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quinta-feira, 6 de junho de 2013

O Homem dos Sonhos (II) - Faça suas preces!


Capítulos anteriores:

Nos tempos medievais, as igrejas eram construídas gigantescas, com as imagens de santos e anjos olhando de forma severa para baixo afim de criar a ideia da enormidade de Deus diante da insignificância do homem.
A pequena igreja do pastor Wanderson não era nem de longe tão opulenta quanto as catedrais góticas dos tempos antigos, apenas uma sala pequena com algumas cadeiras de plástico onde as pessoas se sentavam para ouvi-lo falar buscando alívio para seus martírios diários diante do poder divino.
Mas não havia qualquer alívio para Wanderson naquela noite, enquanto ele tentava em vão debater-se contra as amarras que prendiam seus braços abertos de costas para o altar de onde tantas vezes proferira palavras sobre o poder de Deus e sobre o temor que as pessoas o deviam.
Ele orou, com mais força e convicção do que jamais orou para impressionar seus fiéis em suas pregações, talvez pela primeira vez em sua vida verdadeiramente clamando por uma intervenção divina que o liberta-se daquele suplício.
A figura diante dele não tinha nada de divina, entretanto. Wanderson podia ver, mesmo na penumbra que dominava a pequena igreja os chifres que brotavam da cabeça arredondada enquanto sentia as mãos dele prendendo seus pés juntos em uma crucificação macabra, seu toque parecia com o de pequenas criaturas rastejantes subindo pelas suas pernas causando arrepios igualmente de medo e nojo.
Wanderson tentou mais uma vez mover-se. Um único impulso, um chute bem dado no rosto de seu captor poderia ser o suficiente, mas assim como ocorrera quando ele prendera suas mãos, as pernas não o obedeceram.
Fechou os olhos enquanto o cheiro pungente invadiu suas narinas e o som de líquido sendo derramado se espalhou em seus ouvidos. E orou. Orou com toda a força que possuía. Pediu perdão por todos os seus erros, por todo o dinheiro que tomara de seus fiéis, das mulheres cuja fragilidade ele se aproveitou, de todas as mentiras que contou ao longo dos anos.
Um barulho ríspido o fez abrir os olhos quando o fósforo na mão do seu algoz se acendeu iluminando o rosto da criatura. Sim, criatura, porque não era possível que aquilo fosse humano. Mesmo os chifres sendo na verdade orelhas pontudas e salientes, a pele macilenta como de um cadáver e os olhos de um amarelo pustulento não deixavam dúvidas quanto a isso.
Diante desta visão infernal, Wanderson voltou a orar, mas suas preces transformaram-se em gritos conforme as chamas o devoravam lentamente.

* * *

Wanderson levantou gritando com tanta força que empurrou sua esposa quase derrubando-a da cama.
- Santo Deus, Homem! Que demônio te atacou essa noite?
Ele sentou-se arfando. Por um momento olhou para a mulher ao seu lado sem reconhecê-la. Sentou-se na cama e aos poucos o mundo foi voltando para o seu lugar mas a lembrança do sonho ainda era forte, como se suas mãos ainda ardessem em chamas.
- Você está tremendo. - disse sua esposa as suas costas.
- Foi só um sonho ruim. Nada demais. Deixa isso pra lá.
- Mas você anda tremendo a beça. Tem uns dias que eu estou reparando nisso. Já te disse que você tem que ver um médico, mas você é teimoso a beça.
- Eu já disse pra deixar pra lá! - Wanderson gritou se levantando.
O quarto ficou em absoluto silêncio por alguns minutos. De costas para ela, coçava o bigode branco tentando a todo custo ignorar o quanto a sua mão tremia enquanto fazia isso. Quando finalmente se virou, estava sozinho no quarto. Respirou fundo e entrou no banheiro para começar a se arrumar.
Minutos depois, já de banho tomado e vestido com seu terno marrom entrou na cozinha e encontrou a esposa lavando a louça. Ela serviu um café em sua caneca enquanto ele sentava para o café da manhã. Comeu calado, só falando ao tomar o último gole de café.
- O Souza vai passar aqui mais tarde pra deixar uma encomenda. Uma mochila daquelas. Conta pra ver se tá tudo direitinho e deposita na conta da igreja que como se fosse doação.
Ela concordou com um movimento da cabeça, ele levantou-se, deu um beijo na bochecha dela e saiu. Ambos sabiam que não havia necessidade de desculpas, mesmo ela tendo esquecido que a mulher devia ser submissa ao homem, ele a perdoava.

