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quarta-feira, 17 de julho de 2013

Tricksters - parte I




- Sei o quanto isso pode parecer estranho, mas eu juro por todos os deuses que é verdade meu Senhor.
Diversas vozes se ergueram, algumas em protesto e outras em surpresa. A jovem se sentia diminuta diante de toda aquela multidão. O rei ergue a mão direita, conseguindo com esse gesto o silêncio que tanto queria.
- Deixe-me ver se entendi bem jovem Kalis. Disse que teve contato com criaturas na floresta meses atrás? E que não eram animais? - o monarca tentava conter o riso enquanto lembrava de todas as palavras ouvidas nas últimas horas
- Exatamente Vossa Alteza, foi tudo como lhe descrevi. - a voz saiu mais fraca do que gostaria.
Os comentários recomeçaram, muitos riam abertamente da pobre louca.
Quem, com sã consciência, acreditava em seres fantásticos em pleno século XXI? Seus pais já pensavam em milhares de caminhos alternativos e desculpas para explicar todas as bobagens que a filha dizia.
- Perdão meu Senhor, mas depois que perdemos nosso Fazza, Kalis não se recuperou. O médico disse que ela criaria mecanismos de defesa para escapar de toda a dor e culpa causadas pela morte do irmão.
O burburinho só fez aumentar e Kalis murmurou algo que ninguém ouviu, visivelmente magoada com a atitude do pai. Nem sua própria família acreditava nela.
- Já basta! Este conselho termina aqui e minha palavra é Lei. Sendo assim, ordeno que os parentes dessa mocinha vigiem melhor seus atos e cuidem para que interrupções como a de hoje não se repitam mais, ou poderei não ser tão generoso em uma próxima vez.
Com mesuras e reverências a moça foi retirada do centro do salão pelos pais.
- O que foi que deu em você? Está perdendo o juízo ou a vontade de viver? Invadir assim um conselho da cidade; falar daquela maneira com Rei e seus ministros! - o rosto de Bankoff estava inflamado de raiva e rubro feito sangue fresco.
A frágil menina fez menção de falar algo, porém foi impedida por seu pai que já não queria mais saber de explicações. Há tempos ela falava sobre as tais criaturas, que seriam seus semelhantes e que estariam sempre em cantos escondidos em meio às arvores. Tantas buscas ele já havia feito em segredo, pois preferia sempre acreditar na filha, mas não havia encontrado nada. Sua esposa dizia que o médico poderia dar um jeito: tratamentos, conversas e, se necessário, internação. Não queria, mas começava a acreditar que talvez fosse o melhor. Precisava fazer algo por Kalis, temia por sua saúde mental.
O restante do caminho até a casa foi silencioso para a familia, mas não para a cidade. Risos, gritos e objetos choviam na direção deles, sem contudo acertar o alvo. Ao chegar em casa, como se tivesse lido o pensamento do grande patriarca, Kalis foi se trancar no quarto. Como podiam não confiar nela? Sabia o que tinha visto, não estava perdendo a cabeça! Os seres que haviam feito aquilo com seu irmão. Eles eram os loucos, culpados pelo triste fim de Fazza, não ela. Mas não importava, todos achavam o contrário. Exausta, deitou a cabeça no macio travesseiro e dormiu, deixando seu subconsciente vagar pelas tardes em que os observou, até terminar naquela onde tudo de pior aconteceu.

Quase todos os dias Kalis se embrenhava na mata para vê-los. Eram muito parecidos com ela: pele clara, olhos escuros, cabelos coloridos e enfeites pelo corpo. Adorava ficar longas horas observando aqueles seres tão estranhos – que usavam roupas extravagantes – comendo, bebendo, brincando e conversando. Ora rindo, ora chorando.
Aquelas que pareciam ser as fêmeas, sempre de conversas de canto, buscavam seduzir aqueles que deviam ser os machos. Era tão peculiar essa busca pelo acasalamento que a jovem ficava fascinada. Mas naquele dia as coisas foram bem diferentes.
Assim que saiu de casa seu irmãozinho a seguiu, indo encontrá-la no meio do arvoredo.
- Fazza, o que faz aqui? - dizia em tom baixo, mas transparecendo toda sua raiva.
- Queria saber aonde você vai todos os dias. O papai e a mamãe podem achar que você fica na casa das suas amigas, mas eu sabia que não!
Ela bufou. Tudo o que não esperava era ter o irmão menor na barra da saia.  Se naquela época soubesse o que iria acontecer jamais teria se irritado, pelo contrário, teria ido embora correndo para nunca mais voltar a ver aqueles malditos assassinos.
- Então essas são as coisas de que você tanto fala no seu diário?
- O quê? Você andou lendo meu diário, seu demoniozinho?
O garoto riu do nervosismo da irmã. Só ouvira sobre sua existência em lendas e livros da escola. Tirando as asas, nada mais parecia ser diferente das pessoas de sua cidade. Os seres poderiam muito bem se camuflar em meio a eles e talvez jamais serem descobertos.
- Kalis, olha só aquela, a de cabelo rosa. Nossa, como eles são engraçados... E o de cabelo verde?... - ria a ponto de o corpo se curvar.
- Fica quieto Fazza! Eles vão acabar nos descobrindo aqui, e a culpa vai ser sua! Ai, como você é irritante.
Em meio à discussão, eles não viram que duas criaturas já não estavam mais lá. Tudo que se seguiu parecia estar em câmera lenta, ao contrario de quando tudo aconteceu de verdade. Naquele dia tudo correu como um búfalo solto numa estrada...
Os dois machos apareceram do meio dos arbustos. Pegou Fazza pela mão e começaram a fugir, tentando de todas as formas despistar seus perseguidores, enquanto eles riam alto chamando os irmãos de aberrações, jogando pedras... Kalis ia mais à frente, e se soltou do irmão para se librar de alguns galhos. Rapidamente alcançou um esconderijo e ao se virar para ver se estavam em segurança ainda teve tempo de ver o menino cair, vitima de uma pedrada na cabeça. Antes que pudesse acudir seu pequeno problema, como sempre a chamava, os monstros o alcançaram.
- Calma aí amiguinho, só queremos brincar. - diziam em meio a gargalhadas enquanto se aproximavam do menino, que só chorava pedindo pela mãe e pela irmã.
[Continua]

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