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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Brenda



“O que a gente precisa é de um cara decente que lute por nós”, a voz ecoava para as duas únicas pessoas que ouviam todo o relato anterior – e mais um garoto; aquele que sentava sozinho, no fundo, ouvindo música e fazendo origamis; mais um “pária”. Brenda acostumou-se em ficar por todo o intervalo dentro da sala de aula. Para ela, era perigoso e infeliz ir para o pátio, mesmo nesta altura do Ensino Médio... E Luana e Francine a acompanhavam pelo mesmo motivo.


Luana era muita baixa e extremamente gorda para a idade. Infelizmente, mesmo passando fome, na dieta, e fazendo caminhadas diárias, não conseguia emagrecer. “É um problema glandular, querida”, diria sua médica. E do sexto ano até hoje, seus colegas diriam “Olha a Butijão” e lembravam de Jabba The Hut a Igor Dão quando a viam. Francine, por sua vez, era o que se chamaria de “uma menina normal” ou “com tipo de atleta”, mas era filha de uma das serventes e estava ali, portanto, porque isso a garantia uma bolsa integral de estudos. O mundo de seus colegas não a pertencia, e preferia evitar qualquer chacota ou ter que, finalmente, “levantar um desses playboys no soco” – anos de jiu-jitsu e, depois, muay thai garantiriam isso. Brenda, por sua vez, era um caso diferente. Brenda era...

Brenda era linda.

Linda de verdade. Em todos os aspectos. Do cabelo ao formato dos dedos dos pés. Não adiantaria explicar; só vendo, realmente – embora sirva de exemplo dizer que, hoje, uma “foto de perfil” dela teria mais de uma centena de “curtir”, e até de desconhecidos. Apesar de sua beleza, era incrivelmente simples e simpática e, por fim, apaixonante.

Porém, isso trouxe muitos problemas. No início, comentários sussurrados entre todos os alunos homens da nova escola. Depois, caras comprometidos ou com “fã-clubes pessoais” convidando-a, na encolha, para sair, a despeito de suas namoradas ou afins. Obviamente, isso só poderia ser “Culpa dessa piranha!” e as ameaças se tornaram cotidianas. E mesmo com o “nível socioeconômico” da maioria dos colegas, quase foi espancada na saída por uma turba de meninas, certa vez. Assim, como não ficar “encarcerada” na sala de aula quando poderia, simplesmente, caminhar e aproveitar o sol? Não, ali, tinha segurança e professores e funcionários estariam por perto, caso necessários.

Mesmo com todos esses problemas, tinha um cotidiano normal ao lado de suas “amigas” – ou, como à conclusão que chegara, meras “companheiras de cela”, por falta de opção. Sim, gostava das meninas, mas sua personalidade desejava conhecer e conviver com mais gente, ter outras experiências e vivências. Não podendo arriscar, todo o tipo de conversa se limitava a elas... E, hoje, o assunto era o mais comum de todos: falar mal desses “meninos babacas que não nos dão o devido valor”. Francine até tinha muito a dizer sobre isso, mas Luana, coitada, só fazia escutar, por razões óbvias.

“De boa”, começou Francine, “é muito difícil encontrar um cara assim, ó. Na real, vai ser bonito, ou idiota, ou taradão, ou vai te tratar como um objeto. E, dificilmente, vai se quebrar todo por você. Um realmente maneiro e que te aceite e se doe é algo que surge apenas a cada, sei lá, cem anos, haha! Parafraseando o ‘sor Romário, ‘só tem francês, nenhum viking’”.

“Aham”, concordou Luana, mesmo que o que entendesse sobre o tema fosse o que via em novelas e filmes. Brenda concordou com a cabeça e, com o silêncio que se seguiu, levantou-se para esticar as pernas. Ao fazer isso, pareceu-lhe que... Pareceu que aquele colega, o “menino do fundo”, tinha recém colocado os fones de ouvido... Como para fingir que não estava ouvindo toda a conversa.

“Estranho”, Brenda concluiu, mas logo afastou o pensamento. Tocava o sinal para o fim da aula e dois períodos de Química Orgânica e um de Literatura já prometiam muita insanidade para as próximas horas.

