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quarta-feira, 3 de julho de 2013

Apenas Um Sonho...? - Parte II

Não Esqueça de Ler antes a Parte I

- O que o demônio lhe prometeu em troca daquelas almas? Diga! – retirou a cabeça dela de dentro da tina de água.


- Na... Nada... Eu não fiz nada... – respondia com dificuldade. O rosto, outrora lindo, estava coberto de hematomas e arroxeado pela falta de ar – Sou inocente... Só queria ajudar...

- Ajudar a quem? Satanás? Pois era o único que você ajudava com seus atos libidinosos e suas maldições! Mas a água vai te purificar... – a afundou novamente, segurando seus cabelos e se divertindo com as bolhas que se formavam na superfície. 


***

- Acorda! Aqui não é nenhum hotel pra você poder ficar dormindo e relaxando!

A água fria a fez despertar do sonho e ela não sabia se agradecia ou maldizia, pois a realidade não era nem um pouco agradável. Encontrava-se amarrada a uma mesa de cerca de dois metros e meio, mãos e pés presos às pernas da mesma por cordas esticadas. Tudo lhe doía, e a posição incomoda de um X não ajudava em nada, pelo contrário. Com a mesa levemente inclinada seu corpo fazia um pouco de peso, que só não era maior devido à corda que prendia sua cintura firmemente. A nuca parecia que iria explodir.

- Quem é você? Há quanto tempo estou aqui? – tentou reconhecer a pessoa que a mantinha, mas com a sombra não pôde fazê-lo.

A risada fez sua espinha gelar. Parecia estar em um daqueles filmes de terror que tanto gostava de assistir. Seria um sonho? Olhou ao redor. Várias prateleiras com objetos estranhos e mais alguns maiores espalhados pelo cômodo. À esquerda algo chamou sua atenção. Sobre uma bancada de tom escuro um objeto com formato de pera e ponta afiada repousava. Tinha em sua extremidade mais fina algo semelhante a uma chave de dar corda em caixinhas de musica. Até poderia ver beleza nos arabescos que enfeitavam a peça se não estivesse mortificada pelo medo da situação. Aquele lugar parecia vindo de um livro de historia, capitulo de torturas medievais.

- A pera... É meu preferido também! – disse se aproximando do objeto, sem notar o olhar assustado de sua convidada especial. Segurou-o com certa emoção – Você introduz isso no acusado, segundo seu crime. Está vendo essa chavinha aqui encima? Essa parte você gira, fazendo com que o objeto se abra, rasgando com essa ponta qualquer coisa que esteja no caminho. Lindo, não é?

Os olhos da jovem se arregalavam. Queria gritar, mas estava paralisada. O homem continuou mostrando os brinquedinhos, algumas vezes demonstrando em seu corpo, causando-lhe ainda mais dor e desespero.

- Por que está fazendo isso comigo? – lágrimas escorriam de seus olhos negros.

- Bruxas como você não merecem estar nessa terra de Deus! – o homem caminhava lentamente ao redor dela – Venho te buscando há muito tempo. Vidas e vidas, você sempre foge de mim. Mas não mais!

Paloma tentava inutilmente se soltar das amarras que a mantinham grudada à mesa de tortura.

- Bruxa? Mas... O que pretende fazer comigo?

- Conseguir a confissão que me foi negada todo esse tempo, óbvio!

- Mas que confissão? O que diabos quer de mim? – gritava desesperada – Não sei do que está falando, eu nunca te vi na minha vida! Você é maluco!

Gregório caminhava de um lado a outro do pequeno aposento. Chamar de maluco é a primeira coisa que a vitima de um psicopata deveria evitar fazer, mas todo mundo sempre ignora essa regra. Aproximou-se de um instrumento reluzente e a jovem começou a tremer. Ele virou de frente para ela outra vez e começou a caminhar com um sorriso estranho.

- Sabe o que é isso? – Paloma balançou negativamente a cabeça, olhos cheios de água. Ele continuou – Isso é uma Bota Espanhola. Era usado pelos inquisidores do Santo Oficio para arrancar dos acusados tudo o que precisavam saber. Era um ótimo jeito de aquecer. – riu.

O nó da corda se desfez e entre gritos e tentativas de escapar o objeto foi encaixado no pé esquerdo da prisioneira. O homem, com ar sádico, acariciava o aparato lentamente, a mão se encaminhando cada vez mais pra perto da manivela de cabo amadeirado. O peso puxava a perna para baixo, e a mente da acusada não parava de amaldiçoar a gravidade.

- Esse é um artigo original, sabe? Encontrei em um site de compras de usados. Agora, você vai confessar ou terei de te mostrar como isso funciona?

- Confessar o que? Por Deus e pelos santos céus... – a voz era levada pelas lágrimas para fora de seu corpo – Não sei quem é você. Porque está fazendo isso comigo?

