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sexta-feira, 12 de abril de 2013

A Vingança de Kali - Parte Cinco


Tatiana abriu a porta e deu de cara com uma mulher jovem, porém com o rosto tão cansado que aparentava vários anos a mais. O coração de Tatiana saltava no peito: ela não abriria a porta de sua casa para uma estranha qualquer, mas a mulher disse que era da polícia e que precisava muito falar com Tatiana.
- É sobre sua irmã, Laís. – ela disse. Não foram as credenciais que a mulher apresentou ou a palavra “polícia” que fizeram Tatiana abrir a porta. Foram essas últimas palavras.
- O que aconteceu com a minha irmã? – Tatiana perguntou sobressaltada. Pensou em muitas coisas. Pensou no bolo de dinheiro, no lenço, no sorriso com dentes podres daquela vidente e na imagem na parede daquele lugar, aquela imagem da mulher azul com uma saia de braços e um colar de crânios.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Um Olhar no Inferno



– Ah! Não! Mãe!


– Vamos Carlos, deixa de frescura. Você sabe que não enxerga bem! Precisa usar óculos e usará! - Ele era um menino manhoso, irritado e terrivelmente disperso nas aulas, foram estes os sintomas que levaram a professora e a mãe entrar num consenso de que alguma coisa estava errada com o garoto: Ele não enxergava bem. – Agora vai se arrumar que eu vou te levar até a ótica fica a umas dez quadras da escola, você pode ir à pé que eu já estou atrasada. 

– Mãe... Eu não quero usar óculos.

– Moleque, vai se arrumar agora. Senão... – O olhar da mãe disse tudo ao garoto de 12 anos, mesmo sendo bagunceiro sabia que encarar a mãe naquele humor era ameaçar a morte. Ele botou a camiseta cinza com o logotipo de estado de Minas Gerais no peito, uma calça azul tristeza e penteou o cabelo com as mãos. Escovou os dentes apenas por quê a mãe lembrou e entrou no Uno quadrado.

O menino se assustou com o lugar em que a mãe o levara. Era um bairro escuro e mofado, com cheiro de naftalina e sangue. Talvez do açougue na esquina, talvez de algo oculto em uma das casas pichadas com um simbolo estranho e quase antiquado. Apenas de olhar a estrela, os chifres e tridentes adornados com um círculo seu coração já disparou e o sangue correu mais rápido, esquentando e colorindo as bochechas imaturas e gordas.

