Conto inspirado na música “Hey You” do Pink Floyd...
domingo, 7 de abril de 2013
sábado, 6 de abril de 2013
O Arauto da madrugada
Por: Andre Cordenonsi*
O
choro invadiu a madrugada, alto, histriônico, arrancando o parco descanso do
pai que correu até o quarto do filho, em uma cena que se repetira nos últimos
meses. Ali, agarrou o bebê de sete meses, embalando-o com uma canção de ninar
tão fraca e desconexa quanto os seus pensamentos. O cérebro embotado não se
lembrava da letra, tampouco a melodia e foi muito mais pelo aconchego que o
bebê voltou a adormecer, embalado nos braços mirrados do pai.
Ao longe, no quintal do vizinho, um
galo cantava novamente, fazendo com que o bebê fechasse os olhos com força e
arrancando um suspiro irritado do pai.
“Maldito galo!” – pensou com toda a
força do seu pensamento, a mente subitamente desperta pelo animal desgraçado
que estivera acordando o seu filho, todas as noites, nos últimos meses.
Por um momento, ele não se segurou e
a sua mente irrompeu em pensamentos numa enxurrada que desencadearam as
lágrimas quentes nas suas faces ressequidas. A preparação pela chegada do
filho, a aquisição da casa nova, longe do centro, em um subúrbio afastado, a
decoração do quarto. Tudo aquilo desaparecera como uma cortina de fumaça numa
noite distante.
A mulher acordara aos berros, banhada em sangue; a
bolsa irrompera, mas havia algo errado. A casa, afastada do barulho do centro
da cidade, de repente se tornara uma armadilha. Nunca as estradinhas
empoeiradas se pareceram tão longas quando aquela noite, com os gritos da amada
a lhe corroerem as entranhas enquanto o carro voava pelos pedregulhos até a
avenida principal que os levou ao hospital.
Tinha sido em vão. Ela se fora momentos antes do marido
irromper pela recepção.
Restara-lhe o filho, salvo a duras penas pelos
médicos. Os primeiros dias foram como um borrão; tinha parcas lembranças daquele
tempo que passou como uma procissão de faces com olhos borrados, apertos de mão
frios e palavras sem sentido. Quando se deu por conta, estava de volta a casa,
com uma velha ama dormindo no escritório; uma senhora já de idade, severa e de
modos eficientes, recomendada pela irmã da sua esposa. Ele não tinha certeza se
ela estava ali para tomar conta dele ou do seu filho, mas sua mente aceitou a
situação da mesma forma como aceitara todo o resto. Resignado. Indiferente.
As semanas passaram, uma a uma. Ele voltou a
trabalhar e o simples fato de sair de casa desembaralhou o seu cérebro. Ainda
se pegava chorando na cama, mas se acostumara rapidamente com o filho. Agora,
passava horas brincando com o bebê, que parecia feliz com ele, mas que chorava
desesperadamente ao ser deixado com a ama. Aquilo o deixou consternado. Depois,
preocupado. O que acontecia enquanto ele estava fora? Porque a ama encarava o
bebê não com os olhos de alguém que se importava, mas de quem tinha medo?
Este sentimento o atormentou por semanas. Aconselhou-se
com os amigos. O que poderia fazer? Mude seus horários, sugeriram.
Ele gostou da ideia. Uma tocaia. Uma chegada
inesperada.
No outro dia, logo após o relógio marcar às quinze
horas, ele retornou para a casa. Ele girou a chave na fechadura com cuidado e
abriu a porta. A cena em sua sala escurecida pelas cortinas cerradas até hoje ainda
lhe perturbava a mente.
A ama havia retirado o casaco cinza e a saia reta e
trajava somente um camisolão vermelho sobre o corpo branco. No chão límpido,
uma estrela de cinco pontas havia sido traçada com as cinzas da lareira. Em
cada uma das pontas do pentagrama, uma vela colorida irradiava o seu brilho fugidio.
No centro, o bebê, nu, chorava descontroladamente enquanto a ama gritava e
dançava como que possuída por uma entidade demoníaca.
O pai gritou e seu urro foi mais forte do que a dor
que lhe partira o coração meses atrás. Pega de surpresa, a ama deu um passo
para trás, cambaleante. Ele foi até a frente, derrubando as velas e
esparramando o pó cinza com os passos apressados. Em segundos, o bebê estava em
seus braços, soluçando com seus grandes olhos azuis fechados. O pai o abraçou
com força, sentindo cada nervo do seu ser clamar por vingança, o ódio
escorrendo pelos poros como suor em um dia escaldante.
Quando ele se virou para a ama, ela já recolhera sua
bolsa e suas roupas. Ele tentou dizer algo para ela, mas as palavras haviam se
trancado em sua garganta. Não havia o que falar para um ser tão abominável.
