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terça-feira, 16 de julho de 2013

Carne crua.

Por: Franz Lima.
Abro os olhos e a dor chega quase que instantaneamente. O mundo está de cabeça para baixo, confuso. Há gritos que me alcançam lentamente. Os dentes doem com a mesma intensidade que os olhos. Meu braço esquerdo está quebrado, sem dúvidas.
Mas o que aconteceu? O que me levou a capotar o carro? Descarto essas questões e parto para o que é mais prático: sobreviver.
Solto o cinto de segurança e meu corpo se choca contra o teto do carro. Os vidros estão quebrados e sinto os cheiros de óleo e gasolina. Isso é péssimo.
A dor me atinge de novo, fazendo questão absoluta de não me deixar esquecer o quanto estou fudido. 
Começo a me arrastar para fora do carro e vejo, não muito longe, uma mulher com um dos olhos furado. Ela grita, mas não consigo compreendê-la. Seus passos são desconexos e trôpegos, o que pode indicar que algo realmente a feriu ou, ainda, que ela está drogada. Ergo o ombro do braço ferido e forço a saída. O que se passa a seguir é quase surreal: um caminhão desgovernado atinge a mulher, matando-a de imediato. As rodas do automóvel passam a centímetros do meu corpo. Era para eu ter morrido junto com a mulher, porém o destino me poupou. 
O choque de ter escapado me despertou para outra realidade. Muitas pessoas estavam mortas em todo o meu raio de visão. Mulheres, crianças... não havia distinção para o massacre. Que merda estava acontecendo?
Ergui meu corpo e comecei a andar. Eu reconheci o lugar onde o carro ficou capotado, uma rua distante apenas algumas quadras da minha casa. 
Mas o que aconteceu?

terça-feira, 2 de julho de 2013

Perfume.


Por: Franz Lima.

Nunca vou me cansar. Acredite! Cada dia sempre será uma renovação do meu amor por você. Vê meus olhos cansados e fundos? Eles são fruto do que sinto. Não consigo dormir. Já estou há quase cinco dias sem descansar, pois tenho medo de não despertar. Tenho medo de perdê-la.
Alguns podem levar esse amor para o lado ruim, enquanto outros tenderão a me criticar pelo excesso de meus atos. Que fiquem com suas críticas. Que fiquem com suas vidas fúteis e seus amores rasos. Eu nasci para amar... você.
O destino nos uniu e é com você que sou feliz. São apenas algumas semanas juntos, mas como mensurar o tempo quando há tanto em jogo? Para nós, o tempo parou.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Prisão.


Por: Franz Lima.

Meus pensamentos se perdem diante da imagem refletida. Não há mais o homem que outrora fui. O reflexo mostra apenas um pálido e frágil indivíduo. O reflexo indica uma verdade que há muito eu fingi não ver: eu estava morto.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Diante de Ti.


Por: Franz Lima.

    Estamos finalmente um diante do outro. Há anos esperamos por tal  oportunidade, na qual as dúvidas seriam postas de lado e a mentira extirpada de nosso coração, onde ela já semeou a discórdia.
     Nosso amor era tão belo e sólido. Mas a beleza de uma mesa encoberta por  uma bela toalha  acaba  se  esvaecendo, quando, ao retirarmos a toalha, verificamos que os cupins já a destruíram silenciosamente.
     Eu olho para sua face. Há beleza nela. Há uma paz desconhecida para mim.
    Seus lábios sorriem, levemente rubros. Eu toco cada pequena parte sua, o que me dá muito prazer. Indiferente, você não repara em mim. Confesso, eu jamais esperei por retribuição ao amor que lhe oferto.
     Ficamos nus. Seu corpo tem o cheiro do inverno. Eu, ao contrário, exalo o perfume da fome. É chegada a hora de nos unirmos. É chegada a hora em que irei me alimentar de sua carne e seu sangue. Pois jamais haverá união igual à nossa.
    Nunca surgirá um amor como  este, onde  o sentimento  transcende a  morte  e a paixão, verdadeiramente, alimenta a alma.

sábado, 18 de maio de 2013

A casa sobre o prédio (Parte I de II).



Por: Rodolfo Pomini

Eles estavam pesquisando o lugar considerado mais hediondo do mundo. E é obvio que conseguiriam uma lista quase imensa dos locais com prováveis situações de tortura, paranormalidade, ambos os casos unidos para um único fim, ou locais utilizados para abastecer a fome de jogadores compulsivos por morte.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Meu presente amaldiçoado.

