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quarta-feira, 26 de junho de 2013

Apenas Um Sonho...? - Parte I





A luz fraca do fim da tarde passava por entre as copas das árvores. Uma jovem de longos cachos acobreados passeava pela floresta, em seu traje campesino, recolhendo algumas flores e ervas. Um som estranho chegou até seus ouvidos e os olhos verdes percorreram o entorno, não encontrando nada de diferente. Cantarolava uma antiga música, ensinada por sua avó há muitos anos, enquanto colhia o que precisava para enfeitar e perfumar sua pequena cabana ao pé da montanha.
- