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sexta-feira, 12 de julho de 2013

Azul - Parte 2


Leia o início dessa história em Azul - Parte 1.
O sol da manhã invadiu seu quarto e esquentou seus olhos, ofuscando-os. Nora sentiu uma dor de cabeça horrível, começando nas têmporas e descendo até a nuca.
Maldita tequila.
Sentia-se enjoada, mas nada que um comprimido e muita água não resolvessem. Sentou-se na beirada da cama, o mundo girou por alguns instantes até parar e, então, quando julgou que estava segura, encostou os pés descalços no piso frio do apartamento. Precisava de equilíbrio, de segurança, de algo gelado que a acordasse. Precisava de um banho.
Caminhou a passos lentos e arrastados até o banheiro. Despiu-se, entrou no box, ligou o chuveiro. A barriga ainda revirava e algo subia pela sua garganta. Engoliu em seco, enfiou a cabeça debaixo da água fria.
O reflexo da luz que entrava pelo basculante dava a impressão de que a água era...
Azul...
- Azul. – ela repetiu para o banheiro vazio. E então uma enxurrada de vômito invadiu sua garganta e Nora não conseguiu mais resistir ao ímpeto. Vomitou tudo que podia no piso branco do banheiro.
Ele ficou manchado.
De verde, amarelo, marrom, branco...
E azul.

Algo se acendeu no cérebro de Nora e ela foi lembrando, aos poucos, dos acontecimentos do dia anterior. Havia algo. A bebida tornava tudo nebuloso, mas havia algo.
E havia azul.
Ela limpou o chão do banheiro como pôde e terminou o banho. Enroscou-se em sua toalha vermelha, sentindo um incômodo e um arrepio, e novamente aquele enjoo estranho. Largou-a no chão do banheiro, abriu o armário debaixo da pia e procurou por outra toalha.
Quando se enrolou em uma toalha azul celeste, sentiu-se melhor.
Enxugou-se às pressas. Faltava-lhe o ar e sua cabeça doía intensamente. O que era aquilo? Ainda era efeito da bebida? O que tinha acontecido na noite anterior?
Inclinou-se sobre a pia, observando o próprio rosto no espelho. Tocou-se no rosto, nos lábios, nos cabelos. Parecia tudo igual, mas havia algo, alguma coisa levemente diferente. Algo fora do lugar. Aproximou o rosto do espelho e encarou os próprios olhos. Eles sempre foram castanhos e bem escuros, mas hoje pareciam mais claros... quase de outra cor... quase...
Azuis.
Nora recuou até bater em um armário na parede oposta. Vários sabonetes e rolos de papel higiênico caíram no chão, espalhando-se pelo piso, enquanto ela própria tentava atravessar a parede, apavorada, o coração saltando pela boca.
De novo e de novo aquela cor. O que estava acontecendo? Ela forçou sua mente, mas a noite anterior ainda era um enorme borrão na sua cabeça, que doía mais e mais, intensamente.
Nora saiu correndo do pequeno banheiro, ainda enrolada na toalha. Sentou-se no sofá bege, mas automaticamente sentiu como se ele fosse algo repulsivo e se levantou. Procurou por todos os lados até encontrar uma poltrona no canto da sala, sim, ela serviria. Era azul, com algumas rosas vermelhas. Sentou-se na poltrona e sentiu-se melhor, apesar das rosas pinicarem sua pele.
Sua cabeça rodopiava. Vai ver era algum pesadelo, vai ver ela ainda não tinha acordado, vai ver Pedro tinha colocado alguma coisa na sua bebida. Uma droga, um alucinógeno? Ah, mas ele ia pagar, aquele cafajeste de uma figa. Nora não deixaria aquilo barato, não mesmo. Ele a enganou, aquele...
Mas então Nora reparou que havia uma carta no chão, próxima à porta. Provavelmente alguém a tinha passado por debaixo dela naquela manhã. Às vezes o porteiro fazia isso, às vezes ele distribuía o correio na portaria. Nora se levantou, sentindo os joelhos bambos.

O envelope era azul.

Continua na próxima semana...

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