Por: Franz Lima.
Hoje completamos 22 anos de brigas. Na verdade, lutamos para tirar a vida um do outro quase que incansavelmente. Entretanto, não foi sempre assim. Houve um período em que éramos irmãos, com pequenas nuances de comportamento, mas gêmeos na essência do significado dessa palavra. 
Isso até o dia em que lhe dei meu presente...

domingo, 5 de maio de 2013

Minha fome de amor


Há dois anos, desde o início da faculdade, Ruan começou a cobiçar o corpo de Luana, sua colega de turma. Foi uma atração animal, obsessiva e desmedida ocultada em sorrisos e palavras singelas, acima de qualquer suspeita.

domingo, 28 de abril de 2013

Um poema para a imortalidade



Doce Annie, vinho que me aliviou as mazelas desse mundo de tantas desgraças no qual já chegamos com pranto copioso, o que farei de minha vida agora? Não sei o que responder neste momento de dor incalculável. Em minha cólera, posso apenas destruir o meu aposento, único meio que consigo enxergar para obter um alívio da dor de minh’alma.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Inspiração.

Por: Franz Lima.
Eu escrevo. A caneta flui em minha mão com uma velocidade incomum. As ideias também fluem, deixando-me desnorteado. Mas não há a menor possibilidade de interromper essa atividade. Nada poderá interromper esta missão. Nada.

Meses atrás eu vagava por entre viadutos, inconformado com a vida. Meu estômago vibrava - literalmente - com a fome. Minha pele suja era uma clara indicação de que meus dias se passavam nas ruas. Essa era a sina de um catador de lixo, um mendigo. Como cheguei a esse ponto? Acredite, isso é irrelevante. Porém garanto que irá querer descobrir como saí. Sim, você irá...

domingo, 21 de abril de 2013

Acenda-me



Não poderia mais negar o fulgor de minha paixão por ti. Desde tenra idade, em nosso primeiro encontro, meu coração é vosso devoto.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Ouço.


Por: Franz Lima.
Qual o som do silêncio? Esta pergunta sempre ronda os que amam Alan, nascido como surdo-mudo. Ninguém jamais ouviu um som sequer vindo dele. Ele também jamais ouviu um único ruído. Mas havia algo que o fazia se tornar uma pessoa diferente: sua beleza.
Desde pequeno o menino destacou-se por uma face quase angelical. Olhos de um azul muito claro, rosto perfeito e um sorriso que cativaria até o mais nefasto dos seres humanos. Não havia como não amar aquela criança e foi assim que o menino cresceu e transformou-se em um homem.
Mas não há como narrar essa história sem destacar que o homem foi moldado à base de muita malícia. E o que poderiam esperar as pessoas de um indivíduo que teve tudo por ser 'especial'? Usando sua limitação física, Alan cresceu como um manipulador. Ele obtinha tudo que desejasse, bastando apelar para sua condição de surdo-mudo. Diante das pessoas, não ouvir ou falar eram condições torturantes, algo próximo do sofrimento absoluto e, por isso, todos faziam o máximo para agradar a criança. 
O pai do jovem foi o principal responsável por essa involução. Joaquim cobriu-o de presentes, fez todas as suas vontades e jamais lhe disse um único não. Negar algo para Alan era inconcebível para seu pai.

sábado, 13 de abril de 2013

A Juíza.

Por: Franz Lima.
          
           Lábios frios, qual o motivo que tens para tocardes os meus?
Sois vós os caminhos por onde passam palavras duras, tão cortantes quanto o fio de uma espada, que me atingem sem levar em conta os resultados.
É justamente de vós que tirei os mais intensos momentos de prazer e, em oposição, o mais puro pesar.
Falastes em amor como nunca fora antes dito. Havia verdade em tais sons... o que fiz para que mudasses tanto?
Distante é o tempo em que duas almas se conheceram. Quis o destino que assim fosse, sem considerar as prováveis conseqüências.

