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quarta-feira, 10 de julho de 2013

Nem na Morte



– Tem dias que só quero estar com você, mas tem outros que tenho vontade de sumir das suas vistas! – passava as mãos nervosamente pelos cabelos rebeldes ao vento. Olhava o modo desesperado como ele chorava – Não posso continuar assim, tenho de seguir meu caminho.
– Não diga isso Eliete, por favor! – ele tentou abraçá-la, mas não conseguiu. Seu peito parecia que ia explodir de tanta dor – O que você não pode é me deixar. Depois de tudo que passamos pra ficar juntos...

Ela se lembrava bem. Sua sogra nunca havia gostado dela, os cunhadinhos sempre tiveram ciúmes pela perda do irmão mais velho para a ruiva sardenta... Era difícil se relacionar com alguém de poder aquisitivo diferente do seu. O preconceito não parte apenas da família rica para a pobre, mas o contrário também. Todos os comentários do tipo “Agora que ta com a riquinha não anda mais com pobre” eram constantes e afetavam negativamente seu relacionamento. Ela chorava todas as noites e se culpava pelo ocorrido na última noite em que brigaram. Se ela não tivesse gritado com ele, se o farol estivesse fechado, ou se o outro motorista não estivesse bêbado... Eram demasiados “se” para sua mente atormentada.
–Não posso mais continuar nessa casa. Há lembranças demais de nós aqui... Tente me entender, não posso mais viver de passado. – as lagrimas pesavam nos olhos acinzentados – Imploro que me entenda.
Ajoelhou-se diante daquele que era seu único amor de por vida. Ele se enfureceu. Começou a gritar com ela, chamando-a de insensível e de coisas piores que não devem ser jamais pronunciadas e não serão aqui reproduzidas, e em um momento de total desespero e falta de controle lançou-se sobre ela e desferiu-lhe um tapa. Para seu assombro a mão passou através do rosto da moça, agora assustada, que continuava presa de seu pranto. Ao ver aquela cena se deu conta do que acontecera e, como uma criança indefesa, se pôs a chorar junto a ela, pedindo perdão. Eliete balançou a cabeça e foi pro quarto correndo. Jogou-se na cama, a porta trancada, não queria vê-lo ou falar com ele. Era desesperador. Quando a deixaria em paz? Quando entenderia que ela precisava seguir em frente?
As horas passaram e encontraram a jovem no mesmo lugar. E ele? Onde estaria? Eliete se perguntou enquanto saía do quarto. Olhou para ambos os lados no corredor, mas nem sinal daquela presença que a assombrava nos últimos dias. Como pode o amor se transformar em agonia de uma hora para a outra? Relembrava os detalhes daquela noite.
***
–Oi D. Fagunda. Como vai a senhora? – disse com seu agradável sorriso branco e de dentes perfeitos, o que tanto irritava a sogra.
– Vou indo como Deus manda, atacada da minha reumatoide. Que te trouxe até aqui, nessa humilde residência? – disse em tom de deboche e ironia. A jovem respirou fundo, mas a velha não se deixou levar pelo ar cansado de brigas que sua nora trazia – Aqui nós não temos luxo, mas pelo menos educação minha mãe me deu. Por isso te pergunto, quer entrar?
– Ah, não obrigada. Não quero causar incômodos. Eu só vim buscar o Vagner. Ficamos de jantar juntos hoje, comemorar um ano de namoro, a senhora sabe. – ficou vermelha e viu os olhos da mulher revirarem.
– Pra te falar a verdade não sei não. O pai do meu Vaguinho nunca me levou pra lugar nenhum não. A comemoração de coisa dele era me pegar, jogar na cama e me destroçar de maneira que nem pudesse lavar a roupa da vizinhança no dia seguinte. E não é só de sexo que to falando não filha. Ta vendo isso aqui? – mostrou o pescoço, onde uma cicatriz profunda marcava a pele em inicio de flacidez – Isso aqui foi o que ganhei quando dei a ele o Edwilson, nosso quarto filho. Foi aí que decidi largar ele de mão e vir criar meus meninos pras bandas de cá.
Eliete estava horrorizada ante aquele relato. Sabia que a mãe de seu namorado havia sofrido na vida, mas jamais imaginaria que tinha sido tão abusada.
– Minha nossa... Eu sinto muito. Jamais poderia imaginar. – disse com sinceros sentimentos. Antes que a sogra pudesse dizer algo, após uma longa bufada de quem não acredita nas palavras da outra, o rapaz apareceu na porta que vinha da cozinha.
– Oi meu amor. Mãe, a sua benção que tenho que ir.
– Deus te abençoe e acompanhe nesses caminhos tortuosos que decidiu seguir, meu filho – disse a mulher olhando para a nora, que se limitou a baixar a cabeça.
Saíram e entraram no taxi que os aguardava. O carro dela estava no conserto, uma batida boba que o irmão havia se envolvido, então teriam de ir assim ao restaurante. “Melhor que à pé” o motorista disse, mas nenhum dos dois estava em clima para piadas. Ao chegarem Eliete pagou a corrida e foram juntos para a porta. Vagner estava com o olhar perdido, um ar de poucos amigos que causou estranhamento na namorada.
