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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Miyabi Doll

  
     Havia a muito tempo atrás, uma rica família, que vivia numa casa muito grande. O homem era um comerciante, casado com a filha de um fazendeiro. Eles tinham dois filhos: O mais velho se chamava Kameo e a mais nova, a princesinha da casa se chamava Okiri. 
     Os irmãos eram muito ligados; Kameo passava horas brincando com a irmã, sempre que podia. Quando atingiu certa idade, seu pai começou a leva-lo para o trabalho com ele, para que o garoto aprendesse os negócios da família o quanto antes, deixando a pequena sozinha a maior parte do dia. As vezes, Kameo e o pai chegavam em casa muito tarde, e a menina já tinha ido dormir. 
      Numa manhã, Okiri acordou e viu uma carta ao seu lado; era dos eu irmãozão. Ele tinha deixado para ela na noite passada. Na carta ele dizia o que estava fazendo no trabalho e como sentia a falta dela. Okiri ficou tão feliz que resolveu fazer o mesmo e deixou uma cartinha para ele, sobre a cama dele. A troca de cartinhas virou costume, e assim, mesmo não se vendo tanto, Okiri não se sentia tão sozinha.
      Infelizmente, em 1932, aos 8 anos, Okiri ficou muito fraca por causa de uma doença misteriosa que medico algum sabia dizer o que era. Kameo tentava passar o maior tempo possível com a irmã, sempre lhe dizendo que logo ela ficaria bem. Mas ele sabia da verdade, não havia cura para Okiri e a cada dia, ela ficava pior, mas nunca deixava de sorrir, sempre que o irmão chegava em casa.
      Alguns meses depois, a criança morreu. Seu corpo foi cremado junto com todas as cartinhas que tinha do seu irmão. A família ficou muito triste; a mãe chorava muito, o pai passou a beber e o irmão, ficava horas sozinho, lendo e relendo as cartinhas deixadas pela irmã, onde contava o que ela fazia em casa o dia todo quando ele não estava.
      O quarto da menina continuava intocado, suas roupas e seus brinquedos e suas bonecas. Numa noite, quando estava sem sono, o rapaz teve a ideia de organizar as bonecas na prateleira. As bonecas eram feitas de madeira e todas vestiam quimonos muito bonitos. Com paciência,  Kameo arrumou todas as bonecas de modo que ficasse alinhadas. Quando terminou ele estava para sair do quarto quando resolveu dar uma ultima olhada nos quimonos da sua irmã e foi ai que ele teve uma grande ideia: iria contratar o construtor de bonecas para lhe pedir uma boneca que tivesse exatamente o mesmo tamanho de Okiri, com cabelos do mesmo comprimento e olhos de vidro, seria perfeito! Vestiriam ela com as roupas da garota, e ela seria imortalizada como uma verdadeira boneca, a maior de todas.

