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segunda-feira, 22 de julho de 2013

A outra parte de mim (VII)


  Dormir do lado de fora não era fácil. Barulho estranhos, insetos, pedras... Não que ela tivesse muito luxo em sua antiga cela... Os restos da fogueira ardiam em brasa ao seu lado, usando um tronco como travesseiro, ela esticou o corpo no chão e o deixou relaxar. Olhou para o céu; estava limpo e cheio de estrelas. Em algum lugar, seus pais também olhavam as mesmas estrelas. Será que ainda pensavam nela?
    Já tinha mais de dois anos desde o incidente na escola. Lembra-se melhor agora que conseguiu controlar melhor a besta em si. Dois anos é tempo demais; cresceu muito desde aqueles dias, não só na altura; sentia-se toda crescida. Sentiu raiva.
    Por dois anos, esses caras, sejam lá o que são eles, a sequestraram e a fizeram coisas horrendas com ela... mas, e se ela sempre tivera sido um monstro? e se o motivo de estar nesse pedaço de terra esquecida fosse exatamente ser um monstro? Caiu no sono, imaginando os horrores que veria no dia seguinte.
    
    Viu uma cidade. Era linda, quase toda feita de prata, com cachoeiras cristalinas por toda parte. As pessoas vestiam roupas de varias cores e pareciam felizes. Um casal de jovens caminhava por entre um jardim cheio de rosas vermelhas, ambos eram muito bonitos e pareciam apaixonados. Quando estavam prestes a se beijarem, um clarão os cegou, seguido de uma explosão. As rosas, o jardim e todos ali presentes ardiam e queimavam. A moça gritava conforme seu rosto derretia como geleia. olhou para as próprias mãos e viu sua carne escorrer por seus ossos.
     " O príncipe! protejam o príncipe!"

   Acordou num pulo. Estava no refugiu improvisado entre as pedras. Fred estava a alguns metros dela, em sua forme de tigre. Em suas patas alguns peixes.
   Esfregou os olhos, tentando esconder o susto, mas ele era mais esperto que isso.
  - Sonhos ruins? - perguntou com sua voz grave de tigre.
  - Não sei... meio estranho... uma cidade...
  - Toda prateada com cachoeiras, jardins e um casal bonito? - completou ele, sem deixar ela falar. - Eu sei.
  - Como assim? você... 
  - A Thaís também. Íamos te falar, mas preferimos deixar você conhecer sozinha. Agora com você, somos três que tem o mesmo sonho, isso deve significar algo.
   Largou os peixes em cima de uma pedra e sentou-se no chão. Converteu-se para a forma humana, sob os olhares da pequena.
  - O que é aquela explosão e quem é o príncipe?
  - Sei tanto quanto você. Olhe, vamos esperar a Thais voltar dai comemos e vamos perguntar pessoalmente, o que acha?
   Concordou em silencio. Alguns minutos depois, o peixe no fogo começou a cheirar bem, o que fez o estomago dela roncar.
   - Transforme-se. - pediu Fred, do nada.
   - Que!?
   - Transforme-se! agora, sem estimulo algum, por si só. Sem raiva ou angustia. Traga o lobo por sua vontade.
   - Eu não consigo, já tentei!
   - Tente de novo. dessa vez, não pense em nada a não ser no que há dentro de você, no seu outro eu. O que está ai não é um monstro. É você e pode ser controlado. Feche os olhos e consente-se.
    Contrariada, ela obedeceu. Fechou os olhos e tentou pensar apenas no que sentia quando era o lobo. A força, a agilidade, as garras, a liberdade que aquilo tudo lhe fazia sentir. Quando era o lobo, ela sentia como se nada pudesse impedi-la.
     Imersa na própria mente como num transe, permaneceu sentada de pernas cruzadas, tentando se entender melhor. Viu-se numa clareira no meio de uma mata vasta. Ao longe, um lobo uivava para a linda lua que brilhava no céu. Aproximou-se do lobo e os dois trocaram olhares. Olhou intensamente nos olhos da besta. Era grande, linda e poderosa. Num instante seguinte, a besta não estava mais diante de si. Fora substituída por uma garota magrela, feiosinha e de cabelo embaraçado. Viu-se então, no corpo do lobo, olhando para si mesma, em forma humana.
    Voltou a si.
    Por impulso, levou a mão ao cabelo e o sentiu embaraçado e sujo, ele estava horrível mesmo.
    Thais ja estava ali, ela e Fred estavam comendo. Ambos olharam pra ela.
   - Tá tudo bem? - perguntou Thais.
   - Sim. - disse ela, levantando-se e catando um peixe, estava faminta.
   - Consegue se transformar? - perguntou o rapaz.
   - Consigo. - respondeu com a boca cheia de peixe. - Confiem em mim.
   - É o que temos pra hoje. - disse ele  um tom de desdém.