* * *

Boa parte do dia do pastor Wanderson consistia em visitar as casas dos fiéis para levar-lhes palavras de alento e conforto, além de coletar doações destes para a ampliação de sua sagrada igreja.
Ele se demorava mais em alguns do que em outros, pois cada um tinha suas próprias questões. Dava uma atenção especial as mulheres separadas ou viúvas, além de algumas cujos maridos não provinham com carinho e apoio suficientes para elas. Wanderson tinha muito prazer em atender as necessidades dessas irmãs em cristo.
Após passar o dia nesta árdua atividade, chegou no final da tarde a sua igreja onde Maycom o esperava lendo um jornal popular.
- Boa tarde, pastor.
- Boa tarde, Maycom. Como foi seu dia? - cumprimentou enquanto abria as portas da igreja que não era maior do que uma pequena loja.
Por um momento, Wanderson ficou ali parado observando seu diminuto templo enquanto um arrepio lhe corria pela espinha. Ele mal escutava enquanto Maycom falava sobre dependentes de drogas que ele visitara ao longo do dia e que tinha certeza de que conseguiria salvar em honra e glória do Senhor.
Seu pensamento estava longe, imaginava a igreja maior que pretendia alugar para comportar os fiéis que já não cabiam naquelas três míseras fileiras de cadeiras de plástico, sonhava com o dia em que estaria ao lado de pastores que tinham verdadeiras fortunas, talvez até entrasse para a vida pública. Quem sabe, um dia não estaria ele proferindo o nome de Deus no próprio Congresso Nacional?
O toque de Maycom em seu braço, buscando sua atenção o arrancou de seus devaneios.
- O senhor viu que coisa horrível, pastor?
Wanderson piscou uma ou duas vezes para se situar enquanto pegava o jornal que o outro lhe estendia com uma foto de um homem tão ensanguentado que poderia escorrer pela página.
- O que foi, irmão?
- Esse rapaz que foi retalhado no centro da cidade ontem de noite. - comentou compadecido. - não encontraram nenhuma identificação, e o rosto dele está tão desfigurado. Estão achando que é algum mendigo. Aonde este mundo vai parar?
- A causa disso é a perda dos valores da família, Maycom.
- O senhor acha?
- Tenho certeza! Deve ter se metido com uma daquelas prostitutas ou até os travecos que perambulam o centro. Teve o castigo merecido, certamente.
Quando devolveu o jornal, Maycom tomou sua mão.
- O senhor está tremendo de novo.
- Não é nada! - disse rispidamente enquanto puxava sua mão.
- O senhor deveria ir a um médico ver isso. É tão preocupado em cuidar dos outros mas não se cuida.
- Não é nada, já disse! E mesmo se fosse alguma coisa, tenho fé de que Deus cuidaria de mim melhor do que a medicina dos homens.
- Então permita que eu ao menos faça uma oração sobre o senhor, para lhe trazer alento.
Sentou-se enquanto o jovem colocou a mão em sua cabeça pedindo a Deus por sua saúde e proteção. As palavras foram tão sinceras que até trouxeram lágrimas aos seus olhos e aliviaram os seus temores de que estes tremores poderiam significar que estava perdendo o controle sobre o próprio corpo devido a idade já avançada. Este era o seu maior medo.
- Obrigado, Maycom.
- Não por isso, pastor. O senhor me salvou e ainda poderá salvar muitos outros como eu.
Wanderson ficou observando enquanto o outro se afastava para arrumar as cadeiras para o culto dali algumas horas. Ele fora uma das primeiras ovelhas de sua congregação, quando tinha recém-deixado a cadeia. O jovem era um drogado que vivia nas ruas e olhe para ele agora.
Se um dia teria que prestar contas diante do Criador, sabia que pelo menos uma coisa boa havia feito nesta vida.

