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terça-feira, 16 de julho de 2013

Carne crua.

Por: Franz Lima.
Abro os olhos e a dor chega quase que instantaneamente. O mundo está de cabeça para baixo, confuso. Há gritos que me alcançam lentamente. Os dentes doem com a mesma intensidade que os olhos. Meu braço esquerdo está quebrado, sem dúvidas.
Mas o que aconteceu? O que me levou a capotar o carro? Descarto essas questões e parto para o que é mais prático: sobreviver.
Solto o cinto de segurança e meu corpo se choca contra o teto do carro. Os vidros estão quebrados e sinto os cheiros de óleo e gasolina. Isso é péssimo.
A dor me atinge de novo, fazendo questão absoluta de não me deixar esquecer o quanto estou fudido. 
Começo a me arrastar para fora do carro e vejo, não muito longe, uma mulher com um dos olhos furado. Ela grita, mas não consigo compreendê-la. Seus passos são desconexos e trôpegos, o que pode indicar que algo realmente a feriu ou, ainda, que ela está drogada. Ergo o ombro do braço ferido e forço a saída. O que se passa a seguir é quase surreal: um caminhão desgovernado atinge a mulher, matando-a de imediato. As rodas do automóvel passam a centímetros do meu corpo. Era para eu ter morrido junto com a mulher, porém o destino me poupou. 
O choque de ter escapado me despertou para outra realidade. Muitas pessoas estavam mortas em todo o meu raio de visão. Mulheres, crianças... não havia distinção para o massacre. Que merda estava acontecendo?
Ergui meu corpo e comecei a andar. Eu reconheci o lugar onde o carro ficou capotado, uma rua distante apenas algumas quadras da minha casa. 
Mas o que aconteceu?

segunda-feira, 15 de julho de 2013

A outra parte de mim (VI)

  

 Ainda sem entender muito bem, Fred seguiu Tatiana para fora. Ele achou que ela iria surtar, virar lobo e dilacerar tudo, mas houve controle nela dessa vez. Ela "escolheu" virar lobo, e não só isso, sabia o que estava fazendo e até mesmo falou com ele.
    Enquanto a seguia, lembrou-se de como foi com ele: também era um furioso dilacerador. Quando conseguiu escapar, estava sozinho e todos os dias a besta o dominava e o fazia urrar alto de ódio. Matava animais, Sirens, Frogs e outros que encontrava no mato... Até que um dia, ele a conheceu... Uma menina esfarrapada que fugia desesperada. Atrás dela uma maldita Siren berrando e 3 guardas armados... Não era bem uma menina... era uma águia de cabeça branca, mas estava ferida e cansada, atiravam nela. Iria morrer, foi quando, ele sentiu uma força dentro dele, tão forte quanto àquela que a besta lhe trazia, mas, sem a raiva. Ele queria salva-la e algo dentro dele, concordava. Pulou no meio dos guardas e gritou para que parassem, mas ao invés de um grito, saiu um rugido; havia se transformado sem perceber. Todo o poder do tigre, e todo o controle da sua mente humana...
   - Me joga!
    Acordou com um grito grave da voz áspera da menina-lobo. Estava perdido em pensamentos. Tatiana apontava para cima: Umas 4 ou 5 Sirens cercavam Thaís, e ela parecia bem machucada.
    - Rápido! Me joga nelas!
    Tati abaixou-se próximo a ele, dando-lhe as costas. Fred a segurou firmemente pelos pelos e pelo couro, mirou e a atirou com toda sua força.
     Voou para cima delas e agarrou duas delas. As Sirens tentaram chutar e socar, mas não eram tão fortes, sua principal função não era combate, por isso agiam em grupo. Tati por outro lado era muito boa em combate e não importava que estava a dez metros do chão. Agarrou cada uma delas com uma mão e as enfiou de cara numa árvore enquanto caiam. Conforme caiam, o rostos das duas era esfregado na superfície da árvore, esfolando suas faces já deformadas. Quando finalmente atingem o chão, Tatiana socou com muita força as meninas nas costas. Socou até sentir os ossos delas partindo em seus punhos e até os gritos sumirem.
    Fred escalou muito rapidamente uma das arvores e saltou para ajudar Thaís com as outras duas. Seu pulo nao foi muito alto, mas foi o bastante para agarrar uma delas pelo pé e traze-la para o chão. Livre daquelas que a seguravam, a mulher-águia cravou seu bico no olho da ultima das Sirens, matando-a. Seu corpo sem vida caiu sobre pedras lá em baixo, espatifando-a. 
    O tigre segurava a Siren, impedindo-a de se mexer.
    - Mata ela! - gritou Tati, que ainda queria sentir sangue nas mãos.
    - Controle-se! voce acabou de dominar sua besta, quer perder o controle de novo?
    - Mas essa vadia gritadora tava tentando matar a Thaís!
   Fred virou a Siren de frente para Tatiana. A Siren estava rouca, mal conseguia gemer. Seus olhos esbugalhados estavam vertendo lágrimas e seus dentes sem lábios batiam um no outro, tremendo.
     - O que você vê? - gritou ele - o que vê?
  