sábado, 6 de abril de 2013

O Arauto da madrugada



Por: Andre Cordenonsi* 

            O choro invadiu a madrugada, alto, histriônico, arrancando o parco descanso do pai que correu até o quarto do filho, em uma cena que se repetira nos últimos meses. Ali, agarrou o bebê de sete meses, embalando-o com uma canção de ninar tão fraca e desconexa quanto os seus pensamentos. O cérebro embotado não se lembrava da letra, tampouco a melodia e foi muito mais pelo aconchego que o bebê voltou a adormecer, embalado nos braços mirrados do pai.
            Ao longe, no quintal do vizinho, um galo cantava novamente, fazendo com que o bebê fechasse os olhos com força e arrancando um suspiro irritado do pai.
            “Maldito galo!” – pensou com toda a força do seu pensamento, a mente subitamente desperta pelo animal desgraçado que estivera acordando o seu filho, todas as noites, nos últimos meses.
            Por um momento, ele não se segurou e a sua mente irrompeu em pensamentos numa enxurrada que desencadearam as lágrimas quentes nas suas faces ressequidas. A preparação pela chegada do filho, a aquisição da casa nova, longe do centro, em um subúrbio afastado, a decoração do quarto. Tudo aquilo desaparecera como uma cortina de fumaça numa noite distante.
A mulher acordara aos berros, banhada em sangue; a bolsa irrompera, mas havia algo errado. A casa, afastada do barulho do centro da cidade, de repente se tornara uma armadilha. Nunca as estradinhas empoeiradas se pareceram tão longas quando aquela noite, com os gritos da amada a lhe corroerem as entranhas enquanto o carro voava pelos pedregulhos até a avenida principal que os levou ao hospital.
Tinha sido em vão. Ela se fora momentos antes do marido irromper pela recepção.
Restara-lhe o filho, salvo a duras penas pelos médicos. Os primeiros dias foram como um borrão; tinha parcas lembranças daquele tempo que passou como uma procissão de faces com olhos borrados, apertos de mão frios e palavras sem sentido. Quando se deu por conta, estava de volta a casa, com uma velha ama dormindo no escritório; uma senhora já de idade, severa e de modos eficientes, recomendada pela irmã da sua esposa. Ele não tinha certeza se ela estava ali para tomar conta dele ou do seu filho, mas sua mente aceitou a situação da mesma forma como aceitara todo o resto. Resignado. Indiferente.
As semanas passaram, uma a uma. Ele voltou a trabalhar e o simples fato de sair de casa desembaralhou o seu cérebro. Ainda se pegava chorando na cama, mas se acostumara rapidamente com o filho. Agora, passava horas brincando com o bebê, que parecia feliz com ele, mas que chorava desesperadamente ao ser deixado com a ama. Aquilo o deixou consternado. Depois, preocupado. O que acontecia enquanto ele estava fora? Porque a ama encarava o bebê não com os olhos de alguém que se importava, mas de quem tinha medo?
Este sentimento o atormentou por semanas. Aconselhou-se com os amigos. O que poderia fazer? Mude seus horários, sugeriram.
Ele gostou da ideia. Uma tocaia. Uma chegada inesperada.
No outro dia, logo após o relógio marcar às quinze horas, ele retornou para a casa. Ele girou a chave na fechadura com cuidado e abriu a porta. A cena em sua sala escurecida pelas cortinas cerradas até hoje ainda lhe perturbava a mente.
A ama havia retirado o casaco cinza e a saia reta e trajava somente um camisolão vermelho sobre o corpo branco. No chão límpido, uma estrela de cinco pontas havia sido traçada com as cinzas da lareira. Em cada uma das pontas do pentagrama, uma vela colorida irradiava o seu brilho fugidio. No centro, o bebê, nu, chorava descontroladamente enquanto a ama gritava e dançava como que possuída por uma entidade demoníaca.
