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sexta-feira, 7 de junho de 2013

O perfume da morte


Quase onze horas da noite. Edvaldo estava sentado no meio fio da calçada, bebendo umas e outras, uma vontade louca de esvaziar a bexiga e o saco, tudo junto. Não lembrava a última vez que vira uma mulher nua, talvez só em revista. Estava cansado de fazer aquilo sozinho. Cansado. Entornou mais um gole; a cachaça desceu raspando.
Foi nesse momento que a viu.
Era uma mulher. Gostosa, jovem, cabelos longos. Passou de bicicleta, pedalando rápido, olhando para os lados, desconfiada. Seu olhar bateu com o Edvaldo, e então ela pedalou mais forte e mais rápido.
Edvaldo sorriu de canto de boca. Entornou o último gole da malvada, subiu na sua própria bicicleta, que estava encostada ao muro, e começou a pedalar.

Se tinha uma coisa em que Edvaldo era bom era em pedalar. Parecia que as rodas da bicicleta eram como suas próprias pernas. Nem a cachaça afetava seus sentidos quando subia numa belezinha daquelas. Mas agora Edvaldo queria subir em outra belezinha.
Tá certo que sua magrela não era lá essas coisas. Era roubada e já estava enferrujada quando passou de dono. Edvaldo podia até ser um ladrão pé de chinelo, mas o antigo dono daquela bicicleta também era. Era só o mundo dividindo as coisas, isso que era. Edvaldo não tinha uma bicicleta e precisava de uma. Aquele otário não precisava dela tanto quanto ele.
Edvaldo pedalou forte, o vento batendo com força no seu rosto endurecido, os pés subindo e descendo freneticamente. Conseguia ver, ao longe, a silhueta da garota. Era esguia e deliciosa. Os cabelos se agitavam ao vento. Ela vestia branco, como uma noiva. Sua.
Pedalou mais forte. Pedalou com tamanha força e vontade que sentiu os joelhos endurecerem e as bochechas geladas por causa do vento frio. Era bom, acordava-o para o que queria fazer. O negócio lá embaixo até subiu quando ele finalmente alcançou a mulher.
Ela percebeu. Olhou para trás, assustada, os olhos arregalados de medo. Edvaldo riu e ficou ainda mais excitado. Era só emparelhar com ela e enfiar a bicicleta; ela com certeza ficaria apavorada, cairia e então ele cairia sobre ela. Faria tudo ali na rua mesmo. Não precisava de muito tempo, só queria se aliviar.
Edvaldo pedalou mais forte.
Só não esperava que a garota também soubesse fazer isso.
Ela girou os pés mais rápido nos pedais, quase desesperadamente, conseguindo ganhar alguma distância de Edvaldo de novo. A noite era tão silenciosa que Edvaldo conseguia ouvir a sua própria respiração agitada, mas ouvia também a dela, o que significava que era só uma questão de tempo até que ela se cansasse e perdesse a batalha. Isso só tornaria a vitória ainda mais doce, como seria a metida quando ele a alcançasse.
A garota virou numa ruela escura e vazia. Pronto, aí estava, perfeito. Ele só precisava encurralá-la e tudo seria encoberto pelas sombras daquela rua vazia. Edvaldo sentia o cheiro enjoado e pútrido do porto, mas nem aquilo estragaria sua noite. Na verdade, estava tão alucinado com a antecipação do ato que nem conseguia sentir aquele cheiro, pois já imaginava como aquela mulher cheiraria. Seu perfume deveria ser doce, perfume de mulher, de fêmea. Aquela vagabunda já era sua.
Quase caiu quando viu a mulher parada em cima da bicicleta, encarando-o com um sorriso cruel e delirante no seu rosto de boneca. Ela estava parada, bem no meio do cruzamento com a avenida portuária, vazia àquela hora da noite. Por que estaria parada? Era uma vagabunda mesmo, queria Edvaldo, queria um homem no meio das pernas, só poderia ser isso.
Edvaldo acelerou, pedalando convulsivamente.
Aconteceu num piscar de olhos.
Num segundo ela era a garota, linda e gostosa, vestida de branco. No outro, era uma caveira sem olhos, coberta de preto.
Edvaldo gritou e tentou parar.
Já era tarde.
A garota sumiu. A caveira sumiu.
Tudo o que Edvaldo conseguiu ver no lugar foram os dois faróis enormes e amarelos de um caminhão na pista.

E o ar cheirava agora a morte.

Nota da autora:  A inspiração desse conto veio desse quadrinho incrível que encontrei outro dia na internet. "The Ride", de Rodolphe Guenoden. Créditos ao autor. 

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