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quinta-feira, 13 de junho de 2013

Referências

Ele tinha que descer doze quarteirões para poder pegar o ônibus a tempo. Cada dia nessa função, ele amaldiçoava algo ou alguém por morar tão longe da rua principal da cidade – e, portanto, da parte da cidade que "importava". E o fazia com muita dramaticidade:

— Porca miseria! Eu não merecia um tratamento tão desprovido de apreço e consideração!!!

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Nas Cidades da Noite (III)

Aquela manhã estava sendo uma tortura. Tortura. Raquel repetia isso a si mesma a cada dois minutos. O problema tinha começado muito, muito cedo. No metrô, extremamente lotado, um homem "alojou-se" logo atrás dela e, assim, qualquer solavanco ou movimentação de outros passageiros era motivo para... Pressioná-la. 

Quando saiu, antes dela, ainda disse: "Bunda perfeita, hein, cavala? Perfeita, carnuda". Falava isso salivando, como um (homem) animal. Raquel nunca se sentiu tão aviltada. O pior é que esse tipo de situação se repetia com frequência. Raquel, tinha, de verdade, uma "bunda perfeita". Seu corpo era "delicioso, carnudo". Se não tivesse algum pouco de bom senso ou convicções próprias, poderia ganhar a vida rebolando em algum (homem) programa de auditório. Porém, sabia que, provavelmente, teria que se vender muito mais que isso... Portanto, trabalhava e estudava como uma pessoa comum.

Na medida do possível.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Nas Cidades da Noite (II)

Para a Pati, de novo.


O ônibus ainda teria que atravessar uma cidade e meia inteira, mas já estava superlotado. A situação não parecia que mudaria tão logo... Para piorar, embora fosse fim de tarde, a temperatura, lá fora, beirava os 40  ºC. E isso foi bem antes da tragédia.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

A Vingança de Kali - Parte Seis

Não Fique Perdido.Leia antes Parte I, Parte II, Parte III, Parte IV e Parte V




Conto por: Tatiana E Karen


Emanuel ouviu aquelas palavras e sentiu o sangue gelar.

– O que ta acontecendo aí, Karen? – um som estranho, de algo caindo, se fez ouvir – Alô! Karen? Caralho, Karen, responde!!! Porra! – virou para o colega mais próximo e ordenou que continuasse tentando acionar Hedomon e Edilton. – Eu vou atrás daquela maluca.

Confirmou que a arma estava carregada, por via das duvidas levou mais um ou dois pentes cheios. “Só pro caso de precisar” dizia a si mesmo, na vã tentativa de se convencer que tudo ficaria bem sem precisar recorrer a isso.

***

– Merda, merda, merda, merda...

Karen não parava de repetir enquanto olhava para os lados, tentando descobrir o que fazer. A chamada tinha sido finalizada, o barulho ainda estava longe o suficiente pra saber que tinha vantagem se tentasse fugir, embora não soubesse exatamente quanta. Foi até Tatiana, analisar os danos. Ela tinha pulso, embora não muito forte, e respirava. Já era algo bom, pelo menos estava viva. Estavam em pleno escuro, o que não facilitava muito para enxergar, mas pôde notar que – apesar do tanto de sangue – o ferimento não era tão grave. Pelo menos aparentemente.

– Acorda... Tatiana, acorda... – falava baixo, perto do ouvido dela, enquanto chacoalhava seu braço – Por tudo de sagrado, acorda!

Começava a se desesperar. O que quer que fosse aquilo, já devia estar sentindo o cheiro ferroso e viria por elas. A jovem se mexeu levemente e Karen deu graças aos céus. Começou a chacoalha-la um pouco mais forte até ver seus olhos se abrindo. O que aconteceria com ela depois era um mistério, não sabia se tinha algum ferimento interno ou algo perigoso, mas naquele momento não importava. Tinham de sair dali, não poderia deixa-la para trás.

– Vem, tem alguma coisa atrás da gente, temos que ir depressa. – começou a puxa-la enquanto, desorientada, Tatiana tentava se erguer.

– O que... houve? Eu... – levou a mão até a nuca, que doía como o inferno, e sentiu algo molhado. Ao levar a mão até bem perto dos olhos deu um grito. Karen se apressou em tapar sua boca.

– Você tá louca? Quer nos foder de vez? – Karen disse baixo, mas fora de si, num misto de pavor e raiva – Eu te digo que tem algo atrás de nós e você grita? Como se o nosso sangue já não fosse suficiente pra isso nos achar. Cala essa boca e vem logo, antes que não tenhamos mais nenhuma chance! Vem, eu te ajudo.

Começaram a caminhar no passo que conseguiam. Karen apoiando Tatiana – a bem da verdade, praticamente a arrastando –, sempre tentando se certificar de que não havia nada por ali. O barulho tinha sumido e aquele silencio a preocupava. Alcançou o celular e andou apenas mais o suficiente para um pino de sinal, então novamente chamou Emanuel.

– Emanuel, cadê você? Eu te falei que a moça ta machucada, eu to precisando de ajuda! – Karen havia deixado Tatiana sentada na raiz de uma arvore e começou a caminhar enquanto falava. Estava tão tensa que não conseguia ficar parada. Ficou em um vai e vem quase hipnótico, a cada ida e volta se afastava um pouco mais do ponto de partida.

– Eu já te falei que aqui tá complicado! Tu é surda ou o que? Não dá pra eu largar toda essa merda nas mãos de estagiários imbecis e novatos. Alguém tem que cuidar dessa zona. – o delegado respondeu, com raiva.

– Ah tá. E pra eles não ficarem sozinhos nós é que ficamos, né? – “Boa, chefe! Continue assim... Seu Filho duma...” seus olhos se arregalaram e em seu pensamento mal pôde terminar de formular aquele e todos os outros xingamentos destinados ao patrão. Sentiu uma mão invisível apertando sua garganta: eram as lagrimas, que a sufocavam, buscando um caminho até a saída. O celular escapou de suas mãos e foi ao chão, quicando até próximo ao corpo que estava estirado – motivo de sua agonia.

– Edilton... Não... – balbuciou. A voz de Emanuel ainda ecoava no celular, mas Karen já não o ouvia. Abaixou-se e checou os sinais vitais e, como já esperava, os encontrou a zero. Foi até Tatiana. Precisavam sair dali. Ao chegar encontrou a moça chorando.

– É tudo culpa minha... Se eu não tivesse ido lá falar com ele... Com ela... Com aquela coisa! Eu nunca devia ter ido la... – parecia em choque, falando sozinha diversas coisas que a investigadora não conseguia entender. Seu olhar permanecia vidrado à frente – Mas você também teve culpa! Se não tivesse decidido fugir assim sem avisar isso jamais teria acontecido! E agora? Como vou explicar isso pra mãe e pro pai? Porra Lais, por que você me forçou a fazer isso?

– Fazer o que? – algo naquela frase gritou na mente de Karen – Fazer o que, Tatiana? O que você fez? – ela apenas repetia “Por quê? Por que me forçou a fazer isso?” e a mulher a chacoalhou desesperada, exigindo uma resposta.

Mas Tatiana se calou. Ela observava algo atrás de Karen e seus olhos se arregalaram em profundo pavor. Karen se virou lentamente – o cheiro e o barulho estavam mais fortes, o que significava que o monstro estava ali. Elas perderam tempo. E agora pagariam por isso.

Havia um bicho enorme observando as duas, urrando para o céu escuro como o lamento de um animal ferido. Ele possuía pelos vermelhos, longas garras e – agora sim aquilo fazia um terrível sentido – pés virados ao contrário. Porém, o mais impressionante era mesmo uma bocarra gigantesca bem no estômago da criatura, que se abria e fechava, mostrando dentes afiadíssimos.

- CORRE! – Karen gritou, esquecendo toda a prudência. Ela puxou as mãos de uma catatônica Tatiana, que a acompanhou primeiramente aos tropeços, mas depois o próprio medo a recompôs e as duas corriam lado a lado, desesperadas. Era uma corrida inútil, porém, já que o monstro tinha pernas muito mais longas que as duas e elas sentiam o cheiro horrível que emanava dele, como o de um gambá. Aquele cheiro atordoava seus sentidos, e Karen já estava sentindo a mente obscurecida, como se estivesse envolta em sombras quando viram um menininho no meio da mata.

- Venham aqui! – ele disse. – Por aqui!

Sem alternativa melhor, as duas seguiram o garoto. Ele estava montado em um porco do mato e seguia rapidamente pela floresta, como se a conhecesse muito bem. À primeira vista, parecia um menino normal, exceto que usava tangas como se fosse o Tarzan ou algo do tipo.

- Essa porra não faz mais sentido nenhum. - Karen disse mais para si mesma do que para qualquer outro, porém surpreendentemente Tatiana respondeu.

- Não. Agora sim está fazendo sentido. E a culpa é minha.

Ainda sentiam o cheiro do monstro atrás delas, derrubando árvores, deixando um rastro de destruição na mata. O garotinho continuava correndo pela mata até que encontraram um rio enorme. O menino parou e apontou para ele.

- Vão! Nadem. Não deixem a margem do rio. Nadem!

- O quê?! – Karen exclamou. – Nadar? Por quê?!

- Aquele monstro não poderá nos perseguir na água. – disse Tatiana e agora era ela quem puxava a mão de Karen. – Vamos, quem sabe a gente ainda consiga sobreviver. – ela se virou para o menino. – Obrigada... Caipora.

O menino sorriu largamente. Karen foi logo à procura dos pés do garoto, porém eles não eram virados para trás. Pelo menos o Caipora ela conhecia, mas aquele menino parecia normal, apesar de excêntrico. De qualquer maneira, aquilo tinha que ficar para outra hora. Karen também acenou com a cabeça, agradecendo, e as duas pularam nas águas frias do rio. Enquanto a correnteza as conduzia, as duas observaram o monstro alcançar a margem do rio. O garoto já tinha sumido. O monstro urrava e gritava, mas não estava sozinho: havia alguém próximo a ele, como uma sombra.

- É ela... – Tatiana murmurou. – Ela está aqui.


[Continua...]

PS.: Me sinto muito feliz de poder fazer parte desse projeto, e agradeço à Karen Alvares por ser minha parceira nesse momento tão decisivo da historia. Aproveito e deixo meu agradecimento especial aos leitores, que tem sido compreensivos com nossos pequenos percalços e continuam nos acompanhando sempre.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Promoção: concorra ao filme 'O Pacto dos Lobos' + HQ Batman - Cavaleiro das Trevas 2

 PROMOÇÃO E NOVIDADES

Olá, amigos do Um Ano de Medo. Estamos atualmente passando por um breve reformulação. A autora Tatiana Ruiz é a nova escritora das quartas-feiras em substituição ao Edilton que, por motivos particulares, encontra-se impossibilitado de colaborar conosco. 

Mas continuamos nos esforçando para atender sua sede de sangue e medo. 

A boa nova de hoje fica por conta da primeira promoção do blog. Os prêmios? Bem, que tal um DVD com o clássico filme de terror e ação 'O Pacto dos Lobos' e também as 3 HQ que integram Batman - O Cavaleiro das Trevas 2, de Frank Miller?


Para concorrer é muito simples. Siga o blog através do twitter @umanodemedo e faça seu comentário nest post contando-nos o que mais gosta e o que menos gosta no Um Ano. Fácil, não? 

O resultado sairá no dia 15 de maio. Mas lembre-se que é obrigatório tecer seu comentário (com conteúdo) para efetivamente concorrer, além de ser um seguidor do Um Ano. 



 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A Vingança de Kali - Parte Cinco


Tatiana abriu a porta e deu de cara com uma mulher jovem, porém com o rosto tão cansado que aparentava vários anos a mais. O coração de Tatiana saltava no peito: ela não abriria a porta de sua casa para uma estranha qualquer, mas a mulher disse que era da polícia e que precisava muito falar com Tatiana.
- É sobre sua irmã, Laís. – ela disse. Não foram as credenciais que a mulher apresentou ou a palavra “polícia” que fizeram Tatiana abrir a porta. Foram essas últimas palavras.
- O que aconteceu com a minha irmã? – Tatiana perguntou sobressaltada. Pensou em muitas coisas. Pensou no bolo de dinheiro, no lenço, no sorriso com dentes podres daquela vidente e na imagem na parede daquele lugar, aquela imagem da mulher azul com uma saia de braços e um colar de crânios.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

sexta-feira, 29 de março de 2013

Nota explicativa ao público.

Olá, amigos. 
Para quem ainda não me conhece, sou Franz Lima e também colaboro neste blog de contos de horror. Estamos entrando no 4º mês de vida do projeto e é uma grande honra fazer parte de um grupo tão seleto e coeso.
Entretanto, creio que perceberam, nós tivemos alguns contratempos que ou atrasaram ou impediram a publicação de contos. Como o próprio nome do blog já diz, a proposta nossa é a de levar a vocês, diariamente, um terror com qualidade e sempre de forma inédita, fato que torna esse projeto ímpar. Claro, imprevistos acontecem e nem mesmo nós estamos livres de problemas. 
Assim, assumo o papel de porta-voz dos outros escritores e lhes peço sinceras desculpas. Sabemos que há muitos leitores que acessam diariamente o blog para ler nossos escritos. Não posso prometer que nada mais irá afetar o grupo a ponto de estarmos acima dos imprevistos, porém saibam que estamos redobrando os esforços para publicar sempre em dia. Outro grande esforço é a busca pela excelência em contos novos, realmente inéditos.
As datas onde ainda há lacunas serão, brevemente, preenchidas. 
Agora, já cientes de nossas imperfeições, vamos à boa notícia. O blog está recebendo a ajuda de um desenhista que, assim como cada um dos escritores, também busca dispor sempre de material inédito e ótima qualidade. Seu nome? Daniel MM. Vocês poderão ver alguns de seus trabalhos na primeira parte do conto A Vingança de Kali e, em breve, nas demais partes da saga de terror e mistério que vem conquistando mais e mais leitores.
O projeto vive e irá mostrar conforme o tempo flui, como é possível escrever e atender as expectativas... e medos dos leitores. 
Obrigado por estarem ao nosso lado em nossos pesadelos!

 

 

quinta-feira, 28 de março de 2013

Crianças do Sapato


Para a Pati


Era uma vez uma velhinha,
Que morava em um sapato.
Ela tinha muitos filhos...
E cuidar deles não era barato!
Ela lhes dava sopa,
Mas não lhes dava pão.
Ela espancava as crianças
E punha-as no chão!

quinta-feira, 21 de março de 2013

Cânticos


...Chora a natureza pródiga,
Da chuva quando cai.
Pra levar as impurezas
São as lágrimas do pai..


Rádio. Despertador. Até organizar as idéias na cabeça leva um tempinho, acordando de repente. Zeca. Exaltasamba. Estranho tocar uma dessas as 4h45min da manhã de um novo dia. O normal é um troço mais triste... Bom, estranho mesmo é acordar as 4h45min da manhã. Quase duas horas antes do que precisaria, realmente, acordar... Francamente... Claro, se acordar as 6h30min, vai ter que disputar o banheiro e o espaço com as outras oito pessoas que dividem o barraco de quatro cômodos – dois quartos, uma sala-cozinha-lavanderia-e-eventual-quarto-de-visitas e o banheiro mais precário da Criação – com você. Vale a pena acordar as 4h45min da manhã. Usa o banheiro, na paz, e pode se arrumar pro trampo sem ter que esbarrar em ninguém 11 vezes e ter a única camisa limpa do uniforme “customizada” pelo achocolatado-de-cinco-colheradas-bem-cheias da Elisângela. Tudo bem normal, então. Mas porque aquela música tocou as 4h45min da manhã...?

terça-feira, 19 de março de 2013

A Vingança de Kali: segunda parte.