        No dia seguinte, o rapaz fez o pedido da boneca e em menos de um mês, lá estava ela: vestida e penteada como Okiri, de joelhos em uma almofada, cercada por todas as outras bonecas. Todas as noites antes de ir dormir, Kameo abria a porta do quarto e dava boa noite à boneca. Numa noite em particular, quando abriu a porta, notou que a cabeça da boneca estava numa posição um pouco diferente do que de costume. Ficou furioso; alguns dos empregados deve ter tocado nela. Entrou no quarto e arrumou-a como deveria ser. Quando estava saindo, notou que a mão dela movia-se lentamente, fechando e abrindo os dedos. Deu um pulo com o susto; olhou bem para a boneca, que não mais movia os dedos. Bobagem, pensou, fechou a porta e foi para o quarto.
       Quando foi deitar-se, viu que havia uma pedacinho de papel branco dobrado em sua cama. Abriu-o e era uma cartinha escrita com a letra de Okiri: " Kameo, não!". Ele tinha certeza que nunca havia visto aquela carta antes, talvez estivesse perdida e algum dos empregado a achou e colocou sobre sua cama para que ele pudesse guardar com as outras. 
         No outro dia, logo que acordou, Kameo encontrou outro papel dobrado sobre sua coisas. A letra também era igual a de Okiri, mas desta vez, parecia que havia raiva na escrita, as letras estavam maiores: " Eu não sou ela!".
         Amassou o papel com raiva, alguém estava brincando com ele. Se vestiu e saiu para ir trabalhar, e ao passar pela porta do quarto da irmã, ouviu um barulho lá dentro, como se fosse algo caindo no chão. Abriu a porta e viu a boneca grande caída. Com paciência, ajeitou-a na almofada como sempre. Foi até a porta do quarto, e pelo espelho, viu a boneca levantar o rosto e olhar para ele com seus frios olhos de vidro. Deu um grito e olhou para trás: a boneca estava como ele havia deixado. Olhou mais uma vez para o espelho... estava tudo ok. Trancou a porta do quarto da menina e levou a chave consigo para o trabalho.
        Naquela noite quando voltou pra casa, sua mãe lhe disse que os empregados ouviram barulhos estranhos no quarto dele durante a tarde. Ao entrar em seu quarto, Kameo se deparou com uma mensagem escrita na parede " Eu odeio aquela boneca! eu não sou ela!"
         Agora a coisa estava séria: ou alguém tava muito afim de morrer ou... Deu uns tapas no próprio rosto, por pensar bobagem. Com pano e agua, removeu a mensagem. Decidiu não dizer nada a sua mãe. Antes de dormir, foi olhar as bonecas. Tudo estava em ordem.
          Mais e mais mensagens começaram a aparecer para ele; em forma de cartas ou nas paredes. As vezes, os empregados ouviam barulhos e gemidos vindos do quarto de Okiri, até que, as mensagens começaram a aparecer pela casa. Kameo não podia mais esconder ou ignorar, quando as paredes da sala estavam cobertas de tinta preta e uma mensagem " Odeio aquela boneca!". Junto à frase, marcas de mãozinhas de criança. Um a um, os empregados abandonaram os patrões.
         A noticia se espalhou de que a filha dos Sato havia voltado para assombra-los e todos pareciam acreditar nisso. Todos menos Kameo e seu pai. Eles estavam certos de que tinha sido uma brincadeira de mal gosto de alguns dos empregados. A senhora Sato, no entanto não gostava nada disso. Numa tarde, ela implorou para o filho queimar a boneca, pois ela não estava deixando sua irmã descansar. A senhora Sato estava ruim da saúde, e o rapaz não queria piorar sua situação, então, decidiu se livrar da boneca naquela noite.
        Quando entrou no quarto, Kameo deu um pulo para trás: todas as bonecas pequenas estavam amarradas pelo pescoço, penduradas no teto. O coração dele acelerou ainda mais quando notou a boneca maior, de pé, no canto do quarto, com o rosto virado para a parede... na verdade, duas delas. No outro canto do quarto, estava uma segunda boneca, na mesma posição, com a mesma roupa e cabelos, exatamente igual.
         "Kameo" disse uma voz. " Qual delas sou eu irmãozão? Você sabe dizer? qual sou eu e qual é a impostora feita de madeira? Sei que sabe, não sabe?" uma risadinha de criança preencheu o quarto, e logo em seguida, a voz tomou um tom mais sério. " Não erre!".
          O rapaz estava apavorado de verdade agora; aquelas bonecas enforcadas sobre ele e aquelas duas bonecas no canto do quarto... e a voz de Okiri... Olhou para as duas: eram idênticas de costas. Fechou os olhos, tentou se concentrar e caminhou ate uma delas. Quando estava perto o bastante para toca-la, ouviu mais uma vez a voz: "Eu sabia que não iria me decepcionar. Obrigada Kameo, eu te amo" e então, a boneca a sua frente sumiu no ar. Soltou o ar que estava preso em seu peito e se deixou chorar.
          Do lado de fora, acendeu uma fogueira para queimar a boneca. Finalmente tinha entendido os sentimentos de Okiri,e poderia deixa-la descansar em paz agora. O fogo consumiu rapidamente o corpo de madeira. Porém, enquanto queimava, aqueles olhos de vidro, tão iguais aos dela, continuavam a olha-lo...


