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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Sem saída


    A  sala era pequena, com paredes brancas. Uma mesa de madeira no meio e duas cadeiras. Uma terceira parede, era na verdade um grande vidro espelhado. Ele sabia que havia uma câmera ligada do outro lado do vidro, filmando e gravando tudo naquela sala.
     Estava com os braços abaixados. Olhar triste, acabado. Nada mais importava pra ele; responderia todas as perguntas que lhe fizessem.
     O detetive Carter entrou na sala e fechou a porta atrás de si. Olhou para o vidro e fez um sinal coma  mão, depois voltou-se para ele, puxou a cadeira e sentou-se.
    - Ok senhor Levin, pode me dizer o que aconteceu ontem a noite na sua fazenda?
    Ele olhou com olhos muito tristes para o detetive e soltou um longo suspiro.
    - O mesmo que eu ja disse antes, detetive. Mas ninguém acredita. Não tem mais nada que eu possa fazer.
    - Apenas responda as perguntas no melhor que puder, tudo bem? O que fazia ontem, a essa hora da noite?
      Mai um longo suspiro. Olhou para o detetive respondeu:
     - Estava na minha casa, na fazenda. Ouvia o jogo no rádio, em minha sala.
     -  Pistons contra Atlanta?
     - Sim.
     - E sua família, o que faziam?
     - A Cassidy tava pondo a mesa do jantar. Ela tinha em chamado pra ir comer, mas eu queria ouvir o fim do jogo.
     - E sua filha?
     - A Sara... - pausa.
     -  Sim senhor Levin, a Sara. O que a Sara estava fazendo?
     - No quarto dela, eu acho... conversando com alguma amiga pelo telefone.
     - A ultima ligação do celular dela era para uma garota chamada Ellen Tallarasse.É alguma amiga que o senhor conheça?
     - Ellen, sim, eu a conheço. Eram amigas.
     - Ela foi interrogada hoje mais cedo. Disse que estavam ao telefone quando ouviu Sara gritar e em seguida a ligação caiu.
     O homem baixa a cabeça e não diz mais nada.
     Depois de um breve silencio, o detetive continuou.
     - Por que a Sara gritou, senhor Levin?
     - Porque o homem comprido estava na janela dela...
     - O Homem comprido.... - repetiu o detetive, num tom de desdém. - Já ouvi a lenda: um homem bem alto, com braços e pernas bem longas não é?
     - Sim. Ele mesmo. Desde que eu era criança eu o via rodando a fazenda, mas todos me diziam que era só coisa da minha cabeça.
     - Não! - respondeu num tom de raiva. - ele é real.
     - Então foi o homem comprido que matou Cassidy e Sara?
     - Não foi....
     - Então quem matou elas?
     - Eu... - disse com voz tremula, cheia de dor e pesar.
     - Então o senhor admite ter atirado nas duas?
     - Sim.
     - E por que as matou?
     - Porque elas pediram...- respondeu baixo.
     - Por que?
     - Porque elas me pediram! - levantou a voz.
     - Como assim, elas pediram para o senhor pegar seu rifle e as matar?
     - Sim. Eu estava na sala quando ouvi o grito de Sara. Foi só um grito. Minha mulher foi ver o que era, e ai, eu ouvi o grito dela também. Peguei meu rifle de caça e sai correndo e gritando o nome delas e entao...
     - Então o que...?
     - Eu vi ele. Ele era enorme, parecia estar em toda parte. A luz do quarto oscilava com a presença dele. Desde criança, quando a luz falhava, eu sabia que era ele por perto.
     - Pode descrever ele?

   - A janela tava aberta, ele tava com o corpo pra dentro, esticado, magro e comprido. Ele tinha braços muito longos, mas tinha uns tentáculos ou algo assim, que saiam das costas dele... eles se agitavam e preenchiam todo o quarto.
     - E sua familia?
     - Cassidy e Sara estavam nos braços dele. Elas me olhavam com um olhar vazio e perdido. Ouvi a Sara me chamando, mas parecia que ela tava sonhando e não acordada. A Cassidy pedia socorro, mas também não se mexia, tava no braço dele.
    - E depois?
    - Ele virou o rosto pra mim. Não tinha nada na cara dele. era como um saco de pano branco. Não tinha nariz, nem boca nem olhos. Nada. E ai ele puxou o corpo pra fora e levou elas. Eu corri pra fora também, pulei a janela. Ele tinha uns 3 metros ao todo e as carregava para a floresta.
   - Foi aí que você atirou nelas?
   - Sim... Eu tentei acertar ele, mas não consegui. As balas pareciam passar direto. Como se ele nem fosse real. mas então, a Cassidy pediu, chorando, para eu a matar. Eu nunca a vi tão desesperada. Ela gritava, dizendo que não queria ser levada. Ela me implorava para mata-la, para permitir que ele a levasse para a floresta escura. Eu fecho os olhos e escuto o grito dela.
   - E então, voce atirou nas duas.
   - Eu não quis! Mas era isso ou deixar ele as levar. Não tinha mais nada que eu pudesse fazer, entende? Ele iria sumir com elas pra sempre! eu queria pelo menos ter um cadáver pra poder enterrar!
     O detetive ficou pensativo por uns segundos. Definitivamente não acreditava em nada daquilo, mas não podia negar que aquele homem estava muito alterado. Ele viu algo assustador noite passada, isso era certeza.
    A luz oscilou.
    O senhor Levin deu um pulo da cadeira.
    - É ele! ele veio me buscar!
    - Senhor Levin fique calmo! não existe homem comprido! isso foi só um problema com a energia, acontece sempre!
     Em seguida, a luz apagou completamente: o senhor Levin começou a gritar e chamar o nome de Deus. O detetive gritou para ele se acalmar, mas então sentiu uma força empurrando-o...
    Gritos dos dois e barulhos de tiros. O grito do senhor Levin foi silenciado de repente, como se tivesse sido subitamente interrompido. A luz voltou. Os outros policiais na outra sala, apertaram os olhos contra o vidro para ter certeza do que estavam vendo: A mesa da sala estava quebrada, as cadeiras caídas. O detetive Cartes caído num canto, mole como uma marionete sem cordas... e nem sinal do Senhor Levin.
    Quando investigaram a sala, os policiais não viram nada que pudesse justificar o desaparecimento dele. Nenhuma marca na parece e a janela estava intacta... e o que quer te tenha matado o detetive, tinha muita força, foi muitos dos ossos dele estavam quebrados.
    O caso foi encerrado. O fazendeiro levou a culpa pelo assassinato da sua família e também do detetive. Foi dado como foragido e perigoso, mas nunca mais foi encontrado.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O Homem dos Sonhos (III) - Lágrimas


