desde aqueles dias, não só na altura; sentia-se toda crescida. Sentiu raiva.
    Por dois anos, esses caras, sejam lá o que são eles, a sequestraram e a fizeram coisas horrendas com ela... mas, e se ela sempre tivera sido um monstro? e se o motivo de estar nesse pedaço de terra esquecida fosse exatamente ser um monstro? Caiu no sono, imaginando os horrores que veria no dia seguinte.
    
    Viu uma cidade. Era linda, quase toda feita de prata, com cachoeiras cristalinas por toda parte. As pessoas vestiam roupas de varias cores e pareciam felizes. Um casal de jovens caminhava por entre um jardim cheio de rosas vermelhas, ambos eram muito bonitos e pareciam apaixonados. Quando estavam prestes a se beijarem, um clarão os cegou, seguido de uma explosão. As rosas, o jardim e todos ali presentes ardiam e queimavam. A moça gritava conforme seu rosto derretia como geleia. olhou para as próprias mãos e viu sua carne escorrer por seus ossos.
     " O príncipe! protejam o príncipe!"

   Acordou num pulo. Estava no refugiu improvisado entre as pedras. Fred estava a alguns metros dela, em sua forme de tigre. Em suas patas alguns peixes.
   Esfregou os olhos, tentando esconder o susto, mas ele era mais esperto que isso.
  - Sonhos ruins? - perguntou com sua voz grave de tigre.
  - Não sei... meio estranho... uma cidade...
  - Toda prateada com cachoeiras, jardins e um casal bonito? - completou ele, sem deixar ela falar. - Eu sei.
  - Como assim? você... 
  - A Thaís também. Íamos te falar, mas preferimos deixar você conhecer sozinha. Agora com você, somos três que tem o mesmo sonho, isso deve significar algo.
   Largou os peixes em cima de uma pedra e sentou-se no chão. Converteu-se para a forma humana, sob os olhares da pequena.
  - O que é aquela explosão e quem é o príncipe?
  - Sei tanto quanto você. Olhe, vamos esperar a Thais voltar dai comemos e vamos perguntar pessoalmente, o que acha?
   Concordou em silencio. Alguns minutos depois, o peixe no fogo começou a cheirar bem, o que fez o estomago dela roncar.
   - Transforme-se. - pediu Fred, do nada.
   - Que!?
   - Transforme-se! agora, sem estimulo algum, por si só. Sem raiva ou angustia. Traga o lobo por sua vontade.
   - Eu não consigo, já tentei!
   - Tente de novo. dessa vez, não pense em nada a não ser no que há dentro de você, no seu outro eu. O que está ai não é um monstro. É você e pode ser controlado. Feche os olhos e consente-se.
    Contrariada, ela obedeceu. Fechou os olhos e tentou pensar apenas no que sentia quando era o lobo. A força, a agilidade, as garras, a liberdade que aquilo tudo lhe fazia sentir. Quando era o lobo, ela sentia como se nada pudesse impedi-la.
     Imersa na própria mente como num transe, permaneceu sentada de pernas cruzadas, tentando se entender melhor. Viu-se numa clareira no meio de uma mata vasta. Ao longe, um lobo uivava para a linda lua que brilhava no céu. Aproximou-se do lobo e os dois trocaram olhares. Olhou intensamente nos olhos da besta. Era grande, linda e poderosa. Num instante seguinte, a besta não estava mais diante de si. Fora substituída por uma garota magrela, feiosinha e de cabelo embaraçado. Viu-se então, no corpo do lobo, olhando para si mesma, em forma humana.
    Voltou a si.
    Por impulso, levou a mão ao cabelo e o sentiu embaraçado e sujo, ele estava horrível mesmo.
    Thais ja estava ali, ela e Fred estavam comendo. Ambos olharam pra ela.
   - Tá tudo bem? - perguntou Thais.
   - Sim. - disse ela, levantando-se e catando um peixe, estava faminta.
   - Consegue se transformar? - perguntou o rapaz.
   - Consigo. - respondeu com a boca cheia de peixe. - Confiem em mim.
   - É o que temos pra hoje. - disse ele  um tom de desdém.