– O que acontece, Va? – perguntou tentando olhá-lo nos olhos.
– Nada, Eliete. Vamos entrar logo e jantar. – foi a resposta entre dentes que ele se dignou a dar no momento. Nada mais, nada menos. A noite seria longa, e com um suspiro e a cabeça ainda mais baixa ela passou pelas portas duplas.
***
– Você prometeu que ficaria comigo para sempre!
A respiração da moça acelerou conforme se encaminhava até o cômodo de onde vinha a voz, e um grito escapou de sua garganta ante a cena que se descortinava: Vagner estava no meio da sala de estar, rosto coberto de feridas e sangue, gritando como louco. Ao vê-la na porta um sorriso sádico se abriu em seus lábios rachados e rubros, deixando à mostra gengivas pingando saliva avermelhada.
– Você disse que poderíamos morar juntos, foi por isso que eu vim! Você disse para sempre, e para sempre é de verdade. Tem que ser de verdade! – esbravejava correndo em direção à namorada, que não viu outra alternativa que não tentar correr para o lado oposto – Não fuja de mim! Não vê que tudo é sempre por você? Achou mesmo que eu poderia deixá-la sozinha depois de tudo que vivemos? Do tanto que lutamos?
– O que quer de mim? O que demônios quer de mim? Eu só quero paz, por que não me deixa e vai buscar outra que perturbar? Já não basta o que me fez em vida? Eu sempre tentei ignorar, Vagner. Juro que tentei... Mas aquele dia foi demais pra mim! Perdão, mas eu não aguentava mais... E agora você tem que ir embora daqui, seguir seu caminho e me deixar seguir o meu. – sentou-se no meio do corredor e tampou os ouvidos com ambas as mãos, tentando não ouvir as acusações que flutuavam a seu redor, como se viessem de todas as partes.
– Foi você quem quis me abandonar primeiro, lembra? Mas eu não vou deixar! Nunca! – claro que lembrava... Só o que ela queria era esquecer, mas infelizmente as memórias insistiam em surgir.
***
– Então, Vagner, gostou do restaurante? – perguntou com a esperança renovada. Estava tudo lindo e decorado. Era um local simples, mas elegante. E como era época e dia dos namorados estava completamente decorado com corações vermelhos e cupidos com flechinhas mirando os casais apaixonados.
– Você quer mesmo me humilhar não é? – disse por fim, olhando-a com um misto de raiva e nojo. – Bem que minha mãe disse pra não me envolver com você.
– Do que está falando, Va? – estava confusa – Claro que não quero te humilhar, por que quereria? É nosso aniversario de namoro, só pensei que iria gostar de comer em um lugar diferente, e...
– Um lugar diferente? Qual o problema dos lugares onde te levo? São pouco para Vossa Excelência? – o tom era sarcástico e Eliete sentia o coração despedaçar.
– Por favor, hoje não...
– Como assim hoje não? Por acaso tem que ter dia pra eu me sentir indignado com as atitudes da minha namorada? Por acaso eu tenho que embrulhar meu orgulho e latir como um cachorrinho adestrado, só por ser pobre e não poder te levar a um bom lugar e hoje você me trouxe aqui?
– Não Va, eu nunca disse isso... Amor... – as pessoas começavam a esticar os pescoços, atentas à discussão da mesa cinco – Se você quiser ir pra casa eu vou entender, serio...
– Ir pra casa por quê? Acaso estou te envergonhando com minha falta de modos em um lugar tão chique? – se levantou e começou a gritar – Desculpa aí gente, é que hoje eu tinha pensado em um dia especial com minha namorada, mas ela passou por cima disso tudo e me trouxe num taxi até um lugar cheio de coisas que eu não posso pagar!Isso me deixa meio irritado! Mas quem não?
– Vagner! – falava baixo, com sorrisos amarelos para as pessoas, balançando a cabeça sem saber o que fazer – Por favor, Vagner, me desculpe... Vamos embora. Eu preparo um jantar especial pra você, ou podemos ir naquele bar que você tanto gosta e beber com a galera... Só, por favor, vamos embora daqui. – estava tão envergonhada que só queria que um meteoro atingisse a Terra.
Com uma bufada e mais algumas palavras desencorajadoras ele aceitou ir. Levantaram-se e Eliete tentou deixar para trás o mais rápido possível aquela tentativa frustrada de ficar bem. Respirou o ar frio da noite e tentou pegar o braço do namorado para caminharem juntos, mas ele estava enojado demais com ela. Algo dentro de si gritava que ela não estava errada, mas como em outras situações, a jovem preferiu acreditar que sim. Seguiram em silencio até a casa dela.
***
– Eu estava farta, Va... – pela primeira vez se permitiu chamá-lo pelo apelido carinhoso que lhe dera tempos antes – Não aguentava mais aquela vida. Você estava se transformando em um monstro cada dia mais violento... Eu não tinha escolha! – Abriu os olhos e o viu diante de si, o rosto ainda naquelas condições deploráveis. Chorou ainda mais amargamente.