Capítulos anteriores:

Parte 1/Parte 2


  Aline abriu os olhos sem a menor vontade de voltar a dormir, apesar de ainda se sentir sonolenta. Olhou para o relógio no móvel ao lado da cama e viu que acordara pouco antes dele tocar. Muito pouco tempo para tentar voltar a dormir, decidiu. Alcançou o relógio e desligou o despertador.
Espreguiçou-se na cama e viu que seu marido ainda dormia a sono solto. Decidiu deixar o alarme acordá-lo e sentou-se e ficou por alguns minutos parada, sentindo um gosto ruim, amargo, em sua boca.
Enfim se levantou, esticando o corpo todo, tentando dissipar a preguiça entranhada em seus músculos e foi ao banheiro. Olhou-se no espelho e não gostou muito do que viu. Estava com uma cara amassada e cheia de olheiras.
- Quem consegue estar linda e maravilhosa antes das cinco da manhã? - perguntou ao seu reflexo, e não obtendo resposta completou. - Talvez a Gisele Bündchen.
Sua figura no espelho lhe deu um pequeno sorriso, como que para não deixar a piada passar sem graça.
Começou a escovar os dentes, para se livrar daquele gosto horrível da boca. Afinal, de onde vinha aquele gosto? Só tomara duas cervejas na noite anterior, não podia estar de ressaca por tão pouco, não é?
Aline jogou uma água no rosto, tentando melhorar o aspecto da cara no espelho e não viu muita mudança, pelo menos além do fato de agora estar amassada, com olheiras, e molhada. Foi nesse momento que viu, pelo canto do olho, no reflexo do espelho algo se movendo. Por um instante achou ser apenas a sua imaginação, tentando ignorar, mas logo em seguida percebeu outro movimento no mesmo ponto do banheiro, atraindo a sua atenção. Quando fixou o olhar, um arrepio subiu por sua espinha, suas mãos fecharam em garras na pia, o corpo todo se tencionou até explodir em um grito.
Um instante depois André entrava aos tropeços no banheiro da suíte, encontrando sua esposa em cima da privada aos berros apontando para um ponto do chão próximo do box. Quando seu cérebro ainda sonolento conseguiu se dar conta do tipo de emergência em que se encontrava voltou ao quarto retornando devidamente armado para enfrentar a criatura que morreu esmagada após uma feroz batalha sob seu chinelo.
Quando a adrenalina baixou, André explodiu em uma gargalhada. Aline deu dois tapas em seu marido, enfezada.
- Não tem graça!
- Claro que tem. - ele respondeu entre explosões de riso. - Você já invadiu favela, já peitou traficante, participou de negociação de refém e se apavora diante de uma simples barata?
E voltou a rir.
Aline sentia a face arder e abriu a boca, mas sua fala foi interrompida pelo ranger da porta do quarto se abrindo, o que capturou a atenção do casal que ficou em silêncio, dirigindo suas atenções para fora do banheiro da suíte em direção a origem do som. Uma pequena criatura vinha cambaleando em sua direção.
- Mamãe, você me acordou! - resmungou Cristina esfregando os olhos abraçada ao seu ursinho.
Aline se aproximou da filha emburrada, agachando-se a sua frente, passou a mão pelos cabelos desgrenhados.
- Ô minha dorminhoca, é que a mamãe viu uma barata desse tamanho. - disse abrindo os braços.
- Verdade? - a criança arregalou os olhos, apertando mais o bicho de pelúcia nos braços.
- Verdade! Mas pode deixar que o papai já matou aquele bicho feio e nojento.
A menina olhou para o pai atrás de Aline, que mostrava com os dedos o real tamanho da ameaça matutina. Pai e filha trocaram um sorriso enquanto Aline a pegava no colo para irem tomar o café da manhã.
* * *
- Você estava agitada esta noite. - André perguntou enquanto ligava a cafeteria. - Sonhou alguma coisa?
Aline ficou pensativa por alguns instantes, antes de responder.
- Não sei. Na verdade, nunca lembro dos meus sonhos. Só sei que acordei pensando na minha irmã.
- Também, com tudo que está acontecendo na vida dela.
- É. Mas ainda não acredito que aquele canalha a largou assim.
Cristina, sentada ao lado da mãe na mesa da cozinha, tentou falar alguma coisa, mas apenas fez sons indistintos.
- Ô meu amor. Mamãe já não disse que é feio falar de boca cheia?
A menina bebeu uma golada de leite, e depois de engolir, soltou um suspiro sonoro antes de perguntar:
- Mamãe, o que é um canalha?
Aline e André se entreolharam por um instante, buscando ajuda um no outro. Por fim foi Aline quem respondeu a filha.
- Canalha é uma pessoa muito feia que parece legal mas faz os outros chorarem.
- Então um canalha é uma pessoa má?
- É. Pode-se dizer que sim.
- Então eu espero nunca encontrar com um.
- Eu tbm espero, querida. - disse acariciando os cabelos da filha. - Mas agora a senhorita precisa se arrumar senão vamos chegar atrasadas na escola.
E a menina saiu correndo para o quarto com o urso a tiracolo.
- Acho que você devia ligar pra ela. - disse André enquanto tiravam a mesa.
- Eu estava pensando em passar lá depois do trabalho, mas vou ligar antes, é claro.
- Se quiser, pode deixar que eu pego a Cristina quando sair da escola hoje.
- Obrigado, querido. - ela disse, envolvendo seus braços nas costas largas dele. - Sabia que você é o melhor marido do mundo?
- Sabia!
- Convencido. - disse soltando-o.
Em um movimento inesperado ele girou o corpo, agarrando-a e tascando-lhe um beijo.
- Estou pronta! Vamos pra escola, mamãe.
Desfizeram o beijo e viram a filha vestida com a fantasia de princesa do seu aniversário na porta da cozinha com o eterno companheiro de pelúcia nas mãos. Depois de algumas risadas, começaram a árdua tarefa de explicar para a menina que precisava vestir o uniforme da escola, além deles mesmo se arrumarem para seus respectivos empregos.
* * *
Aline chegou na delegacia um pouco atrasada, mas como seu chefe estava ocupado em sua sala nem percebeu e ela pôde se dedicar a revisar as investigações em que estava trabalhando. Ela estava com dificuldade de se concentrar, pensando na irmã. Tentara ligar para ela duas vezes, mas a ligação caiu na caixa postal.
Estava tão entretida em seus pensamentos que levou um susto quando Daniel chegou batendo com o jornal em sua mesa.
- Onde essa porra de cidade, vai parar?
- Bom dia, pra você também Daniel. - ela falou sem lhe dirigir o olhar. Estava acostumada com o jeito do colega.
- Bom dia é o cacete! Olha só que absurdo na capa desse jornal de hoje!
Aline pegou o jornal, um daqueles que se refestelam com a desgraça alheia e se você o espremer poderá ver o sangue escorrendo dele. Na primeira página, uma foto de um homem retalhado em cores bem vivas sob a manchete: “PROMOTOR QUASE VAI PARAR NA VALA DE INDIGENTE”.
- Dá pra acreditar? Um dos poucos promotores decentes dessa cidade acabar desse jeito?
- Diz aqui que só reconheceram ele por causa da aliança que ele ainda usava.