    Depois que comeram, apagaram o fogo e se reuniram para uma ultima conversa antes da investida.
    - Vamos em forma humana até a única entrada que conhecemos, de lá, viramos bicho e forçamos a entrada. Vamos matar  que nos jogarem, um por um, até que os responsáveis mostrem a cara e comecem a se explicar! - disse Fred.
  - É uma merda de plano mas é o que vai ser, não vou viver fugindo pra sempre! - completou Thais.
    Correram mata a dentro.
    O sangue pulsava forte em suas veias, não tinha ideia do que iria acontecer nas próximas horas. Muito provavelmente estaria morta, mas não sentia um pingo de medo; dadas as recentes circunstâncias, morrer não parecia ser uma má ideia.
    Ao chegarem, uma brisa trouxe um cheiro pútrido terrível, que quase a fez vomitar; a entrada do laboratório ainda estava coberta de cadáveres e tripas. Guardas e crianças mortas. Fred da um soco numa árvore com raiva.
  - Elas morreram porque eu as libertei. os guardas atiraram nelas sem nem pensar, e os poucos que consegui salvar, morreram para os frogs!
   - Mas eu ainda to viva - respondeu Tati. Ela também era parte do grupo de fugitivos.
   - Desculpe eu... só... queria ter feito mais.
   - Você fez o que pôde. Agora vamos terminar isso logo - disse Thais - não tão achando isso muito abandonado?
    Tudo era silencio. nenhuma alma viva. O trio saiu do mato e adentrou os portões abertos.
   - Será que matamos o ultimo lote?
   - Mais provável que estejam nos esperando.
   A porta de metal por onde tivera saído ainda estava do mesmo jeito que ela deixou ontem. Ninguém MESMO andou por ali desde então.
   - Isso ta muito estranho, to com um pressentimento ruim. - disse Thais.
   - E se for uma armadilha? - perguntou a pequena.
   - Então, nós caímos nela.
   Mal terminou a frase e já meteu o pé na porta, escancarando-a.
   À frente, o corredor de cadáveres de cientistas e guardas. Fred alegou ser o autor daquela chacina.
    O térreo era onde ficavam as celas, todas estavam abertas. As que não estavam vazias, habitavam pessoas mortas por marcas de bala. Era um ambiente de morte horrível, o clima do lugar era muito pesado e caia sobre o trio de forma poderosa, lentamente drenando a moral deles.
   - Vamos logo para o andar dos experimentos! onde me fizeram as cicatrizes! tenho certeza que lá nós vamos encontrar algumas respostas.
    Quando chegaram à porta do elevador, uma voz pode ser ouvida por todo o lugar.
    - Esperávamos vocês, preciosos intrusos. Por favor, venham nos visitar no segundo andar, o laboratório de genética 1. Bem vindo ao lar Freddy.
    As duas o olharam, esperando uma resposta.
     - Você não entenderiam!
     - Eu sabia que você tava escondendo alguma coisa! - gritou Thais. - como quer que confiemos em você?
     - Não é o que pensam! Aquele era meu pai, o principal motivo de eu querer acabar com tudo isso!
     -  Seu... seu pai!? - Thais parecia confusa e irritada.
    - Ele é o cientista chefe, e não o responsável, tá? olha não temos tempo pra isso, vamos logo e tudo vai se encaixar nos eixos.
    - Vai é? como posso confiar em você agora?
    - Porque eu te amo, sua imbecil! - gritou.
    Silencio.
    Tati estava muito desconfortável no meio deles. Thais olhava Fred incrédula, e ele, bufava nervoso.
    - Por isso... eu não vou deixar ninguém te machucar.
    Em silencio, os três entram no elevador. A própria Thais aperta o botão do segundo andar.
    O clima do elevador estava estranho.
    Quando a porta abre, eles se veem em uma sala com várias maquinas estranhas. Por todo canto, tubos de vidro com pessoas dentro. Os tres sairam do elevador, horrorizados, eram crianças eram...
    - Sirens! - chorou Tatiana.
    Eram meninas, cobertas de cortes pelo corpo todo. As costas, farrapos que um dia vão ser asas. Era  como se estivessem em úteros artificiais, nascendo aos poucos.
    Aquela sala era familiar para Thais. Foi dalí que ela fugira. A maldita sala onde a fizeram aqueles cortes. A imagem das Sirens gemendo e se contorcendo ao redor deles, eram repulsiva, nem repararam no velho senhor de Jaleco branco logo à frente dele.
    - Sejam bem vindos. Olá Freddy.
    O sangue de Thais ferveu no mesmo instante. Ela correu e agarrou o velho pelo colarinho.
   - O QUE FEZ COMIGO? O QUE FEZ COMIGO?
    Ela o sacudia com raiva, mas o senhor não dizia nada.
    - Solta ele Thais!
    Fred tentava acalma-la, mas nao dava muito resultado.
    - EU VOU TE MATAR SE NÃO ABRIR A BOCA!
    Então, uma porta abriu ao fundo da sala.
    Uma presença congelante, fez com que todos parassem de falar, até mesmo a irritada Thais.
    Ele era jovem, estava vestido elegantemente. Seu cabelos eram longos e castanhos. Seus olhos pareciam diamantes e seus sorriso era confiante e calmo.
     Thais soltou o velho em suas mãos e todos olharam boquiabertos para o jovem de beleza ímpar.
     - Sejam bem vindos - disse ele, com uma voz macia. - Meus amigos. estou feliz em finalmente tê-los aqui.
     Aquele rosto... nenhum deles tinham qualquer duvida...
     - O príncipe...- sussurrou Tatiana.