segunda-feira, 22 de julho de 2013

A outra parte de mim (VII)


  Dormir do lado de fora não era fácil. Barulho estranhos, insetos, pedras... Não que ela tivesse muito luxo em sua antiga cela... Os restos da fogueira ardiam em brasa ao seu lado, usando um tronco como travesseiro, ela esticou o corpo no chão e o deixou relaxar. Olhou para o céu; estava limpo e cheio de estrelas. Em algum lugar, seus pais também olhavam as mesmas estrelas. Será que ainda pensavam nela?
    Já tinha mais de dois anos desde o incidente na escola. Lembra-se melhor agora que conseguiu controlar melhor a besta em si. Dois anos é tempo demais; cresceu muito desde aqueles dias, não só na altura; sentia-se toda crescida. Sentiu raiva.
    Por dois anos, esses caras, sejam lá o que são eles, a sequestraram e a fizeram coisas horrendas com ela... mas, e se ela sempre tivera sido um monstro? e se o motivo de estar nesse pedaço de terra esquecida fosse exatamente ser um monstro? Caiu no sono, imaginando os horrores que veria no dia seguinte.
    
    Viu uma cidade. Era linda, quase toda feita de prata, com cachoeiras cristalinas por toda parte. As pessoas vestiam roupas de varias cores e pareciam felizes. Um casal de jovens caminhava por entre um jardim cheio de rosas vermelhas, ambos eram muito bonitos e pareciam apaixonados. Quando estavam prestes a se beijarem, um clarão os cegou, seguido de uma explosão. As rosas, o jardim e todos ali presentes ardiam e queimavam. A moça gritava conforme seu rosto derretia como geleia. olhou para as próprias mãos e viu sua carne escorrer por seus ossos.
     " O príncipe! protejam o príncipe!"

   Acordou num pulo. Estava no refugiu improvisado entre as pedras. Fred estava a alguns metros dela, em sua forme de tigre. Em suas patas alguns peixes.
   Esfregou os olhos, tentando esconder o susto, mas ele era mais esperto que isso.
  - Sonhos ruins? - perguntou com sua voz grave de tigre.
  - Não sei... meio estranho... uma cidade...
  - Toda prateada com cachoeiras, jardins e um casal bonito? - completou ele, sem deixar ela falar. - Eu sei.
  - Como assim? você... 
  - A Thaís também. Íamos te falar, mas preferimos deixar você conhecer sozinha. Agora com você, somos três que tem o mesmo sonho, isso deve significar algo.
   Largou os peixes em cima de uma pedra e sentou-se no chão. Converteu-se para a forma humana, sob os olhares da pequena.
  - O que é aquela explosão e quem é o príncipe?
  - Sei tanto quanto você. Olhe, vamos esperar a Thais voltar dai comemos e vamos perguntar pessoalmente, o que acha?
   Concordou em silencio. Alguns minutos depois, o peixe no fogo começou a cheirar bem, o que fez o estomago dela roncar.
   - Transforme-se. - pediu Fred, do nada.
   - Que!?
   - Transforme-se! agora, sem estimulo algum, por si só. Sem raiva ou angustia. Traga o lobo por sua vontade.
   - Eu não consigo, já tentei!
   - Tente de novo. dessa vez, não pense em nada a não ser no que há dentro de você, no seu outro eu. O que está ai não é um monstro. É você e pode ser controlado. Feche os olhos e consente-se.
    Contrariada, ela obedeceu. Fechou os olhos e tentou pensar apenas no que sentia quando era o lobo. A força, a agilidade, as garras, a liberdade que aquilo tudo lhe fazia sentir. Quando era o lobo, ela sentia como se nada pudesse impedi-la.
     Imersa na própria mente como num transe, permaneceu sentada de pernas cruzadas, tentando se entender melhor. Viu-se numa clareira no meio de uma mata vasta. Ao longe, um lobo uivava para a linda lua que brilhava no céu. Aproximou-se do lobo e os dois trocaram olhares. Olhou intensamente nos olhos da besta. Era grande, linda e poderosa. Num instante seguinte, a besta não estava mais diante de si. Fora substituída por uma garota magrela, feiosinha e de cabelo embaraçado. Viu-se então, no corpo do lobo, olhando para si mesma, em forma humana.
    Voltou a si.
    Por impulso, levou a mão ao cabelo e o sentiu embaraçado e sujo, ele estava horrível mesmo.
    Thais ja estava ali, ela e Fred estavam comendo. Ambos olharam pra ela.
   - Tá tudo bem? - perguntou Thais.
   - Sim. - disse ela, levantando-se e catando um peixe, estava faminta.
   - Consegue se transformar? - perguntou o rapaz.
   - Consigo. - respondeu com a boca cheia de peixe. - Confiem em mim.
   - É o que temos pra hoje. - disse ele  um tom de desdém.