- Eu li. Se não fosse por isso ele teria ido pra vala como um indigente. Impressionante, né?
- Mais impressionante é nenhum vagabundo ter arrancado o dedo dele pra roubar a aliança.
A porta do delegado se abriu, dando passagem ao próprio, acompanhado de um jovem arrumado, de olhos cabisbaixos. Os dois se aproximaram da mesa de Aline. O delegado cumprimentou os agentes, dando-lhes bom dia, ao que foi retribuído e apresentou o rapaz ao seu lado como sendo Alan, um “carne-fresca recém-saído da Academia de Polícia, pedindo a eles que apresentassem a delegacia e mostrassem como tudo funciona por ali.
Aline se levantou para cumprimentar o novo colega e notou que a mão dele estava suada, e que ele evitava olhar nos olhos dela ou dos demais, mantendo o olhar baixo. Lembrou-se do seu primeiro dia, e como se sentiu nervosa e ansiosa.
- Então ele é o “fraldinha” que mandaram pra cá? - Daniel disse alto batendo no ombro do novato.
- “Fraldinha”? - repondeu Alan, soltando a mão de Aline.
- Liga não. É o apelido da sua turma. O grupo mais jovem a ter se formado na Academia nos últimos anos. Não tinha ninguém com mais de trinta na sua turma, não é? - Aline interveio.
O rapaz acenou a cabeça, concordando.
Um outro agente deu um aviso para Aline interrompendo a conversa.
- Vamos novato, você vem comigo pegar um depoimento. Mas bico calado. Hoje você só observa e faz anotações.
* * *
O tal depoimento foi de um senhor Maycom dos Santos, apesar de que chamá-lo de senhor era algo estranho, já que ele não tinha mais idade do que Alan. Era a respeito da morte brutal do seu pastor. A vítima foi encontrada carbonizada no centro da pequena igreja que ele presidia.
Assim que o depoente entrou na sala, Aline notou as olheiras e olhos inchados como quem chorou muito e dormiu pouco.
O depoimento dele não estava acrescentando muito às informações que eles já haviam coletado. Confirmou os conflitos da vítima com um grupo de travestis que fazia ponto de prostituição próximos da igreja, por causa dos discursos inflamados em suas pregações. Pregações essas que também condenavam os traficantes que alimentavam o vício de drogados nas ruas ao redor. Informações que já haviam sido fornecidas pelos outros fiéis.
O diferencial era que, ao contrário dos fiéis ele não acreditava que estes grupos tivessem qualquer ligação com a morte do pastor Wanderson. Segundo ele, apesar das ameaças, os travestis não teriam inclinação para um ato tão hediondo quanto queimar alguém daquele jeito, e já fazia mais de um ano que era o depoente quem tomara a frente do trabalho de evangelização dos adictos, e, por isso, ele seria um alvo muito mais provável dos traficantes do que o pastor.
Aline sentiu que havia algo mais. Alguma coisa que Maycom ficava relutando se deveria ou não falar. O esfregar constante das mãos, o olhar baixo e hesitante, eram sinais gritantes. Mesmo assim, sabia que não poderia forçar diretamente sob risco de perdê-lo. Sabia que precisaria criar confiança e acolhimento para que ele se abrisse.
Só que foi muito mais fácil do que ela esperava. Bastou segurar nas mãos dele e perguntar em voz baixa e pausada se havia mais alguma coisa que ele gostaria de acrescentar para que ele agarrasse sua mão e começasse a falar “só porque ela era cristã.”
E contou que após a morte do pastor, descobriu que as contas da igreja não batiam, havendo depósitos muito acima dos recolhimentos nos cultos, mesmo com o pastor declarando nunca haver dinheiro para ampliar os projetos sociais. Além disso, quando começou a fazer as visitas caseiras para o aconselhamento espiritual, como o pastor fazia, as fiéis lhe confidenciaram que ele tinha “comportamentos inapropriados” com elas
Por fim, ele disse emocionado que tomar conhecimento deste outro lado do homem que havia salvado sua alma das drogas era como se ele houvesse morrido uma segunda vez.
* * *
Após o depoimento, Aline pediu para Alan ir iniciando o relatório enquanto ela ia fumar um cigarro. Fez isso não apenas porque este tipo de tarefa era delegada aos novatos, mas porque ela viu a quantidade extensa de anotações que ele fez.
Do lado de fora da delegacia, como sempre, ela acendeu o cigarro, deu uma tragada, e deixou-o queimar entre os dedos. Ela não tinha realmente o hábito de fumar, apenas aproveitava a pausa que isto proporcionava para se afastar de toda a pressão e stress de seu trabalho para arejar a cabeça, colocar os pensamentos em ordem. Naquela tarde específica, ela queria aproveitar esses minutos para tentar falar com sua irmã.
Apenas quando seu cigarro já queimara até a metade é que sua ligação obteve resposta.
- Alô? - atendeu uma voz sonolenta.
- Leila!? Onde estava? Tentei te ligar várias vezes e você não atendeu. - disse um pouco mais alto do que pretendia.
- Eu estava dormindo. O remédio que o médico receitou me derrubou.
- Você está bem? - perguntou com a voz um pouco mais controlada.
Ouviu um som de choro por alguns minutos. Sua irmã soluçava e fungava, aparentemente sem conseguir responder.
- É claro que você não está bem. Pergunta idiota.
- Ai, Aline. As vezes eu acho que nunca vou parar de chorar. Eu tenho medo de me afogar em minhas próprias lágrimas.
Aline se segurou para não dizer o quanto aquele comentário era melodramático. Sua irmã estava sofrendo e não queria piorar as coisas. Mas não sabia muito bem o que dizer para confortá-la. Sempre fora Leila quem cuidara dela e não o contrário.
- Oi, Sir Thomas. - Leila disse de repente, parando de soluçar.
- Quem é Sir Thomas, Leila? Tem alguém aí com você?
- É o meu gato, você lembra dele?
- Você está falando daquele gato preto insuportável que me odeia? Claro que lembro.
- Não fala assim dele. Não sei se suportaria passar por tudo isso se não fosse por ele. Não é meu fofo?
O jeito que sua irmã falava, e a forma como o gato ronronava em resposta, trouxe a sua mente a imagem de um antigo desenho animado em que uma menina abraçava os animais com todas as forças.
- Mas Leila, o nome dele não era Tom? Que história é essa de Sir Thomas, agora?
- É que eu achei que merecia um nome mais condizente com o seu porte. Ele é quase um lorde. - respondeu rindo.
Aline acabou rindo também. Ficou feliz com o tom de voz da irmã, mais leve, menos triste do que quando a ligação começou. Talvez aquele gato idiota servisse para alguma coisa, afinal.
Olhou para o cigarro e viu que já estava quase na guimba. Não demoraria muito para virem procurá-la. E não estava com muita paciência para ouvir sermão.
- Leila, eu tenho de ir, mas passo na sua casa mais tarde para tomarmos um café, pode ser?