O pai gritou e seu urro foi mais forte do que a dor que lhe partira o coração meses atrás. Pega de surpresa, a ama deu um passo para trás, cambaleante. Ele foi até a frente, derrubando as velas e esparramando o pó cinza com os passos apressados. Em segundos, o bebê estava em seus braços, soluçando com seus grandes olhos azuis fechados. O pai o abraçou com força, sentindo cada nervo do seu ser clamar por vingança, o ódio escorrendo pelos poros como suor em um dia escaldante.
Quando ele se virou para a ama, ela já recolhera sua bolsa e suas roupas. Ele tentou dizer algo para ela, mas as palavras haviam se trancado em sua garganta. Não havia o que falar para um ser tão abominável.
- Roanoke! – sussurrou ela a uma distância segura – Roanoke não irá embora por vontade própria!
O pai tentou avançar contra aquele ser demente, mas antes que pudesse se dar por conta, a ama saiu porta fora, correndo pelo jardim e desaparecendo nos terrenos baldios que cercavam a propriedade. A polícia foi chamada, a casa da senhora foi revistada, mas nada foi encontrado. Ela desapareceu, abandonando para sempre o pai horrorizado e o seu bebê.
Fora difícil se recuperar deste segundo baque. Depois pelo que passara, prometeu não deixar mais o filho sozinho com quem quer que fosse. Após uma longa negociação, conseguiu um acordo para trabalhar em casa, com uma considerável redução em seus vencimentos. Aquilo não lhe importava; tudo o que ele queria era ficar de olho no filho. Ele contratou outra babá, uma garota jovem e meio histérica, que ria sem parar das macaquices do garoto. Mesmo assim, ele não tirava os olhos dela e do filho..
À noite, porém, o garoto passou a ter pesadelos. Histérico, o garoto acordava gritando alto e soluçando como se alguém o açoitasse. Por algum tempo o pai achou que aquilo era um reflexo da maldita experiência que o bebê tivera com a ama, mas, depois de alguns dias, ele percebeu que o cacarejo de um galo das vizinhanças precedia o choro do filho. Todas as noites, exatamente às quatro da manhã, o bicho gritava para os seus, arrancando o bebê dos braços do sono e irrompendo a madrugada com a força dos seus pulmões.
Os dias se transformaram em semanas e as semanas, em meses. Ele tentara falar com o vizinho, mas o granjeiro pouco podia fazer. Afinal, precisava do galo para a produção dos ovos. Ele vai se acostumar, dissera com um sorriso tímido. O garotinho só precisa de um tempo.
Mas a situação piorava a cada dia. O galo passou a cantar duas, três vezes por noite. O garoto se tornou arredio e brigão e a exaustão do pai não melhorava em nada a situação familiar. Sua produção caiu e, agora, perdia horas se explicando para os chefes. O bebê comia pouco, perdendo peso de forma assustadora. As brincadeiras da babá já não faziam efeito e uma atmosfera depressiva tomara conta da casa, como se uma nuvem negra houvesse pairado sobre o lugar.
O pai, que ainda balançava o bebê enquanto estas recordações o atingiam, largou o garoto de volta ao berço. Com os pés arrastados, ele voltou para a cama, olhando para o relógio. Duas da manhã. Aquele tinha sido o primeiro canto. Pelo menos mais duas vezes o galo irromperia na madrugada. Com as pálpebras pesadas, ele cerrou os olhos, adormecendo logo a seguir.
Ele acordou com o sol a lhe perturbar os olhos ressecados. Zonzo, ele demorou a reconhecer que estava na própria cama. Soltando um grande bocejo, consultou o relógio da cabeceira. Oito e trinta.
Aquilo o despertou na hora. Deixando os lençóis para trás, ele foi com os passos rápidos até o quarto do garoto, escancarando a porta. Por muito pouco ele não vomitou; seus joelhos dobraram e ele se viu agachado no chão.  Pelo quarto, penas negras balançavam na brisa da janela aberta. No chão, as vísceras do galo estavam espalhadas em um círculo onde o filho repousava tranquilamente. Na parede, uma única palavra, escrita em sangue.
Roanoke.
* Professor e escritor, Andre atua nos sites azcordenonsi.com.br e duncangaribaldi.com.br