- Não use o santo nome de Deus em vão – disse pausadamente, a mão se apertando ao redor da manivela – Confesse seus pecados, feiticeira, conte-me quem foram seus cúmplices e talvez ainda possa sair daqui com vida e o perdão divino. Talvez...

- Mas que cúmplices? Do que diabos você tá falando? – a raiva começava a ganhar do medo – Você precisa de ajuda. Não pode sair por aí sequestrando pessoas e prendendo elas pras suas brincadeirinhas sádicas e perversões!

- Agora começamos a nos mostrar, não é? Falando de diabo, de perversões... Sabe, até prefiro que resista. Torna tudo muito mais interessante!

Deu a primeira volta na manivela. Os gritos e o som da junta sem óleo não poderiam ser ouvidos por ninguém, já que a cabana era afastada o suficiente. Insistiu em suas perguntas, mas continuava sem resposta. As gargalhadas se uniam ao agonizante som da vitima, que implorava por ajuda e misericórdia. O primeiro osso trincando e os urros da jovem, quase uma musica para o inquisidor.

- Sabe... Um dia ainda agradecerei ao Dr. Gagi pela ajuda que me deu. Se não fosse a sessão de hipnoterapia dele eu jamais me lembraria de quem fui. – acariciou o rosto dela – E também jamais te reconheceria... Luna... – ao ouvi-lo dizer aquele sobrenome seu corpo estremeceu. Era o mesmo terapeuta que a atendia todo final de semana – Eu tinha sonhos estranhos, um gosto anormal por objetos como esses e... Sonhos não podem te ferir, ele dizia... Podiam não me ferir, mas me guiavam. Eles me guiaram até você Luna, agora eu sei!

- Você... Você está perturbado... Está confuso... – o ato de falar era penoso a ela – Eu não sou essa Luna, meu nome é Paloma. Se você tirar essa coisa de mim e me tirar daqui poderemos conversar...

A resposta foi um tapa que arrancou sangue de seus lábios. Chorava e gritava. Precisava avisar alguém. Mas quem? Como? Lembrou-se do botão de pânico. Dr Gagi dava a todos seus pacientes mais graves um pequeno aparelho, semelhante a um alarme de carro. Sempre que o paciente estivesse entrando em uma crise poderia acioná-lo através daquele dispositivo, que contava com um sistema de monitoramento via satélite, um potente microfone – facilitando a verificação de riscos através de reconhecimento sonoro – e espaço para fones de ouvido. Graças a isso o terapeuta poderia conversar com o paciente e através do computador portátil verificar a localização exata do portador. Ela só precisava encontrar um jeito de acioná-lo. Foi aquele homem que a meteu nisso, seria ele que teria de tirá-la! Viu o algoz se afastar e depois caminhar até seu pé. Mais meia volta na manivela foi dada antes que ele voltasse atrás e retirasse a bota. A moça estava com fraturas múltiplas que doíam e latejavam de uma forma que jamais havia sonhado sentir.

- Vou buscar algo pra comer... Torturar você me deu fome. – puxou uma alavanca, voltando a mesa a seu estado horizontal, e saiu.

Aquela seria sua oportunidade. Não sabia bem o que faria, mas precisava fazer algo. Pensar. Era isso. Precisava pensar. Refez todo o caminho da manhã mentalmente. Vestiu-se, pegou o controle e colocou no bolso direito – um pequeno adendo de tecido costurado em todas suas roupas que não tinham bolso, para abrigar o aparato. Para alguns isso era um tipo de distúrbio obsessivo, mas para ela era sua maneira de manter a segurança. Era só alcançar e acionar... Só isso... Mas como o faria estando de mãos e pés atados? Pés... Era isso, ela estava com um dos pés solto, poderia tentar virar o corpo e com o peso do mesmo ativar o microfone. Se funcionasse estaria salva. Com uma dificuldade gigantesca e uma dor excruciante passou a perna livre pro outro lado, dando impulso para o corpo se virar como podia. Apesar de estar na horizontal, tinha sido presa muito esticada e isso tornava sua ideia quase impossível. A corda na cintura fazia a pele arder, sentia também que a cortaria ao meio, mas tinha que tentar. Revirou-se até o pequeno quadrado estar embaixo de seu peso. Sem duvida aquilo daria conta. Pelo menos era o que rezava para que acontecesse.

***

- Consultório do Dr Gagi, Carole falando... – a secretaria atendeu sem muito entusiasmo. O chefe tinha um chamado da natureza a atender e isso a obrigava a cuidar da linha dos loucos.

Sons estranhos do outro lado da linha. A garota se ajeita na cadeira, bufa e repete a saudação. O que chega a seus ouvidos a seguir faz com que largue tudo e corra até a porta do banheiro.

- Dr Gagi! Por Deus, o senhor tem de vir aqui!

O terapeuta corre, ainda ajeitando a roupa, reclamando de ter sido interrompido e logo compreende o motivo. Pega o telefone celular e disca os três números.