- Está bem. Eu também tenho que ir. Sir Thomas se meteu debaixo da cama e está miando abeça. Acho que está com fome, o coitadinho.
- Você mima demais esse gato. - Aline riu. - Te vejo mais tarde. Beijo.
- Até mais tarde, mana. Beijo.
Quando Aline voltou para sua mesa, seus pensamentos ainda estavam com sua irmã, falar com ela não diminuiu a angústia que sentia desde que acordara naquela manhã. Talvez por isso, não escutou de primeira quando Daniel a interpelou.
- O Fraldinha aqui estava me atualizando sobre o depoimento. - disse em tom jocoso, apontando para Alan. - Quer dizer que o tal pastor não tinha nada de santo?
- É o que parece. Ainda temos que checar, mas agora temos duas linhas de investigação. O assassino pode ser um dos maridos traídos, ou alguém envolvido em qualquer fraude de onde ele tirava os grandes volumes de dinheiro.
- Você quer saber o que eu acho?
Aline respirou fundo, e olhou primeiro para Alan, como se dizendo “vai se acostumando que a peça é essa mala sem alça todos os dias”, para só depois se voltar para Daniel.
- O que você acha, Daniel?
- Eu acho esses pastores são todos uns pilantras que se aproveitam desses evangélicos pra tomar uma grana e conseguir o que mais quiserem.
Nesse momento, Alan que permanecera calado, levantou-se de repente.
- Pois o senhor fique sabendo que na minha igreja é bem diferente. O meu pastor e eu trabalhamos juntos para recuperar crianças abandonadas e abusadas, dando a elas acesso a educação e acolhimento as custas de doações e muito trabalho voluntário. Agora se me dá licença, vou arrumar essas pastas no arquivo.
E saiu com um bolo enorme de pastas nas mãos. Aline tinha certeza de que ele tremia, e quando ele já estava distante, voltou sua atenção para Daniel, que permanecia boquiaberto e sem fala, um feito até hoje só conseguido pelo delegado na base da autoridade.
- E não é que o Fraldinha tem bolas? - disse por fim. - Gostei do garoto.
* * *
No caminho para a casa de sua irmã, Aline se sentia cansada. O dia fora corrido, e curto demais para fazer tudo o que precisava ser feito, como sempre. As pessoas reclamam da polícia não fazer nada, mas não fazem ideia do quanto os policiais trabalham. Mas com tão pouco pessoal e recursos era impossível dar conta de tudo.
E além do seu trabalho normal, ainda teve que acompanhar o novato. Ainda mais depois dele e Daniel terem se estranhado pouco antes do almoço. A partir disso, ele grudou nela e perguntava tudo e mais alguma coisa.
No final do expediente, ele pegou sua mão e disse o quanto estava feliz por ter encontrado uma alma cristã como ela para ajudá-lo nessa nova fase de sua vida. Ao que Daniel, depois que o novato se afastou, comentou, do seu jeito peculiar, que ela havia adquirido um admirador.
Mas, enquanto dirigia, ela não conseguia parar de pensar nesse comentário dele. Um depoente mais cedo também a chamara de cristã. Logo ela que fazia anos não pisava em uma igreja.
Uma olhadela pelo espelho retrovisor deu-lhe a resposta na forma da pequena cruz de ouro em seu pescoço, e um sorriso triste surgiu em seus lábios. O que para Maycom e Alan simbolizava adesão ao grupo dos cristãos, para ela era uma lembrança de sua mãe. Lembrou-se qual fora a última vez que pisara em uma igreja, na missa de sétimo dia dela.
Enquanto estacionava o carro pensou no quanto gostaria que ela estivesse ali naquele momento e beijou a pequena cruz, como outrora beijara o rosto da mãe quando esta a acalentara no meio da noite após um pesadelo.
* * *
Na natureza, alguns animais aprendem a pressentir quando há um predador a espreita, pronto para dar o bote. Foi essa a sensação que Aline teve ao descer do elevador no andar da irmã. Apesar de seus olhos não perceberem nenhuma ameaça, seu trabalho na polícia civil a ensinou a confiar nesses instintos. Por isso, discretamente pegou a arma em sua bolsa, usando esta para escondê-la.
No exato momento em que tocou a campainha de Leila, a porta do apartamento vizinho se abriu e uma senhora enrugada saiu de lá como um rinoceronte em fúria.
- Aline, querida! Há quanto tempo! Você engordou.
- Oi, dona Doralice. Uma boa tarde para a senhora. - ela respondeu, enquanto tocava a campainha pela segunda vez.
- Boa tarde, não, querida. O sol já se pôs, então é boa noite. - e deu uma risada esganiçada, como se tivesse dito uma piada muito engraçada.
- É verdade. Desculpe o meu erro. - respondeu com seu melhor sorriso amarelo.
- Não precisa se desculpar, querida. Vocês jovens estão sempre com a cabeça nas nuvens e não sabem aproveitar o tempo de forma correta.
"Será que eu poderia alegar legítima defesa contra sufocação por chatice se metesse uma bala nela agora?" Pensou e achou melhor guardar a arma antes que a ideia se tornasse tentadora demais. Virou-se de costas para a senhora que continuava a tagarelar.
- Você por favor avise a sua irmã que o seu Marcelo do andar de baixo ligou reclamando que está pingando água no apartamento dele. Eu disse que do meu não podia ser, pois eu não abri nenhuma torneira hoje. Nem tomar banho eu tomei.
"Disso eu não duvido." pensou, e ficou na dúvida se chegou a falar em voz alta. Se o fez, a vizinha não fez qualquer menção de ter se tocado, pois continuou na sua ladainha.
- E esse gato dela? Jesus, o bichinho está miando faz horas. Nem me deixou ver a minha novela em paz.
Quando mexeu na bolsa, Aline viu seu molho de chaves e lembrou que a irmã lhe dera uma cópia da chave de sua casa, e este era o momento perfeito para usá-la.
- Aham, dona Doralice. Pode deixar que darei todos os seus recados para ela. - e bateu a porta praticamente na cara da senhora.
"Que figura."
Sem o falatório constante em seus ouvidos, Aline pôde voltar a escutar os próprios pensamentos e se perguntar do porquê de sua irmã não ter atendido a porta, mesmo ela tendo tocado a campainha tantas vezes. Aquela estranha sensação ainda a acompanhava, porém ao ouvir o barulho do chuveiro, descartou-a como sendo apenas a sua imaginação.
Foi quando chegou ao corredor do apartamento que percebeu algo de errado. O chão estava todo molhado com água que brotava por debaixo da porta do banheiro. Em um impulso correu para tentar abri-la e nem notou o gato preto deitado próximo, arfando.
Depois, quando perguntada sobre como tudo aconteceu, Aline não saberia responder muito bem. Só lembraria que, de alguma forma, conseguira abrir a porta do banheiro, e de dentro dele saíra um enorme volume de água. E que ela vira o corpo de sua irmã, e o agarrou e sacudiu, chamando o nome dela e pedindo socorro.
Mas já era tarde demais.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O Homem dos Sonhos (II) - Faça suas preces!


