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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Rumo.

As luzes ofuscam minha visão, enquanto dirijo até meu lar. Sinto as pálpebras pesando, mas estou feliz. Feliz por ter acabado tudo, feliz por não ter começado com isso.
Sinto os olhos lacrimejarem, efeito do sono por não ter dormido há dois dias. Mas quem precisa dormir?
Sacudo a cabeça para espantar o torpor da sonolência. As placas à minha frente estão embaçadas. Com o antebraço, esfrego os olhos e continuo a dirigir.
Logo, muito logo, estarei em meu destino…

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Indomável - III - Dez mandamentos.

Leia antes: Indomável - II - Fome e sede


Fui arrastado para uma sala escura. Pela primeira vez em dias, semanas, meses ou anos abri o olho sem medo. Não há uma luz sequer, senão a que vêm da cabeça de um homem todo vestido de escuro. Dos pés à cabeça, não enxergava nada senão aquela luz que emana de sua cabeça.

Ouço sons de metais sendo manejados e sinto a espinha congelar a cada vez que tilintavam. Tento levantar minha cabeça para enxergar algo mais, mesmo sem conseguir movimentar a cabeça que estava presa com uma tira de couro. Um grito explode da minha boca - "Puta que o pariu" -  assim que identifico um bisturi enorme refletindo a luz em direção aos meus olhos.  Junto com a luz veio a voz do homem que estava de costas pra mim, manipulando as ferramentas.

- Vejo que você é novato. Em breve você conhecerá todas as regras. Perdoarei seu primeiro erro pois sou piedoso.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Disco arranhado


Leonardo caminhava pela rua onde ficavam os sebos no centro de Maceió, estava indo para casa depois de uma festa promovida por um amigo.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Overdose de Pânico.