    Depois que comeram, apagaram o fogo e se reuniram para uma ultima conversa antes da investida.
    - Vamos em forma humana até a única entrada que conhecemos, de lá, viramos bicho e forçamos a entrada. Vamos matar  que nos jogarem, um por um, até que os responsáveis mostrem a cara e comecem a se explicar! - disse Fred.
  - É uma merda de plano mas é o que vai ser, não vou viver fugindo pra sempre! - completou Thais.
    Correram mata a dentro.
    O sangue pulsava forte em suas veias, não tinha ideia do que iria acontecer nas próximas horas. Muito provavelmente estaria morta, mas não sentia um pingo de medo; dadas as recentes circunstâncias, morrer não parecia ser uma má ideia.
    Ao chegarem, uma brisa trouxe um cheiro pútrido terrível, que quase a fez vomitar; a entrada do laboratório ainda estava coberta de cadáveres e tripas. Guardas e crianças mortas. Fred da um soco numa árvore com raiva.
  - Elas morreram porque eu as libertei. os guardas atiraram nelas sem nem pensar, e os poucos que consegui salvar, morreram para os frogs!
   - Mas eu ainda to viva - respondeu Tati. Ela também era parte do grupo de fugitivos.
   - Desculpe eu... só... queria ter feito mais.
   - Você fez o que pôde. Agora vamos terminar isso logo - disse Thais - não tão achando isso muito abandonado?
    Tudo era silencio. nenhuma alma viva. O trio saiu do mato e adentrou os portões abertos.
   - Será que matamos o ultimo lote?
   - Mais provável que estejam nos esperando.
   A porta de metal por onde tivera saído ainda estava do mesmo jeito que ela deixou ontem. Ninguém MESMO andou por ali desde então.
   - Isso ta muito estranho, to com um pressentimento ruim. - disse Thais.
   - E se for uma armadilha? - perguntou a pequena.
   - Então, nós caímos nela.
   Mal terminou a frase e já meteu o pé na porta, escancarando-a.
   À frente, o corredor de cadáveres de cientistas e guardas. Fred alegou ser o autor daquela chacina.
    O térreo era onde ficavam as celas, todas estavam abertas. As que não estavam vazias, habitavam pessoas mortas por marcas de bala. Era um ambiente de morte horrível, o clima do lugar era muito pesado e caia sobre o trio de forma poderosa, lentamente drenando a moral deles.
   - Vamos logo para o andar dos experimentos! onde me fizeram as cicatrizes! tenho certeza que lá nós vamos encontrar algumas respostas.
    Quando chegaram à porta do elevador, uma voz pode ser ouvida por todo o lugar.
    - Esperávamos vocês, preciosos intrusos. Por favor, venham nos visitar no segundo andar, o laboratório de genética 1. Bem vindo ao lar Freddy.