Capítulos anteriores:

Nos tempos medievais, as igrejas eram construídas gigantescas, com as imagens de santos e anjos olhando de forma severa para baixo afim de criar a ideia da enormidade de Deus diante da insignificância do homem.
A pequena igreja do pastor Wanderson não era nem de longe tão opulenta quanto as catedrais góticas dos tempos antigos, apenas uma sala pequena com algumas cadeiras de plástico onde as pessoas se sentavam para ouvi-lo falar buscando alívio para seus martírios diários diante do poder divino.
Mas não havia qualquer alívio para Wanderson naquela noite, enquanto ele tentava em vão debater-se contra as amarras que prendiam seus braços abertos de costas para o altar de onde tantas vezes proferira palavras sobre o poder de Deus e sobre o temor que as pessoas o deviam.
Ele orou, com mais força e convicção do que jamais orou para impressionar seus fiéis em suas pregações, talvez pela primeira vez em sua vida verdadeiramente clamando por uma intervenção divina que o liberta-se daquele suplício.
A figura diante dele não tinha nada de divina, entretanto. Wanderson podia ver, mesmo na penumbra que dominava a pequena igreja os chifres que brotavam da cabeça arredondada enquanto sentia as mãos dele prendendo seus pés juntos em uma crucificação macabra, seu toque parecia com o de pequenas criaturas rastejantes subindo pelas suas pernas causando arrepios igualmente de medo e nojo.
Wanderson tentou mais uma vez mover-se. Um único impulso, um chute bem dado no rosto de seu captor poderia ser o suficiente, mas assim como ocorrera quando ele prendera suas mãos, as pernas não o obedeceram.
Fechou os olhos enquanto o cheiro pungente invadiu suas narinas e o som de líquido sendo derramado se espalhou em seus ouvidos. E orou. Orou com toda a força que possuía. Pediu perdão por todos os seus erros, por todo o dinheiro que tomara de seus fiéis, das mulheres cuja fragilidade ele se aproveitou, de todas as mentiras que contou ao longo dos anos.
Um barulho ríspido o fez abrir os olhos quando o fósforo na mão do seu algoz se acendeu iluminando o rosto da criatura. Sim, criatura, porque não era possível que aquilo fosse humano. Mesmo os chifres sendo na verdade orelhas pontudas e salientes, a pele macilenta como de um cadáver e os olhos de um amarelo pustulento não deixavam dúvidas quanto a isso.
Diante desta visão infernal, Wanderson voltou a orar, mas suas preces transformaram-se em gritos conforme as chamas o devoravam lentamente.

* * *

Wanderson levantou gritando com tanta força que empurrou sua esposa quase derrubando-a da cama.
- Santo Deus, Homem! Que demônio te atacou essa noite?
Ele sentou-se arfando. Por um momento olhou para a mulher ao seu lado sem reconhecê-la. Sentou-se na cama e aos poucos o mundo foi voltando para o seu lugar mas a lembrança do sonho ainda era forte, como se suas mãos ainda ardessem em chamas.
- Você está tremendo. - disse sua esposa as suas costas.
- Foi só um sonho ruim. Nada demais. Deixa isso pra lá.
- Mas você anda tremendo a beça. Tem uns dias que eu estou reparando nisso. Já te disse que você tem que ver um médico, mas você é teimoso a beça.
- Eu já disse pra deixar pra lá! - Wanderson gritou se levantando.
O quarto ficou em absoluto silêncio por alguns minutos. De costas para ela, coçava o bigode branco tentando a todo custo ignorar o quanto a sua mão tremia enquanto fazia isso. Quando finalmente se virou, estava sozinho no quarto. Respirou fundo e entrou no banheiro para começar a se arrumar.
Minutos depois, já de banho tomado e vestido com seu terno marrom entrou na cozinha e encontrou a esposa lavando a louça. Ela serviu um café em sua caneca enquanto ele sentava para o café da manhã. Comeu calado, só falando ao tomar o último gole de café.
- O Souza vai passar aqui mais tarde pra deixar uma encomenda. Uma mochila daquelas. Conta pra ver se tá tudo direitinho e deposita na conta da igreja que como se fosse doação.
Ela concordou com um movimento da cabeça, ele levantou-se, deu um beijo na bochecha dela e saiu. Ambos sabiam que não havia necessidade de desculpas, mesmo ela tendo esquecido que a mulher devia ser submissa ao homem, ele a perdoava.

* * *

Boa parte do dia do pastor Wanderson consistia em visitar as casas dos fiéis para levar-lhes palavras de alento e conforto, além de coletar doações destes para a ampliação de sua sagrada igreja.
Ele se demorava mais em alguns do que em outros, pois cada um tinha suas próprias questões. Dava uma atenção especial as mulheres separadas ou viúvas, além de algumas cujos maridos não provinham com carinho e apoio suficientes para elas. Wanderson tinha muito prazer em atender as necessidades dessas irmãs em cristo.
Após passar o dia nesta árdua atividade, chegou no final da tarde a sua igreja onde Maycom o esperava lendo um jornal popular.
- Boa tarde, pastor.
- Boa tarde, Maycom. Como foi seu dia? - cumprimentou enquanto abria as portas da igreja que não era maior do que uma pequena loja.
Por um momento, Wanderson ficou ali parado observando seu diminuto templo enquanto um arrepio lhe corria pela espinha. Ele mal escutava enquanto Maycom falava sobre dependentes de drogas que ele visitara ao longo do dia e que tinha certeza de que conseguiria salvar em honra e glória do Senhor.
Seu pensamento estava longe, imaginava a igreja maior que pretendia alugar para comportar os fiéis que já não cabiam naquelas três míseras fileiras de cadeiras de plástico, sonhava com o dia em que estaria ao lado de pastores que tinham verdadeiras fortunas, talvez até entrasse para a vida pública. Quem sabe, um dia não estaria ele proferindo o nome de Deus no próprio Congresso Nacional?
O toque de Maycom em seu braço, buscando sua atenção o arrancou de seus devaneios.
- O senhor viu que coisa horrível, pastor?
Wanderson piscou uma ou duas vezes para se situar enquanto pegava o jornal que o outro lhe estendia com uma foto de um homem tão ensanguentado que poderia escorrer pela página.
- O que foi, irmão?
- Esse rapaz que foi retalhado no centro da cidade ontem de noite. - comentou compadecido. - não encontraram nenhuma identificação, e o rosto dele está tão desfigurado. Estão achando que é algum mendigo. Aonde este mundo vai parar?
- A causa disso é a perda dos valores da família, Maycom.
- O senhor acha?
- Tenho certeza! Deve ter se metido com uma daquelas prostitutas ou até os travecos que perambulam o centro. Teve o castigo merecido, certamente.
Quando devolveu o jornal, Maycom tomou sua mão.
- O senhor está tremendo de novo.
- Não é nada! - disse rispidamente enquanto puxava sua mão.
- O senhor deveria ir a um médico ver isso. É tão preocupado em cuidar dos outros mas não se cuida.
- Não é nada, já disse! E mesmo se fosse alguma coisa, tenho fé de que Deus cuidaria de mim melhor do que a medicina dos homens.
- Então permita que eu ao menos faça uma oração sobre o senhor, para lhe trazer alento.
Sentou-se enquanto o jovem colocou a mão em sua cabeça pedindo a Deus por sua saúde e proteção. As palavras foram tão sinceras que até trouxeram lágrimas aos seus olhos e aliviaram os seus temores de que estes tremores poderiam significar que estava perdendo o controle sobre o próprio corpo devido a idade já avançada. Este era o seu maior medo.
- Obrigado, Maycom.
- Não por isso, pastor. O senhor me salvou e ainda poderá salvar muitos outros como eu.
Wanderson ficou observando enquanto o outro se afastava para arrumar as cadeiras para o culto dali algumas horas. Ele fora uma das primeiras ovelhas de sua congregação, quando tinha recém-deixado a cadeia. O jovem era um drogado que vivia nas ruas e olhe para ele agora.
Se um dia teria que prestar contas diante do Criador, sabia que pelo menos uma coisa boa havia feito nesta vida.

