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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Somente uma canção triste em um dia ruim

Fonte da Imagem: Ghosts and stories.

♫ De tarde quero descansar, chegar até a praia e ver se o vento ainda está forte e vai ser bom subir nas pedras ♫ - Renato Russo cantava “Vento no Litoral”, quando Hernando decidiu deixar o livro que estava lendo de lado, jogando-o no chão de modo desleixado. Estava cansado.

Deitou a cabeça no travesseiro macio, sentindo um gosto salgado na boca e frio, mesmo com o tempo quente que fazia na cidade. Não demorou a fechar os olhos, mas antes balbuciou uma palavra... 

—Rosas... 

** 

—Acorda, Hernando – uma voz feminina disse. 

Mesmo a contragosto, pois não conseguiu repousar por muito tempo na última noite, despertou. 

—O que é meu amor? – perguntou sonolento. 

—Não estou me sentindo bem, acho que é febre – lágrimas se anunciavam em seus olhos verdes encantadores. 

—Deixe-me ver – colocou a mão direita sobre a testa da companheira, percebendo que a sua pele alva estava vermelha em alguns pontos – Você está muito quente mesmo. 

Cabisbaixo, sentou na cama, girou para o lado e calçou o tênis. 

—Aonde você vai, Hernando? A casa está com as entradas reforçadas, temos um pouco de comida ainda... – seus lábios tremiam, sempre era assim quando estava prestes a ter uma crise de choro, mas quem a culparia? Eles estavam em tempos difíceis. 

Interrompendo a esposa, enquanto ainda fechava o zíper da calça jeans e abotoava a camisa branca, falou: 

—Jaqueline, você sabe que devemos tomar todo o cuidado possível, você está no último mês de gestação. Se tenho de ir lá fora e enfrentar aquelas coisas, assim farei – disse pegando um facão ao lado da cama e levantando-se – Antes disso tudo começar, reclamava muito da vida. As coisas ficaram ainda mais complicadas e me fizeram dar mais valor ao que importa. A farmácia fica no final da rua, não irei demorar – abaixou-se na direção da esposa e deu um beijo rápido. 

Sem mais rodeios, saiu do quarto, pois sempre era doloroso ficar longe dela. 

—Tome cuidado, meu lindo – usava o humor e afeto para aliviar a tensão. 

—Certo, minha rosa, certo... – respondeu. 

Desceu a escada, rumo ao térreo e foi para a porta dos fundos. Lá fora, o silêncio reinava, talvez as coisas estivessem em seu curto período de sono. Aquela hora durante a qual os raros sobreviventes podiam circular sem medo pelas ruas. 

Ao contrário do que os filmes de terror mostraram, as coisas estavam vivas, mas definitivamente não eram mais as mesmas pessoas. Alguns deles foram capturados, antes que o problema dominasse todo o planeta, e estudados, mas nenhum laboratório detectou qualquer coisa que estivesse causando o que chamaram de “Fenômeno R” – referência a um diretor de cinema que se tornou famoso pelos filmes sobre zumbis. 

Com os ouvidos atentos, Hernando abriu os seis cadeados da porta. Antes de lançar-se em mais uma investida para obter um recurso necessário, olhou se os pontos mais próximos da rua estavam seguros. Tudo estava conspirando ao seu favor, nenhuma das coisas estava por perto. Fechou a porta e guardou a chave no bolso da camisa. 

—Por favor, que tudo dê certo – nunca foi muito religioso, mas no fundo acreditava que havia um “Manda-Chuva” no universo. 

O silêncio o deixava tenso, suas pernas pareciam pesar uma tonelada. As ruas estavam cheias de lixo, carros capotados e corpos com perfurações e cortes. Infectados e normais, quando estavam mortos, não era possível distinguir. 

Por mais aterrador que fosse, aquilo não era mais chocante do que o material transmitido diariamente pelos meios de comunicação, antes da tragédia, sem importar-se em colocar os dedos em feridas. 

Em alguns momentos de sua vida, Hernando flertou com a ideia do suicídio, mas com o tempo aprendeu a manter o seu lado sombrio sob controle. Ele sempre conseguiu encontrar outras pessoas que faziam a sua fé na humanidade continuar viva. Raros encontros, mas verdadeiros e transformadores. 