Tati olhou para aqueles olhos terríveis, depois olhou para seus punhos peludos e sujos de sangue. Thaís pousou perto deles e começou a se converter para forma humana, ela não conseguia falar em forma de águia. 
   - Medo...- disse tristemente. baixou os braços e pensou que seria a hora de deixar de ser lobo.
     Alguma coisa dentro dela a consumia, cada vez que assumia aquela forma, uma sede de sangue infinita, raiva de tudo e todos. cada segundo transformada era como uma bomba relógio, mas aquela cena deplorável, da pobre Siren machucada e chorando a encheu de tristeza mais uma vez e seu corpo foi aos poucos diminuindo.
   -  Não há nada mesmo que possamos fazer por ela?- Perguntou Thaís, já conhecendo a resposta.
   Tanto as Sirens quanto os Frogs não podem viver sem os artefato tecnológicos que eles vestem, são sustentados e controlados por eles, quase como se fossem zumbis tecnológicos.
   - Sabe que não... quantos já tentamos salvar? Eu sei que você se sente responsável por elas, mas...
   Tati já estava na forma humana, estava chorando tambem. Aproximou-se da Siren que anda estava presa nos braços do tigre e lhe tocou o rosto.
  - O que fizeram com você? porque fizeram isso tudo?
    A Siren tremia, sua boca abria e fechava.
  - Parece que ela quer dizer algo! - disse Thaís. - Correu e segurou as mãos dela.
  - LO....- a voz dela era esganiçada e estridente. - LOCALIZAR...
    Até esse dia, nunca nenhuma delas falou com eles, até mesmo Fred ficou surpreso. Mesmo aquelas que eles tentaram salvar, gritaram até a morte.
   - Localizar o que? - perguntou Tatiana, quase gritando.
   - LOCALIZAR. EXTERMINAR... THAÍS ROSSI...TATIANA SANCHES...
   - Provavelmente são as ordens dela - disse Fred - devem estar comandando ela de algum lugar. Elas não tem mente ou vontade propria.
    - Mas se for isso Fred - continuou Thaís-  por que ela não mencionou seu nome?
    - E eu vou saber? - rugiu ele com sua poderosa voz de tigre - alguém aqui tem alguma ideia do que ta acontecendo? nem eu, lembra?
     - Sério? pois eu suspeito a certo tempo que você tá escondendo alguma coisa! eles te querem vivo e você sabe disso! e acho que você também sabe o porque!
     - Como assim? - pergunta Tati, secando as lágrimas.
     - Todo ataque é a mesma coisa e hoje não foi diferente. Sempre focam mais a mim do que ele. - olhou Fred - acho que te querem vivo... ou isso ou me odeiam muito!
      O tigre argumentou, se defendendo do que Thaís dizia, mas Tatiana não parava de olhar nos olhos da Siren. Qual seria o nome dela? de onde ela veio e quantos anos tinha? Olhou para trás e viu as duas que elas mesma esmagou. Eram iguais a ela, controladas, não tinham escolha. Sentiu-se a pior pessoa do mundo.
    - E agora vai me dizer o que? que eu sou um traidor?
    - Eu não disse nada disso! só que é bem estranho! e você não percebe ou finge que não!
    A discussão foi cortada por um grito de Tatiana.
     - Calem a boca os dois! - depois ela apontou para a Siren, que tentava dizer algo a mais.
     - MATEM...ME MATEM...
     - O que? não! não vamos...
     - POR FAVOR...- os olhos dela não paravam de verter lágrimas.
     - Nos vamos ajudar você vamos...
     Os braços do tigre apertaram o pescoço da Siren com força e torceram. Um "creck" pôde ser claramente ouvido. Ela afrouxa os braços e ela cai mole no chão.
    - Não... você...
    Ela cai de joelho, chorando. A menina não se mexia ou gemia mais. Morreu.
    - Essa é a nossa realidade, Tatiana. Por mais que elas sejam inocentes, são nossas inimigas e nos querem mortos... contrario do que a Thaís tá inventando.
    - Não to inventando nada! só to dizendo que você tá cego pra uma possível verdade!
    - E se isso for verdade? - rosnou ele com raiva pra cima dela.
    Ela não se afastou, ficou firme e se aproximou dele.
    - Se for, fico feliz - tocou o rosto felino dele gentilmente - porque não vou ter que te ver morrendo.
   Aquele gesto desarmou totalmente o rapaz.
     - Não quero que você morra. É meu herói, alias, nosso herói. Você é bem rude, mas sei que é uma boa pessoa, você se arriscou por mim, pela Tatiana e por todas aquelas crianças. Se for verdade que não te querem morto, nossas chances de sobreviver. - suas mãos pequenas seguraram as enormes patas de tigre dele- aumentam.
    Se abraçaram e Fred voltou a forma humana.
    - Obrigado por estar aqui. - disse ele.
    - Alguém tem que cuidar do gatinho nervoso - riu ela.
   A noite já estava caindo, e eles precisavam encontrar outro esconderijo. aquele estava coberto de sangue e corpos de todos os tipos e marcado por muita tristeza.
    Algumas horas depois, os três amigos estavam sentados ao redor de uma fogueira, perto de uma construção natural de pedras, era a nova casa até os Frogs os encontrarem.
    Tatiana olhava para a fogueira, mas sua mente estava naqueles olhos. Ela estava horrorizada mas não podia deixar de concordar com Fred. " elas não tem salvação".
    - Tati, você conseguiu se transformar por vontade própria hoje, o Fred me contou. E se manteve sobre controle o tempo todo.
    - Não o tempo todo...- respondeu sem tirar os olhos da fogueira. - Eu sempre deixava a raiva me levar e a raiva me fazia virar "aquilo", mas hoje, quando eu vi que eles mataram as crianças eu... senti raiva sim, mas eu tava muito triste, me senti destruída então eu... sabia, que aquilo tinha que acabar. Eu implorei para a outra parte de mim vir, e me ajudar a acabar com aquilo, porque era errado. Foi isso.
    - Não foi diferente de mim, na verdade. Eu queria salvar a Thaís e quando vi, eu era eu e "ele" ao mesmo tempo.
    - Aquela Siren... foi horrível...
    - Eu sinto muito por aquilo, mas você precisa estar totalmente ciente da nossa situação aqui. Não há o que fazer, não temos como lutar para sempre, eles sempre continuam vindo em números infinitos. E se acharmos um barco e sairmos e depois? não somos mais pessoas normais.
    - Nossas vidas não são nada e não podemos ser salvos - continuou Thaís - mas podemos por um fim naquilo. Acabar com a dor daquelas crianças.
    - Você voa, nunca pensou em fugir? - perguntou Tati.
    - E ir pra onde? não sei onde estou nem pra onde ir... além do que... eu não posso abandonar o Fred e as crianças... e agora, temos você. Mais um motivo para eu ficar.
    - Você ta certa. - disse ele - temos poder, vencemos muitas batalhas. Nossas vidas já estão perdidas, vamos acabar com isso. Vamos dar a eles muitos motivos para se preocupar.
    - Eu não sei o que fizeram comigo nem o que sao essas cicatrizes. Mas eu vou me certificar de que eles vão se arrepender de ter me criado.
    Thaís e Fred estavam determinados, a alma deles queimava como a fogueira que aquecia suas mãos. Tati sabia que eles estavam certos. Ela tinha medo, mas aquilo o que vivenciou hoje... era enlouquecedor. Melhor morrer do que ter que viver assim...
     - E se for pra morrer. - disse a pequena - que seja lutando. Se for pra cair, que seja pra cair matando cada um dos desgraçados responsáveis por isso.
     Fred olhou pra ela com um sorriso confiante.
     - Comam todo o peixe e durmam bem - disse - Pois amanha isso acaba. para nós ou para eles.