- Alô, é da policia?

***

- O que você está fazendo? – os nomes pelos quais ele a chamou enquanto ajeitava seu corpo sobre a mesa são impróprios para citação.

- Socorro! Alguém me ajuda, pelo amor de Deus! – gritava já sem saber o que mais poderia fazer. Não tinha certeza se seu plano havia funcionado, e nem tinha como saber a menos que alguém a salvasse daquele inferno. Urrou enquanto ele amarrava seu pé, sem nenhum tipo de cuidado, novamente à mesa.

- Cala a boca! – se pôs a estrangulá-la até que se calasse, deixando-a no limite da inconsciência – Falar o que deve não quer, mas gritar feito uma... Nem sei que nome dar a esse tipo de abominação! – disse dando-lhe uma bofetada – Mas está tudo bem... Seres como você merecem tudo isso e mais... E eu vou te contar um segredinho. O Bispo não está mais aqui pra te proteger... Eu posso fazer com você o que eu quiser!

Afastou-se gargalhando. Paloma não conseguia ainda entender o que estava acontecendo. Quem era aquele homem? Já sabia que era um dos pacientes de seu psicólogo, e puxando pela memória sabia que o rosto de seu raptor não lhe era de todo estranho... Já o tinha visto algumas vezes na sala de espera e na porta da livraria que tinha na sua rua, mas jamais se havia fixado dele. Por que ele se havia fixado nela? Como se lesse seus pensamentos ele disse.

- Sabe... Depois da sessão de hipnose eu lembrei tudo. Lembrei que na outra vida era um caçador de bruxas, lembrei que manchei minha honra por causa de uma maldita que não confessou e eu menti dizendo que sim, pois precisava mandá-la para o inferno.  – se aproximou do rosto dela – Sabe... Por isso existe o inferno. Para mandar os impuros! E os impuros se escondem em diversas faces, inclusive em rostinhos como o seu. Nunca fui do tipo religioso, mas eu entendi o motivo! Eu tinha vergonha de mim mesmo, não me achava digno de Deus pelo pecado que cometi. Você me fez amargar todo esse tempo entre sofrimentos atrozes e dores na alma, mas isso acabou! Basta você confessar e tudo acaba! Confesse! – gritou esmurrando a mesa.

- Eu... Eu tenho que confessar... Tenho que confessar algo... – disse com dificuldade – Pode se aproximar? Não consigo falar alto...

Finalmente o momento que ele havia esperado há tanto tempo chegara. Luna, a mulher que povoou seus sonhos e seus pesadelos, iria confessar. Deixou que seu ouvido fosse pra bem perto da boca da garota.

- Você... Você me pegou perto da minha casa... E... Tenho que confessar que... – respirou fundo – Você É Maluco! – berrou, fazendo-o se afastar no susto. – Eu não sou essa tal de Luna, me deixa ir embora! – debatia-se outra vez, chorando pela dor do pé quebrado.

Massageando a orelha, outra vez foi para junto de sua prisioneira. Se ela não queria confessar, tudo bem. Fizera isso uma vez, poderia repetir. Agora tinha virado questão de honra. Não dava mais a mínima. Pegou um funil e um galão de seis litros.

- Agora chegou a hora de você ser purificada pela água.

Sem se importar com os protestos enfiou o objeto na boca da jovem, forçando-a a beber o liquido. Via o corpo se contorcendo, mas não era um problema. Finalizada a primeira parte deu inicio à segunda: Com um pedaço de mangueira dava fortes pancadas no abdome dela, gritando palavras em latim que havia decorado do livro e provavelmente não sabia o significado. A água começava a sair por todas as vias possíveis, porém em uma coloração avermelhada. A porta foi arrebentada e pessoas vestidas de branco adentraram o local, com uma rapidez impressionante. Dois homens altos e fortes seguraram o algoz, enquanto uma equipe inteira tentava avaliar os danos da vitima.

- Não! Soltem-me, eu ordeno! Tenho permissão do Bispo para fazer isso! Me larguem! – se debatia enquanto os enfermeiros o carregavam para o camburão – Não importa quantas vidas me custe Luna, eu terei sua confissão! Me ouviu? Eu terei sua confissão! – gritava.

- Os sinais vitais estão caindo... Estamos perdendo a paciente... – disse uma das ajudantes, correndo até a ambulância atrás do aparelho de ressuscitação.

Paloma mal podia ouvir os paramédicos enquanto a soltavam. Mesmo com a vista baça conseguiu ver as silhuetas que se afastavam com o agressor, levando-o para o hospital psiquiátrico mais próximo. A ameaça ainda pulsava em sua mente e enquanto seus olhos se fechavam, em algum lugar de sua alma, uma adolescente – de vibrantes olhos cor de musgo – se encolhia amedrontada sabendo que, por toda a eternidade, paz era um luxo ao qual jamais poderia se dar.

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