sábado, 6 de abril de 2013

O Arauto da madrugada



Por: Andre Cordenonsi* 

            O choro invadiu a madrugada, alto, histriônico, arrancando o parco descanso do pai que correu até o quarto do filho, em uma cena que se repetira nos últimos meses. Ali, agarrou o bebê de sete meses, embalando-o com uma canção de ninar tão fraca e desconexa quanto os seus pensamentos. O cérebro embotado não se lembrava da letra, tampouco a melodia e foi muito mais pelo aconchego que o bebê voltou a adormecer, embalado nos braços mirrados do pai.
            Ao longe, no quintal do vizinho, um galo cantava novamente, fazendo com que o bebê fechasse os olhos com força e arrancando um suspiro irritado do pai.
            “Maldito galo!” – pensou com toda a força do seu pensamento, a mente subitamente desperta pelo animal desgraçado que estivera acordando o seu filho, todas as noites, nos últimos meses.
            Por um momento, ele não se segurou e a sua mente irrompeu em pensamentos numa enxurrada que desencadearam as lágrimas quentes nas suas faces ressequidas. A preparação pela chegada do filho, a aquisição da casa nova, longe do centro, em um subúrbio afastado, a decoração do quarto. Tudo aquilo desaparecera como uma cortina de fumaça numa noite distante.
A mulher acordara aos berros, banhada em sangue; a bolsa irrompera, mas havia algo errado. A casa, afastada do barulho do centro da cidade, de repente se tornara uma armadilha. Nunca as estradinhas empoeiradas se pareceram tão longas quando aquela noite, com os gritos da amada a lhe corroerem as entranhas enquanto o carro voava pelos pedregulhos até a avenida principal que os levou ao hospital.
Tinha sido em vão. Ela se fora momentos antes do marido irromper pela recepção.
Restara-lhe o filho, salvo a duras penas pelos médicos. Os primeiros dias foram como um borrão; tinha parcas lembranças daquele tempo que passou como uma procissão de faces com olhos borrados, apertos de mão frios e palavras sem sentido. Quando se deu por conta, estava de volta a casa, com uma velha ama dormindo no escritório; uma senhora já de idade, severa e de modos eficientes, recomendada pela irmã da sua esposa. Ele não tinha certeza se ela estava ali para tomar conta dele ou do seu filho, mas sua mente aceitou a situação da mesma forma como aceitara todo o resto. Resignado. Indiferente.
As semanas passaram, uma a uma. Ele voltou a trabalhar e o simples fato de sair de casa desembaralhou o seu cérebro. Ainda se pegava chorando na cama, mas se acostumara rapidamente com o filho. Agora, passava horas brincando com o bebê, que parecia feliz com ele, mas que chorava desesperadamente ao ser deixado com a ama. Aquilo o deixou consternado. Depois, preocupado. O que acontecia enquanto ele estava fora? Porque a ama encarava o bebê não com os olhos de alguém que se importava, mas de quem tinha medo?
Este sentimento o atormentou por semanas. Aconselhou-se com os amigos. O que poderia fazer? Mude seus horários, sugeriram.
Ele gostou da ideia. Uma tocaia. Uma chegada inesperada.
No outro dia, logo após o relógio marcar às quinze horas, ele retornou para a casa. Ele girou a chave na fechadura com cuidado e abriu a porta. A cena em sua sala escurecida pelas cortinas cerradas até hoje ainda lhe perturbava a mente.
A ama havia retirado o casaco cinza e a saia reta e trajava somente um camisolão vermelho sobre o corpo branco. No chão límpido, uma estrela de cinco pontas havia sido traçada com as cinzas da lareira. Em cada uma das pontas do pentagrama, uma vela colorida irradiava o seu brilho fugidio. No centro, o bebê, nu, chorava descontroladamente enquanto a ama gritava e dançava como que possuída por uma entidade demoníaca.
O pai gritou e seu urro foi mais forte do que a dor que lhe partira o coração meses atrás. Pega de surpresa, a ama deu um passo para trás, cambaleante. Ele foi até a frente, derrubando as velas e esparramando o pó cinza com os passos apressados. Em segundos, o bebê estava em seus braços, soluçando com seus grandes olhos azuis fechados. O pai o abraçou com força, sentindo cada nervo do seu ser clamar por vingança, o ódio escorrendo pelos poros como suor em um dia escaldante.
Quando ele se virou para a ama, ela já recolhera sua bolsa e suas roupas. Ele tentou dizer algo para ela, mas as palavras haviam se trancado em sua garganta. Não havia o que falar para um ser tão abominável.
- Roanoke! – sussurrou ela a uma distância segura – Roanoke não irá embora por vontade própria!
O pai tentou avançar contra aquele ser demente, mas antes que pudesse se dar por conta, a ama saiu porta fora, correndo pelo jardim e desaparecendo nos terrenos baldios que cercavam a propriedade. A polícia foi chamada, a casa da senhora foi revistada, mas nada foi encontrado. Ela desapareceu, abandonando para sempre o pai horrorizado e o seu bebê.
Fora difícil se recuperar deste segundo baque. Depois pelo que passara, prometeu não deixar mais o filho sozinho com quem quer que fosse. Após uma longa negociação, conseguiu um acordo para trabalhar em casa, com uma considerável redução em seus vencimentos. Aquilo não lhe importava; tudo o que ele queria era ficar de olho no filho. Ele contratou outra babá, uma garota jovem e meio histérica, que ria sem parar das macaquices do garoto. Mesmo assim, ele não tirava os olhos dela e do filho..
À noite, porém, o garoto passou a ter pesadelos. Histérico, o garoto acordava gritando alto e soluçando como se alguém o açoitasse. Por algum tempo o pai achou que aquilo era um reflexo da maldita experiência que o bebê tivera com a ama, mas, depois de alguns dias, ele percebeu que o cacarejo de um galo das vizinhanças precedia o choro do filho. Todas as noites, exatamente às quatro da manhã, o bicho gritava para os seus, arrancando o bebê dos braços do sono e irrompendo a madrugada com a força dos seus pulmões.
Os dias se transformaram em semanas e as semanas, em meses. Ele tentara falar com o vizinho, mas o granjeiro pouco podia fazer. Afinal, precisava do galo para a produção dos ovos. Ele vai se acostumar, dissera com um sorriso tímido. O garotinho só precisa de um tempo.
Mas a situação piorava a cada dia. O galo passou a cantar duas, três vezes por noite. O garoto se tornou arredio e brigão e a exaustão do pai não melhorava em nada a situação familiar. Sua produção caiu e, agora, perdia horas se explicando para os chefes. O bebê comia pouco, perdendo peso de forma assustadora. As brincadeiras da babá já não faziam efeito e uma atmosfera depressiva tomara conta da casa, como se uma nuvem negra houvesse pairado sobre o lugar.
O pai, que ainda balançava o bebê enquanto estas recordações o atingiam, largou o garoto de volta ao berço. Com os pés arrastados, ele voltou para a cama, olhando para o relógio. Duas da manhã. Aquele tinha sido o primeiro canto. Pelo menos mais duas vezes o galo irromperia na madrugada. Com as pálpebras pesadas, ele cerrou os olhos, adormecendo logo a seguir.
Ele acordou com o sol a lhe perturbar os olhos ressecados. Zonzo, ele demorou a reconhecer que estava na própria cama. Soltando um grande bocejo, consultou o relógio da cabeceira. Oito e trinta.
Aquilo o despertou na hora. Deixando os lençóis para trás, ele foi com os passos rápidos até o quarto do garoto, escancarando a porta. Por muito pouco ele não vomitou; seus joelhos dobraram e ele se viu agachado no chão.  Pelo quarto, penas negras balançavam na brisa da janela aberta. No chão, as vísceras do galo estavam espalhadas em um círculo onde o filho repousava tranquilamente. Na parede, uma única palavra, escrita em sangue.
Roanoke.
* Professor e escritor, Andre atua nos sites azcordenonsi.com.br e duncangaribaldi.com.br