Chegou à frente da grande farmácia e estacou, segurando o facão firmemente, mas as dezenas de coisas estavam paradas em pé com os olhos fechados. Teria de ser ágil, uma vez que não sabia quando poderiam despertar. 

Desviando de seres que um dia foram simples crianças, homens e mulheres, entrou no estabelecimento e saiu vasculhando as prateleiras, derrubando várias caixas no chão. De vez em quando parava a busca e olhava ao redor. Obviamente não era seguro estar ali, mas não iria abandonar a pessoa que mais amava neste mundo. 

Finalmente os seus olhos leram: Paracetamol, ao lado também viu Buscopan. Pegou cerca de duas caixas de cada, não soube definir a quantidade exata devido ao nervosismo, e enfiou no bolso das calças. 

Nesse momento, ouve o som de papel sendo amassado às suas costas. A transpiração aumentou e a respiração ficou mais acelerada. sob o efeito do medo, agachou-se e executou um giro de cento e oitenta graus com a arma. Fez um corte profundo na altura da barriga de uma das coisas e viu as suas tripas caírem. Deu um encontrão, lançando-a contra uma prateleira, mas, infelizmente, alertou os demais adversários também. 

Olhou ao redor, tentando encontrar uma rota de fuga, e viu uma porta por trás do balcão, mesmo sem saber aonde daria, escolheu aquele caminho. As coisas eram lentas, diziam que a atividade cerebral reduzida comprometeu os seus sistemas locomotores. 

Não foi difícil vencer duas delas que se colocaram em seu caminho, bastou empurrá-las, entretanto o segundo ainda conseguiu tocar em sua camisa. 

Hernando pulou o balcão com os reflexos de um felino e empurrou a porta – ainda bem, ela estava aberta – Ele estava no depósito da farmácia. Olhou para a esquerda e viu um grande portão rolante de ferro. Correu e começou a força-lo em um dos cantos, até que obteve êxito em criar uma estreita saída. 

A rua estava tomada por incalculáveis coisas, mas a adrenalina falava mais alto, jogando Hernando sempre para frente. Entre alguns golpes com o facão, socos, chutes e encontrões, chegou à porta dos fundos de sua casa, mas uma horda o perseguia. Levou a mão livre à camisa, mas começou a tremer ao ver que não havia mais um bolso nela, muito menos a chave. 

—Como pude ser tão descuidado? – perguntou-se, gritando em sua mente. 

Recuou um pouco e chutou a porta, não surtiu o efeito esperado. Tentou cinco vezes, até que conseguiu na última. Largou o facão, pegou os cadeados que deixou em cima de uma cadeira e trancou a porta. 

Ainda tremia, quando começou a andar em direção à escada e viu que a porta da frente estava arrombada. 

— Jaqueline?! – bradou, subindo a escada correndo. 

No presente contexto, estar com um ponto vulnerável na casa era o menos importante. 

—Jaqueline?! Você está bem?! – nenhuma mensagem em retorno.

A porta do quarto estava fechada. 

Escancarou a porta sem refletir e ficou paralisado ao ver seis daquelas coisas ao redor de sua mulher, sentada no chão, que estava em frente à velha TV que tinha no quarto, mas que não funcionava por causa da falta de energia. 

Uma sétima coisa estava com as duas mãos sobre o televisor e de sua pele ondas de uma energia azul emanavam para o aparelho eletrônico. 

—O que vocês fizeram com ela, seus malditos! – como o seu único porto seguro ruiu, não tinha mais forças, caiu no chão e começou a chorar. 

As seis coisas que estavam desocupadas, o guiaram até a frente do televisor. Ele não resistiu, não tinha mais pelo que lutar. Se sucumbisse, ao menos poderia continuar ao lado de quem amava, assim imaginava. 

Começou a assistir a sucessão veloz de imagens que passavam pela tela da TV, aquilo era incoerente, mas progressivamente deixou a sua mente ser inundada pela ausência de sentido, seus olhos se tornaram opacos e filetes de baba escorreram pelo queixo. 

Depois de trinta minutos, com uma expressão apática, partiu de seu lar com passos trôpegos. Seu corpo estava vazio, seu coração continuava a bater, entretanto seu espírito havia sido retalhado e jogado para a boca da grande besta adorada por todos. Seu sentido agora era disseminar o vírus. No final das contas, a sua única preocupação era: 

—O que a grande besta nos deixará ver amanhã? – mirou o horizonte, mas não enxergava mais do que um palmo a frente. 