***

As coisas pioraram muito para Luana e, principalmente, Brenda, nos últimos meses. Não era algo “oficializado”, mas muito da “segurança pessoal” que possuíam era derivada da presença de Francine. Três medalhas de ouro por três anos consecutivos em campeonatos escolares consolidavam a fama de qualquer uma como “artista marcial boladona”. Contudo, poucos sabiam da inteligência dela e só duas amigas comemoram quando a mesma passou no vestibular da Federal – para Educação Física, é claro, mas poderia ser qualquer coisa – e conseguiu o “avanço escolar”. Com sua média, podia se dar por aprovada, àquela altura, e partir logo para “seu passo adiante”.

Nesse meio tempo, algo aconteceu com Brenda, também. O primeiro e-mail de “brendologo001@hotmail.com” foi especial. Seus pedidos sobre “um cara que fosse especial” pareciam ter sido atendidos, finalmente. Daí, adicionar no Messenger e conversar sobre tudo tornou aquilo muito mais maravilhoso... No começo, pensou que era um dos meninos do curso de inglês, mas o “Júnior” – era assim que ele se nomeou – revelou que estudavam, na verdade, na mesma escola, e que ele não se assumiria enquanto não resolvesse um “impedimento”.

          Normalmente, Brenda não daria assunto para alguém nessa situação. Ora, qualquer um sabe – garotas, sobretudo – que não dá para confiar em alguém que se esconde atrás de um monitor. Mas o primeiro texto tinha sido, sim, incrível, e mostrava muita inteligência. E era alguém que conhecia tudo sobre seu dia a dia escolar e, acima de tudo, tinha uma admiração sincera.

          Assim, ela se deixou envolver. Depois de algumas semanas, assumiu que os bilhetes com recados fofos e desenhos bonitos fossem de “Júnior”. Assumiu isso, também, quando os livros que comentara apenas com Luana e ele, os que desejava muito ler, apareciam embaixo de sua carteira, assim como os bilhetes, embalados como presentes. Era tudo tão... Tão cheio de beleza e apreço. Era... Amor?

          Podia ser, mas ela não devia ter se deixado envolver.

          De alguma forma, “Júnior” – ou o Paulo Enrique, da turma B, se preferirem – deixou que sua “quase-ex-e-impeditiva-namorada” descobrisse sua troca de e-mails e mensagens com Brenda.

          “Foi um acidente, me desculpa, por favor, eu não queria”, ele disse.

          O que disseram para Brenda, por outro lado, foi bem diferente. E sujo e cruel e furioso.

          O pior nem foi ser “chamada de tudo para baixo”. Hoje em dia, palavrões ou expressões chulas são usadas para, por exemplo, se elogiar um amigo. Tanto faz. O terrível foi o espancamento. Dessa vez, tinham conseguido pegá-la desprevenida.

A professora de Educação Física tinha deixado a quadra para atender uma ligação na secretaria. Luana passava a aula sentada em um canto – dispensa médica, obviamente. Os meninos – os únicos que poderiam, talvez, defendê-la – estavam treinando em outra parte da escola, e nem todos frequentavam essas aulas. E, claro, a “não-ex” de Paulo Enrique, Irene, e suas amigas estariam nessa aula.

Brenda foi espancada. Mesmo quando caiu, desorientada e com olhos embaçados pelas lágrimas, continuou apanhando. Toda sua roupa foi rasgada, deixada aos fiapos. Toda. Quando chegou nesse ponto, Luana já estava correndo o máximo que podia e gritando o nome da amiga – fora isso, sua lágrimas também atrapalhavam a visão. Portanto, quando a professora retornou e levou um minuto para entender o que acontecia, a pobrezinha foi levada à enfermaria praticamente nua – e muitos outros estudantes viram-na nessa situação.

“Pelo menos, estava com uma lingerie bonita”, ela pensaria, no futuro.

E, com certeza, se algo muito pior não aconteceu, foi porque Luana protegeu sua única amiga com o corpo, levando pontapés e socos em seu lugar. Apesar de seu tamanho, era muito fraca, e dizem que não desmaiou por simples força de vontade...

Sim, ocorreram expulsões. A professora Marcia só não foi demitida por omissão porque se comprovou que, coincidentemente, recebera uma chamada urgente. “Comportamento de animais selvagens, de criminosos!”, gritaram a diretora e a orientadora educacional, nas assembleias gerais que rolaram quase que diariamente, depois do ocorrido. Brenda não viu nada disso, nas semanas que passou no hospital...

***

Quando Francine a visitou, e viu como seu rosto estava, chorou por horas. “Eu deveria estar lá”, balbuciava. “Cê sempre precisa de mim, menina. Desculpa. Eu te amo, tá? Desculpa.”

***

O ano letivo terminou e Brenda não voltou para aquela escola. Seus pais se tornaram superprotetores e os processos judiciais que iniciaram contra a administração da instituição tornariam o ambiente muito pior, como se a coisa toda já não fosse render dedos apontados e sussurros por muito tempo, se continuasse lá...

Por isso, preferia acreditar que seria esquecida em pouco tempo. Talvez, já tivesse sido esquecida. Supostamente, nada era duradouro na vida de adolescentes. Nem linchamentos.

O saldo positivo, até aí, foi poder rever Francine com frequência – aulas de defesa pessoal, na mesma academia que, agora, aquela boa amiga conseguiu um emprego. Luana sumiu por um tempo, mas reapareceu, repentinamente, oitenta e cinco quilogramas mais magra e namorando. “Na verdade, estamos noivos”, revelou depois de poucos minutos de conversa.

“Tudo, tudo, tudo vai dar pé” era o mote que dormia e despertava com Brenda em seus pensamentos. Sim, seu drama seria esquecido e ela esqueceria daquilo. Ela acreditava nisso.
Acreditava. Até três noites atrás.

Brenda não saberia dizer se acordou com o incongruente e constante som de passos em seu quarto – dormia sozinha, afinal, e seus pais estavam fora – ou se foi o cheiro. Ela tinha que conferir se não um sonho, simplesmente. Sentou-se na cama e esticou o braço para o abajur, mas não precisou liga-lo. O quarto estava iluminado à luz de várias velas. Velas longas e elegantes, colocadas cuidadosamente entre suas coisas, na escrivaninha, no roupeiro, na cabeceira... E elas tornavam o vulto que a observava, parado em pé aos pés da cama, muito mais sombrio e insólito. Só que ele estava lá, sim, Brenda sabia. O “presente” sobre um saco plástico preto na cama tornava tudo muito real. Isso, e estar tão assustada que não conseguia gritar.

“Eu não consegui que você entendesse que os bilhetes e os livros eram presentes meus. Meus!”, o vulto falava exaltado, se aproximando. “Me perdoa, eu ouvia, claro, todas as suas conversas. Você era... Era o meu ar! Mas eu lembrei, daí: você precisava de um herói, de... De um viking! Alguém que lutasse por você! E eu desci e me sujei onde você não poderia Brenda! Tá aí, ó, o que você merece, meu amor!”.

Um machado com sangue coagulado estava entre as nove “oferendas”. E dobraduras de vários corações.



13 comentários:

  1. Gostei muito do conto. Acho que mostrou uma visão necessária e verdadeira do bullying e principalmente do machismo - que muitas vezes vem das próprias mulheres (no caso, as meninas do conto que agrediram Brenda).
    O terror foi diferente nesse conto: foi muito real e por isso, talvez, muito mais amedrontador. É algo que pode acontecer, e na verdade acontece, de diversas maneiras, em diversos lugares. Excelente.

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    1. Valeu, Karen! A intenção era exatamente essa... Inicialmente, tinha um detalhezinho sobrenatural, mas achei que, no fim, a realidade era bem pior. :D

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    2. No final de tudo, a realidade é sempre mais apavorante. :)

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  2. Mano, o conto ficou extremamente bom, brother. A contemporaneidade, a exata compreensão de fatos atuais e a descrição rápida fazem com que o leitor fique preso, atento ao que se lê. É um grande início, meu amigo e sei que muito mais virá dessa mente.
    Parabéns pelo conto e seu final fantástico. Abração...
    Franz.

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  3. Um terror real e existente em nosso dia-a-dia. Perfeito mano, sem mais o que dizer. Perfeito!

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  4. Eu ja disse o que achava via twitter... Me lembrou demais coisas que vivi...

    Bullying e perseguição, todos temos historias disso kkkkkkkkkk

    Muito bom!

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    1. Sssssim!
      A ideia é continuar nessa pegada.
      Obrigado, chuchu!

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  5. Muito bacana a narrativa, já deu pra ver que essa pegada realística e macabra é tua área mesmo, haha Se continuar nesse ritmo, teremos ótimos textos pela frente no projeto, o que agradaria bastante! Deixo aí meus parabéns pelo conto, bem escrito e detalhado, com uma realidade nua e crua, bastante crucial no terror da rotina do cotidiano que todos nós vivenciamos um dia. Parabéns!

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    1. Meu brother, valeu por esse e pelo outro comentário! Até me 'mocionei! :D

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  6. Parabéns Emanuel, excelente conto.

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    1. Pô, Bruno, valeuzão! De você, significa muito! :D

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