Por: Géssica da Rosa

Seu Alcebíades conhecia o homem, mas não se recordou que fosse irmão da moça do quinhentos e doze. Chegou à portaria trajando um terno escuro e pediu a chave do apartamento da irmã. Tinha em mãos uma caixa com um laço verde-esmeralda e disse que queria presentear a moça. O velho avisou que ela não estava em casa, mas ele disse que gostaria de fazer uma surpresa e aproveitaria o fato de ela não estar.
        Hesitante, o porteiro entregou a chave a ele e deixou que subisse. O homem abriu a porta e observou o ambiente. Era um apartamento de quarenta metros quadrados, um quarto só, com a sacada de frente para a rua. Deixou o embrulho sobre a bancada da cozinha americana e foi até o banheiro. Abriu o armário de medicamentos e pegou o frasco de ansiolítico que a irmã usava para controlar as crises de pânico. Substituiu as pílulas pelas de metanfetamina que tinha no bolso da calça. Já presenciara suas crises e sabia que a moça não ingeria apenas um comprimido do medicamento. E com aquelas pílulas não seria diferente. Mas o efeito seria outro, o oposto. E altamente eficaz. Se tudo ocorresse como ele previra, em algumas horas ela estaria sem vida. E o melhor: jamais suspeitariam dele. Afinal, ela própria poderia estar fazendo uso dessa droga para se sentir, digamos, mais alegre. Ou mesmo desejar ter uma overdose e cometer suicídio.
          Após trocar os comprimidos, ele retornou para a sala e a gata veio enroscar-se em suas pernas. Olhou para o animal por um instante e teve uma ideia. Foi à cozinha e retirou a faca da gaveta. Pegou a felina sob miadas de protesto e a levou até a banheira, onde fez o serviço. Com um golpe certeiro, separou a cabeça do corpo peludo, deixando borrifos escarlates nos azulejos imaculadamente brancos. Sentiu o sangue quente do animal lhe provocar arrepios de satisfação em todo o corpo. Ainda bem que não havia se sujado muito, não queria chamar atenção do porteiro quando saísse. Despiu o paletó sujo de sangue e foi à cozinha para pegar um prato no armário. De volta ao lavatório, colocou a cabeça do pobre bicho na louça, formando uma horrenda obra de arte.
         Deixou o corpo do animal dentro da banheira, limpou as digitais da faca e das bordas do prato onde havia tocado. Devolveu o instrumento cortante à gaveta, lavou o pano que usara para limpar os vestígios, e foi até a mesinha do telefone onde destacou uma folha de um bloco e escreveu os seguintes dizeres: “Uma surpresinha para minha querida irmã. Com carinho.”.
Prendeu o bilhete sob o prato, deixando-o sobre o vaso sanitário. Dobrou o paletó de modo a esconder as manchas de sangue e pegou a caixa que ficara na bancada. Limpou as digitais da maçaneta ao sair e desceu pelas escadas. No térreo, o porteiro olhou-o com expressão de interrogação ao vê-lo com o embrulho em mãos. Com um sorriso sedutor nos lábios, o homem respondeu que passaria outro dia para deixar o presente para a irmã.
          O velho recebeu as chaves e, encolhendo os ombros, observou o homem sair pela porta. Ponderou se deveria avisar a moça que o irmão estivera ali, mas logo desistiu da ideia, pois assim estragaria a surpresa que ele preparara para a jovem.
***
         Liana abriu a porta, exausta. Foi até a geladeira e bebeu uma garrafa de água de um gole só. Perguntou-se onde estaria Nico, a gata, que não viera recebê-la com o habitual roçar entre suas pernas. Decidiu tomar um banho para relaxar, mas, ao entrar no banheiro e deparar-se com a diabólica visão do animal esquartejado, sentiu náuseas e as lágrimas brotaram de seus olhos cinzentos. Leu o bilhete que havia sido deixado junto da cabeça sobre o prato, rasgou-o e jogou os pedaços na banheira.
         Subitamente, os tremores invadiram seu corpo e ela vomitou no mesmo lugar onde o corpo sem cabeça da felina jazia banhado em sangue. Era o pânico. Sabia quem havia deixado aquela surpresa macabra. Não conteve o surto, mas começou a limpar aquela parafernália mesmo assim. Jogou o cadáver e a cabeça do animal junto com o prato em um saco preto, ligou o chuveiro para remover as manchas vermelhas e os vestígios do seu almoço da banheira e da parede.
          Aproveitou para tirar a roupa e tomar um banho frio, com a visão infernal da sua gata banhada em sangue embrulhando o estômago. Terminado o banho, enrolou-se na toalha e foi para o quarto vestir-se, deixando o saco com os restos ao lado da banheira. Não conseguia controlar os tremores e a sensação de desorientação. Voltou ao banheiro e abriu o armário de medicamentos. Pegou cinco pílulas do ansiolítico, as lágrimas lavando o seu rosto, e tomou tudo de uma vez só.
Foi para o sofá em prantos e encolheu-se como uma criança em posição fetal. Alguns minutos depois, pôde sentir o coração disparar e uma agitação inexplicável lhe invadir. Sentiu o sangue correr pelas narinas e tremores involuntários nas mãos e pernas. Cambaleante, tentou agarrar o telefone para pedir ajuda, mas caiu no tapete convulsionando. Minutos depois, jazia imóvel no chão da sala.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

"O instinto é coletivo."


Antes de ler o conto abaixo, talvez seja mais interessante, antes, ler Brenda, Victor , Campeão e o da tempestade. Embora as histórias sejam fechadas, todas fazem parte do mesmo processo... Assim como os próximos dois contos deste autor. 





Tudo que pode dar errado dará. A situação era urgente e, para variar, estava sem seu carro pessoal – três dias antes, o radiador tinha, praticamente, derretido –, sem uma viatura e, segundo sua mãe, não poderia envolver Rita nisso – ou seja, sem carona. “É um problema de família, literalmente”, advertira dona Carmen. Para piorar, não frequentava o bairro onde passou a infância desde que entrou para a PM – mesmo à paisana, podia ser perigoso. Quando foi possível ingressar uma faculdade e estudar Medicina, se afastou ainda mais daquela realidade... Porém, aquela tempestade levou tudo isso embora; algo horrível estava acontecendo e não podia continuar negando.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