* * *

O culto daquela noite foi inspirado. Wanderson falou sobre o fogo do inferno sobre os pecadores que não abraçavam o caminho de Cristo causando um furor entre os seus fiéis. Até citou a reportagem que Maycom lhe mostrara antes para ilustrar a perda dos valores familiares na sociedade decadente.
Ao final, muitos foram cumprimentá-lo e abraçá-lo, concordando com suas palavras e elogiando o fato de ao menos ele ser um homem com coragem para dizer o que ninguém tem coragem de dizer.
Maycom se aproximou dele acompanhado de uma velha senhora, dizendo ser sua avó que ansiava muito em conhecê-lo. Ela abraçou o pastor muito emocionada agradecendo por ter curado seu netinho querido.
Depois Maycom se desculpou por não poder ficar para ajudá-lo a fechar a igreja porque tinha de acompanhar a avó até em casa. Mesmo contrariado, Wanderson sorriu amarelo e permitiu que ele assim o fizesse e garantindo que não haveria problema algum para ele fechar arrumar tudo quando todos saíssem.
Os últimos fiéis ajudaram o pastor a fazer as arrumações, mas ele se despediu alegando que precisava fazer algumas orações sozinho com Deus. Quando se encontrou sozinho pegou a caixa de dízimos e foi conferir a arrecadação da noite. Percebeu que alguns deixaram de contribuir e fez uma nota mental para incluir um alerta quanto a isso na próxima pregação. Como queriam que Deus realizasse os milagres pedidos se eles não contribuíam para a glória de sua igreja?
Enquanto estava entretido em suas contas, pensando em quanto ainda precisaria para conseguir seu sonhado templo, a luz começou a piscar e por fim se apagou. Ele amaldiçoou, imaginando se tratar apenas de uma lâmpada queimada. Usando a luz do celular para se guiar, guardou a caixa e se dirigiu para a saída, quando a porta da igreja se escancarou de repente, mesmo tendo trancado-a quando o último fiel saiu.
Wanderson foi jogado ao chão pela mesma força que arrobara as portas e viu uma figura de pé a sua frente, iluminada apenas pela luz da lua, deixando apenas enxergar sua silhueta, na qual podia se ver o que pareciam dois pequenos chifres saindo das laterais da cabeça.
O pastor estava apavorado diante da figura que o assombrara em seu pesadelo. Sabia que não eram chifres, mas as pontas de suas orelhas salientes. Também sabia que ele o olhava com olhos amarelos da cor do pus de uma ferida a muito infeccionada. E podia sentir o seu sorriso macabro como se ele escorregasse por sua pele.
- Faça suas preces! - O estranho disse em uma voz rasgada.
E sem poder mover seu corpo, foi o que Wanderson fez...


segunda-feira, 3 de junho de 2013

A outra parte de mim (parte 1)

            
            Dia 15 de Agosto de 2006, foi quando começou. O primeiro incidente; Tatiana Sanchez, idade doze anos.

          Eram dez e quarenta da manhã, o recreio recém tinha terminado. A sala estava em silencio durante a prova de matemática, e como de costume, a maioria dos alunos estava muito nervosa. Tatiana era uma dessas pessoas. Noite passada ela teve um sonho estranho; sonhou que corria selvagem no mato, e era capturada e enjaulada como um animal. Apesar do medo, ela sentiu ao acordar, uma sensação de liberdade e força. Na verdade, vinha tendo esses sonhos a alguns dias, mas nunca comentou pra ninguém.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

À prova de bala

    
  Eu tava voltando pra casa, era uma quarta-feira à noite, você sabe, eu saio as 9 da noite as quartas, não sabe? Como sempre, eu cortei caminho pela praça, só pra passar por perto da nossa árvore... Sempre quis gravar nossos nomes naquela árvore, mas nunca fiz isso, porque, sinceramente, é bem brega.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O Homem dos Sonhos (I) - Corra!



O centro de todas as grandes cidades é sempre apinhado de gente andando em blocos por todos os lados, todos preocupados com seus trabalhos que consideram tão importantes, seja pela soberba onde as pessoas se colocam uns acima dos outros, seja pela importância de pagar contas no final do mês que os faz aturar trabalhos degradantes e humilhantes.
Naquele momento, entretanto, tarde da noite, o centro da cidade se encontrava deserto. Não havia sequer uma viva alma para ser vista ao longo das ruas estreitas dos prédios antigos, datados da época do Império. Nem mesmo as prostitutas, mendigos e outros marginalizados pela sociedade, tão facilmente encontrados neste cenário noturno podiam ser vistos, como se fosse um momento fora da realidade, um sonho.
Mas o que Frederico vivia naquele momento estava mais para um pesadelo!

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Tic tac toe



Tic tac toe.

Tic tac toe

Tic tac toe, diz a música.

Simples assim: começa com tic, depois vem tac e termina com toe.

Ordem. As coisas são como devem ser para funcionarem. Amor, lealdade, respeito... Mas nem sempre a roda gira para o lado certo. Sempre há engrenagens que dão defeitos e precisam de reparos. Algumas, não tem conserto e devem ser removidas, para que o funcionamento correto prossiga.

É tic tac toe, e não tac toe tic.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

quarta-feira, 27 de março de 2013

A Vingança de Kali. Terceira parte.

Por: Tatiana Ruiz.

-Vamos meu bebê… Está na hora de se alimentar – disse a voz rouca e trêmula, seguida de um riso esganiçado, para a criatura que se retorcia dentro da jaula. O cheiro do pequeno lenço branco invadia suas narinas ardidas, trazendo uma sensação boa... A mesma que sempre antecedia uma refeição.
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sábado, 16 de março de 2013

Marcado.

Por: Roberta Spindler.

O homem despertou no meio da madrugada com um grito angustiado. A escuridão o envolvia como um cobertor. Com a respiração entrecortada e um suor frio escorrendo pelo peito nu, ele sentou na cama e puxou a cordinha do abajur que se localizava no criado-mudo à esquerda. A luz fez seus olhos arderem e revelou uma cena assustadora. Seus lençóis e braços estavam cobertos por sangue, pegadas de lama cobriam o chão do pequeno quarto e um odor ferroso tomava conta do ar.

terça-feira, 12 de março de 2013

Nimbus. Parte Final.