quinta-feira, 4 de abril de 2013

terça-feira, 2 de abril de 2013

Livro vermelho.

Bloqueio. 
Não consigo pensar em outra palavra. Parece que minha mente está infectada por um vírus que nubla meus pensamentos, minha criatividade. São meses sem produzir nada. Passos horas em frente ao computador, apenas tateando o teclado, mas, invariavelmente, o cansaço me vence.
Como reverter um apagão mental? Como recuperar minha escrita? As contas começam a acumular e eu não sei - literalmente - o que fazer. Escrever é minha profissão. Logo, estou desempregado.
Viajei, isolei-me e li outros autores para buscar uma ideia, por menor que fosse. Tudo em vão.
Entretanto, não foi apenas a inspiração que sumiu da minha vida. Meu marido não suportou tantos meses de stress e reclamações. Eu virei uma bruxa para ele e isso me custou o casamento. Agora, sem muito a perder, vou recorrer a tudo que me resta para recuperar as letras e a dignidade. Custe o que custar.
Eu voltarei a escrever...

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Sozinho


Em memória de Katiely - Manda um beijo pro pai!

Meia noite de um domingo qualquer. Fumo um cigarro qualquer e viro um copo de Scotch com apenas um único e solitário gelo. Admiro com ódio um quadro de Nova York onde a multidão de táxis amarelos admira a Marilyn Monroe e a Estátua da liberdade. Há um contraste tão grande no que sou e no que quero ser. Diante dessa multidão sou apenas como aquele pequeno gelo derretendo no copo.

Verto o restante da água derretida deixando parte do gelo. Levanto-me para ir para a cama, mas o álcool não deixa. Antes de atravessar a sala caio de bruços no chão e sinto o coração gelar. Uma pequena dor rasga meu peito e encosta gentilmente no órgão vital. Estou tendo uma parada cardíaca.

Ainda com dor e sentindo o braço esquerdo tilintar um formigamento incomoda, viro-me para golar umas doses de ar. Estou sozinho em casa sentindo a vida escapar pelos dedos como a areia ou água  tanto faz o clichê. O que importa é que preciso de ligar urgentemente para a emergência. Minha vida precisa disso.

domingo, 31 de março de 2013

O homem feito de névoa


Dedico este conto especialmente à Rita Souza, uma jovem amiga com grande potencial, e todos aqueles que, mesmo com o escuro intimidando, lutam! 

sábado, 30 de março de 2013

Sangue de Gladiador

Por: Hermínio Neto

O cheiro inebriante de sangue é um tormento nos momentos finais do duelo. Enquanto os ferros se incendeiam a cada encontro violento e a multidão de plebeus furiosos urra desejando ardentemente mais e mais mortes desde a manhã em que o primeiro torso foi atravessado por um gládio, eu me contorço de fome e desejo.

Aperto meus rosto contra a grade grossa e enferrujada do corredor que leva até a arena, tentando prever o resultado da batalha pelos espaços losangulares. Todos os cadáveres de gladiadores mortos durante o dia já foram recolhidos, e o sangue deles, sugado pela areia, está perdido para mim, mas agora, no ocaso arroxeado, sei que conseguirei capturar minha presa.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Nota explicativa ao público.

Olá, amigos. 
Para quem ainda não me conhece, sou Franz Lima e também colaboro neste blog de contos de horror. Estamos entrando no 4º mês de vida do projeto e é uma grande honra fazer parte de um grupo tão seleto e coeso.
Entretanto, creio que perceberam, nós tivemos alguns contratempos que ou atrasaram ou impediram a publicação de contos. Como o próprio nome do blog já diz, a proposta nossa é a de levar a vocês, diariamente, um terror com qualidade e sempre de forma inédita, fato que torna esse projeto ímpar. Claro, imprevistos acontecem e nem mesmo nós estamos livres de problemas. 
Assim, assumo o papel de porta-voz dos outros escritores e lhes peço sinceras desculpas. Sabemos que há muitos leitores que acessam diariamente o blog para ler nossos escritos. Não posso prometer que nada mais irá afetar o grupo a ponto de estarmos acima dos imprevistos, porém saibam que estamos redobrando os esforços para publicar sempre em dia. Outro grande esforço é a busca pela excelência em contos novos, realmente inéditos.
As datas onde ainda há lacunas serão, brevemente, preenchidas. 
Agora, já cientes de nossas imperfeições, vamos à boa notícia. O blog está recebendo a ajuda de um desenhista que, assim como cada um dos escritores, também busca dispor sempre de material inédito e ótima qualidade. Seu nome? Daniel MM. Vocês poderão ver alguns de seus trabalhos na primeira parte do conto A Vingança de Kali e, em breve, nas demais partes da saga de terror e mistério que vem conquistando mais e mais leitores.
O projeto vive e irá mostrar conforme o tempo flui, como é possível escrever e atender as expectativas... e medos dos leitores. 
Obrigado por estarem ao nosso lado em nossos pesadelos!