13 Cães


Minha querida Alicia,

Estou a escrever-te essa missiva da ponte do Senhorio, vinte quilometros ao leste de Moçambique, precisamente às 23 horas de um domingo molhado e de calor quase insuportável (é engraçado como a chuva não amainou praticamente em nada o mormaço do verão angolano). Foram inúmeros os fatores que me trouxeram até aqui, entretanto devo me ater aos detalhes mais importantes, ainda que os de menor importância também padeçam de recôndita relevância. Afinal, do pouco tempo que ainda me resta, creio que metade dele foi perdido tentando sobreviver, enquanto que no restante dediquei a procurar relatar os pormenores dos acontecimentos ocorridos nas últimas 24 horas, como um último testemunho de uma mente febril e em decomposição, mas que ainda guarda certo grau de senilidade. Já se passa da hora, creio eu, de minha partida, entretanto o coração ainda vinga, de maneira bastante lúcida, e se recusa a aceitar o destino cruel e inevitável, funcionando perfeitamente bem, inerente aos dizeres da alma...


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A benção da morte.



Eu sei que ela existe. Não do modo como as pessoas pensam. Não a mitológica figura com a foice e sua capa negra, ceifando vidas e conduzindo os mortos ao limbo. Definitivamente, ela existe. E para ser mais sincero, acho que a palavra “ela”, não se aplica. Não há sexo entre os anjos. Com certeza não há.
Desde pequeno eu persigo a oportunidade de vê-la. Minha avó sempre dizia que aqueles que viam a morte frente a frente estavam destinados a receber seu abraço e, com isso, findar sua existência. Porém, o que mais me chamava a atenção era que, segundo as lendas, o homem que a visse ceifando uma vida, no exato momento do toque fatal, receberia o dom da imortalidade. Seria como se a morte se tornasse o seu anjo da guarda, impedindo o mal de se aproximar de você. Interessante, não?
Assim, movido por esse desejo, tornei-me repórter fotográfico de um grande jornal do Rio de Janeiro. Dizer que já presenciei inúmeras mortes, como profissional, torna-se irrelevante, já que sou repórter policial. Retratar a desgraça e a morte é meu passatempo. Não é um obrigação... é um prazer.
Anos se passaram desde meu início como fotógrafo. Sempre busquei estar nos lugares onde o caos reinava. Neles, eu teria a oportunidade buscada desde menino. A oportunidade de encarar a morte nos olhos. A chance de encarar o anjo da morte no instante em que cumpre sua missão. Não havia outro meio de me tornar imortal... e meu tempo estava passando. A cada novo dia, o abraço se aproxima. O beijo da morte se torna mais tangível.
Eu não quero morrer...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Indomável - II - Fome e sede




Acordo sentindo meus dentes colados no lábio cortado. A ferida enorme está coberta de sangue que coagula e une lábios, dentes e língua numa só carne e transformando o sabor produzido pelo vomito, sangue e bola de catarro que permaneceu ali, numa mistura salgada e tenra. Engulo a seco parte do conteúdo que há em minha boca e sinto meu estomago jubilar de alegria pela podridão que desce pelo esôfago. Devo estar deitado neste chão há séculos. Não consigo nem imaginar quanto tempo estou aqui e sinto que há um enorme vazio dentro de mim.

Primeiro porque me separaram daquela garota maravilhosa. Seu sorriso doce enquanto balançava nos brinquedos que haviam na praça próxima de casa me encantavam. Seu vestido rosado que ela tanto amava e fazia questão de sempre vestir era belíssimo e mostravam o quão bela aquela adorável garota seria ao completar os seus dezoito anos. Daria um trabalho e tanto e seria cobiçada por muitos. Mesmo em seus dez anos de idade já era cobiçada, imagina nos dezoito!

Segundo porque estou com fome.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Somente uma canção triste em um dia ruim

Fonte da Imagem: Ghosts and stories.

♫ De tarde quero descansar, chegar até a praia e ver se o vento ainda está forte e vai ser bom subir nas pedras ♫ - Renato Russo cantava “Vento no Litoral”, quando Hernando decidiu deixar o livro que estava lendo de lado, jogando-o no chão de modo desleixado. Estava cansado.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Prata cor de sangue.

Por: Mauricio C. Dovanci

E foi servindo-a uma taça de vinho tinto tão seco e antigo, que jamais encontrariam noutro lugar, que ele percebeu não estar sozinho, que alguém mais estava entre eles. Direcionando o seu olhar para aquele par de olhos que flutuavam em outro lugar, talvez estivesse encantada relembrando momentos de alegria com o outro, ele percebeu estar perdendo parte do seu coração. 

