Pages

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A Primeira Maria



Fui sua primeira Maria... A primeira das sete... Era uma menina pura e inocente até ele me encontrar. Me lembro bem da lua cheia no céu, a água lavando a margem do rio Parnaíba... Uma noite quente para aquela época do ano, por isso decidi tomar um ar.

-Tome cuidado minha filha, que Crispim ainda tá a solta...

Crispim... Nunca acreditei muito nessas coisas. Crispim para mim era aquele menino franzino que morava perto do rio, que cresceu comigo e de um dia para o outro simplesmente desapareceu. Jamais imaginaria um monstro chamado assim. Todos disseram pra D. Antonina que esse nome ia dar problema, mas ela não escutou. Nunca escutava ninguém, igual a mim... Morreu com uma ossada na cabeça, assim contam. Mas não estou aqui para contar a morte dela e sim a minha.

O dia havia passado tranquilo, tinha cumprido todas as minhas obrigações – cuidar de meus irmãos menores enquanto pai e mãe trabalhavam por nosso sustento; lavar roupa; fazer comida; todas as coisas que uma mocinha prendada devia saber fazer – e já começava a anoitecer. Quando chegaram, mãe e pai me liberaram dos afazeres, disseram que poderia já descansar, então pedi licença para tomar uma fresca. Como sempre minha mãe me advertiu que tomasse cuidado, mas não a ouvi. Já conhecia aquela ladainha de cor e salteado... Pra que prestar atenção?

Caminhei por algumas horas até chegar à beira do rio. Era época de cheia e, apesar das fortes chuvas ao longo dos últimos dias, o céu estava limpo e a lua convidativa. A água dançava ao sabor dos ventos e me convidava a um refrescante mergulho. Foi quando o vi. Crispim estava lá, com ar abatido e solitário, abraçado às próprias pernas, encarando o vazio. Sua cabeça parecia ainda mais comprida do que costumava me recordar, mas pensei que era apenas uma ilusão causada pela noite em minhas retinas cansadas.

- Crispim? Por onde você andou? – não me respondeu. Sempre fora um pouco lerdo, pelo que me lembro, mas jamais deixava de dar atenção a quem lhe falasse. Estranhei e me aproximei mais – Crispim?

Meus passos eram lentos e indecisos. Meu amigo permanecia quieto, olhando a imensidão da água à sua frente, alheio a tudo, como se nada mais existisse a não ser aquele maravilhoso espelho liquido. Pensei em correr para longe, algo em mim implorava por isso, mas não poderia deixá-lo ali. A curiosidade de saber o que aconteceu em todo esse tempo, a saudade do amigo de jogos de infância e uma força inexplicável, que me atraía como um ímã, não me permitiam desviar o caminho. Com o coração aos pulos no peito, e as palavras de minha mãe ecoando nos ouvidos, fui até o garoto e toquei seu ombro. A camisa regata, suja e meio rasgada, deixava os braços descobertos, então pude sentir claramente o gelo de sua pele. Nem assim Crispim se mexeu. Era como quando brincávamos de estátua, com a diferença que agora ele estava frio e imóvel, sem nada que denunciasse vida, e isso me assustou.

-Cris-Crispim...? – a voz quase não saiu de meus lábios.

Meu peito arfou, mas eu não sentia que respirava. Era como se todo o ar do mundo fosse insuficiente, ou não chegasse até meus pulmões. Lentamente, como uma marionete, sua cabeça foi se virando em minha direção. O que vi deixou gravado o horror em minha vista. Sua cabeça estava realmente mais alongada, seus olhos eram duas bolas negras sem brilho algum e a boca estava arroxeada. A pele, rugosa, tinha uma coloração azul. Tive vontade de gritar, mas minha garganta se fechou. Com grande esforço comandei meu corpo o suficiente para que meus pés fizessem o caminho até em casa, mas infelizmente não tive tempo suficiente para tal. Como garra de ferro sua mão envolveu meu tornozelo, puxando com força e me derrubando.

