Pages

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Azul - Parte 3

Leia as outras partes dessa história em Azul - Parte 1 e Azul - Parte 2.

O seu mundo agora será azul. Por um ano, ele terá apenas uma cor. E então você terá que passar o azul para frente, assim como eu fiz com você. Boa sorte.
Era o que dizia na carta que Nora recebera. Isso já fazia mais de seis meses.
A essa altura, sua casa era completamente azul.
Os móveis, os tapetes, as cortinas. As paredes, os lençóis, as roupas. Algumas coisas ela jogou fora, comprou novas, trocou por coisas azuis. Outras ela pintou. Pintou a casa inteira, o chão e as paredes, o teto e o sofá.
A tinta azul tinha um gosto bom. Nora a bebia como água.

Ela também comia tudo o que via pela frente, e Nora só via azul. Bolinhos de blueberry, gelatina azul... Havia garrafas e garrafas de Curaçau Blue nas prateleiras e vários potinhos com corante azul, que ela colocava em tudo. Havia também canetas Bic, que ela adorava roer e chupar, sorvete azul, e potes e mais potes azuis que ela mastigava até a fome passar. Folhas de papel azuis e bloquinhos de notas, bem como perfumes e chocolates pigmentados.
O seu mundo era azul.
Nora caminhou até o espelho e olhou para si mesma.
Começou com os olhos. Depois, manchas apareceram em sua pele: nos braços, nas pernas, no rosto. Seu cabelo começou a crescer da cor azul claríssima, mas depois escureceu e ficou azul brilhante.
Ainda faltavam seis meses.
Seis longos meses.
Ela respirou fundo. Caminhou até a cozinha, procurou e logo encontrou uma faca de cabo azul. Experimentou na pele, na palma da mão. Um pequeno buraco se abriu. Algo escorreu. Nora gritou e sentiu lágrimas descerem por seu rosto.
Não, não, não! Não podia!
Então, finalmente, com a resolução que somente o desespero traz, Nora rasgou de uma vez só a pele do pulso.
E gritou novamente.
Então caiu.
Poças de sangue começaram a se formar ao redor de seus pulsos no chão.
Nora só queria ver de que cor era.

Mas o seu sangue também era azul.

Fim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário