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quinta-feira, 21 de março de 2013

Cânticos


...Chora a natureza pródiga,
Da chuva quando cai.
Pra levar as impurezas
São as lágrimas do pai..


Rádio. Despertador. Até organizar as idéias na cabeça leva um tempinho, acordando de repente. Zeca. Exaltasamba. Estranho tocar uma dessas as 4h45min da manhã de um novo dia. O normal é um troço mais triste... Bom, estranho mesmo é acordar as 4h45min da manhã. Quase duas horas antes do que precisaria, realmente, acordar... Francamente... Claro, se acordar as 6h30min, vai ter que disputar o banheiro e o espaço com as outras oito pessoas que dividem o barraco de quatro cômodos – dois quartos, uma sala-cozinha-lavanderia-e-eventual-quarto-de-visitas e o banheiro mais precário da Criação – com você. Vale a pena acordar as 4h45min da manhã. Usa o banheiro, na paz, e pode se arrumar pro trampo sem ter que esbarrar em ninguém 11 vezes e ter a única camisa limpa do uniforme “customizada” pelo achocolatado-de-cinco-colheradas-bem-cheias da Elisângela. Tudo bem normal, então. Mas porque aquela música tocou as 4h45min da manhã...?

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Miosótis - parte dois de dois

Este conto encerra o "Ciclo do Verde". 


Há mais tempo que se pode imaginar e em um lugar que não pode ser descrito, ela podia descansar. Dormir. E era bom. Não existia, ainda, a algaravia e a movimentação frenética que, tempos depois, os seres de pelo causaram. Ela nunca soube explicar porque permitira que isso viesse a acontecer... Provavelmente, por acreditar que seriam um novo divertimento, no futuro. Afinal, atender aos pedidos e lamúrias grunhidas por seus semelhantes – “semelhantes”, mas inferiores – já estava ficando cansativo...

“Divertimento... Divertimento! Divertimento, tramoia e dor para esse pobre e velho corpo!”, gritaria, cuspindo-se de fúria.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

"Miosótis" - parte um de dois


Antes de ler o conto abaixo, talvez seja mais interessante, antes, ler Brenda, Victor , Campeão , o da tempestade e a coletividade. Embora as histórias sejam fechadas, todas fazem parte do mesmo processo... Assim como os próximo conto deste autor. 





Já eram oito semanas sem tomar um banho. E não teria como, tão cedo... Desde que deixara o sítio da avó, e veio viver com a mãe e “o novo padrasto rico”, não podia mergulhar em um igarapé quando bem entendesse. Esse lugar “maravilhoso” não possibilitava “maravilhas”. Contudo, para um adolescente procurado pela polícia e sem recursos, estava se virando bem... Até fez seu primeiro amigo – o único, nesses últimos seis anos.

Fez.

Enquanto tentava evitar a polícia e tudo mais, escondeu-se entre os proscritos e doentes. Quando foi para lá, na verdade, avisaram-no muitas vezes para não ir a certas partes da cidade e não se aproximar de pessoas com certas características. Pessoas doentes, que precisavam de ajuda, mas odiadas por, simplesmente, existirem – depois, como todos os outros, ele descobriria que ela saberia usar isso. Entre esses, nos escombros e na sujeira, conheceu o “moleque doi’de pedra”. Com ele, aprendeu o suficiente para se virar nas ruas. Era incrível como uma criança que mancava permanentemente pudesse ser tão autossuficiente, um sobrevivente... Assim, pouco antes do amiguinho ser tocado por ela e quase matá-lo, ganhou um presente de uma criança que nunca teve nada.

Ele ainda choraria por Matheus.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

"Será que chove?"


Antes de ler o conto abaixo, talvez seja mais interessante, antes, ler Brenda, Victor e Campeão. Embora as histórias sejam fechadas, todas fazem parte do mesmo processo... Assim como os próximos três contos deste autor. 





Os telejornais, as revistas semanais, os sites de notícias... Até mesmo os programas de “variedades”... Todos falavam e queriam mostrar um pouco mais sobre a “terrível tragédia” que assolou aquelas pobres almas. alguns, quando a pauta estava fraca demais para chamar muita atenção, desenterravam acontecimentos similares com mais de cinquenta anos... Ou traziam suas “celebridades” com uma afinidade remota com o lugar para falar sobre aquela infelicidade ímpar – sem mencionar, claro, que a afinidade era algo como um primo distante que morava na cidade vizinha. Contudo, nenhum deles mostrou o que se seguiu.