    Depois que comeram, apagaram o fogo e se reuniram para uma ultima conversa antes da investida.
    - Vamos em forma humana até a única entrada que conhecemos, de lá, viramos bicho e forçamos a entrada. Vamos matar  que nos jogarem, um por um, até que os responsáveis mostrem a cara e comecem a se explicar! - disse Fred.
  - É uma merda de plano mas é o que vai ser, não vou viver fugindo pra sempre! - completou Thais.
    Correram mata a dentro.
    O sangue pulsava forte em suas veias, não tinha ideia do que iria acontecer nas próximas horas. Muito provavelmente estaria morta, mas não sentia um pingo de medo; dadas as recentes circunstâncias, morrer não parecia ser uma má ideia.
    Ao chegarem, uma brisa trouxe um cheiro pútrido terrível, que quase a fez vomitar; a entrada do laboratório ainda estava coberta de cadáveres e tripas. Guardas e crianças mortas. Fred da um soco numa árvore com raiva.
  - Elas morreram porque eu as libertei. os guardas atiraram nelas sem nem pensar, e os poucos que consegui salvar, morreram para os frogs!
   - Mas eu ainda to viva - respondeu Tati. Ela também era parte do grupo de fugitivos.
   - Desculpe eu... só... queria ter feito mais.
   - Você fez o que pôde. Agora vamos terminar isso logo - disse Thais - não tão achando isso muito abandonado?
    Tudo era silencio. nenhuma alma viva. O trio saiu do mato e adentrou os portões abertos.
   - Será que matamos o ultimo lote?
   - Mais provável que estejam nos esperando.
   A porta de metal por onde tivera saído ainda estava do mesmo jeito que ela deixou ontem. Ninguém MESMO andou por ali desde então.
   - Isso ta muito estranho, to com um pressentimento ruim. - disse Thais.
   - E se for uma armadilha? - perguntou a pequena.
   - Então, nós caímos nela.
   Mal terminou a frase e já meteu o pé na porta, escancarando-a.
   À frente, o corredor de cadáveres de cientistas e guardas. Fred alegou ser o autor daquela chacina.
    O térreo era onde ficavam as celas, todas estavam abertas. As que não estavam vazias, habitavam pessoas mortas por marcas de bala. Era um ambiente de morte horrível, o clima do lugar era muito pesado e caia sobre o trio de forma poderosa, lentamente drenando a moral deles.
   - Vamos logo para o andar dos experimentos! onde me fizeram as cicatrizes! tenho certeza que lá nós vamos encontrar algumas respostas.
    Quando chegaram à porta do elevador, uma voz pode ser ouvida por todo o lugar.
    - Esperávamos vocês, preciosos intrusos. Por favor, venham nos visitar no segundo andar, o laboratório de genética 1. Bem vindo ao lar Freddy.
    As duas o olharam, esperando uma resposta.
     - Você não entenderiam!
     - Eu sabia que você tava escondendo alguma coisa! - gritou Thais. - como quer que confiemos em você?
     - Não é o que pensam! Aquele era meu pai, o principal motivo de eu querer acabar com tudo isso!
     -  Seu... seu pai!? - Thais parecia confusa e irritada.
    - Ele é o cientista chefe, e não o responsável, tá? olha não temos tempo pra isso, vamos logo e tudo vai se encaixar nos eixos.
    - Vai é? como posso confiar em você agora?
    - Porque eu te amo, sua imbecil! - gritou.
    Silencio.
    Tati estava muito desconfortável no meio deles. Thais olhava Fred incrédula, e ele, bufava nervoso.
    - Por isso... eu não vou deixar ninguém te machucar.
    Em silencio, os três entram no elevador. A própria Thais aperta o botão do segundo andar.
    O clima do elevador estava estranho.
    Quando a porta abre, eles se veem em uma sala com várias maquinas estranhas. Por todo canto, tubos de vidro com pessoas dentro. Os tres sairam do elevador, horrorizados, eram crianças eram...
    - Sirens! - chorou Tatiana.
    Eram meninas, cobertas de cortes pelo corpo todo. As costas, farrapos que um dia vão ser asas. Era  como se estivessem em úteros artificiais, nascendo aos poucos.
    Aquela sala era familiar para Thais. Foi dalí que ela fugira. A maldita sala onde a fizeram aqueles cortes. A imagem das Sirens gemendo e se contorcendo ao redor deles, eram repulsiva, nem repararam no velho senhor de Jaleco branco logo à frente dele.
    - Sejam bem vindos. Olá Freddy.
    O sangue de Thais ferveu no mesmo instante. Ela correu e agarrou o velho pelo colarinho.
   - O QUE FEZ COMIGO? O QUE FEZ COMIGO?
    Ela o sacudia com raiva, mas o senhor não dizia nada.
    - Solta ele Thais!
    Fred tentava acalma-la, mas nao dava muito resultado.
    - EU VOU TE MATAR SE NÃO ABRIR A BOCA!
    Então, uma porta abriu ao fundo da sala.
    Uma presença congelante, fez com que todos parassem de falar, até mesmo a irritada Thais.
    Ele era jovem, estava vestido elegantemente. Seu cabelos eram longos e castanhos. Seus olhos pareciam diamantes e seus sorriso era confiante e calmo.
     Thais soltou o velho em suas mãos e todos olharam boquiabertos para o jovem de beleza ímpar.
     - Sejam bem vindos - disse ele, com uma voz macia. - Meus amigos. estou feliz em finalmente tê-los aqui.
     Aquele rosto... nenhum deles tinham qualquer duvida...
     - O príncipe...- sussurrou Tatiana.

