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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Matintaperera



Um assobio foi ouvido ao longe.
- Isso é sinal da maldita!
Todos dentro da casa se benzeram. O som estava cada vez mais perto, indicando que não estavam enganados: era o lar deles que ela rondava.
- Matinta Perera, pode passar aqui amanhã pra buscar seu tabaco... – a voz tremia, o medo dominava o corpo. O grito ganhou a varanda graças à fresta na porta.
O barulho do Rasga-Mortalha foi se afastando, bem como o assobio. Respiraram fundo, com certo alivio.

- Isso nos dá tempo... Zelão, separa o tabaco pra amanhã. Ela deve vir bem cedinho.
- Mas mãe, porque tem que ser justo o meu? – respondeu o homem
- Não discuta Joseliano! Daqui o único que ainda usa essa coisa do demônio é você meu filho. Seu pai não está mais entre nós pra poder ajudar, então o homem da casa, aquele que tem que fazer alguma coisa pra proteger sua avó e eu, é você!
Joseliano era alto e magro, com cara de bobo. Tinha certo atraso mental, mas não se sabia se por nascença ou pelo numero de pancadas que levou na cabeça. Comparado com os irmãos era o mais burro, entretanto era o único que ainda restava na casa – visto que os outros tinham ido pra cidade grande em busca de uma vida nova. Era forte, graças aos muitos anos na lida, e tinha um coração grande. Mas quando o assunto era seu fumo...
- Ah minha mãe... É capaz de ela nem mais lembrar amanhã...
- Não discuta com sua mãe, menino, que ela sabe o que diz. – dona Mel, como era conhecida a avó, falava com a experiência que a idade lhe concedia.
O rapaz bufou e saiu para o canto da sala, indo separar o tabaco prometido. Resmungava só pra si, indignado por ter que dividir algo que era seu único prazer com uma mulher que nunca tinha visto na vida.
- Essa Matinta Perê... Pensa que é o que pra vir assim querendo meu fumo? Já é tão difícil que mãe me deixe ter um pouquinho e ainda tenho que dar pra uma velha? Arre!
De repente uma lembrança fez a ideia brilhar em sua mente. Alguns meses antes um grupinho havia enganado Zelão com um cigarro de mato seco. Misturaram um pouco de tabaco para dar um cheiro e o pobre coitado só foi saber quando alguém contou a ele, uma moça que tinha cansado de rir. Esperaria todos dormirem e então iria até o quintal da mãe pegar algumas folhas secas. Era só esfarelar e misturar no pacotinho que faria. Ela nem notaria a diferença e ele não teria que gastar quase nada do seu vicio. Era tão fácil e brilhante que o plano mal parecia ter saído de sua cabeça... Sentia-se orgulhoso de si mesmo. E ainda tinha gente que o chamava de burro ou estúpido, até de asno. Mas não depois desse dia! Ele seria o herói da região, com certeza!
- Já separou, meu filho? – disse a senhorinha, se aproximando dele lentamente.
- Ta quase, minha vó... Ta quase. – disse rindo pra si.
O brilho em seus olhos a fez ter medo do que o neto iria aprontar. Em sua mente ela sabia que tinha de ficar de olho nele, mas infelizmente o corpo e a idade falaram mais alto e em menos de duas horas já estava adormecida e esquecida de tudo.
- É agora! – Joseliano saiu pé ante pé para não fazer ruído, lanterna na mão e felicidade estampada na cara, buscar aquilo que para ele configurava liberdade – Uma aqui, e mais um pouquinho dessa aqui... Isso vai ficar igualzinho quando eu terminar... – riu antegozando a vitoria, os vizinhos todos o cumprimentando e a mãe botando a foto dele em mais destaque que a dos irmãos. Isso sim que seria vida... Voltou pra dentro de casa, aprontou tudo e deixou o embrulho na porta, à espera de sua dona.