* * *

O culto daquela noite foi inspirado. Wanderson falou sobre o fogo do inferno sobre os pecadores que não abraçavam o caminho de Cristo causando um furor entre os seus fiéis. Até citou a reportagem que Maycom lhe mostrara antes para ilustrar a perda dos valores familiares na sociedade decadente.
Ao final, muitos foram cumprimentá-lo e abraçá-lo, concordando com suas palavras e elogiando o fato de ao menos ele ser um homem com coragem para dizer o que ninguém tem coragem de dizer.
Maycom se aproximou dele acompanhado de uma velha senhora, dizendo ser sua avó que ansiava muito em conhecê-lo. Ela abraçou o pastor muito emocionada agradecendo por ter curado seu netinho querido.
Depois Maycom se desculpou por não poder ficar para ajudá-lo a fechar a igreja porque tinha de acompanhar a avó até em casa. Mesmo contrariado, Wanderson sorriu amarelo e permitiu que ele assim o fizesse e garantindo que não haveria problema algum para ele fechar arrumar tudo quando todos saíssem.
Os últimos fiéis ajudaram o pastor a fazer as arrumações, mas ele se despediu alegando que precisava fazer algumas orações sozinho com Deus. Quando se encontrou sozinho pegou a caixa de dízimos e foi conferir a arrecadação da noite. Percebeu que alguns deixaram de contribuir e fez uma nota mental para incluir um alerta quanto a isso na próxima pregação. Como queriam que Deus realizasse os milagres pedidos se eles não contribuíam para a glória de sua igreja?
Enquanto estava entretido em suas contas, pensando em quanto ainda precisaria para conseguir seu sonhado templo, a luz começou a piscar e por fim se apagou. Ele amaldiçoou, imaginando se tratar apenas de uma lâmpada queimada. Usando a luz do celular para se guiar, guardou a caixa e se dirigiu para a saída, quando a porta da igreja se escancarou de repente, mesmo tendo trancado-a quando o último fiel saiu.
Wanderson foi jogado ao chão pela mesma força que arrobara as portas e viu uma figura de pé a sua frente, iluminada apenas pela luz da lua, deixando apenas enxergar sua silhueta, na qual podia se ver o que pareciam dois pequenos chifres saindo das laterais da cabeça.
O pastor estava apavorado diante da figura que o assombrara em seu pesadelo. Sabia que não eram chifres, mas as pontas de suas orelhas salientes. Também sabia que ele o olhava com olhos amarelos da cor do pus de uma ferida a muito infeccionada. E podia sentir o seu sorriso macabro como se ele escorregasse por sua pele.
- Faça suas preces! - O estranho disse em uma voz rasgada.
E sem poder mover seu corpo, foi o que Wanderson fez...


segunda-feira, 3 de junho de 2013

A outra parte de mim (parte 1)

            
            Dia 15 de Agosto de 2006, foi quando começou. O primeiro incidente; Tatiana Sanchez, idade doze anos.

          Eram dez e quarenta da manhã, o recreio recém tinha terminado. A sala estava em silencio durante a prova de matemática, e como de costume, a maioria dos alunos estava muito nervosa. Tatiana era uma dessas pessoas. Noite passada ela teve um sonho estranho; sonhou que corria selvagem no mato, e era capturada e enjaulada como um animal. Apesar do medo, ela sentiu ao acordar, uma sensação de liberdade e força. Na verdade, vinha tendo esses sonhos a alguns dias, mas nunca comentou pra ninguém.

domingo, 2 de junho de 2013

Olhar de Prata - Parte 2


Já que pretendia sobreviver, iria precisar de uma arma, pra se defender dos monstros. Mas não tinha nenhuma consigo e se tivesse, não teria tanta utilidade. Era um péssimo atirador.
Correu em direção ao velho estábulo, onde por motivos óbvios, cavalo nenhum ficava. Lá encontraria alguma coisa, velhas ferramentas sempre estavam ali. Mas não chegou a atravessar a rua, quando o primeiro lhe encarou. Era grande, talvez pudesse ser chamado de lobo, mas não convinha. Tinha presas bem maiores, pelo preto e olhos também. Olhos que encaravam John, que pensou estar morto neste instante. Mas então, ouviu mais uma vez o apito do trem, mais alto desta vez, talvez ouvisse também o som que fazia sobre os trilhos. A fera, aparentemente, também teve à atenção atraída por isso, abandonou seu alvo, correndo sobre quatro patas até a estação desativada.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Nas Cidades da Noite (III)

Aquela manhã estava sendo uma tortura. Tortura. Raquel repetia isso a si mesma a cada dois minutos. O problema tinha começado muito, muito cedo. No metrô, extremamente lotado, um homem "alojou-se" logo atrás dela e, assim, qualquer solavanco ou movimentação de outros passageiros era motivo para... Pressioná-la

Quando saiu, antes dela, ainda disse: "Bunda perfeita, hein, cavala? Perfeita, carnuda". Falava isso salivando, como um (homem) animal. Raquel nunca se sentiu tão aviltada. O pior é que esse tipo de situação se repetia com frequência. Raquel, tinha, de verdade, uma "bunda perfeita". Seu corpo era "delicioso, carnudo". Se não tivesse algum pouco de bom senso ou convicções próprias, poderia ganhar a vida rebolando em algum (homem) programa de auditório. Porém, sabia que, provavelmente, teria que se vender muito mais que isso... Portanto, trabalhava e estudava como uma pessoa comum.