CONTINUA

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Sonic. EXE


    Olá. O que passo a relatar aqui será visto como insano, ou sonho. É o que todos dizem para mim, por mais que eu tente provar, mas eu vi, eu sei que vi. Cabe a você, quem quer que seja, acreditar ou não.
   Como toda criança na minha época, eu era fã do Sonic. Sonic e Mario eram os jogos favoritos de quase todo mundo, mas, alguns ficavam mais com o Sonic e outros com o Mario. Eu era mai da turma do azulzinho veloz; meus pais não em deixavam brincar na rua e me davam videogames para passar o tempo, acho que esse foi um dos principais motivos de eu sempre gostar mais do Sonic, ele é livre, pode correr para qualquer lugar e é super rápido; tem muitos amigos e salva os animais. No entanto conforme o tempo passava, a franquia começou a crescer e ganhar plataformas em 3d, o que mudou muito a jogabilidade original e eu aos poucos fui deixando de gostar da saga.
   A vida passa, a infância acaba e a vida adulta chega; hora de deixar o velhos herois de lado e encarar a realidade. Adultos não jogam, adultos estudam e trabalham e foi o que eu fiz entrei pra faculdade;mal tinha tempo para as coisas que eu gostava, quem dirá, jogar vídeo game, que era coisa de criança a toa.
   Um dia porém, mexendo numa caixas de coisas velhas, encontrei meu empoeirado e antigo mega drive. Ao toca-lo, foi como se todas as boas memórias e infância tivessem voltado á mim, lembrei das tardes que passava sentado no chão da sala, tomando coca e jogando ele, e das madrugadas, que jogava escondido da minha mãe. Rejuvenesci na mesma hora: as musicas, os sons, as sequencias de botões, tudo veio à mente, junto com uma enorme vontade de jogar mais uma vez.
    Tirei o pó de cima dele e o liguei na tv do meu quarto e para meu espanto, funcionou! Meu cartucho do Sonic não funcionava mais, infelizmente, entao, coloquei Streets of rage para jogar um pouco, mas logo cansei, não era bem o que eu queria. Então, calcei o tenis, vesti um boné e saí para o centro da cidade, procurar uma dessas lojinha de eletrônicos, onde se encontra coisas velhas quem ninguém mais quer.
     Depois de algum tempo procurando, eu encontrei uma dessas lojas, fui ao vendendo e perguntei: Você teria ai o cartucho do Sonic? aquele antigão mesmo.
        Mal terminei a pergunta o o cara respondeu:
     -   Tenho um aqui sim.
     Ele buscou atra´s do balcão e me entregou um cartucho totalmente preto, sem rotulo, apenas um uma fita branca colocada na frente com o dizeres "Sonic". Torci o nariz, com razão, e o homem continuou:
     - Esse cartucho ta sempre voltando pra cá e considerando as péssimas condições dele, eu te faço por 10 reais, o que acha?
     Considerando que aquilo fosse mesmo Sonic, estava o preço muito bom, afinal, o valor sentimental que eu tinha por aquele jogo era muito maior do que isso. Como eu tinha exatamente 10 reais no bolso comprei-o, atirando a nota sobre o balcão quase automaticamente.
      Corri pra casa para pode jogar logo; em todos aqueles anos que eu deixei de lado os vídeo games, que me forcei a crescer, eu esqueci como é legal e divertido gastar um tempo relaxando com games eletrônicos, e eu estava prestes a reviver isso tudo. Mas antes não tivesse.
       Liguei o jogo e fiquei feliz em ver que era mesmo Sonic. A tela de entrada, com sorrindo sorrindo confiante e agitando o dedo como sempre, porém.... quando apertei start, algo muito bizarro aconteceu que me fez pular do sofá: o céu ficou totalmente escuro, o mar, vermelho como sangue. O sorrio confiante de Sonic era agora um sorriso maligno e seus olhos totalmente negros com um ponto vermelho no meio, era como se a tela de inicio tivesse ido para inferno!
     O jogo nao começou como antes. A invés de ir para Green Hill zone, fui levado a uma tela vermelha com save files, porém, sem a opção de escolhe-los, a não ser uma delas. As outras duas estavam trancadas com um ícone de cadeado, e a musica do fundo era assustadora! era uma versão distorcia e demoníaca da musica da "data select" de sonic, mas num tom melancólico e macabro, como nunca ouvi antes. O Slot disponível tinha apenas a figura de Tails selecionada, tentei apertar tudo, mas parece que apenas poderia jogar com Tails sozinho. Eu odiava ele, queria o Sonic, mas nao parecia ter opção, era como se o jogo quisesse que eu fosse o Tails. Apertei start para seleciona-lo... a luz do meu abajur oscilou quase que na mesma hora. gelei.
      Uma tela preta apareceu na sequencia, onde normalmente estaria escrita o nome da fase( Greenhill zone) apareceu uma mensagem em inglês "Bem vindo de volta". Como assim? o jogo estava falando comigo? em seguida sou jogado na Greenhill zone, mas tudo é apenas uma reta. Começo a correr com Tails e a musica do fundo para estar tocando de trás pra frente. Aquele som estava entrando na minha mente como uma agulha. passos por varias árvores e pedras normais do cenários mas eis que então começam a aparecer rastros de sangue e destroços de animais por toda parte. Continuo a correr para frente, pois a tela trava e não me deixava recuar. Continuei a correr por aquele cenário horrível até que encontrei Sonic. Tails pára de correr, e sem que eu pudesse controla-lo ele caminhou até Sonic. Sonic que estava de braços cruzado e olhos fechados, abriu-os e seus olhos estavam vermelhos como na tela de abertura. A tela escureceu e eu ouvi uma risada que parecia vir de todos os cantos do meu quarto e uma mensagem apareceu na tela, " VOCÊ QUER BRINCAR COMIGO?"
     Em seguida, surgiu a mensagem de título de fase, como aparece em todas a fases que você acaba de entrar, mas ao invés de aparecer o nome de uma fase, apareceu ": esconde esconde".
      A tela seguinte era pavorosa: estava tudo em chamas, Tails estava parado com uma expressão de medo e ele apontava para mim! isso mesmo, para mim, ou para algo atrás de mim. Naquela hora senti um arrepio subindo pelas costas, mas resisti a tentação de olhar para trás. Peguei o controle, suando e comandei Tails a correr por entre aquela terra abrasada. Tão logo ele começou a correr, aquela risada assustadora mais uma vez pode ser ouvida por todo meu quarto, e a imagem do Sonic demoníaco surgiu, correndo atrás de Tails. Eu apertava com força o controlador para que ele fugisse, mas Sonic estava cada vez mais perto, e o que era pior, aquela musica desesperadora de quando se está morrendo afogado no jogo, começou a tocar. Conforme a musica acelerava, Sonic chegava mais e mais perto de Tails.
     Eu estava muito apavorado, eu sabia que algo bom não iria sair daquilo. Quando Sonic finalmente tocou Tails, ele sumiu... e então eu vi Tails, me encarando e chorando. Eu nunca vi tal animação antes, Tails estava olhando para mim e chorando desesperadamente como se implorasse minha ajuda....
     Então Sonic apareceu do nada, na frente dele, com as mãos em sua direção agarrou-o... em toda minha vida, eu nunca tinha ouvido um grito tão aterrador, tão assustador... a tela escureceu, mas o grito de Tails continuou por uns segundos, ecoando meu quarto todo...e meu abajur oscilou mais uma vez.
      Silêncio.
      Mais uma vez ouvi aquela risada e então outra mensagem na minha tela: "VOCÊ FOI MUITO LENTO. QUER BRINCAR DE NOVO?"
      Mais uma vez a tela de "data select" apareceu, mas desta vez, Tails estava cinzento e com lágrimas de sangue escorrendo pelo rosto. Meu deus! Tails estava morto? Sonic o matou enquanto eu jogava? isso não pode ser real, é só um jogo! e jogos são coisas de crianças! coisas divertidas!
      A tela de data select agora indicava que era a vez de Knuckles, o outro amigo, que eu também não achava legal... Sonic queria que eu o visse morrrer? Estava apavorado, mas muito curioso. Apaguei meu abajur e apertei start, selecionado-o. 
      O nome da próxima fazer era "VOCÊ NÃO PODE CORRER" . Era a chemical Plant, mas estava tudo destruído. Knuckles corria para direita e como tails, nao podia voltar, Corri. A certo ponto, o chão começou a ficar coberto por sangue. Continuei a correr sem me importar,quando, a maldita risada de Sonic, que sempre que causava a arrepios soou de novo. Ele aparecia e sumia em flashes, cercando Knuckles, a cada aparição, eu tinha menos espaço para me movimentar, quando então Knuckles cai ao chão exausto e Sonic aparece por trás dele com aquela cara demoníaca....
      A tela apagou e mais uma vez ouvi um grito, dessa vez, de Knuckles. O grito era tão terrível e assustador quanto o de Tails... Meu coração estava acelerado, quem seria agora?
       De volta à tela de data select, assim como Tails, Knuckles estava cinzento e sem vida, chorando sangue, e, para minha surpresa, o próximo slot pertencia ao Dr. Robotinik. Mesmo sabendo o que aconteceria a seguir, eu apertei start.
     A fase seguinte se chamava " ..."
      Robotinik estava seu laboratório, ma haviam marcas de sangue por toda parte. Comecei a correr com ele, mas era um pouco diferente, ele parecia chorar enquanto corria, era como se ele soubesse do que estava por vir; todos morreram, só sobrava ele. Seu laboratorio em ruinas passava por ele, enquanto eu o fazia correr desesperadamente.
      A maldita risada de Sonic ecoava por toda parte e muitas vezes eu sentia como se ele estivesse bem atrás de mim! como se aquilo fosse um castigo por tê-lo esquecido por tanto anos!
      Robotinik correu até a saída do laboratório, onde Sonic o esperava, com um largo sorriso e olhos vermelhos. O Doutor chorava desesperado, quando então a tela escureceu e num flash, surgiu uma imagem que nunca mais consegui esquecer, que sempre que fecho os olhos, eu vejo na minha mente. O rosto de Sonic, deformado, enorme na minha televisão, dizendo "EU SOU DEUS."