 Na manhã seguinte a família acordou de sobressalto, como se um sentimento de desgraça sacudisse o corpo de todos ao mesmo tempo, fazendo-os erguer-se da cama em desespero. Todos, menos D. Mel. A avó, já em seus mais de 90 anos, caíra de cama com um mal completamente inexplicável. Os dias se seguiram no mesmo molde, as noites escuras e inquietas, as manhãs inquietantes. As plantações do quintal, que ajudavam no sustento da casa, começaram a secar antes da época de colheita, as galinhas não punham bons ovos e quando o faziam passavam horas sem sequer poder levantar, como moribundas. Algumas chegaram de fato a morrer.
- Não dá pra entender. – Josefa, a mãe, passava a mão pela testa suada. Olhava a sogra prostrada e não via motivo para isso. Ela era uma mulher de idade avançada, mas jamais dera sinal de doença – O doutor disse que não tem nada, mas ela segue só piorando. – olhou para o filho – o fumo estava na porta quando a agourenta passou, verdade?
- ÔMãeÉClaroQueTava! – disse num fôlego só, meio assustado. Não costumava mentir pra mãe, mas também não achava que tinha sido grande coisa o que fizera – Pra que essa pergunta besta agora? Eu botei lá do jeito que tinha que ser, no cantinho verdeado da porta, só pra ela passar e pegar. De manhãzinha nem tava mais, então é sinal que deu certo.
A mulher pareceu satisfeita com a resposta. Tinha mais coisas com que se preocupar. Naquela mesma tarde mandou Joseliano atrás da velha benzedeira da cidade, e também que telefonasse aos irmãos mais velhos, para informar a situação. O rapaz dessa vez nem resmungou, pois sabia que era caso de necessidade. Em  poucos minutos – uma rapidez que não fazia parte de sua rotina e que, não fosse a situação tão grave, teria assustado a mãe – estava de volta à pequena casa de madeira trazendo pelo braço a Bisa Zita, como ficou conhecida a velha. Diziam que ela tinha mais de cem anos de idade, mas isso eram apenas causos que se contava. A única verdade conhecida era que Bisa Zita era muito sábia. Suas mãos, agora trêmulas, já tinham salvado muitas vidas e ajudado a iniciar muitas outras nessa terra, ao longo de seus anos de parteira e curandeira. Se alguém sabia o que podia estar acontecendo àquela família, esse alguém era ela.
- Uh-uhm... Nessa casa tem desgraça, minha fia...  E não é da pouca... – disse a senhora tão logo passou pelo umbral de entrada. Revirou os olhos de cor levemente leitosa – A Titinta teve aqui, não teve não? – perguntou com um meio sorriso no rosto, simplesmente assustador aos olhos dos moradores da casa – hehehe, eu bem sabia. Isso é tudo obra dela. A danada não ta feliz coceis não... hehehe.
- Mas porque Biza Zita? Por que motivo a dita não ia estar feliz com a gente? Fizemos foi tudinho que tinha que ser feito. Ela rondou aqui, eu prometi o fumo, Zelão botou o fumo la fora, tudinho nos conformes. O que diabo essa mulher quer de nós ainda? – Josefa torcia as mãos, nervosa.
- Ela ta é querendo vingança, eu acho. – pigarreou, riu mais um pouco daquele jeito dela, que gelava a espinha, e continuou – O jeito de conseguir se livrar dessa criatura é prendendo ela.
- E como é que vai fazer isso? A gente para na frente dela quando aparecer e grita “Para em nome da Lei de Nosso Senhor”, que é a única lei que podemos usar sem ser crime, e amarra ela? E como é que amarra demônio, Biza? – o homem perguntou com seu típico jeito bobo de ser. Como criança que não entende, mas quer entrar no assunto adulto.
- Ah Liano... – a velha riu da careta que ele fez. Odiava ser chamado por esse apelido. Não sabia por que, mas odiava. Por isso mesmo que a velha Zita o chamava assim – né nada disso não. Quando for meia noite tu pega uma chave e enterra fundo, que é pra trancar o caminho da marvada, daí pega uma tesoura e enfinca ali junto com a chave, então bota um rosário preso na tesoura, por que coisa santa acaba com a maldição da Titinta. Mas isso só funciona se a danada passar por esse caminho, senão não vale de nada. O jeito de ter certeza que ela vai ficar ali é botando um macinho de fumo ali por perto, que quando ela for pegar ela vai e fica bem da presa. Mas, hehehe, veja e cuide pra ser tabaco de verdade dessa vez fio... Senão não funcionar não. Hehehe.
A mãe arregalou os olhos e depois os apertou na direção de Joseliano. Ele ainda tentou se defender e explicar que quis fazer com ela o que foi feito a ele e funcionou, mas Josefa não deu trela. Arrancou a tamanca do pé e começou a dar com gosto por onde acertasse. Tapas e tamancadas choveram na cabeça do filho, que gritava pedindo perdão.
- Perdão? Sua vó está que pode morrer a qualquer instante por culpa da sua avareza e ainda quer pedir perdão? Pois você é que hoje, à meia noite em pontinho vai estar la fazendo a armadilha pra pegar a Matinta, e dessa vez vai botar teu fumo todinho ali! E ai de ti se não botar!
A velha Zita terminou o que tinha que fazer, deixando para trás alguns remédios caseiros que deveriam ser dados à D. Mel, e com a recomendação de que pegassem a Matinta Pereira ainda naquela noite, ou poderia ser tarde. O moço, apesar de dolorido pela surra, foi acompanhar a senhora até a cidade, onde recebeu o recado de que o irmão mais velho, Mauriliano – nome herdado por gerações na família – chegaria em casa nas primeiras horas da manhã, acompanhado da noiva, a quem esperava apresentar a família.  Também aproveitou e comprou as coisas para o ritual de aprisionamento da coisa. Tudo separado e preparado para a meia noite...