Mortes eram algo comum na rotina de Ed e seus amigos. Mesmo aposentado, não era possível ficar distante dos noticiários policiais e da violência. Nada do que ocorresse poderia ser classificado como 'surpreendente'... até agora.
Ed desligou o telefone e ficou ruminando as últimas notícias. Morte em família. A sensação era exatamente essa. Rainier, Laís e Franz brutalmente assassinados. Sem motivos. Sem piedade.
Vocês serão vingados, meus amigos - pensou Hedomon. Quem lhes tirou a possibilidade de um futuro terá o mesmo tratamento. Sem piedade.

segunda-feira, 11 de março de 2013

A Vingança de Kali


"Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte." - Sigmund Freud

Quanto o telefone tocou quis ignorar, sem sucesso. Uma voz sussurrou na alma, o coração apertou, acelerando num compasso sem ritmo, pulsações de dor que cruzaram por todo o corpo. Minha mão guiada por Kali, deusa da morte, tomou o aparelho deixando que seu dedo azul apertasse o botão verde. Mesmo lendo o nome Emanuel Nespusse na tela do celular, eu atendi, disse alô e aguardei uma resposta.


– Bom dia, delegado Hedomon. - Realmente deveria estar maluco ou realmente possuído. Receber uma ligação do delegado que me substituiu numa manhã de domingo era certeza de problema, Emanuel era meu aprendiz, ainda um moleque, e essa formalidade que ele nunca teve me irritou. –  Tudo bem com você?


– Porra, Emanuel, não precisa falar comigo assim, nem quando trabalhávamos juntos você rasgava essa seda. O que você manda?


quinta-feira, 7 de março de 2013

Mestre do Universo


Existem muitas pessoas ricas no mundo. Entretanto, você só ouve falar das “mais pobres” delas, na verdade; existem homens e mulheres tão poderosos e importantes que pagam para não serem citados por listas de milionários, revistas de fofocas ou, tanto melhor, por qualquer pessoa viva. Não precisam ser vistos em baladas com modelos seminuas de seios enormes ou em conversas com jogadores de futebol proeminentes.

Homens e mulheres que possuem mais do poderiam gastar em dez vidas. Homens e mulheres que olham para a vida de cima. Homens e mulheres que não precisam de sonhos; eles já possuem tudo.

E Romulus Medicci era o maior deles.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Devorada


Verônica saiu da casa dos pais aos 15 anos.

Sempre se considerou, para seu próprio bem, esperta e independente demais, apesar de sua idade. Portanto, não precisava responder à “autoridade” de dois velhos – na verdade, a mãe dela mal tinha completado 30 anos, na época – e resolveu enfrentar o mundo, sozinha.

Bom, não exatamente sozinha.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

"Miosótis" - parte um de dois


Antes de ler o conto abaixo, talvez seja mais interessante, antes, ler Brenda, Victor , Campeão , o da tempestade e a coletividade. Embora as histórias sejam fechadas, todas fazem parte do mesmo processo... Assim como os próximo conto deste autor. 





Já eram oito semanas sem tomar um banho. E não teria como, tão cedo... Desde que deixara o sítio da avó, e veio viver com a mãe e “o novo padrasto rico”, não podia mergulhar em um igarapé quando bem entendesse. Esse lugar “maravilhoso” não possibilitava “maravilhas”. Contudo, para um adolescente procurado pela polícia e sem recursos, estava se virando bem... Até fez seu primeiro amigo – o único, nesses últimos seis anos.

Fez.

Enquanto tentava evitar a polícia e tudo mais, escondeu-se entre os proscritos e doentes. Quando foi para lá, na verdade, avisaram-no muitas vezes para não ir a certas partes da cidade e não se aproximar de pessoas com certas características. Pessoas doentes, que precisavam de ajuda, mas odiadas por, simplesmente, existirem – depois, como todos os outros, ele descobriria que ela saberia usar isso. Entre esses, nos escombros e na sujeira, conheceu o “moleque doi’de pedra”. Com ele, aprendeu o suficiente para se virar nas ruas. Era incrível como uma criança que mancava permanentemente pudesse ser tão autossuficiente, um sobrevivente... Assim, pouco antes do amiguinho ser tocado por ela e quase matá-lo, ganhou um presente de uma criança que nunca teve nada.

Ele ainda choraria por Matheus.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

"O instinto é coletivo."


