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quarta-feira, 5 de junho de 2013

Labirinto - Parte V

Não esqueça de ler antes: Partes I, II, III e IV


– Ela te entregou? – perguntou Diná, incrédula.

– Ela estava com raiva de mim, pelo que fiz...  – baixou os olhos e tentou controlar a tristeza. Logo o sol cairia do firmamento e teriam de voltar a caminhar. – não a culpo.

– Mas e sua filha? – os olhinhos brilhavam de curiosidade.

– Até onde sei deve estar grande e bonita. Ou pelo menos espero que sim...

Sentiu a delicada mãozinha  acariciando suas costas. Sorriu e abraçou aquela criança. O que ela tinha de tão especial? Não conseguia saber por que, mas se sentia muito bem perto dela. Como se finalmente algo estivesse completo dentro de si. Os primeiros tons de laranja apareceram no céu. Era hora de voltar a fugir. Estavam já a dias nisso. Diná muitas vezes queria desistir, mas Ananda não permitia. Se aquela criança tinha alguma chance de sair viva de lá, iria!

Ainda tinha pesadelos com aquela coisa que vira noites antes... O que quer que fosse aquilo, não era humano, mas ao mesmo tempo não era completamente um monstro. Havia algo a mais. Tentava decifrar aquele olhar que trocaram por um milésimo de segundo. Se não soubesse que ele apenas se movia pela fome até poderia dizer que as tinha salvado do homem mau.

– Você nunca, sequer por um instante, conseguiu chegar perto do caminho certo? – a pequena perguntou. Sua voz era um misto de aborrecimento e dor.

– Não que eu saiba... – riu – mas acho que com você por perto, minha sorte irá mudar.

Caminharam por horas a fio, observando cada esquina, cada ponto de parada. Não sabiam se mais alguém tinha conseguido sobreviver dentro daquele labirinto de espinhos, mas pensando que Ananda e o velho pedófilo estavam ali, era bem possível que mais gente estivesse perdida.

O lugar era repleto de encruzilhadas e becos sem saída. Ananda e Diná faziam o possível para não se verem presas em um. A maior sempre ia à frente, para assegurar-se de que nada estava errado, e por algum tempo conseguiram evitar a fera que as farejava em meio às plantas.

Tempos depois, o que a menor acreditava ser por volta de três semanas, estavam comendo descansadas – já que há muito tempo não tinham noticias de ninguém além delas mesmas – voltaram a ouvir o som do animal se aproximando. Estavam perto do amanhecer, mas ainda não o suficiente para estar em segurança.  Isso poderia ser um problema. Tinham de pensar rápido, e o fizeram. Deixaram para trás carne e tudo o que pudesse atrasá-las, menos água, e correram como loucas na direção oposta aos ganidos, mas era como se não adiantasse. Rapidamente eles foram aumentando em seus ouvidos até tornarem-se insuportáveis. As duas continuavam correndo, mas dessa vez não foram tão atentas e acabaram presas em um beco sem saída. Dessa vez não tinha buraco na cerca viva e nem nada que pudesse ajuda-las a escapar, como antes... E os passos às suas costas anunciavam: Aquilo estava próximo.

Reunindo toda a coragem que precisava, pois não queria morrer sem encarar seu algoz, Ananda virou-se para encarar os olhos do ser do qual faria parte em poucos minutos, e já conseguia imaginar a agonia de ser digerida viva, passando pelos sucos gástricos do estomago dele. Seria assim? Ou ele teria ao menos a misericórdia de matá-la primeiro? Foi quando seus olhos se fixaram na cena que se descortinava ante eles e seu corpo se retesou por completo, não conseguindo esboçar nenhuma outra reação a não ser dizer.

– Santa mãe dos céus... Diná... Não...

A vista estava nublada por lágrimas, mas, apesar da vontade, as pernas não se moviam. A pequena Diná se encontrava de pé, a poucos centímetros da criatura, como se algo lhe chamasse imensamente a atenção. Tinha o bracinho fino estendido na direção dele, na intenção de tocar-lhe com os dedos curtos .

– Você é... – a criança disse antes que seu diminuto corpo fosse atirado ao chão. Mal pôde ouvir os gritos de Ananda que, ainda paralisada, não conseguia se aproximar. Era como se um choque de milhões de volts tivesse passado por seu físico no exato momento que sua pele encontrou a dele, e sentia sua mente flutuar... Agora podia ver tudo claramente... Agora podia ver o que ele era. Ou melhor... Quem.


[Continua]

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