CONTINUA
    

segunda-feira, 15 de julho de 2013

A outra parte de mim (VI)

  

 Ainda sem entender muito bem, Fred seguiu Tatiana para fora. Ele achou que ela iria surtar, virar lobo e dilacerar tudo, mas houve controle nela dessa vez. Ela "escolheu" virar lobo, e não só isso, sabia o que estava fazendo e até mesmo falou com ele.
    Enquanto a seguia, lembrou-se de como foi com ele: também era um furioso dilacerador. Quando conseguiu escapar, estava sozinho e todos os dias a besta o dominava e o fazia urrar alto de ódio. Matava animais, Sirens, Frogs e outros que encontrava no mato... Até que um dia, ele a conheceu... Uma menina esfarrapada que fugia desesperada. Atrás dela uma maldita Siren berrando e 3 guardas armados... Não era bem uma menina... era uma águia de cabeça branca, mas estava ferida e cansada, atiravam nela. Iria morrer, foi quando, ele sentiu uma força dentro dele, tão forte quanto àquela que a besta lhe trazia, mas, sem a raiva. Ele queria salva-la e algo dentro dele, concordava. Pulou no meio dos guardas e gritou para que parassem, mas ao invés de um grito, saiu um rugido; havia se transformado sem perceber. Todo o poder do tigre, e todo o controle da sua mente humana...
   - Me joga!
    Acordou com um grito grave da voz áspera da menina-lobo. Estava perdido em pensamentos. Tatiana apontava para cima: Umas 4 ou 5 Sirens cercavam Thaís, e ela parecia bem machucada.
    - Rápido! Me joga nelas!
    Tati abaixou-se próximo a ele, dando-lhe as costas. Fred a segurou firmemente pelos pelos e pelo couro, mirou e a atirou com toda sua força.
     Voou para cima delas e agarrou duas delas. As Sirens tentaram chutar e socar, mas não eram tão fortes, sua principal função não era combate, por isso agiam em grupo. Tati por outro lado era muito boa em combate e não importava que estava a dez metros do chão. Agarrou cada uma delas com uma mão e as enfiou de cara numa árvore enquanto caiam. Conforme caiam, o rostos das duas era esfregado na superfície da árvore, esfolando suas faces já deformadas. Quando finalmente atingem o chão, Tatiana socou com muita força as meninas nas costas. Socou até sentir os ossos delas partindo em seus punhos e até os gritos sumirem.
    Fred escalou muito rapidamente uma das arvores e saltou para ajudar Thaís com as outras duas. Seu pulo nao foi muito alto, mas foi o bastante para agarrar uma delas pelo pé e traze-la para o chão. Livre daquelas que a seguravam, a mulher-águia cravou seu bico no olho da ultima das Sirens, matando-a. Seu corpo sem vida caiu sobre pedras lá em baixo, espatifando-a. 
    O tigre segurava a Siren, impedindo-a de se mexer.
    - Mata ela! - gritou Tati, que ainda queria sentir sangue nas mãos.
    - Controle-se! voce acabou de dominar sua besta, quer perder o controle de novo?
    - Mas essa vadia gritadora tava tentando matar a Thaís!
   Fred virou a Siren de frente para Tatiana. A Siren estava rouca, mal conseguia gemer. Seus olhos esbugalhados estavam vertendo lágrimas e seus dentes sem lábios batiam um no outro, tremendo.
     - O que você vê? - gritou ele - o que vê?
  