CONTINUA
    

segunda-feira, 15 de julho de 2013

A outra parte de mim (VI)

  

 Ainda sem entender muito bem, Fred seguiu Tatiana para fora. Ele achou que ela iria surtar, virar lobo e dilacerar tudo, mas houve controle nela dessa vez. Ela "escolheu" virar lobo, e não só isso, sabia o que estava fazendo e até mesmo falou com ele.
    Enquanto a seguia, lembrou-se de como foi com ele: também era um furioso dilacerador. Quando conseguiu escapar, estava sozinho e todos os dias a besta o dominava e o fazia urrar alto de ódio. Matava animais, Sirens, Frogs e outros que encontrava no mato... Até que um dia, ele a conheceu... Uma menina esfarrapada que fugia desesperada. Atrás dela uma maldita Siren berrando e 3 guardas armados... Não era bem uma menina... era uma águia de cabeça branca, mas estava ferida e cansada, atiravam nela. Iria morrer, foi quando, ele sentiu uma força dentro dele, tão forte quanto àquela que a besta lhe trazia, mas, sem a raiva. Ele queria salva-la e algo dentro dele, concordava. Pulou no meio dos guardas e gritou para que parassem, mas ao invés de um grito, saiu um rugido; havia se transformado sem perceber. Todo o poder do tigre, e todo o controle da sua mente humana...
   - Me joga!
    Acordou com um grito grave da voz áspera da menina-lobo. Estava perdido em pensamentos. Tatiana apontava para cima: Umas 4 ou 5 Sirens cercavam Thaís, e ela parecia bem machucada.
    - Rápido! Me joga nelas!
    Tati abaixou-se próximo a ele, dando-lhe as costas. Fred a segurou firmemente pelos pelos e pelo couro, mirou e a atirou com toda sua força.
     Voou para cima delas e agarrou duas delas. As Sirens tentaram chutar e socar, mas não eram tão fortes, sua principal função não era combate, por isso agiam em grupo. Tati por outro lado era muito boa em combate e não importava que estava a dez metros do chão. Agarrou cada uma delas com uma mão e as enfiou de cara numa árvore enquanto caiam. Conforme caiam, o rostos das duas era esfregado na superfície da árvore, esfolando suas faces já deformadas. Quando finalmente atingem o chão, Tatiana socou com muita força as meninas nas costas. Socou até sentir os ossos delas partindo em seus punhos e até os gritos sumirem.
    Fred escalou muito rapidamente uma das arvores e saltou para ajudar Thaís com as outras duas. Seu pulo nao foi muito alto, mas foi o bastante para agarrar uma delas pelo pé e traze-la para o chão. Livre daquelas que a seguravam, a mulher-águia cravou seu bico no olho da ultima das Sirens, matando-a. Seu corpo sem vida caiu sobre pedras lá em baixo, espatifando-a. 
    O tigre segurava a Siren, impedindo-a de se mexer.
    - Mata ela! - gritou Tati, que ainda queria sentir sangue nas mãos.
    - Controle-se! voce acabou de dominar sua besta, quer perder o controle de novo?
    - Mas essa vadia gritadora tava tentando matar a Thaís!
   Fred virou a Siren de frente para Tatiana. A Siren estava rouca, mal conseguia gemer. Seus olhos esbugalhados estavam vertendo lágrimas e seus dentes sem lábios batiam um no outro, tremendo.
     - O que você vê? - gritou ele - o que vê?
  
