Desperto assustada com o inconveniente toque do telefone. O radio relógio me alerta de
quão tarde está e no fundo concordo com ele, mas minha consciência não me permite deixar de
atender. Tiro o fone do gancho e não ouço nada, ou quase nada, o som de água corrente é a
única voz ali. Espero mais alguns instantes e ninguém se pronuncia. Irritada pelo repentino
despertar não consigo mais pegar no sono, acendo então um cigarro e me sento à beira da janela
aberta. Sem nada especial em pensamento, apenas sinto a brisa morna me tocar o rosto enquanto
quase podia descrever o caminho daquela fumaça em direção aos pulmões, levando aos poucos
minha vida. Observo as poucas luzes acesas daquela imensa cidade que parece tão só na
madrugada. Depois de quase duas horas sem devaneios me deito e espero pacientemente pelo
sono que se recusa a vir.