- Ta tudo acertado mãe... Dessa vez vai dar certo, a senhora vai ver – a convicção na voz era a única coisa que não tremia em seu ser. Apesar de estar tão certo que ficaria tudo bem, o rapaz não deixava de temer.
- Pro teu bem eu espero que sim, Joseliano. Pra tua saúde eu realmente espero que isso dê certo. E se não botar todo o fumo lá, se botar folha seca de novo, eu juro que eu te mato de te quebrar! – disse a mãe dando mais um tapa na cabeça do filho, que apenas a baixou.
Quando o relógio marcou a hora morta entre um dia e outro, o moço foi para fora. Caminhou alguns metros para longe da casa e cavou um buraco fundo, colocou a chave e tapou com muito cuidado. Abriu a tesoura e fincou no chão, colocou com cuidado o rosário prateado sobre tudo e sorriu. Estava tão perfeito dessa vez... Retirou do bolso o pequeno pacote de tabaco e o colocou um pouco para frente da armadilha. Era a única coisa que doía...  Respirou fundo e voltou para o lar, onde a mãe e a avó dormiam o sono dos justos.  Ao amanhecer um som agudo e desesperador foi ouvido, mas o alivio tomou conta de todas as almas da região.
O sol já ia alto quando D. Mel despertou pedindo que o neto lhe desse um copo de água e alguns biscoitos. Todos estavam felizes por vê-la melhor, livre do encantamento da bruxa Mati, e nem se importaram em ir ver a armadilha, apenas queriam esquecer-se disso o mais rápido possível. Mauriliano chegou à casa pouco antes do almoço, trazendo a noiva Angela – moça criada em interior, mas com sonhos de riqueza e grandeza maiores que sua própria vida – que logo caiu nas graças da sogra, se fazendo de menina doce e delicada. Depois da refeição pediu licença para explorar as redondezas, e teve total permissão de todos, que estavam cansados demais para acompanhá-la em suas andanças – fato que ela agradeceu e muito, pois esperava topar com algum rico fazendeiro e tentar a sorte.
***

Ao ver o pacotinho, Matinta sorriu satisfeita. Nem notou a tesoura e o terço, só via seu vicio. Nem tempo pra escapar a velha teve... Quando notou o ocorrido tentou se livrar daquilo. Agarrou o rosário de prata na intenção de jogar longe, mas o objeto santificado ardeu em sua mão, levando-a a um grito dolorido. Por horas entoou seu canto de morte disfarçado em uma única frase...
***
Angela fechou a porta atrás de si, certa de que naquele lugar algo iria mudar seu destino para sempre. Acordara com aquela sensação ao levantar da cama pela manhã. Era como um vento que anuncia o furacão que abala as estruturas de uma casa. Aquela cidade,  esquecida por Deus, sem duvida lhe traria esse furacão que a levaria para bem longe da miséria que conhecia.  Sabia muito bem que ricos e importantes viviam ali, pois era muito mais fácil mascarar sua riqueza em meio à podridão. Caminhava a passos lentos e ritmados, como se apenas seus quadris ouvissem uma canção alegre e convidativa. Foi quando viu uma velha caída no caminho. Correu até ela, não por caridade ou pena mas sim por ganância, pois viu o brilho do metal precioso revelado por um raio de sol.
- Quem quer? Quem quer? – o grito já morria na garganta, a corrente presa na mão agitada.
Ao ver a velha caída com um fardo apertado entre os dedos de uma mão, e a belíssima peça jazendo na outra, se aproximou. Retirando das mãos macilentas daquela senhora o tesouro, que acreditava ter encontrado por intervenção divina, disse bem baixo em seu ouvido.
- Eu quero...
A jovem saiu correndo, rindo de sua sorte, nem tendo tempo de ver o sorriso que se formava no rosto da moribunda.

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