    As duas o olharam, esperando uma resposta.
     - Você não entenderiam!
     - Eu sabia que você tava escondendo alguma coisa! - gritou Thais. - como quer que confiemos em você?
     - Não é o que pensam! Aquele era meu pai, o principal motivo de eu querer acabar com tudo isso!
     -  Seu... seu pai!? - Thais parecia confusa e irritada.
    - Ele é o cientista chefe, e não o responsável, tá? olha não temos tempo pra isso, vamos logo e tudo vai se encaixar nos eixos.
    - Vai é? como posso confiar em você agora?
    - Porque eu te amo, sua imbecil! - gritou.
    Silencio.
    Tati estava muito desconfortável no meio deles. Thais olhava Fred incrédula, e ele, bufava nervoso.
    - Por isso... eu não vou deixar ninguém te machucar.
    Em silencio, os três entram no elevador. A própria Thais aperta o botão do segundo andar.
    O clima do elevador estava estranho.
    Quando a porta abre, eles se veem em uma sala com várias maquinas estranhas. Por todo canto, tubos de vidro com pessoas dentro. Os tres sairam do elevador, horrorizados, eram crianças eram...
    - Sirens! - chorou Tatiana.
    Eram meninas, cobertas de cortes pelo corpo todo. As costas, farrapos que um dia vão ser asas. Era  como se estivessem em úteros artificiais, nascendo aos poucos.
    Aquela sala era familiar para Thais. Foi dalí que ela fugira. A maldita sala onde a fizeram aqueles cortes. A imagem das Sirens gemendo e se contorcendo ao redor deles, eram repulsiva, nem repararam no velho senhor de Jaleco branco logo à frente dele.
    - Sejam bem vindos. Olá Freddy.
    O sangue de Thais ferveu no mesmo instante. Ela correu e agarrou o velho pelo colarinho.
   - O QUE FEZ COMIGO? O QUE FEZ COMIGO?
    Ela o sacudia com raiva, mas o senhor não dizia nada.
    - Solta ele Thais!
    Fred tentava acalma-la, mas nao dava muito resultado.
    - EU VOU TE MATAR SE NÃO ABRIR A BOCA!
    Então, uma porta abriu ao fundo da sala.
    Uma presença congelante, fez com que todos parassem de falar, até mesmo a irritada Thais.
    Ele era jovem, estava vestido elegantemente. Seu cabelos eram longos e castanhos. Seus olhos pareciam diamantes e seus sorriso era confiante e calmo.
     Thais soltou o velho em suas mãos e todos olharam boquiabertos para o jovem de beleza ímpar.
     - Sejam bem vindos - disse ele, com uma voz macia. - Meus amigos. estou feliz em finalmente tê-los aqui.
     Aquele rosto... nenhum deles tinham qualquer duvida...
     - O príncipe...- sussurrou Tatiana.