Tati olhou para aqueles olhos terríveis, depois olhou para seus punhos peludos e sujos de sangue. Thaís pousou perto deles e começou a se converter para forma humana, ela não conseguia falar em forma de águia. 
   - Medo...- disse tristemente. baixou os braços e pensou que seria a hora de deixar de ser lobo.
     Alguma coisa dentro dela a consumia, cada vez que assumia aquela forma, uma sede de sangue infinita, raiva de tudo e todos. cada segundo transformada era como uma bomba relógio, mas aquela cena deplorável, da pobre Siren machucada e chorando a encheu de tristeza mais uma vez e seu corpo foi aos poucos diminuindo.
   -  Não há nada mesmo que possamos fazer por ela?- Perguntou Thaís, já conhecendo a resposta.
   Tanto as Sirens quanto os Frogs não podem viver sem os artefato tecnológicos que eles vestem, são sustentados e controlados por eles, quase como se fossem zumbis tecnológicos.
   - Sabe que não... quantos já tentamos salvar? Eu sei que você se sente responsável por elas, mas...
   Tati já estava na forma humana, estava chorando tambem. Aproximou-se da Siren que anda estava presa nos braços do tigre e lhe tocou o rosto.
  - O que fizeram com você? porque fizeram isso tudo?
    A Siren tremia, sua boca abria e fechava.
  - Parece que ela quer dizer algo! - disse Thaís. - Correu e segurou as mãos dela.
  - LO....- a voz dela era esganiçada e estridente. - LOCALIZAR...
    Até esse dia, nunca nenhuma delas falou com eles, até mesmo Fred ficou surpreso. Mesmo aquelas que eles tentaram salvar, gritaram até a morte.
   - Localizar o que? - perguntou Tatiana, quase gritando.
   - LOCALIZAR. EXTERMINAR... THAÍS ROSSI...TATIANA SANCHES...
   - Provavelmente são as ordens dela - disse Fred - devem estar comandando ela de algum lugar. Elas não tem mente ou vontade propria.
    - Mas se for isso Fred - continuou Thaís-  por que ela não mencionou seu nome?
    - E eu vou saber? - rugiu ele com sua poderosa voz de tigre - alguém aqui tem alguma ideia do que ta acontecendo? nem eu, lembra?
     - Sério? pois eu suspeito a certo tempo que você tá escondendo alguma coisa! eles te querem vivo e você sabe disso! e acho que você também sabe o porque!
     - Como assim? - pergunta Tati, secando as lágrimas.
     - Todo ataque é a mesma coisa e hoje não foi diferente. Sempre focam mais a mim do que ele. - olhou Fred - acho que te querem vivo... ou isso ou me odeiam muito!
      O tigre argumentou, se defendendo do que Thaís dizia, mas Tatiana não parava de olhar nos olhos da Siren. Qual seria o nome dela? de onde ela veio e quantos anos tinha? Olhou para trás e viu as duas que elas mesma esmagou. Eram iguais a ela, controladas, não tinham escolha. Sentiu-se a pior pessoa do mundo.
    - E agora vai me dizer o que? que eu sou um traidor?
    - Eu não disse nada disso! só que é bem estranho! e você não percebe ou finge que não!
    A discussão foi cortada por um grito de Tatiana.
     - Calem a boca os dois! - depois ela apontou para a Siren, que tentava dizer algo a mais.
     - MATEM...ME MATEM...
     - O que? não! não vamos...
     - POR FAVOR...- os olhos dela não paravam de verter lágrimas.
     - Nos vamos ajudar você vamos...
     Os braços do tigre apertaram o pescoço da Siren com força e torceram. Um "creck" pôde ser claramente ouvido. Ela afrouxa os braços e ela cai mole no chão.
    - Não... você...
    Ela cai de joelho, chorando. A menina não se mexia ou gemia mais. Morreu.
    - Essa é a nossa realidade, Tatiana. Por mais que elas sejam inocentes, são nossas inimigas e nos querem mortos... contrario do que a Thaís tá inventando.