Tati olhou para aqueles olhos terríveis, depois olhou para seus punhos peludos e sujos de sangue. Thaís pousou perto deles e começou a se converter para forma humana, ela não conseguia falar em forma de águia. 
   - Medo...- disse tristemente. baixou os braços e pensou que seria a hora de deixar de ser lobo.
     Alguma coisa dentro dela a consumia, cada vez que assumia aquela forma, uma sede de sangue infinita, raiva de tudo e todos. cada segundo transformada era como uma bomba relógio, mas aquela cena deplorável, da pobre Siren machucada e chorando a encheu de tristeza mais uma vez e seu corpo foi aos poucos diminuindo.
   -  Não há nada mesmo que possamos fazer por ela?- Perguntou Thaís, já conhecendo a resposta.
   Tanto as Sirens quanto os Frogs não podem viver sem os artefato tecnológicos que eles vestem, são sustentados e controlados por eles, quase como se fossem zumbis tecnológicos.
   - Sabe que não... quantos já tentamos salvar? Eu sei que você se sente responsável por elas, mas...
   Tati já estava na forma humana, estava chorando tambem. Aproximou-se da Siren que anda estava presa nos braços do tigre e lhe tocou o rosto.
  - O que fizeram com você? porque fizeram isso tudo?
    A Siren tremia, sua boca abria e fechava.
  - Parece que ela quer dizer algo! - disse Thaís. - Correu e segurou as mãos dela.
  - LO....- a voz dela era esganiçada e estridente. - LOCALIZAR...
    Até esse dia, nunca nenhuma delas falou com eles, até mesmo Fred ficou surpreso. Mesmo aquelas que eles tentaram salvar, gritaram até a morte.
   - Localizar o que? - perguntou Tatiana, quase gritando.
   - LOCALIZAR. EXTERMINAR... THAÍS ROSSI...TATIANA SANCHES...
   - Provavelmente são as ordens dela - disse Fred - devem estar comandando ela de algum lugar. Elas não tem mente ou vontade propria.
    - Mas se for isso Fred - continuou Thaís-  por que ela não mencionou seu nome?
    - E eu vou saber? - rugiu ele com sua poderosa voz de tigre - alguém aqui tem alguma ideia do que ta acontecendo? nem eu, lembra?
     - Sério? pois eu suspeito a certo tempo que você tá escondendo alguma coisa! eles te querem vivo e você sabe disso! e acho que você também sabe o porque!
     - Como assim? - pergunta Tati, secando as lágrimas.
     - Todo ataque é a mesma coisa e hoje não foi diferente. Sempre focam mais a mim do que ele. - olhou Fred - acho que te querem vivo... ou isso ou me odeiam muito!
      O tigre argumentou, se defendendo do que Thaís dizia, mas Tatiana não parava de olhar nos olhos da Siren. Qual seria o nome dela? de onde ela veio e quantos anos tinha? Olhou para trás e viu as duas que elas mesma esmagou. Eram iguais a ela, controladas, não tinham escolha. Sentiu-se a pior pessoa do mundo.
    - E agora vai me dizer o que? que eu sou um traidor?
    - Eu não disse nada disso! só que é bem estranho! e você não percebe ou finge que não!
    A discussão foi cortada por um grito de Tatiana.
     - Calem a boca os dois! - depois ela apontou para a Siren, que tentava dizer algo a mais.
     - MATEM...ME MATEM...
     - O que? não! não vamos...
     - POR FAVOR...- os olhos dela não paravam de verter lágrimas.
     - Nos vamos ajudar você vamos...
     Os braços do tigre apertaram o pescoço da Siren com força e torceram. Um "creck" pôde ser claramente ouvido. Ela afrouxa os braços e ela cai mole no chão.
    - Não... você...
    Ela cai de joelho, chorando. A menina não se mexia ou gemia mais. Morreu.
    - Essa é a nossa realidade, Tatiana. Por mais que elas sejam inocentes, são nossas inimigas e nos querem mortos... contrario do que a Thaís tá inventando.
    - Não to inventando nada! só to dizendo que você tá cego pra uma possível verdade!
    - E se isso for verdade? - rosnou ele com raiva pra cima dela.
    Ela não se afastou, ficou firme e se aproximou dele.
    - Se for, fico feliz - tocou o rosto felino dele gentilmente - porque não vou ter que te ver morrendo.
   Aquele gesto desarmou totalmente o rapaz.
     - Não quero que você morra. É meu herói, alias, nosso herói. Você é bem rude, mas sei que é uma boa pessoa, você se arriscou por mim, pela Tatiana e por todas aquelas crianças. Se for verdade que não te querem morto, nossas chances de sobreviver. - suas mãos pequenas seguraram as enormes patas de tigre dele- aumentam.
    Se abraçaram e Fred voltou a forma humana.
    - Obrigado por estar aqui. - disse ele.
    - Alguém tem que cuidar do gatinho nervoso - riu ela.
   A noite já estava caindo, e eles precisavam encontrar outro esconderijo. aquele estava coberto de sangue e corpos de todos os tipos e marcado por muita tristeza.
    Algumas horas depois, os três amigos estavam sentados ao redor de uma fogueira, perto de uma construção natural de pedras, era a nova casa até os Frogs os encontrarem.
    Tatiana olhava para a fogueira, mas sua mente estava naqueles olhos. Ela estava horrorizada mas não podia deixar de concordar com Fred. " elas não tem salvação".
    - Tati, você conseguiu se transformar por vontade própria hoje, o Fred me contou. E se manteve sobre controle o tempo todo.
    - Não o tempo todo...- respondeu sem tirar os olhos da fogueira. - Eu sempre deixava a raiva me levar e a raiva me fazia virar "aquilo", mas hoje, quando eu vi que eles mataram as crianças eu... senti raiva sim, mas eu tava muito triste, me senti destruída então eu... sabia, que aquilo tinha que acabar. Eu implorei para a outra parte de mim vir, e me ajudar a acabar com aquilo, porque era errado. Foi isso.
    - Não foi diferente de mim, na verdade. Eu queria salvar a Thaís e quando vi, eu era eu e "ele" ao mesmo tempo.
    - Aquela Siren... foi horrível...
    - Eu sinto muito por aquilo, mas você precisa estar totalmente ciente da nossa situação aqui. Não há o que fazer, não temos como lutar para sempre, eles sempre continuam vindo em números infinitos. E se acharmos um barco e sairmos e depois? não somos mais pessoas normais.
    - Nossas vidas não são nada e não podemos ser salvos - continuou Thaís - mas podemos por um fim naquilo. Acabar com a dor daquelas crianças.
    - Você voa, nunca pensou em fugir? - perguntou Tati.
    - E ir pra onde? não sei onde estou nem pra onde ir... além do que... eu não posso abandonar o Fred e as crianças... e agora, temos você. Mais um motivo para eu ficar.
    - Você ta certa. - disse ele - temos poder, vencemos muitas batalhas. Nossas vidas já estão perdidas, vamos acabar com isso. Vamos dar a eles muitos motivos para se preocupar.
    - Eu não sei o que fizeram comigo nem o que sao essas cicatrizes. Mas eu vou me certificar de que eles vão se arrepender de ter me criado.
    Thaís e Fred estavam determinados, a alma deles queimava como a fogueira que aquecia suas mãos. Tati sabia que eles estavam certos. Ela tinha medo, mas aquilo o que vivenciou hoje... era enlouquecedor. Melhor morrer do que ter que viver assim...
     - E se for pra morrer. - disse a pequena - que seja lutando. Se for pra cair, que seja pra cair matando cada um dos desgraçados responsáveis por isso.
     Fred olhou pra ela com um sorriso confiante.
     - Comam todo o peixe e durmam bem - disse - Pois amanha isso acaba. para nós ou para eles.