Na medida do possível.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Prisão.


Por: Franz Lima.

Meus pensamentos se perdem diante da imagem refletida. Não há mais o homem que outrora fui. O reflexo mostra apenas um pálido e frágil indivíduo. O reflexo indica uma verdade que há muito eu fingi não ver: eu estava morto.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

À prova de bala

    
  Eu tava voltando pra casa, era uma quarta-feira à noite, você sabe, eu saio as 9 da noite as quartas, não sabe? Como sempre, eu cortei caminho pela praça, só pra passar por perto da nossa árvore... Sempre quis gravar nossos nomes naquela árvore, mas nunca fiz isso, porque, sinceramente, é bem brega.

sábado, 25 de maio de 2013

Olhar de Prata - Primeira parte


Não fora do comum, bêbados fanfarrões já se agrupavam no Saloon do Monstrengo. Era o sol que fugia no horizonte e dava lugar a mais uma perigosa noite, e como já de costume, aqueles que têm motivos pra não dormir em casa, ou que não são mais aceitos ali por suas esposas (os que ainda têm) reuniam-se ali, para beber, jogar e ter as mulheres da casa, poucos com intenções de pagar.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O Homem dos Sonhos (I) - Corra!



O centro de todas as grandes cidades é sempre apinhado de gente andando em blocos por todos os lados, todos preocupados com seus trabalhos que consideram tão importantes, seja pela soberba onde as pessoas se colocam uns acima dos outros, seja pela importância de pagar contas no final do mês que os faz aturar trabalhos degradantes e humilhantes.
Naquele momento, entretanto, tarde da noite, o centro da cidade se encontrava deserto. Não havia sequer uma viva alma para ser vista ao longo das ruas estreitas dos prédios antigos, datados da época do Império. Nem mesmo as prostitutas, mendigos e outros marginalizados pela sociedade, tão facilmente encontrados neste cenário noturno podiam ser vistos, como se fosse um momento fora da realidade, um sonho.
Mas o que Frederico vivia naquele momento estava mais para um pesadelo!

terça-feira, 21 de maio de 2013

Diante de Ti.


Por: Franz Lima.

    Estamos finalmente um diante do outro. Há anos esperamos por tal  oportunidade, na qual as dúvidas seriam postas de lado e a mentira extirpada de nosso coração, onde ela já semeou a discórdia.
     Nosso amor era tão belo e sólido. Mas a beleza de uma mesa encoberta por  uma bela toalha  acaba  se  esvaecendo, quando, ao retirarmos a toalha, verificamos que os cupins já a destruíram silenciosamente.
     Eu olho para sua face. Há beleza nela. Há uma paz desconhecida para mim.
    Seus lábios sorriem, levemente rubros. Eu toco cada pequena parte sua, o que me dá muito prazer. Indiferente, você não repara em mim. Confesso, eu jamais esperei por retribuição ao amor que lhe oferto.
     Ficamos nus. Seu corpo tem o cheiro do inverno. Eu, ao contrário, exalo o perfume da fome. É chegada a hora de nos unirmos. É chegada a hora em que irei me alimentar de sua carne e seu sangue. Pois jamais haverá união igual à nossa.
    Nunca surgirá um amor como  este, onde  o sentimento  transcende a  morte  e a paixão, verdadeiramente, alimenta a alma.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Tic tac toe



Tic tac toe.

Tic tac toe

Tic tac toe, diz a música.

Simples assim: começa com tic, depois vem tac e termina com toe.

Ordem. As coisas são como devem ser para funcionarem. Amor, lealdade, respeito... Mas nem sempre a roda gira para o lado certo. Sempre há engrenagens que dão defeitos e precisam de reparos. Algumas, não tem conserto e devem ser removidas, para que o funcionamento correto prossiga.

É tic tac toe, e não tac toe tic.