    - Não to inventando nada! só to dizendo que você tá cego pra uma possível verdade!
    - E se isso for verdade? - rosnou ele com raiva pra cima dela.
    Ela não se afastou, ficou firme e se aproximou dele.
    - Se for, fico feliz - tocou o rosto felino dele gentilmente - porque não vou ter que te ver morrendo.
   Aquele gesto desarmou totalmente o rapaz.
     - Não quero que você morra. É meu herói, alias, nosso herói. Você é bem rude, mas sei que é uma boa pessoa, você se arriscou por mim, pela Tatiana e por todas aquelas crianças. Se for verdade que não te querem morto, nossas chances de sobreviver. - suas mãos pequenas seguraram as enormes patas de tigre dele- aumentam.
    Se abraçaram e Fred voltou a forma humana.
    - Obrigado por estar aqui. - disse ele.
    - Alguém tem que cuidar do gatinho nervoso - riu ela.
   A noite já estava caindo, e eles precisavam encontrar outro esconderijo. aquele estava coberto de sangue e corpos de todos os tipos e marcado por muita tristeza.
    Algumas horas depois, os três amigos estavam sentados ao redor de uma fogueira, perto de uma construção natural de pedras, era a nova casa até os Frogs os encontrarem.
    Tatiana olhava para a fogueira, mas sua mente estava naqueles olhos. Ela estava horrorizada mas não podia deixar de concordar com Fred. " elas não tem salvação".
    - Tati, você conseguiu se transformar por vontade própria hoje, o Fred me contou. E se manteve sobre controle o tempo todo.
    - Não o tempo todo...- respondeu sem tirar os olhos da fogueira. - Eu sempre deixava a raiva me levar e a raiva me fazia virar "aquilo", mas hoje, quando eu vi que eles mataram as crianças eu... senti raiva sim, mas eu tava muito triste, me senti destruída então eu... sabia, que aquilo tinha que acabar. Eu implorei para a outra parte de mim vir, e me ajudar a acabar com aquilo, porque era errado. Foi isso.
    - Não foi diferente de mim, na verdade. Eu queria salvar a Thaís e quando vi, eu era eu e "ele" ao mesmo tempo.
    - Aquela Siren... foi horrível...
    - Eu sinto muito por aquilo, mas você precisa estar totalmente ciente da nossa situação aqui. Não há o que fazer, não temos como lutar para sempre, eles sempre continuam vindo em números infinitos. E se acharmos um barco e sairmos e depois? não somos mais pessoas normais.
    - Nossas vidas não são nada e não podemos ser salvos - continuou Thaís - mas podemos por um fim naquilo. Acabar com a dor daquelas crianças.
    - Você voa, nunca pensou em fugir? - perguntou Tati.
    - E ir pra onde? não sei onde estou nem pra onde ir... além do que... eu não posso abandonar o Fred e as crianças... e agora, temos você. Mais um motivo para eu ficar.
    - Você ta certa. - disse ele - temos poder, vencemos muitas batalhas. Nossas vidas já estão perdidas, vamos acabar com isso. Vamos dar a eles muitos motivos para se preocupar.
    - Eu não sei o que fizeram comigo nem o que sao essas cicatrizes. Mas eu vou me certificar de que eles vão se arrepender de ter me criado.
    Thaís e Fred estavam determinados, a alma deles queimava como a fogueira que aquecia suas mãos. Tati sabia que eles estavam certos. Ela tinha medo, mas aquilo o que vivenciou hoje... era enlouquecedor. Melhor morrer do que ter que viver assim...
     - E se for pra morrer. - disse a pequena - que seja lutando. Se for pra cair, que seja pra cair matando cada um dos desgraçados responsáveis por isso.
     Fred olhou pra ela com um sorriso confiante.
     - Comam todo o peixe e durmam bem - disse - Pois amanha isso acaba. para nós ou para eles.

