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terça-feira, 2 de abril de 2013

Livro vermelho.

Bloqueio. 
Não consigo pensar em outra palavra. Parece que minha mente está infectada por um vírus que nubla meus pensamentos, minha criatividade. São meses sem produzir nada. Passos horas em frente ao computador, apenas tateando o teclado, mas, invariavelmente, o cansaço me vence.
Como reverter um apagão mental? Como recuperar minha escrita? As contas começam a acumular e eu não sei - literalmente - o que fazer. Escrever é minha profissão. Logo, estou desempregado.
Viajei, isolei-me e li outros autores para buscar uma ideia, por menor que fosse. Tudo em vão.
Entretanto, não foi apenas a inspiração que sumiu da minha vida. Meu marido não suportou tantos meses de stress e reclamações. Eu virei uma bruxa para ele e isso me custou o casamento. Agora, sem muito a perder, vou recorrer a tudo que me resta para recuperar as letras e a dignidade. Custe o que custar.
Eu voltarei a escrever...

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Prata cor de sangue.

Por: Mauricio C. Dovanci

E foi servindo-a uma taça de vinho tinto tão seco e antigo, que jamais encontrariam noutro lugar, que ele percebeu não estar sozinho, que alguém mais estava entre eles. Direcionando o seu olhar para aquele par de olhos que flutuavam em outro lugar, talvez estivesse encantada relembrando momentos de alegria com o outro, ele percebeu estar perdendo parte do seu coração. 

Talvez o amor estivesse lhes deixando, ou seria menos que o sentimental amor, paixão. Sua pele era tão nívea quanto a neve, era perfeito o traçado de seu pescoço, mesmo quando estava inerte parecia posar para um quadro e ficava na mesma posição por muito tempo, encantadora como o pôr do sol. Mas devastadora como um tornado. Seu vestido vermelho rosava-lhe as coxas carnudas e ávidas de prazer, o lado estragado de sua imagem estava ali, como uma meretriz, ela usava seu dom e gozava das cenas que estavam em sua mente e alcançava o prazer.

O homem com a interrogação sentou-se, pouco confortável, mas sentou-se. Ereto e com um olhar louco, sádico e paranóico, era um jantar numa noite pouco especial, será que podia uma mulher ser tão perfeita ao trair o amor de um homem?

Dafina, essa era a mulher que se encontrava sentada sobre a mesa na companhia de um demônio, o seu criado demônio. Dafina, essa era a mulher que lhe traíra e que por sua causa, encontrava-se perdido em um misto de medo e vergonha, sangue e raiva.

Um sorriso perfeito lhe ofuscava o rosto, essa era a resposta mais traiçoeira que o homem fez em toda sua vida, por trás sua vontade de matá-la era grande, imensa e impulsiva. O frango sobre a mesa estava abrindo o apetite de ambos, o cheiro defumado no ar, penetrava a narina dela, mas fugia do olfato dele.

- Joul, querido - disse ela. Abreviando seu nome com um carisma podre. - Talvez você queira partir o peito deste frango tão apetitoso.

Partir o peito, ela sabia muito sobre isso, mas gostava mesmo de partir corações, não haveria outra vez.

- É claro. - respondeu. Tão simples, nem menos, nem mais.

O homem jogou para o alto seus ombros largos e pesados, imaginou-se carregando uma dessas máscaras de palhaço pouco assustadoras. Passou por ela enquanto saboreava do seu vinho, com a sua taça. Com a sua boca que havia estado em outro lugar, talvez parecido, mas em outro lugar.

Era assim tão triste, mas o fim deveria ser bom. A faca foi sacada sadicamente do faqueiro, um feixe de luz correu-lhe sobre sua superfície, era prata, tão argênteo como nunca. Seu punho serrado aproximou-se da mulher.

- Voltei minha querida. - Pelas costas, na alça do vestido vermelho a navalha tocava delicadamente, procurando pelo sangue, quase sempre cega, mas afiada. A seda era o que encontrara, depois do corte só ar que lhe envolvia.

- Você está ficando muito mal acostumado, Joul. - murmurou ela.

- Não fale Dafina, apenas se levante - seu suspiro ainda era intenso, o alivio não chegara, ele tinha que fazer o que tinha que ser feito. - Não há costume algum, pois eu não me acostumei ainda, não há modos, só sexo.

Frio e indolor, talvez sua ex-mulher, - como ele já a considerava - estivesse acostumada em ser tratada como ninguém, só um pedaço de carne quente, com vida, mas sem vida.

Ele a fez saltar sobre a mesa, tocando-lhe as coxas sadias, levantando seu vestido e ainda segurando a faca. A taça de vinho caía sobre a madeira e o líquido se acomodava só que agora livre. Longe do lábios tentadores e prazerosos de Dafina, era assim que ele começava, buscando cair pela liberdade, livrar-se do medo.

Enquanto a penetrava, lembrou-se das fotos que seu agente lhe mostrara, eram claras e mostrava tudo. Era tudo causado por ela, que levaria ao nada causado por ele.

A faca foi da esquerda para a direita de modo rápido, abrindo uma fenda horrível e brutal na garganta de sua amada, sem nenhum intervalo pra gritos. Desferido o primeiro golpe a faca buscou mais vermelho, só que agora no ventre. O sexo ainda acontecia de maneira brutal e psicótica. Enquanto o corte era aberto o sangue jorrava em sua cintura, a liberdade saía por ali como numa cesárea. Uma liberdade cor de prata, prata-cor-de-sangue.


Conto dedicado a todos os escritores e leitores sádicos e psicóticos, um pouco do terror lascivo, sangue e morte. - Maurício C. Dovanci