Talvez o amor estivesse lhes deixando, ou seria menos que o sentimental amor, paixão. Sua pele era tão nívea quanto a neve, era perfeito o traçado de seu pescoço, mesmo quando estava inerte parecia posar para um quadro e ficava na mesma posição por muito tempo, encantadora como o pôr do sol. Mas devastadora como um tornado. Seu vestido vermelho rosava-lhe as coxas carnudas e ávidas de prazer, o lado estragado de sua imagem estava ali, como uma meretriz, ela usava seu dom e gozava das cenas que estavam em sua mente e alcançava o prazer.

O homem com a interrogação sentou-se, pouco confortável, mas sentou-se. Ereto e com um olhar louco, sádico e paranóico, era um jantar numa noite pouco especial, será que podia uma mulher ser tão perfeita ao trair o amor de um homem?

Dafina, essa era a mulher que se encontrava sentada sobre a mesa na companhia de um demônio, o seu criado demônio. Dafina, essa era a mulher que lhe traíra e que por sua causa, encontrava-se perdido em um misto de medo e vergonha, sangue e raiva.

Um sorriso perfeito lhe ofuscava o rosto, essa era a resposta mais traiçoeira que o homem fez em toda sua vida, por trás sua vontade de matá-la era grande, imensa e impulsiva. O frango sobre a mesa estava abrindo o apetite de ambos, o cheiro defumado no ar, penetrava a narina dela, mas fugia do olfato dele.

- Joul, querido - disse ela. Abreviando seu nome com um carisma podre. - Talvez você queira partir o peito deste frango tão apetitoso.

Partir o peito, ela sabia muito sobre isso, mas gostava mesmo de partir corações, não haveria outra vez.

- É claro. - respondeu. Tão simples, nem menos, nem mais.

O homem jogou para o alto seus ombros largos e pesados, imaginou-se carregando uma dessas máscaras de palhaço pouco assustadoras. Passou por ela enquanto saboreava do seu vinho, com a sua taça. Com a sua boca que havia estado em outro lugar, talvez parecido, mas em outro lugar.

Era assim tão triste, mas o fim deveria ser bom. A faca foi sacada sadicamente do faqueiro, um feixe de luz correu-lhe sobre sua superfície, era prata, tão argênteo como nunca. Seu punho serrado aproximou-se da mulher.

- Voltei minha querida. - Pelas costas, na alça do vestido vermelho a navalha tocava delicadamente, procurando pelo sangue, quase sempre cega, mas afiada. A seda era o que encontrara, depois do corte só ar que lhe envolvia.

- Você está ficando muito mal acostumado, Joul. - murmurou ela.

- Não fale Dafina, apenas se levante - seu suspiro ainda era intenso, o alivio não chegara, ele tinha que fazer o que tinha que ser feito. - Não há costume algum, pois eu não me acostumei ainda, não há modos, só sexo.

Frio e indolor, talvez sua ex-mulher, - como ele já a considerava - estivesse acostumada em ser tratada como ninguém, só um pedaço de carne quente, com vida, mas sem vida.

Ele a fez saltar sobre a mesa, tocando-lhe as coxas sadias, levantando seu vestido e ainda segurando a faca. A taça de vinho caía sobre a madeira e o líquido se acomodava só que agora livre. Longe do lábios tentadores e prazerosos de Dafina, era assim que ele começava, buscando cair pela liberdade, livrar-se do medo.

Enquanto a penetrava, lembrou-se das fotos que seu agente lhe mostrara, eram claras e mostrava tudo. Era tudo causado por ela, que levaria ao nada causado por ele.

A faca foi da esquerda para a direita de modo rápido, abrindo uma fenda horrível e brutal na garganta de sua amada, sem nenhum intervalo pra gritos. Desferido o primeiro golpe a faca buscou mais vermelho, só que agora no ventre. O sexo ainda acontecia de maneira brutal e psicótica. Enquanto o corte era aberto o sangue jorrava em sua cintura, a liberdade saía por ali como numa cesárea. Uma liberdade cor de prata, prata-cor-de-sangue.


Conto dedicado a todos os escritores e leitores sádicos e psicóticos, um pouco do terror lascivo, sangue e morte. - Maurício C. Dovanci