CONTINUA

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A outra parte de mim III

           

           As crianças se apertam umas às outras, com medo. O Tigre encara a menina lobo com seriedade; logo outros guardas ou coisa pior apareceriam ali, mas ele tinha que fazer algo para proteger as crianças que ainda estavam vivas.

       A loba pula sobre o tigre, tentando rasga-lo com unhas e dentes, mas é habilidosamente imobilizado pelo oponente; o tigre branco segura as mãos da loba, impedindo o ataque. Depois, acerta uma joelhada no estomago dela. Ainda segurando-a pelos pulsos, ele a arremessou de cabeça contra o muro. Estava seguro da força dela, sabia que aqueles golpes não a matariam, mas quem sabe a dor a assustasse?

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A outra parte de mim (parte 1)

            
            Dia 15 de Agosto de 2006, foi quando começou. O primeiro incidente; Tatiana Sanchez, idade doze anos.

          Eram dez e quarenta da manhã, o recreio recém tinha terminado. A sala estava em silencio durante a prova de matemática, e como de costume, a maioria dos alunos estava muito nervosa. Tatiana era uma dessas pessoas. Noite passada ela teve um sonho estranho; sonhou que corria selvagem no mato, e era capturada e enjaulada como um animal. Apesar do medo, ela sentiu ao acordar, uma sensação de liberdade e força. Na verdade, vinha tendo esses sonhos a alguns dias, mas nunca comentou pra ninguém.