- Roanoke! – sussurrou ela a uma distância segura –
Roanoke não irá embora por vontade própria!
O pai tentou avançar contra aquele ser demente, mas
antes que pudesse se dar por conta, a ama saiu porta fora, correndo pelo jardim
e desaparecendo nos terrenos baldios que cercavam a propriedade. A polícia foi
chamada, a casa da senhora foi revistada, mas nada foi encontrado. Ela
desapareceu, abandonando para sempre o pai horrorizado e o seu bebê.
Fora difícil se recuperar deste segundo baque.
Depois pelo que passara, prometeu não deixar mais o filho sozinho com quem quer
que fosse. Após uma longa negociação, conseguiu um acordo para trabalhar em
casa, com uma considerável redução em seus vencimentos. Aquilo não lhe
importava; tudo o que ele queria era ficar de olho no filho. Ele contratou
outra babá, uma garota jovem e meio histérica, que ria sem parar das macaquices
do garoto. Mesmo assim, ele não tirava os olhos dela e do filho..
À noite, porém, o garoto passou a ter pesadelos.
Histérico, o garoto acordava gritando alto e soluçando como se alguém o
açoitasse. Por algum tempo o pai achou que aquilo era um reflexo da maldita
experiência que o bebê tivera com a ama, mas, depois de alguns dias, ele
percebeu que o cacarejo de um galo das vizinhanças precedia o choro do filho.
Todas as noites, exatamente às quatro da manhã, o bicho gritava para os seus,
arrancando o bebê dos braços do sono e irrompendo a madrugada com a força dos
seus pulmões.
Os dias se transformaram em semanas e as semanas, em meses. Ele tentara
falar com o vizinho, mas o granjeiro pouco podia fazer. Afinal, precisava do
galo para a produção dos ovos. Ele vai se acostumar, dissera com um sorriso
tímido. O garotinho só precisa de um tempo.
Mas a situação piorava a cada dia. O galo passou a
cantar duas, três vezes por noite. O garoto se tornou arredio e brigão e a exaustão
do pai não melhorava em nada a situação familiar. Sua produção caiu e, agora,
perdia horas se explicando para os chefes. O bebê comia pouco, perdendo peso de
forma assustadora. As brincadeiras da babá já não faziam efeito e uma atmosfera
depressiva tomara conta da casa, como se uma nuvem negra houvesse pairado sobre
o lugar.
O pai, que ainda balançava o bebê enquanto estas
recordações o atingiam, largou o garoto de volta ao berço. Com os pés
arrastados, ele voltou para a cama, olhando para o relógio. Duas da manhã.
Aquele tinha sido o primeiro canto. Pelo menos mais duas vezes o galo
irromperia na madrugada. Com as pálpebras pesadas, ele cerrou os olhos,
adormecendo logo a seguir.
Ele acordou com o sol a lhe perturbar os olhos
ressecados. Zonzo, ele demorou a reconhecer que estava na própria cama.
Soltando um grande bocejo, consultou o relógio da cabeceira. Oito e trinta.
Aquilo o despertou na hora. Deixando os lençóis para
trás, ele foi com os passos rápidos até o quarto do garoto, escancarando a
porta. Por muito pouco ele não vomitou; seus joelhos dobraram e ele se viu
agachado no chão. Pelo quarto, penas
negras balançavam na brisa da janela aberta. No chão, as vísceras do galo
estavam espalhadas em um círculo onde o filho repousava tranquilamente. Na
parede, uma única palavra, escrita em sangue.
Roanoke.
* Professor e escritor, Andre atua nos sites azcordenonsi.com.br e duncangaribaldi.com.br
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quinta-feira, 4 de abril de 2013
A Vingança de Kali (Interlúdio)
Isso aconteceu há muitos anos. Ou há poucas semanas.
Tanto faz.
O tempo, para ela, é um mero detalhe.
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terça-feira, 2 de abril de 2013
Livro vermelho.
Bloqueio.
Não consigo pensar em outra palavra. Parece que minha mente está infectada por um vírus que nubla meus pensamentos, minha criatividade. São meses sem produzir nada. Passos horas em frente ao computador, apenas tateando o teclado, mas, invariavelmente, o cansaço me vence.
Como reverter um apagão mental? Como recuperar minha escrita? As contas começam a acumular e eu não sei - literalmente - o que fazer. Escrever é minha profissão. Logo, estou desempregado.
Viajei, isolei-me e li outros autores para buscar uma ideia, por menor que fosse. Tudo em vão.
Entretanto, não foi apenas a inspiração que sumiu da minha vida. Meu marido não suportou tantos meses de stress e reclamações. Eu virei uma bruxa para ele e isso me custou o casamento. Agora, sem muito a perder, vou recorrer a tudo que me resta para recuperar as letras e a dignidade. Custe o que custar.
Eu voltarei a escrever...
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segunda-feira, 1 de abril de 2013
Sozinho
Meia noite de um
domingo qualquer. Fumo um cigarro qualquer e viro um copo de Scotch com apenas
um único e solitário gelo. Admiro com ódio um quadro de Nova York onde a
multidão de táxis amarelos admira a Marilyn Monroe e a Estátua da liberdade. Há
um contraste tão grande no que sou e no que quero ser. Diante dessa multidão
sou apenas como aquele pequeno gelo derretendo no copo.
Verto o restante da
água derretida deixando parte do gelo. Levanto-me para ir para a cama, mas o
álcool não deixa. Antes de atravessar a sala caio de bruços no chão e sinto o
coração gelar. Uma pequena dor rasga meu peito e encosta gentilmente no órgão vital.
Estou tendo uma parada cardíaca.
Ainda com dor e
sentindo o braço esquerdo tilintar um formigamento incomoda, viro-me para golar
umas doses de ar. Estou sozinho em casa sentindo a vida escapar pelos dedos
como a areia ou água tanto faz o clichê. O que importa é que preciso de ligar
urgentemente para a emergência. Minha vida precisa disso.
domingo, 31 de março de 2013
O homem feito de névoa
Dedico este conto especialmente à Rita Souza, uma jovem amiga com grande potencial, e todos aqueles que, mesmo com o escuro intimidando, lutam!
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sábado, 30 de março de 2013
Sangue de Gladiador
Por: Hermínio Neto
O cheiro inebriante de sangue é um tormento nos momentos
finais do duelo. Enquanto os ferros se incendeiam a cada encontro violento e a
multidão de plebeus furiosos urra desejando ardentemente mais e mais mortes
desde a manhã em que o primeiro torso foi atravessado por um gládio, eu me
contorço de fome e desejo.
Aperto meus rosto contra a grade grossa e enferrujada do
corredor que leva até a arena, tentando prever o resultado da batalha pelos
espaços losangulares. Todos os cadáveres de gladiadores mortos durante o dia já
foram recolhidos, e o sangue deles, sugado pela areia, está perdido para mim,
mas agora, no ocaso arroxeado, sei que conseguirei capturar minha presa.
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sexta-feira, 29 de março de 2013
Nota explicativa ao público.
Olá, amigos.
Para quem ainda não me conhece, sou Franz Lima e também colaboro neste blog de contos de horror. Estamos entrando no 4º mês de vida do projeto e é uma grande honra fazer parte de um grupo tão seleto e coeso.
Entretanto, creio que perceberam, nós tivemos alguns contratempos que ou atrasaram ou impediram a publicação de contos. Como o próprio nome do blog já diz, a proposta nossa é a de levar a vocês, diariamente, um terror com qualidade e sempre de forma inédita, fato que torna esse projeto ímpar. Claro, imprevistos acontecem e nem mesmo nós estamos livres de problemas.
Assim, assumo o papel de porta-voz dos outros escritores e lhes peço sinceras desculpas. Sabemos que há muitos leitores que acessam diariamente o blog para ler nossos escritos. Não posso prometer que nada mais irá afetar o grupo a ponto de estarmos acima dos imprevistos, porém saibam que estamos redobrando os esforços para publicar sempre em dia. Outro grande esforço é a busca pela excelência em contos novos, realmente inéditos.
As datas onde ainda há lacunas serão, brevemente, preenchidas.
Agora, já cientes de nossas imperfeições, vamos à boa notícia. O blog está recebendo a ajuda de um desenhista que, assim como cada um dos escritores, também busca dispor sempre de material inédito e ótima qualidade. Seu nome? Daniel MM. Vocês poderão ver alguns de seus trabalhos na primeira parte do conto A Vingança de Kali e, em breve, nas demais partes da saga de terror e mistério que vem conquistando mais e mais leitores.
O projeto vive e irá mostrar conforme o tempo flui, como é possível escrever e atender as expectativas... e medos dos leitores.
Obrigado por estarem ao nosso lado em nossos pesadelos!
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quinta-feira, 28 de março de 2013
Crianças do Sapato
Para a Pati
Era uma vez uma velhinha,
Que morava em um sapato.
Ela tinha muitos filhos...
E cuidar deles não era barato!
Ela lhes dava sopa,
Mas não lhes dava pão.
Ela espancava as crianças
E punha-as no chão!
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quarta-feira, 27 de março de 2013
A Vingança de Kali. Terceira parte.
-Vamos meu bebê… Está
na hora de se alimentar – disse a voz rouca e trêmula, seguida de um riso
esganiçado, para a criatura que se retorcia dentro da jaula. O cheiro do
pequeno lenço branco invadia suas narinas ardidas, trazendo uma sensação boa...
A mesma que sempre antecedia uma refeição.
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