CONTINUA

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A outra parte de mim (V)

     Fred e Tati se viram para trás. Thaís apontava para a mata de onde eles vieram. Os arbustos estavam se mexendo, as copas das árvores também, como se muitas pessoa estivessem andando por eles.

- são as Sirens? - perguntou a pequena, secando as lágrimas.
- Não... são os Frogs... 



segunda-feira, 24 de junho de 2013

A outra Parte de mim (IV)



Tatiana segurou a mão de Thaís para ficar de pé, ainda assustada com aquilo tudo: a prisão, a floresta, sua transformação em monstro, a garota voadora que grita e agora... Thaís...a mulher-águia, que depois de bicar até a morte a gritadora, transforma-se em humana e lhe estende a mão, oferecendo sorriso e segurança.
    • Vamos, temos que ir a um lugar seguro, se ficarmos aqui muito tempo...

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A outra parte de mim III

           

           As crianças se apertam umas às outras, com medo. O Tigre encara a menina lobo com seriedade; logo outros guardas ou coisa pior apareceriam ali, mas ele tinha que fazer algo para proteger as crianças que ainda estavam vivas.

       A loba pula sobre o tigre, tentando rasga-lo com unhas e dentes, mas é habilidosamente imobilizado pelo oponente; o tigre branco segura as mãos da loba, impedindo o ataque. Depois, acerta uma joelhada no estomago dela. Ainda segurando-a pelos pulsos, ele a arremessou de cabeça contra o muro. Estava seguro da força dela, sabia que aqueles golpes não a matariam, mas quem sabe a dor a assustasse?

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A outra parte de mim II

        
           Correndo descalça pelo corredor frio, ela apertou forte nas mãos, os trapos que restam de suas vestes. Não conseguia deixar de pensar naquela "pessoa" que a tivera salvo: um tigre, um monstro, uma pessoa... Ela sabia que algo acontecia dentro dela, e que ela mudava a aparência, mas seria ela também um tigre branco? Seus pensamentos foram interrompidos ao pisar em uma poça de sangue quente.