CONTINUA
    

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A outra parte de mim (V)

     Fred e Tati se viram para trás. Thaís apontava para a mata de onde eles vieram. Os arbustos estavam se mexendo, as copas das árvores também, como se muitas pessoa estivessem andando por eles.

- são as Sirens? - perguntou a pequena, secando as lágrimas.
- Não... são os Frogs... 



segunda-feira, 10 de junho de 2013

A outra parte de mim II

        
           Correndo descalça pelo corredor frio, ela apertou forte nas mãos, os trapos que restam de suas vestes. Não conseguia deixar de pensar naquela "pessoa" que a tivera salvo: um tigre, um monstro, uma pessoa... Ela sabia que algo acontecia dentro dela, e que ela mudava a aparência, mas seria ela também um tigre branco? Seus pensamentos foram interrompidos ao pisar em uma poça de sangue quente.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Mudança de hábito.


Os olhos se abrem e, imediatamente, a luz atinge-os, provocando uma dor muito forte. O silêncio incomoda e atordoa. Onde, afinal, ele está?
Pequenos lampejos de lembranças chegam e somem com igual velocidade. Ele recorda de ter saído para comprar mais bebida. Também se lembra do sorriso da filha e do cheiro gostoso do churrasco. Mas o que trouxe até aquela sala cheia de plástico? O que estava acontecendo?

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Lírio

Por: R. Giraldi


 Em cima de um muro, num lugar escuro, foi onde eu a encontrei. Um único poste iluminava o lugar, eu mal conseguia ver seu rosto. Era pequena, braços e pernas miúdas. Estava sentada no alto do muro, balançando os pezinhos. A pouca luz me revelou cabelos castanhos, olhos gentis e um sorriso brincalhão. Olhei-a. Meus olhos miravam seu rosto, estava quase à minha altura, Senti um arrepio na espinha, não era normal uma menina daquele tamanho, sozinha num lugar como aquele.
    Abri a boca, mas palavra nenhuma me veio a mente para falar, eu realmente não consegui pensar em nada.
    "Boa noite" ela me disse fechando os olhos e sorrindo.
    “Quem é você?” tentei perguntar.
    Ela abriu seus olhos, ainda agitando os pés.
     "Alguém", respondeu-me.
     Desci meus olhos por seu corpo pequeno. Ela tinha a pele muito branca e manchas de sangue nas pernas.
    “Quer ajuda?” Perguntei. Ela sorriu mais uma vez.
    "Não. Quero um amigo. Brinca comigo?"
    Emudeci.
    Arrisquei um passo à frente, meus olhos já estavam se acostumando com a baixa luz. Seu rosto ganhou um pouco mais de forma diante de meus olhos; era redondo e branco, sendo os lábios, igualmente, mas o que me chamou atenção foram marcas escuras em suas bochechas, como se fossem hematomas. Não só no rosto. Nos braços e pernas também. Alguém a feriu, definitivamente.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Crianças do Sapato


Para a Pati


Era uma vez uma velhinha,
Que morava em um sapato.
Ela tinha muitos filhos...
E cuidar deles não era barato!
Ela lhes dava sopa,
Mas não lhes dava pão.
Ela espancava as crianças
E punha-as no chão!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Rumo.

As luzes ofuscam minha visão, enquanto dirijo até meu lar. Sinto as pálpebras pesando, mas estou feliz. Feliz por ter acabado tudo, feliz por não ter começado com isso.
Sinto os olhos lacrimejarem, efeito do sono por não ter dormido há dois dias. Mas quem precisa dormir?
Sacudo a cabeça para espantar o torpor da sonolência. As placas à minha frente estão embaçadas. Com o antebraço, esfrego os olhos e continuo a dirigir.
Logo, muito logo, estarei em meu destino…

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Sorrir é o que me resta.

Será que um dia irão esquecer o que fiz? Creio que sim, pois a humanidade sempre terá outros casos mais malignos que o meu. E o passado, além disso, não dá lucro. Meu tempo aqui, presa, prova-me diariamente que nada melhor que um dia após o outro. Com o passar dos dias, meses e anos eu me tornarei uma pálida lembrança, algo a se esquecer, algo que não dá mais lucros para a imprensa ou aos advogados. Reclusa estou e é assim que provavelmente morrerei.
Mas nem tudo foi sempre assim. Houve uma época em que eu era bela, rica, cobiçada. Meus dias eram um conto de fadas, mesmo com todos os problemas que há em uma família. Eu era feliz e nunca valorizei de verdade essa felicidade. Aliás, praticamente todos nós jamais damos o devido valor ao que temos, até que o perdemos...