domingo, 31 de março de 2013

O homem feito de névoa


Dedico este conto especialmente à Rita Souza, uma jovem amiga com grande potencial, e todos aqueles que, mesmo com o escuro intimidando, lutam! 

terça-feira, 26 de março de 2013

Ao lado de meu pai.

Por: Franz Lima.

Maurício é uma criança como muitas outras. Alegre, brincalhão e extremamente inteligente. Seus amigos o cercam como se fosse um planeta com seus satélites. Podem chamar do que quiser: carisma, aura ou, simplesmente, bondade. A verdade é que o moleque é muito, muito legal.
Entretanto, um problema assola a existência do menino. Ele não consegue se comunicar com o pai. Na verdade, ele tenta. E muito. Mas seu pai é o tipo de cara fechado, silencioso. Maurício ainda não se lembra do dia em que seu pai parou e brincou com ele. Talvez porque isso jamais aconteceu...

domingo, 24 de março de 2013

sábado, 23 de março de 2013

Deixandos as profundezas.



Por: Sandro Quintana.

A primeira coisa que Camila percebeu ao despertar foi a escuridão, tão intensa que ela não conseguia ter certeza se estava de olhos abertos ou fechados.

A segunda coisa que ela percebeu foi a dor lacerante em seu peito, como se algo o tivesse atravessado. Ao passar a mão, por cima da roupa, sentiu duas cicatrizes no peito. Uma grande, passando entre seus seios, e outra menor, do lado esquerdo.