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sábado, 16 de março de 2013

Marcado.

Por: Roberta Spindler.

O homem despertou no meio da madrugada com um grito angustiado. A escuridão o envolvia como um cobertor. Com a respiração entrecortada e um suor frio escorrendo pelo peito nu, ele sentou na cama e puxou a cordinha do abajur que se localizava no criado-mudo à esquerda. A luz fez seus olhos arderem e revelou uma cena assustadora. Seus lençóis e braços estavam cobertos por sangue, pegadas de lama cobriam o chão do pequeno quarto e um odor ferroso tomava conta do ar.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

O Demônio.




Por: Bruno Vox
Ele corria como não houvesse outra coisa no mundo, apenas corria, corria para se salvar.
Olhou para trás e viu o vulto. Ainda estava o perseguindo.
Desceu umas escadas de ferro pulando alguns degraus, quase caiu, mas se equilibrou segurando nas barras de apoio e conseguiu se manter de pé.
Era jovem, não mais que vinte e cinco anos, praticava exercícios e tinha boa saúde, mas seu coração disparava como se fosse explodir, seu peito doía, os pulmões estavam exaustos, não aguentava mais correr. Suava bicas, ofegava como se estivesse correndo a mais tempo do que suportaria, o que era verdade. Aquele... bem, ele não sabia o que era, um homem? Talvez. Quando foi abordado por esse ser, podemos dizer assim, na saída da boate, conseguiu ver de relance seus olhos que brilhavam um vermelho amarelado intenso como brasa acesa. 

Acabou de descer as escadas e por um instante parou para ver para onde seguiria em sua fuga. Ali era o galpão inferior da antiga fábrica, estava deserto, o maquinário havia sido vendido quando fora a falência. O rapaz sabia disso, conhecia aquele lugar, já havia estado ali, por isso correu para aquela direção nas ruas desertas da cidade, na madrugada fria e assustadora. O lugar lhe parecia ótimo para esconder, parecia acolhedor em sua memória.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Prata cor de sangue.

Por: Mauricio C. Dovanci

E foi servindo-a uma taça de vinho tinto tão seco e antigo, que jamais encontrariam noutro lugar, que ele percebeu não estar sozinho, que alguém mais estava entre eles. Direcionando o seu olhar para aquele par de olhos que flutuavam em outro lugar, talvez estivesse encantada relembrando momentos de alegria com o outro, ele percebeu estar perdendo parte do seu coração. 

Talvez o amor estivesse lhes deixando, ou seria menos que o sentimental amor, paixão. Sua pele era tão nívea quanto a neve, era perfeito o traçado de seu pescoço, mesmo quando estava inerte parecia posar para um quadro e ficava na mesma posição por muito tempo, encantadora como o pôr do sol. Mas devastadora como um tornado. Seu vestido vermelho rosava-lhe as coxas carnudas e ávidas de prazer, o lado estragado de sua imagem estava ali, como uma meretriz, ela usava seu dom e gozava das cenas que estavam em sua mente e alcançava o prazer.

O homem com a interrogação sentou-se, pouco confortável, mas sentou-se. Ereto e com um olhar louco, sádico e paranóico, era um jantar numa noite pouco especial, será que podia uma mulher ser tão perfeita ao trair o amor de um homem?

Dafina, essa era a mulher que se encontrava sentada sobre a mesa na companhia de um demônio, o seu criado demônio. Dafina, essa era a mulher que lhe traíra e que por sua causa, encontrava-se perdido em um misto de medo e vergonha, sangue e raiva.

Um sorriso perfeito lhe ofuscava o rosto, essa era a resposta mais traiçoeira que o homem fez em toda sua vida, por trás sua vontade de matá-la era grande, imensa e impulsiva. O frango sobre a mesa estava abrindo o apetite de ambos, o cheiro defumado no ar, penetrava a narina dela, mas fugia do olfato dele.

- Joul, querido - disse ela. Abreviando seu nome com um carisma podre. - Talvez você queira partir o peito deste frango tão apetitoso.

Partir o peito, ela sabia muito sobre isso, mas gostava mesmo de partir corações, não haveria outra vez.

- É claro. - respondeu. Tão simples, nem menos, nem mais.

O homem jogou para o alto seus ombros largos e pesados, imaginou-se carregando uma dessas máscaras de palhaço pouco assustadoras. Passou por ela enquanto saboreava do seu vinho, com a sua taça. Com a sua boca que havia estado em outro lugar, talvez parecido, mas em outro lugar.

Era assim tão triste, mas o fim deveria ser bom. A faca foi sacada sadicamente do faqueiro, um feixe de luz correu-lhe sobre sua superfície, era prata, tão argênteo como nunca. Seu punho serrado aproximou-se da mulher.

- Voltei minha querida. - Pelas costas, na alça do vestido vermelho a navalha tocava delicadamente, procurando pelo sangue, quase sempre cega, mas afiada. A seda era o que encontrara, depois do corte só ar que lhe envolvia.

- Você está ficando muito mal acostumado, Joul. - murmurou ela.

- Não fale Dafina, apenas se levante - seu suspiro ainda era intenso, o alivio não chegara, ele tinha que fazer o que tinha que ser feito. - Não há costume algum, pois eu não me acostumei ainda, não há modos, só sexo.

Frio e indolor, talvez sua ex-mulher, - como ele já a considerava - estivesse acostumada em ser tratada como ninguém, só um pedaço de carne quente, com vida, mas sem vida.

Ele a fez saltar sobre a mesa, tocando-lhe as coxas sadias, levantando seu vestido e ainda segurando a faca. A taça de vinho caía sobre a madeira e o líquido se acomodava só que agora livre. Longe do lábios tentadores e prazerosos de Dafina, era assim que ele começava, buscando cair pela liberdade, livrar-se do medo.

Enquanto a penetrava, lembrou-se das fotos que seu agente lhe mostrara, eram claras e mostrava tudo. Era tudo causado por ela, que levaria ao nada causado por ele.

A faca foi da esquerda para a direita de modo rápido, abrindo uma fenda horrível e brutal na garganta de sua amada, sem nenhum intervalo pra gritos. Desferido o primeiro golpe a faca buscou mais vermelho, só que agora no ventre. O sexo ainda acontecia de maneira brutal e psicótica. Enquanto o corte era aberto o sangue jorrava em sua cintura, a liberdade saía por ali como numa cesárea. Uma liberdade cor de prata, prata-cor-de-sangue.


Conto dedicado a todos os escritores e leitores sádicos e psicóticos, um pouco do terror lascivo, sangue e morte. - Maurício C. Dovanci

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O Homem dos Olhos Vermelhos



Leitos de hospitais geralmente são lugares tristes durante o dia. A noite essa tristeza se intensifica, solidificando-se nas paredes recobertas de limo, no teto mal iluminado pelas lâmpadas fluorescentes, na camada de tinta que escapa das paredes. Fiz essa pequena constatação pessoal quando passei três dias e três noites inteiras, devidamente hospitalizado, graças a um calculo renal de aproximadamente dois milímetros, semelhante a um grão de arroz alojado em meus rins. Dizem que a dor do parto é uma das maiores dores que o ser humano pode sentir. Besteira! Passei dois anos nutrindo esse “filho bastardo” em meu “ventre”, e no fim me vi obrigado a expulsá-lo já em fase adulta. Cinco milímetros em forma de uma pequena pedra pontuda, formada basicamente de oxalato de cálcio e acido úrico...