Antes de ler o conto abaixo, talvez seja mais interessante, antes, ler Brenda, Victor , Campeão e o da tempestade. Embora as histórias sejam fechadas, todas fazem parte do mesmo processo... Assim como os próximos dois contos deste autor. 





Tudo que pode dar errado dará. A situação era urgente e, para variar, estava sem seu carro pessoal – três dias antes, o radiador tinha, praticamente, derretido –, sem uma viatura e, segundo sua mãe, não poderia envolver Rita nisso – ou seja, sem carona. “É um problema de família, literalmente”, advertira dona Carmen. Para piorar, não frequentava o bairro onde passou a infância desde que entrou para a PM – mesmo à paisana, podia ser perigoso. Quando foi possível ingressar uma faculdade e estudar Medicina, se afastou ainda mais daquela realidade... Porém, aquela tempestade levou tudo isso embora; algo horrível estava acontecendo e não podia continuar negando.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

"Será que chove?"


Antes de ler o conto abaixo, talvez seja mais interessante, antes, ler Brenda, Victor e Campeão. Embora as histórias sejam fechadas, todas fazem parte do mesmo processo... Assim como os próximos três contos deste autor. 





Os telejornais, as revistas semanais, os sites de notícias... Até mesmo os programas de “variedades”... Todos falavam e queriam mostrar um pouco mais sobre a “terrível tragédia” que assolou aquelas pobres almas. alguns, quando a pauta estava fraca demais para chamar muita atenção, desenterravam acontecimentos similares com mais de cinquenta anos... Ou traziam suas “celebridades” com uma afinidade remota com o lugar para falar sobre aquela infelicidade ímpar – sem mencionar, claro, que a afinidade era algo como um primo distante que morava na cidade vizinha. Contudo, nenhum deles mostrou o que se seguiu.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Campeão



As manhãs eram a pior parte do dia. Eram solitárias e vazias. Mesmo quando aquela desconhecida que aparecia frequentemente estava na casa, não havia nada que fosse digno de nota. Os muros altos impediam o contato com qualquer outro que, por acaso, poderia estar por perto – e garantir alguma emoção. Por isso, dormir e esperar eram as opções. Dormir, esperar...

Só que isso estava mudando. Não saberia precisar quando, mas era um fato recente: em uma noite, a sede o despertou e, logo, levantou-se para saciá-la. No caminho, algo pareceu errado, fora do lugar... Invadindo. Assim, caminhando de um lado para o outro, procurando em todas as direções possíveis, não conseguia encontrar o que gerava aquela sensação. Não demorou para que algo selvagem tomasse seu espírito. Uma ameaça, mesmo que suposta, a tudo que ele prezava não podia ser ignorada. Assim, passou todo o resto da noite em alerta... Contudo, nada ou ninguém se mostrou.

Ainda.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Victor (Ou: “Não perca as crianças de vista”.)


“Mãe, eu preciso desligar agora. Tenho que ir. Tem algo acontecendo. Avisa a Rita.”, e Victor sentiu que a resposta de mãe a isso tinha sido dolorosa. Ela nunca tinha concordado com a carreira que ele escolheu e, agora, as coisas estavam ficando piores a cada dia, literalmente. “É como em O Espírito do Mal. Ela tem razão.”, refletiu enquanto corria em direção à viatura. O sargento Almeida fazia gestos muito violentos, indicando a urgência da situação.

“Parece que rolou uma desinteligência muito séria na Praça da Independência, cabo. ‘Bora logo.”, e já foi arrancando antes mesmo de Victor estar com todo o corpo dentro do veículo. Contudo, a praça ficava a menos de um quilômetro dali – era algo mais grave do que aparentava, pelo jeito. E isso era péssimo, com certeza.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Brenda



“O que a gente precisa é de um cara decente que lute por nós”, a voz ecoava para as duas únicas pessoas que ouviam todo o relato anterior – e mais um garoto; aquele que sentava sozinho, no fundo, ouvindo música e fazendo origamis; mais um “pária”. Brenda acostumou-se em ficar por todo o intervalo dentro da sala de aula. Para ela, era perigoso e infeliz ir para o pátio, mesmo nesta altura do Ensino Médio... E Luana e Francine a acompanhavam pelo mesmo motivo.