**

Hernando acordou inquieto, suando frio, aquele foi um pesadelo muito estranho e perturbador. Todavia, lhe alertou sobre algo. Não deixaria mais que as suas inseguranças ficassem no leme, tinha fome de vida e iria saciá-la. 

Primeiro, iria até a casa da garota que tanto amava, mas que por anos manteve como somente uma amiga. Temia que não fosse capaz de conseguir o amor dela e que ela, como tantas outras, retalhasse impiedosamente o seu coração, mas que glória existiria em uma batalha sem riscos? 

Tomou um banho, vestiu uma camiseta de uma rádio on line que escutava bastante – a Morcegão FM –, uma calça jeans verde e um par tênis pretos. Além, claro, de borrifar um pouco do seu melhor perfume. 

Ao chegar à porta da frente, pensou: 

— Somente uma canção triste em um dia ruim, isso é o que este dia foi, mas as coisas vão mudar. 

Lembrou-se dos pais que estavam assistindo televisão. 

—Mãe, pai, eu vou sair, – eles não responderam – volto ainda hoje à noite! 

Atravessou a soleira com destino à vida. No caminho, comprou rosas. 

Na sala da residência, os pais de Hernando assistiam a um Reality Show, seus olhos estavam opacos e uma poça de saliva crescia entre as suas pernas. Em suas mentes uma palavra martelava: 

—Assistam...

12 comentários:

  1. Ai >.< tá parecendo aquela série de zumbis assassinos sabe? Esqueci o nome..

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    1. Obrigado, Helana! Está falando de "The Walking Dead"?

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  2. Ed, mas uma vez parabéns...eu acabei ligando a besta aos próprios seres humanos..rsrsr...e a tv como algo que prende e deixa as pessoas um tanto alienadas e bobalhonas.. rsrsrs
    Mas posso esta equivocada. rsrsrsr..estou?

    Beijokas!

    Fê!

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    1. Obrigado pelas palavras, Fernanda. Nós, seres humanos, somos algo com um potencial incrível, seja qual for a direção que escolhamos. Contudo, há quem abra mão desse poder em nome de um conforto "mortífero", algo nos deixa "vazios". Triste mesmo.

      Beijos!

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  3. Mais uma vez, parabéns. Conseguiu desenvolver um conto de terror com muita criatividade e, ao meu ver, com uma pitada de sentimento. Acho que você deveria pensar, também, em escrever romances, iria se sair muito bem. Sei o que estou dizendo, fui "caçadora de escritores" para uma editora durante muitos anos e hoje, já aposentada, continuo fazendo pesquisas e indicando escritores iniciantes mas com talento. E acredite, você tem. Mais uma vez, parabéns. Abraços, Ana Luiza.

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    1. Obrigado pelo comentário, Ana. Sempre me esforço para fazer algo que julgue como, pelo menos, um bom entretenimento. Estou começando (engatinhando mesmo) com um romance. Olha, você poderia me passar um meio de contato? Gostaria de trocar umas ideias contigo. Meu e-mail é: cyber_leitor@r7.com Abraços!

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    2. Terei o maior prazer. Mas antes gostaria de lhe fazer uma pergunta: Percebeu algum erro no meu comentário? Foi proposital... Enviarei meu e-mail, responda por ele. Abraços.
      Ana Luisa

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  4. Malditos pesadelos, mal posso ver seus movimentos... XD

    Gostei muito da história. O sentimento que me veio foi o mesmo de acordar junto ao personagem e voltar a vida real... O sonho se desfez...

    Adoro quando além de ler, sonho junto com a história!

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    1. Pesadelos, depois de tantos anos, eles viraram fonte de inspiração e não medo. Poxa, fico alegre em saber que movi um leitor junto com o personagem. Só cuidado para não sonhar junto demais com o personagens Muaahahahahahahahahaha

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  5. Legião Urbana + contos obscuros = história fodástica! =D Você tem muito talento. Parabéns Ed!

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    1. Obrigado por comentar, Edilton. A minha ideia era justamente pegar uma música super conhecida e transformar em motivo de arrepios :D

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