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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Indomável - V - De Vingança



Vim da cozinha com um pote de sal nas mãos, abri a porta e encontrei o demônio se remexendo para tentar escapar. Ri, com uma risada cínica. A vingança correu em meu sangue, respirei ódio e bufei mais ódio ainda. Ao me ver ele sentiu-se acuado e tentou murmurar algo, sem sucesso, pois sua boca estava com uma fita ao redor.

Com cinco ou seis movimentos na boca ele arrancou a fita e começou a gritar - "Socorro, pelo amor de Deus, socorro" - Utilizei o sal que jogaria em suas feridas para calar sua boca jogando todo o conteúdo do pote em sua boca, fui para trás da cadeira abracei seu pescoço com um braço e com o outro apertei a nuca, entretanto, ao invés de apertar seu pescoço, pressionei sua boca para se manter fechada. O sal secou toda a boca e garganta. Ao tossir ele jorrava sal pelas narinas e sentia tudo dentro de si queimando. Eu apenas comecei a aprender os caminhos da tortura.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

O Demônio.




Por: Bruno Vox
Ele corria como não houvesse outra coisa no mundo, apenas corria, corria para se salvar.
Olhou para trás e viu o vulto. Ainda estava o perseguindo.
Desceu umas escadas de ferro pulando alguns degraus, quase caiu, mas se equilibrou segurando nas barras de apoio e conseguiu se manter de pé.
Era jovem, não mais que vinte e cinco anos, praticava exercícios e tinha boa saúde, mas seu coração disparava como se fosse explodir, seu peito doía, os pulmões estavam exaustos, não aguentava mais correr. Suava bicas, ofegava como se estivesse correndo a mais tempo do que suportaria, o que era verdade. Aquele... bem, ele não sabia o que era, um homem? Talvez. Quando foi abordado por esse ser, podemos dizer assim, na saída da boate, conseguiu ver de relance seus olhos que brilhavam um vermelho amarelado intenso como brasa acesa. 

Acabou de descer as escadas e por um instante parou para ver para onde seguiria em sua fuga. Ali era o galpão inferior da antiga fábrica, estava deserto, o maquinário havia sido vendido quando fora a falência. O rapaz sabia disso, conhecia aquele lugar, já havia estado ali, por isso correu para aquela direção nas ruas desertas da cidade, na madrugada fria e assustadora. O lugar lhe parecia ótimo para esconder, parecia acolhedor em sua memória.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Miosótis - parte dois de dois

Este conto encerra o "Ciclo do Verde". 


Há mais tempo que se pode imaginar e em um lugar que não pode ser descrito, ela podia descansar. Dormir. E era bom. Não existia, ainda, a algaravia e a movimentação frenética que, tempos depois, os seres de pelo causaram. Ela nunca soube explicar porque permitira que isso viesse a acontecer... Provavelmente, por acreditar que seriam um novo divertimento, no futuro. Afinal, atender aos pedidos e lamúrias grunhidas por seus semelhantes – “semelhantes”, mas inferiores – já estava ficando cansativo...

“Divertimento... Divertimento! Divertimento, tramoia e dor para esse pobre e velho corpo!”, gritaria, cuspindo-se de fúria.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Sheb, o Pianista*



O sexo, em si, fora bom. Melhor para ele do que para ela – sempre era melhor para ele. Não que isso importasse muito. Porque não importava. A coisa toda durava cerca de dez minutos, excetuando-se as preliminares, nas poucas e raras vezes das quais ambos dispunham de um pouco de tempo a mais. Naquela noite, em especial, ela caprichara no serviço, e ao que parecia, ele havia gostado. Gostado e pedido biz. Os dez minutos se alongaram para os doze, que por sua vez se esticaram para mais quinze, daí para mais vinte, e dos vinte para mais trinta. Fora uma noite e tanto para o pianista chamado Sheb...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Ao teu leve toque, despeço-me.

Sinto-a aproximar-se de mim com a brisa. Teu perfume vem sutilmente com o ar.
Nervoso, procuro-a com olhos assustados. Não a vejo. Quanto tempo se passou, desde a última vez em que nos vimos? Ainda guardo boas lembranças do nosso último encontro. Você estava bela e feliz em seu vestido negro. Uma verdadeira dama das sombras.
Sei que queria levar-me junto a ti, mas fomos bruscamente impedidos. Será que realmente eles fizeram o que era certo?

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Indomável - IV - Menina dos meus olhos




Seus cachos dourados costumavam brincavam com o vento, seus olhos verdes ainda enxergavam o mundo com a doce inocência e ingenuidade que uma criança de dez anos tem. Era linda a minha filha querida, meu maior amor e paixão. 

Lembro-me de sua jovialidade, do seu sorriso sempre aberto pronto para receber o mundo com aventura e alegria. Lembro de suas brincadeiras no parque ao lado de casa onde ela sujava o seu vestido rosado favorito. Presente da mãe já ausente. Lembro como ela sentada no balanço, mexendo as pernas para frente e para trás conseguia encher minha vida da alegria que a falta de sua mãe deixou.