  Essa imagem permaneceu estática ai, não importava o que eu fizesse. Apertei o start mais uma vez e a tela mudou para uma cena com Tails, Knuckles e Ronotinik com as cabeças decepadas, e entre eles, Sonic, olhando para mim, com aquele par de olhos frios, como se me dissesse " você é o próximo".
      Pra mim chega! corri até o console para tirar aquele cartucho dali, nunca mais queria vê-lo de novo! minha infância fora totalmente destruída e eu jamais poderia fechar os olhos novamente sem lembrar daquele olhar que me julgava, mas para terminar meu desespero, logo que pus a mão sobre o cartucho para puxa-lo, a cena dos amigos estripados mudou e ai sim, eu percebi... que Sonic estava mandando uma mensagem para mim.... Deus, eu queria nunca... Deus...
 
( esta carta foi encontrada dias depois, no corpo de um homem de 23 anos, trancado no banheiro. Seu cadáver estava em posição fetal e era difícil identificar a causa da morte. Nas paredes, uma frase escrita em sangue: você não pode correr.)

sábado, 6 de julho de 2013

Ritos

  
 Ele sentiu os músculos se retraírem levemente... Devagar, podia sentir o movimento voltando aos dedos dos pés e das mãos.
  Sua consciência voltava lentamente de um sono profundo, cujos sonhos ele mal podia se lembrar. Estivera dormindo por quanto tempo? Também não lembrava da noite anterior...
  Moveu os braços para espreguiçar-se e no mesmo momento sentiu o corpo todo ser percorrido por uma dor lacinante que começava perto da garganta e seguia ao longo do peito até a pélvis.
  Recuperando lentamente o ritmo da respiração, alarmada pela dor, abriu os olhos. Sentia as pálpebras pesadas e a cabeça rodando, mas tudo era escuridão. Tentou levantar o braço que bateu em algo a cerca de 30 centímetros acima, e sentiu mais uma fisgada de dor corrente, tocou o peito e algo lhe pareceu muito mal...
Pôde sentir um profundo corte que seguia da base do pescoço até abaixo do umbigo, seus dedos tocavam os pontos, feitos espaçadamente, sem cuidado, e isso lhe causava mais dor e com ela sentia náuseas. Não enxergava nada, tudo era oculto.
  Tentou novamente erguer os braços, mas era impedido por uma parede de madeira...
  O desespero tomava conta dele, tentou chutar, mas a parede não cedia e só lhe fazia aumentar a dor que sentia, logo percebeu que a parede se fechava estreita à sua volta... Estava encaixotado!
  Tentou gritar, chamar por alguém, mas seu coração disparara e sua voz faltara.
  "Meu Deus, eu fui enterrado vivo! VIVO! Mas como? Eu não morri! Eu não me lembro! Como, Meu Deus? COMO? ... "
  Ele começou a empurrar com os joelhos e as mãos, mas a flexão das pernas fez os pontos na sua barriga rasgarem a pele, causando-lhe tamanha dor que o ar também lhe faltou. Podia sentir as lágrimas escorrendo... Fora autopsiado, não sabiam a causa de sua morte.
- Alguém... - murmurou ele, a voz baixa, rouca, somente um sopro.
  De repente o caixão se moveu. Alguém estava ali, levando o caixão, mas ele deslizava...
"Será meu funeral? Ainda não me enterraram!!! Ainda há tempo!"
  O sangue na barriga escorrendo e molhando suas costas, não tinha forças mais para empurrar... As batidas mal faziam som nas laterais do caixão, sentia a cabeça rodar e latejar.
- Socorro...
  Lentamente as lembranças voltavam, do jantar, da noite com ela, o café na cama, o chuveiro, a tontura... e o nada.
  "É isso! Eu desmaiei! Mas como ela não viu que era um desmaio? Será que eu bati a cabeça? Oh Deus! Eu tenho Catalepsia? Como os médicos não viram isso??? Me abriram todo e não viram isso?"
- Socorro... Ajuda...
  No exato segundo entre a última tentativa de pedir auxílio e tentar organizar seus pensamentos em meio aquela dor insuportável e o desespero, sentiu os pés esquentarem...
  No lado de fora, seus parentes, amigos e colegas, choravam sua morte e despediam-se pela última vez do amigo que desde sempre dizia:
"Quando eu morrer, quero ser cremado, igual aos povos antigos! E minhas cinzas quero que joguem sobre o mar..."

por Thaís Rossi

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O Homem dos Sonhos (III) - Lágrimas


Capítulos anteriores:

Parte 1/Parte 2


  Aline abriu os olhos sem a menor vontade de voltar a dormir, apesar de ainda se sentir sonolenta. Olhou para o relógio no móvel ao lado da cama e viu que acordara pouco antes dele tocar. Muito pouco tempo para tentar voltar a dormir, decidiu. Alcançou o relógio e desligou o despertador.
Espreguiçou-se na cama e viu que seu marido ainda dormia a sono solto. Decidiu deixar o alarme acordá-lo e sentou-se e ficou por alguns minutos parada, sentindo um gosto ruim, amargo, em sua boca.
Enfim se levantou, esticando o corpo todo, tentando dissipar a preguiça entranhada em seus músculos e foi ao banheiro. Olhou-se no espelho e não gostou muito do que viu. Estava com uma cara amassada e cheia de olheiras.
- Quem consegue estar linda e maravilhosa antes das cinco da manhã? - perguntou ao seu reflexo, e não obtendo resposta completou. - Talvez a Gisele Bündchen.
Sua figura no espelho lhe deu um pequeno sorriso, como que para não deixar a piada passar sem graça.
Começou a escovar os dentes, para se livrar daquele gosto horrível da boca. Afinal, de onde vinha aquele gosto? Só tomara duas cervejas na noite anterior, não podia estar de ressaca por tão pouco, não é?
Aline jogou uma água no rosto, tentando melhorar o aspecto da cara no espelho e não viu muita mudança, pelo menos além do fato de agora estar amassada, com olheiras, e molhada. Foi nesse momento que viu, pelo canto do olho, no reflexo do espelho algo se movendo. Por um instante achou ser apenas a sua imaginação, tentando ignorar, mas logo em seguida percebeu outro movimento no mesmo ponto do banheiro, atraindo a sua atenção. Quando fixou o olhar, um arrepio subiu por sua espinha, suas mãos fecharam em garras na pia, o corpo todo se tencionou até explodir em um grito.
Um instante depois André entrava aos tropeços no banheiro da suíte, encontrando sua esposa em cima da privada aos berros apontando para um ponto do chão próximo do box. Quando seu cérebro ainda sonolento conseguiu se dar conta do tipo de emergência em que se encontrava voltou ao quarto retornando devidamente armado para enfrentar a criatura que morreu esmagada após uma feroz batalha sob seu chinelo.
Quando a adrenalina baixou, André explodiu em uma gargalhada. Aline deu dois tapas em seu marido, enfezada.
- Não tem graça!
- Claro que tem. - ele respondeu entre explosões de riso. - Você já invadiu favela, já peitou traficante, participou de negociação de refém e se apavora diante de uma simples barata?
E voltou a rir.
Aline sentia a face arder e abriu a boca, mas sua fala foi interrompida pelo ranger da porta do quarto se abrindo, o que capturou a atenção do casal que ficou em silêncio, dirigindo suas atenções para fora do banheiro da suíte em direção a origem do som. Uma pequena criatura vinha cambaleando em sua direção.
- Mamãe, você me acordou! - resmungou Cristina esfregando os olhos abraçada ao seu ursinho.
Aline se aproximou da filha emburrada, agachando-se a sua frente, passou a mão pelos cabelos desgrenhados.
- Ô minha dorminhoca, é que a mamãe viu uma barata desse tamanho. - disse abrindo os braços.
- Verdade? - a criança arregalou os olhos, apertando mais o bicho de pelúcia nos braços.
- Verdade! Mas pode deixar que o papai já matou aquele bicho feio e nojento.
A menina olhou para o pai atrás de Aline, que mostrava com os dedos o real tamanho da ameaça matutina. Pai e filha trocaram um sorriso enquanto Aline a pegava no colo para irem tomar o café da manhã.
* * *
- Você estava agitada esta noite. - André perguntou enquanto ligava a cafeteria. - Sonhou alguma coisa?
Aline ficou pensativa por alguns instantes, antes de responder.
- Não sei. Na verdade, nunca lembro dos meus sonhos. Só sei que acordei pensando na minha irmã.
- Também, com tudo que está acontecendo na vida dela.
- É. Mas ainda não acredito que aquele canalha a largou assim.
Cristina, sentada ao lado da mãe na mesa da cozinha, tentou falar alguma coisa, mas apenas fez sons indistintos.
- Ô meu amor. Mamãe já não disse que é feio falar de boca cheia?
A menina bebeu uma golada de leite, e depois de engolir, soltou um suspiro sonoro antes de perguntar:
- Mamãe, o que é um canalha?
Aline e André se entreolharam por um instante, buscando ajuda um no outro. Por fim foi Aline quem respondeu a filha.
- Canalha é uma pessoa muito feia que parece legal mas faz os outros chorarem.
- Então um canalha é uma pessoa má?
- É. Pode-se dizer que sim.
- Então eu espero nunca encontrar com um.
- Eu tbm espero, querida. - disse acariciando os cabelos da filha. - Mas agora a senhorita precisa se arrumar senão vamos chegar atrasadas na escola.
E a menina saiu correndo para o quarto com o urso a tiracolo.
- Acho que você devia ligar pra ela. - disse André enquanto tiravam a mesa.
- Eu estava pensando em passar lá depois do trabalho, mas vou ligar antes, é claro.
- Se quiser, pode deixar que eu pego a Cristina quando sair da escola hoje.
- Obrigado, querido. - ela disse, envolvendo seus braços nas costas largas dele. - Sabia que você é o melhor marido do mundo?
- Sabia!
- Convencido. - disse soltando-o.
Em um movimento inesperado ele girou o corpo, agarrando-a e tascando-lhe um beijo.
- Estou pronta! Vamos pra escola, mamãe.
Desfizeram o beijo e viram a filha vestida com a fantasia de princesa do seu aniversário na porta da cozinha com o eterno companheiro de pelúcia nas mãos. Depois de algumas risadas, começaram a árdua tarefa de explicar para a menina que precisava vestir o uniforme da escola, além deles mesmo se arrumarem para seus respectivos empregos.
* * *
Aline chegou na delegacia um pouco atrasada, mas como seu chefe estava ocupado em sua sala nem percebeu e ela pôde se dedicar a revisar as investigações em que estava trabalhando. Ela estava com dificuldade de se concentrar, pensando na irmã. Tentara ligar para ela duas vezes, mas a ligação caiu na caixa postal.
Estava tão entretida em seus pensamentos que levou um susto quando Daniel chegou batendo com o jornal em sua mesa.
- Onde essa porra de cidade, vai parar?
- Bom dia, pra você também Daniel. - ela falou sem lhe dirigir o olhar. Estava acostumada com o jeito do colega.
- Bom dia é o cacete! Olha só que absurdo na capa desse jornal de hoje!
Aline pegou o jornal, um daqueles que se refestelam com a desgraça alheia e se você o espremer poderá ver o sangue escorrendo dele. Na primeira página, uma foto de um homem retalhado em cores bem vivas sob a manchete: “PROMOTOR QUASE VAI PARAR NA VALA DE INDIGENTE”.
- Dá pra acreditar? Um dos poucos promotores decentes dessa cidade acabar desse jeito?
- Diz aqui que só reconheceram ele por causa da aliança que ele ainda usava.