– Sempre há uma escolha... Uma opção... Alternativa, se preferir chamar assim. Por isso estou aqui agora. Você não vai se ver livre de mim tão rápido.
***
Estavam sentados no sofá a pouco mais de meia hora esperando a pizza de calabresa chegar. Esse seria o jantar especial da noite. Para brindar: Tubaína. Era o que o dinheiro de Vagner podia pagar, e Eliete não queria mais dar motivos para briga. A campainha tocou e ela foi atender. Com um sorriso e a simpatia, que eram suas marcas registradas, a jovem pegou o pedido e pagou o espinhento entregador, fechando a porta logo depois de sua saída.
– A pizza chegou!!! – tentou fingir entusiasmo. Ainda esperava salvar a noite. A resposta foi um apertão no braço e sentir-se arrastada por mãos fortes, que a jogaram no sofá. A caixa da pizza caiu a seu lado, por sorte fechada, e a garrafa voou para o outro sofá, chacoalhando e pegando mais pressão do que deveria. Mesmo naquela situação inusitada pensou “não quero ser eu a abrir essa garrafa”. Um sorriso escapou de seus lábios ante esse pensamento e um chute explodiu em suas pernas. A dor a trouxe de volta à triste realidade.
– Ta rindo do que? Sonhando com o entregadorzinho? Acorda garota! Ele tem idade pra ser seu filho!
– Que? Sonhando com o que? Eu... Eu não... – uma enxurrada de grosserias e agressões começou a afogá-la. Tentava se proteger e não encontrava jeito.
 Vagner sempre fora um bom rapaz, mas desde alguns meses antes estava agindo estranho. Sentia-se cada vez mais dono dela, mais possessivo. Era como se tivesse enfim mostrado sua verdadeira face. Isso passou a acontecer no dia que ela lhe propôs que fosse morar naquele apartamento. Apesar de tudo ela o amava e esperava que um dia aquela fase passasse e ele voltasse a ser o mesmo de sempre. Tentava se focar nisso enquanto apanhava naquela noite, até que com um grito cansado empurrou-o para longe.
– Não adianta! Você não vai mudar, não vai voltar... Você é filho de quem é e quem puxa aos seus não degenera! Estou farta! Hoje sua mãe me deu a dica final de que ou eu te deixo ou você me mata! – Vagner a olhava aturdido. Era a primeira vez em meses que a via reagir a algo, e ainda mais citar sua mãe – Agora entendo que ela na verdade só queria me afastar de você para me proteger... Por que ela sabia que você era igualzinho o seu pai! Você é um maluco Vagner, é isso que você é e eu não sou um saco de pancadas! Eu sempre te dei amor e sempre te dei meu ser, nesse um ano tudo o que te dei foi isso... Mas eu estou cansada! Vai tentar me cortar o pescoço com uma faca quando te der nosso quarto filho também? Eu não quero esperar pra ver se vai ser assim ou antes! Eu quero que vá embora daqui ou eu chamo a policia!
Falava tudo que vinha à mente sem pensar, como se fosse uma marionete de seus próprios sentimentos. Aquelas palavras bateram fundo na alma do namorado.
– Não posso ir embora... Você me prometeu que ficaríamos juntos pra sempre! – mal podia respirar. Esticou os braços na direção dela, para abraça-la – Perdão meu amor, eu fiquei cego... Eu não sei o que deu em mim. Eu te vi toda sorrisos praquele cara e surtei. Desculpe...
– Não! Não dessa vez, entende? Não dessa vez. Eu quero que suma da minha vida pra sempre! Eu quero que morra se for o necessário pra que me deixe em paz! – gritava chorando.
O rosto dele se transfigurou outra vez para puro ódio.
– É assim que diz me amar? Dizendo que prefere que eu morra? Tudo bem. Mas saiba que mesmo na morte eu jamais vou deixar você, entendeu? Você é minha, só minha e assim vai ser pra sempre, como você prometeu! Eu vou embora agora, vou deixar você pensando aí e se acalmando... Mas grave minhas palavras: Você não vai se ver livre de mim nem na morte! E eu vou me assegurar disso. – virou as costas e saiu.
– Como assim se assegurar? Vagner, do que está falando? – a curiosidade foi maior do que a prudência e Eliete saiu atrás de seu agressor. Tudo foi rápido demais a partir disso. O farol fechado, os dois atravessando, o motorista bêbado que atravessou sem ver o vermelho que indicava pare, deixando para trás o vermelho que indicava morte.
***
Na sala as velas do altar de fotografias que serviram para as lagrimas do luto agora serviam para o culto demoníaco. Ao lado de Vagner, que sorria para a velha médium que intermediava a sessão, jazia o corpo destroçado pelo acidente. À sua frente uma boneca de pano, novo recipiente para a alma perdida. À um canto, já desaparecendo, a alma prisioneira que ainda implorava por paz...
– Nem morta, Eliete... Nem morta! – Vagner repetiu gargalhando.

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