Chamamos de vida é o que planejamos enquanto a vida acontece, na verdade não há escolhas, nunca houve, nem nunca haverá. Assim que o destino decidir ele te joga em qualquer latrina e lá nós enfim conhecemos a realidade.

Foi na semana passada que me atrasei, cheguei em casa uma hora mais tarde que o de costume. Ao entrar, chamei minha filha, como sempre fiz - "Julia, o papai chegou." - E ela viria correndo me dar um abraço, contaria-me sobre o seu dia, sobre a escola, os amigos, a sua vidinha sem problemas ou dificuldades aparentes. A Josefa, que cuidava dela me daria boa noite e iria embora, enquanto eu permaneceria com aquela bela garota em meus cuidados.

Ela era um anjo, um anjo vindo dos céus para me dar alegria, mas naquele dia não. Naquele dia elas não responderam meu chamado. Encontrei uma mancha vermelha na geladeira escorrendo ao chão até encontrar a pobre mulher com uma ferida mortal na cabeça. Junto ao corpo e pedaços rosados de seu cérebro havia um martelo encravado em sua fronte. Seus dentes estavam quebrados, havia marcas rocheadas nos braços e mãos, assim como em toda a sua face desfigurada e quebrada.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A confissão de um rejeitado


O homem que usava farrapos entrou na igreja, buscando o alívio do peso que carregava há muito tempo. A  pele era cheia de feridas que exalavam um odor agressivo demais até para os olfatos mais tolerantes. Coçava-se como um cão sarnento.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

"Miosótis" - parte um de dois


Antes de ler o conto abaixo, talvez seja mais interessante, antes, ler Brenda, Victor , Campeão , o da tempestade e a coletividade. Embora as histórias sejam fechadas, todas fazem parte do mesmo processo... Assim como os próximo conto deste autor. 





Já eram oito semanas sem tomar um banho. E não teria como, tão cedo... Desde que deixara o sítio da avó, e veio viver com a mãe e “o novo padrasto rico”, não podia mergulhar em um igarapé quando bem entendesse. Esse lugar “maravilhoso” não possibilitava “maravilhas”. Contudo, para um adolescente procurado pela polícia e sem recursos, estava se virando bem... Até fez seu primeiro amigo – o único, nesses últimos seis anos.

Fez.

Enquanto tentava evitar a polícia e tudo mais, escondeu-se entre os proscritos e doentes. Quando foi para lá, na verdade, avisaram-no muitas vezes para não ir a certas partes da cidade e não se aproximar de pessoas com certas características. Pessoas doentes, que precisavam de ajuda, mas odiadas por, simplesmente, existirem – depois, como todos os outros, ele descobriria que ela saberia usar isso. Entre esses, nos escombros e na sujeira, conheceu o “moleque doi’de pedra”. Com ele, aprendeu o suficiente para se virar nas ruas. Era incrível como uma criança que mancava permanentemente pudesse ser tão autossuficiente, um sobrevivente... Assim, pouco antes do amiguinho ser tocado por ela e quase matá-lo, ganhou um presente de uma criança que nunca teve nada.

Ele ainda choraria por Matheus.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O Fantasma de Jack Roswell



“Ele morreu de forma horrível!” Diriam alguns. “Nem fez muita falta!” Diriam outros. Mas o que ninguém em sã consciência provavelmente diria, era que Eduard Lincon não era uma boa pessoa...

Morreu cedo o pobre Eduard. Teve seus tímpanos rasgados, transpassados de uma orelha à outra por uma estaca de madeira, de ponta minuciosamente afiada. Suas tripas foram expostas em longas tiras, formando um pentagrama improvisado no chão de uma floresta escura, de árvores velhas, com galhos tortos e ramos apodrecidos. Seus olhos foram arrancados das orbitas e costurados nas palmas das mãos. No momento de sua morte, antes mesmo de exalar seus últimos suspiros, jaziam inertes, fitando a noite estrelada e silenciosa do interior da floresta. Isso aconteceu há muito tempo. Porém, ainda hoje correm os boatos de que aquele lugar tornou-se maldito após a sua morte. Dizem que a noite, quando o vento frio sopra as poucas folhas que ainda se apegam bravamente aos galhos das árvores, ele pode ser ouvido. Gemendo, sussurrando palavras desconexas em uma língua profana. E dizem que tudo que ele toca apodrece e que o seu rastro pode ser percebido, mesmo de longe, pois por onde seu espirito passa o mato jamais volta a crescer. Ele não vê nada, pois seus olhos ainda permanecem grudados as mãos, com o sangue banhando-lhe as orbitas oculares, agora vazias. Mas sente o cheiro de tudo que é vivo. E tudo o que é vivo, quando o encontra, morre...