- Eu li. Se não fosse por isso ele teria ido pra vala como um indigente. Impressionante, né?
- Mais impressionante é nenhum vagabundo ter arrancado o dedo dele pra roubar a aliança.
A porta do delegado se abriu, dando passagem ao próprio, acompanhado de um jovem arrumado, de olhos cabisbaixos. Os dois se aproximaram da mesa de Aline. O delegado cumprimentou os agentes, dando-lhes bom dia, ao que foi retribuído e apresentou o rapaz ao seu lado como sendo Alan, um “carne-fresca recém-saído da Academia de Polícia, pedindo a eles que apresentassem a delegacia e mostrassem como tudo funciona por ali.
Aline se levantou para cumprimentar o novo colega e notou que a mão dele estava suada, e que ele evitava olhar nos olhos dela ou dos demais, mantendo o olhar baixo. Lembrou-se do seu primeiro dia, e como se sentiu nervosa e ansiosa.
- Então ele é o “fraldinha” que mandaram pra cá? - Daniel disse alto batendo no ombro do novato.
- “Fraldinha”? - repondeu Alan, soltando a mão de Aline.
- Liga não. É o apelido da sua turma. O grupo mais jovem a ter se formado na Academia nos últimos anos. Não tinha ninguém com mais de trinta na sua turma, não é? - Aline interveio.
O rapaz acenou a cabeça, concordando.
Um outro agente deu um aviso para Aline interrompendo a conversa.
- Vamos novato, você vem comigo pegar um depoimento. Mas bico calado. Hoje você só observa e faz anotações.
* * *
O tal depoimento foi de um senhor Maycom dos Santos, apesar de que chamá-lo de senhor era algo estranho, já que ele não tinha mais idade do que Alan. Era a respeito da morte brutal do seu pastor. A vítima foi encontrada carbonizada no centro da pequena igreja que ele presidia.
Assim que o depoente entrou na sala, Aline notou as olheiras e olhos inchados como quem chorou muito e dormiu pouco.
O depoimento dele não estava acrescentando muito às informações que eles já haviam coletado. Confirmou os conflitos da vítima com um grupo de travestis que fazia ponto de prostituição próximos da igreja, por causa dos discursos inflamados em suas pregações. Pregações essas que também condenavam os traficantes que alimentavam o vício de drogados nas ruas ao redor. Informações que já haviam sido fornecidas pelos outros fiéis.
O diferencial era que, ao contrário dos fiéis ele não acreditava que estes grupos tivessem qualquer ligação com a morte do pastor Wanderson. Segundo ele, apesar das ameaças, os travestis não teriam inclinação para um ato tão hediondo quanto queimar alguém daquele jeito, e já fazia mais de um ano que era o depoente quem tomara a frente do trabalho de evangelização dos adictos, e, por isso, ele seria um alvo muito mais provável dos traficantes do que o pastor.
Aline sentiu que havia algo mais. Alguma coisa que Maycom ficava relutando se deveria ou não falar. O esfregar constante das mãos, o olhar baixo e hesitante, eram sinais gritantes. Mesmo assim, sabia que não poderia forçar diretamente sob risco de perdê-lo. Sabia que precisaria criar confiança e acolhimento para que ele se abrisse.
Só que foi muito mais fácil do que ela esperava. Bastou segurar nas mãos dele e perguntar em voz baixa e pausada se havia mais alguma coisa que ele gostaria de acrescentar para que ele agarrasse sua mão e começasse a falar “só porque ela era cristã.”
E contou que após a morte do pastor, descobriu que as contas da igreja não batiam, havendo depósitos muito acima dos recolhimentos nos cultos, mesmo com o pastor declarando nunca haver dinheiro para ampliar os projetos sociais. Além disso, quando começou a fazer as visitas caseiras para o aconselhamento espiritual, como o pastor fazia, as fiéis lhe confidenciaram que ele tinha “comportamentos inapropriados” com elas
Por fim, ele disse emocionado que tomar conhecimento deste outro lado do homem que havia salvado sua alma das drogas era como se ele houvesse morrido uma segunda vez.
* * *
Após o depoimento, Aline pediu para Alan ir iniciando o relatório enquanto ela ia fumar um cigarro. Fez isso não apenas porque este tipo de tarefa era delegada aos novatos, mas porque ela viu a quantidade extensa de anotações que ele fez.
Do lado de fora da delegacia, como sempre, ela acendeu o cigarro, deu uma tragada, e deixou-o queimar entre os dedos. Ela não tinha realmente o hábito de fumar, apenas aproveitava a pausa que isto proporcionava para se afastar de toda a pressão e stress de seu trabalho para arejar a cabeça, colocar os pensamentos em ordem. Naquela tarde específica, ela queria aproveitar esses minutos para tentar falar com sua irmã.
Apenas quando seu cigarro já queimara até a metade é que sua ligação obteve resposta.
- Alô? - atendeu uma voz sonolenta.
- Leila!? Onde estava? Tentei te ligar várias vezes e você não atendeu. - disse um pouco mais alto do que pretendia.
- Eu estava dormindo. O remédio que o médico receitou me derrubou.
- Você está bem? - perguntou com a voz um pouco mais controlada.
Ouviu um som de choro por alguns minutos. Sua irmã soluçava e fungava, aparentemente sem conseguir responder.
- É claro que você não está bem. Pergunta idiota.
- Ai, Aline. As vezes eu acho que nunca vou parar de chorar. Eu tenho medo de me afogar em minhas próprias lágrimas.
Aline se segurou para não dizer o quanto aquele comentário era melodramático. Sua irmã estava sofrendo e não queria piorar as coisas. Mas não sabia muito bem o que dizer para confortá-la. Sempre fora Leila quem cuidara dela e não o contrário.
- Oi, Sir Thomas. - Leila disse de repente, parando de soluçar.
- Quem é Sir Thomas, Leila? Tem alguém aí com você?
- É o meu gato, você lembra dele?
- Você está falando daquele gato preto insuportável que me odeia? Claro que lembro.
- Não fala assim dele. Não sei se suportaria passar por tudo isso se não fosse por ele. Não é meu fofo?
O jeito que sua irmã falava, e a forma como o gato ronronava em resposta, trouxe a sua mente a imagem de um antigo desenho animado em que uma menina abraçava os animais com todas as forças.
- Mas Leila, o nome dele não era Tom? Que história é essa de Sir Thomas, agora?
- É que eu achei que merecia um nome mais condizente com o seu porte. Ele é quase um lorde. - respondeu rindo.
Aline acabou rindo também. Ficou feliz com o tom de voz da irmã, mais leve, menos triste do que quando a ligação começou. Talvez aquele gato idiota servisse para alguma coisa, afinal.
Olhou para o cigarro e viu que já estava quase na guimba. Não demoraria muito para virem procurá-la. E não estava com muita paciência para ouvir sermão.
- Leila, eu tenho de ir, mas passo na sua casa mais tarde para tomarmos um café, pode ser?