(Continuação)
Discretamente, lhe dirigi a palavra e pedi para me ausentar por breves segundos. Eu já estava agindo diferente com ela, sendo muito gentil e, sinceramente, isto me incomodava.
Com um leve aceno, ela permitiu minha saída.
Ao chegar ao banheiro, averiguei se havia mais alguém comigo. Sem pessoas por perto, abri uma pequena ampola de sonífero. Pequena, porém bem potente. Em 15 minutos ela estaria dopada, à minha mercê.
Escondi a ampola aberta entre os dedos. Este ritual já estava sendo repetido pela terceira vez... todas caíam.
Conforme planejado, me aproximei da mesa, estiquei o assunto por mais alguns minutos e, aproveitando uma distração dela, despejei o conteúdo em seu capuccino. A própria canela que ela havia pedido seria o ingrediente perfeito para disfarçar o sabor do sonífero. Enfim, uma empreitada perfeita, pensei.

terça-feira, 5 de março de 2013

Nimbus - Parte I de II.

A TV anuncia mais uma vítima. Ela está ligada a mais de dois dias, mas sua luz não cessa, parece ter vida própria. Nela, um homem diz que a contagem de corpos já atingiu o número de cinco pessoas. Sem vínculos, sem pistas, apenas um nome: nimbus.
Quantos mais morrerão até que se chegue ao autor desta carnificina? - questiona o âncora do noticiário.
- Quantos? Não sei dizer. O que interessa não é o número, mas a mensagem que deixo. Vou morrer logo, mas meu legado continuará por gerações.
O homem caminha pelo apartamento e olha para a TV. Seu trabalho está sendo bem divulgado, pensa.
Com a voz sussurrada, ele diz:
- Eu sou Nimbus. Eu sou a nuvem que traz a sombra e a brisa, o acalento e a serenidade. Porém também trago a tempestade, o frio e o desalento. Eu carrego a paz e a calamidade em mim. Venho sem avisar e parto ainda mais sorrateiramente.
Então, sorrindo, ele aponta o controle-remoto para a televisão e, com um toque, a silencia. O apartamento é tomado pela escuridão.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

O Demônio.




Por: Bruno Vox
Ele corria como não houvesse outra coisa no mundo, apenas corria, corria para se salvar.
Olhou para trás e viu o vulto. Ainda estava o perseguindo.
Desceu umas escadas de ferro pulando alguns degraus, quase caiu, mas se equilibrou segurando nas barras de apoio e conseguiu se manter de pé.
Era jovem, não mais que vinte e cinco anos, praticava exercícios e tinha boa saúde, mas seu coração disparava como se fosse explodir, seu peito doía, os pulmões estavam exaustos, não aguentava mais correr. Suava bicas, ofegava como se estivesse correndo a mais tempo do que suportaria, o que era verdade. Aquele... bem, ele não sabia o que era, um homem? Talvez. Quando foi abordado por esse ser, podemos dizer assim, na saída da boate, conseguiu ver de relance seus olhos que brilhavam um vermelho amarelado intenso como brasa acesa. 

Acabou de descer as escadas e por um instante parou para ver para onde seguiria em sua fuga. Ali era o galpão inferior da antiga fábrica, estava deserto, o maquinário havia sido vendido quando fora a falência. O rapaz sabia disso, conhecia aquele lugar, já havia estado ali, por isso correu para aquela direção nas ruas desertas da cidade, na madrugada fria e assustadora. O lugar lhe parecia ótimo para esconder, parecia acolhedor em sua memória.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Como decorar uma parede branca.

Por: Juliano Rossin. 
Desde que se mudara para o apartamento novo, Flavio tinha dúvidas sobre o que fazer com a parede branca da sala, aquela que ficava atrás do sofá creme de três lugares.
Sendo um decorador de nome consolidado na cidade, que já havia decorado a casa de alguns dos mais ricos e famosos da região, e ainda ganho concursos internacionais, ele achava esse fato impossível de acontecer e inadmissível para alguém com o seu talento.
Havia ainda o adicional de que aquela não era uma parede qualquer na qual aplicaria sua criatividade. Aquela era a sua parede, na sua sala e a sua casa devia ter a decoração mais extraordinária já vista. Um exemplo de como o que ele fazia era perfeito e de gosto inquestionável.
O pior foi quando teve de ouvir o comentário de sua empregada – que provavelmente entendia de decoração assim como ele entendia de futebol: absolutamente nada – que primeiro lhe perguntou se deixar aquela parede branca era um novo experimento, e se fosse, que tinha gostado, antes básica assim do que rebuscada como o restante da casa, ela havia completado.
Básico! Como assim básico? Ele estava sendo chamado de básico por alguém que não tinha um pingo de conhecimento técnico na área, mas mesmo assim aquilo lhe subiu o sangue. Ele nunca poderia ser chamado de básico. Aquilo era o mesmo que ser tratado como apenas mais um pintorzinho de paredes qualquer.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Sorrir é o que me resta.

Será que um dia irão esquecer o que fiz? Creio que sim, pois a humanidade sempre terá outros casos mais malignos que o meu. E o passado, além disso, não dá lucro. Meu tempo aqui, presa, prova-me diariamente que nada melhor que um dia após o outro. Com o passar dos dias, meses e anos eu me tornarei uma pálida lembrança, algo a se esquecer, algo que não dá mais lucros para a imprensa ou aos advogados. Reclusa estou e é assim que provavelmente morrerei.
Mas nem tudo foi sempre assim. Houve uma época em que eu era bela, rica, cobiçada. Meus dias eram um conto de fadas, mesmo com todos os problemas que há em uma família. Eu era feliz e nunca valorizei de verdade essa felicidade. Aliás, praticamente todos nós jamais damos o devido valor ao que temos, até que o perdemos...