- Tanto tempo nessas águas... Tanto esperei por esse maldito momento e finalmente ele chegou... – sua voz era metálica e distante, como se sua boca se mexesse mas o som não viesse dela.

- O que vai fazer? Crispim... Sou eu... Maria... – meu corpo inteiro tremia. Não fazia a mais mínima ideia do que se passava em sua mente, mas seus olhos sem viço, presos em mim, me davam calafrios e terríveis noções de qual seria meu destino.

– Eu sei. – um sorriso se abriu e pude ver uma fileira de inúmeros dentes afiados. Aquele não era o garoto que tantas vezes me levara para ver o pôr do sol perto do rio, ou roubar frutas no quintal do vizinho. Era algo diferente, algo que não sabia explicar. – E é por isso que te quero tanto...

Uma onda de sentimentos diversos me tomou o corpo. Medo, nojo, repulsa, desespero, ansiedade, tudo me corroia e não sabia como me proteger. Estava paralisada por algum tipo de força maior. Fechei os olhos e senti o roçar glacial da pele de Crispim na minha, subindo desde minhas pernas até estar com seu corpo por completo sobre o meu. Senti a ponta de seu nariz fino encostando-se a meu pescoço e ouvi a longa fungada que deu, talvez querendo perceber algo em mim.

– Assim disse minha senhora em sua praga de ultima hora: Sete Marias irás devorar, sete anjos castos para a maldição quebrar... – ouvi um som leve, como se ele sorrisse – De todas as sete serás a primeira, bonita Maria, a menina faceira. De tranças tão doces, de olhos de mel, um corpo bem feito, pedaço do céu, a alma tão pura que chego a ficar quase com pena de ao inferno levar.

Sentia os dedos ossudos e congelados brincando com meus cabelos enquanto falava, e o bafo pútrido de morte se espalhando no ar. Novamente tive uma enorme vontade de gritar, mas antes que o pudesse fazer tive minhas cordas vocais arrancadas – junto com toda e qualquer coisa que pudesse estar no caminho – pela violência de suas mordidas. Minha força de vontade, minha esperança e minha fé morreram naquele instante, junto com meu corpo. A única coisa que sobreviveu foi a maldição... Ainda restavam seis e agora eu tinha minha parte nela... Como a primeira Maria, minha função era guiar as outras até seu trágico destino... A partir desse momento seria a Maria de Branco do Parnaíba... A eterna primeira Maria de Crispim, o Cabeça de Cuia*...


*Cabeça de Cuia é uma lenda Piauiense. Conta-se que Crispim era um jovem garoto que morava nas margens do rio Parnaíba e era de família muito pobre. Certo dia, chegando para almoço, sua mãe lhe serviu, como de costume, uma sopa rala, com ossos, já que faltava carne na sua casa frequentemente. Nesse dia ele se revoltou, e no meio da discussão com sua mãe, atirou o osso contra ela, atingindo-a na cabeça e matando-a. Antes de morrer sua mãe lhe amaldiçoou a ficar vagando no rio e com a cabeça enorme no formato de uma cuia, que vagaria dia e noite e só se libertaria da maldição após devorar sete virgens, de nome Maria. Com a maldição, Crispim enlouquecera, numa mistura de medo e ódio, e correu ao rio Parnaíba, onde se afogou. Seu corpo nunca foi encontrado e, até hoje, as pessoas mais antigas proíbem suas filhas virgens de nome Maria de lavarem roupa ou se banharem nas épocas de cheia do rio. Alguns moradores da região afirmam que o Cabeça de Cuia, além de procurar as virgens, assassina os banhistas do rio e tenta virar embarcações. Outros também asseguram que Crispim ou, o Cabeça de Cuia, procura as mulheres por achar que elas, na verdade, são sua mãe, que veio ao rio Parnaíba para lhe perdoar. Mas, ao se aproximar, e se deparar com outra mulher, ele se irrita novamente e acaba por matar as mulheres.


Nenhum comentário:

Postar um comentário