- Está bem. Eu também tenho que ir. Sir Thomas se meteu debaixo da cama e está miando abeça. Acho que está com fome, o coitadinho.
- Você mima demais esse gato. - Aline riu. - Te vejo mais tarde. Beijo.
- Até mais tarde, mana. Beijo.
Quando Aline voltou para sua mesa, seus pensamentos ainda estavam com sua irmã, falar com ela não diminuiu a angústia que sentia desde que acordara naquela manhã. Talvez por isso, não escutou de primeira quando Daniel a interpelou.
- O Fraldinha aqui estava me atualizando sobre o depoimento. - disse em tom jocoso, apontando para Alan. - Quer dizer que o tal pastor não tinha nada de santo?
- É o que parece. Ainda temos que checar, mas agora temos duas linhas de investigação. O assassino pode ser um dos maridos traídos, ou alguém envolvido em qualquer fraude de onde ele tirava os grandes volumes de dinheiro.
- Você quer saber o que eu acho?
Aline respirou fundo, e olhou primeiro para Alan, como se dizendo “vai se acostumando que a peça é essa mala sem alça todos os dias”, para só depois se voltar para Daniel.
- O que você acha, Daniel?
- Eu acho esses pastores são todos uns pilantras que se aproveitam desses evangélicos pra tomar uma grana e conseguir o que mais quiserem.
Nesse momento, Alan que permanecera calado, levantou-se de repente.
- Pois o senhor fique sabendo que na minha igreja é bem diferente. O meu pastor e eu trabalhamos juntos para recuperar crianças abandonadas e abusadas, dando a elas acesso a educação e acolhimento as custas de doações e muito trabalho voluntário. Agora se me dá licença, vou arrumar essas pastas no arquivo.
E saiu com um bolo enorme de pastas nas mãos. Aline tinha certeza de que ele tremia, e quando ele já estava distante, voltou sua atenção para Daniel, que permanecia boquiaberto e sem fala, um feito até hoje só conseguido pelo delegado na base da autoridade.
- E não é que o Fraldinha tem bolas? - disse por fim. - Gostei do garoto.
* * *
No caminho para a casa de sua irmã, Aline se sentia cansada. O dia fora corrido, e curto demais para fazer tudo o que precisava ser feito, como sempre. As pessoas reclamam da polícia não fazer nada, mas não fazem ideia do quanto os policiais trabalham. Mas com tão pouco pessoal e recursos era impossível dar conta de tudo.
E além do seu trabalho normal, ainda teve que acompanhar o novato. Ainda mais depois dele e Daniel terem se estranhado pouco antes do almoço. A partir disso, ele grudou nela e perguntava tudo e mais alguma coisa.
No final do expediente, ele pegou sua mão e disse o quanto estava feliz por ter encontrado uma alma cristã como ela para ajudá-lo nessa nova fase de sua vida. Ao que Daniel, depois que o novato se afastou, comentou, do seu jeito peculiar, que ela havia adquirido um admirador.
Mas, enquanto dirigia, ela não conseguia parar de pensar nesse comentário dele. Um depoente mais cedo também a chamara de cristã. Logo ela que fazia anos não pisava em uma igreja.
Uma olhadela pelo espelho retrovisor deu-lhe a resposta na forma da pequena cruz de ouro em seu pescoço, e um sorriso triste surgiu em seus lábios. O que para Maycom e Alan simbolizava adesão ao grupo dos cristãos, para ela era uma lembrança de sua mãe. Lembrou-se qual fora a última vez que pisara em uma igreja, na missa de sétimo dia dela.
Enquanto estacionava o carro pensou no quanto gostaria que ela estivesse ali naquele momento e beijou a pequena cruz, como outrora beijara o rosto da mãe quando esta a acalentara no meio da noite após um pesadelo.
* * *
Na natureza, alguns animais aprendem a pressentir quando há um predador a espreita, pronto para dar o bote. Foi essa a sensação que Aline teve ao descer do elevador no andar da irmã. Apesar de seus olhos não perceberem nenhuma ameaça, seu trabalho na polícia civil a ensinou a confiar nesses instintos. Por isso, discretamente pegou a arma em sua bolsa, usando esta para escondê-la.
No exato momento em que tocou a campainha de Leila, a porta do apartamento vizinho se abriu e uma senhora enrugada saiu de lá como um rinoceronte em fúria.
- Aline, querida! Há quanto tempo! Você engordou.
- Oi, dona Doralice. Uma boa tarde para a senhora. - ela respondeu, enquanto tocava a campainha pela segunda vez.
- Boa tarde, não, querida. O sol já se pôs, então é boa noite. - e deu uma risada esganiçada, como se tivesse dito uma piada muito engraçada.
- É verdade. Desculpe o meu erro. - respondeu com seu melhor sorriso amarelo.
- Não precisa se desculpar, querida. Vocês jovens estão sempre com a cabeça nas nuvens e não sabem aproveitar o tempo de forma correta.
"Será que eu poderia alegar legítima defesa contra sufocação por chatice se metesse uma bala nela agora?" Pensou e achou melhor guardar a arma antes que a ideia se tornasse tentadora demais. Virou-se de costas para a senhora que continuava a tagarelar.
- Você por favor avise a sua irmã que o seu Marcelo do andar de baixo ligou reclamando que está pingando água no apartamento dele. Eu disse que do meu não podia ser, pois eu não abri nenhuma torneira hoje. Nem tomar banho eu tomei.
"Disso eu não duvido." pensou, e ficou na dúvida se chegou a falar em voz alta. Se o fez, a vizinha não fez qualquer menção de ter se tocado, pois continuou na sua ladainha.
- E esse gato dela? Jesus, o bichinho está miando faz horas. Nem me deixou ver a minha novela em paz.
Quando mexeu na bolsa, Aline viu seu molho de chaves e lembrou que a irmã lhe dera uma cópia da chave de sua casa, e este era o momento perfeito para usá-la.
- Aham, dona Doralice. Pode deixar que darei todos os seus recados para ela. - e bateu a porta praticamente na cara da senhora.
"Que figura."
Sem o falatório constante em seus ouvidos, Aline pôde voltar a escutar os próprios pensamentos e se perguntar do porquê de sua irmã não ter atendido a porta, mesmo ela tendo tocado a campainha tantas vezes. Aquela estranha sensação ainda a acompanhava, porém ao ouvir o barulho do chuveiro, descartou-a como sendo apenas a sua imaginação.
Foi quando chegou ao corredor do apartamento que percebeu algo de errado. O chão estava todo molhado com água que brotava por debaixo da porta do banheiro. Em um impulso correu para tentar abri-la e nem notou o gato preto deitado próximo, arfando.
Depois, quando perguntada sobre como tudo aconteceu, Aline não saberia responder muito bem. Só lembraria que, de alguma forma, conseguira abrir a porta do banheiro, e de dentro dele saíra um enorme volume de água. E que ela vira o corpo de sua irmã, e o agarrou e sacudiu, chamando o nome dela e pedindo socorro.
Mas já era tarde demais.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Perfume.


Por: Franz Lima.

Nunca vou me cansar. Acredite! Cada dia sempre será uma renovação do meu amor por você. Vê meus olhos cansados e fundos? Eles são fruto do que sinto. Não consigo dormir. Já estou há quase cinco dias sem descansar, pois tenho medo de não despertar. Tenho medo de perdê-la.
Alguns podem levar esse amor para o lado ruim, enquanto outros tenderão a me criticar pelo excesso de meus atos. Que fiquem com suas críticas. Que fiquem com suas vidas fúteis e seus amores rasos. Eu nasci para amar... você.
O destino nos uniu e é com você que sou feliz. São apenas algumas semanas juntos, mas como mensurar o tempo quando há tanto em jogo? Para nós, o tempo parou.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A outra parte de mim (V)

     Fred e Tati se viram para trás. Thaís apontava para a mata de onde eles vieram. Os arbustos estavam se mexendo, as copas das árvores também, como se muitas pessoa estivessem andando por eles.

- são as Sirens? - perguntou a pequena, secando as lágrimas.
- Não... são os Frogs... 



segunda-feira, 24 de junho de 2013

A outra Parte de mim (IV)



Tatiana segurou a mão de Thaís para ficar de pé, ainda assustada com aquilo tudo: a prisão, a floresta, sua transformação em monstro, a garota voadora que grita e agora... Thaís...a mulher-águia, que depois de bicar até a morte a gritadora, transforma-se em humana e lhe estende a mão, oferecendo sorriso e segurança.
    • Vamos, temos que ir a um lugar seguro, se ficarmos aqui muito tempo...

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A outra parte de mim III

           

           As crianças se apertam umas às outras, com medo. O Tigre encara a menina lobo com seriedade; logo outros guardas ou coisa pior apareceriam ali, mas ele tinha que fazer algo para proteger as crianças que ainda estavam vivas.

       A loba pula sobre o tigre, tentando rasga-lo com unhas e dentes, mas é habilidosamente imobilizado pelo oponente; o tigre branco segura as mãos da loba, impedindo o ataque. Depois, acerta uma joelhada no estomago dela. Ainda segurando-a pelos pulsos, ele a arremessou de cabeça contra o muro. Estava seguro da força dela, sabia que aqueles golpes não a matariam, mas quem sabe a dor a assustasse?

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Referências

Ele tinha que descer doze quarteirões para poder pegar o ônibus a tempo. Cada dia nessa função, ele amaldiçoava algo ou alguém por morar tão longe da rua principal da cidade – e, portanto, da parte da cidade que "importava". E o fazia com muita dramaticidade:

— Porca miseria! Eu não merecia um tratamento tão desprovido de apreço e consideração!!!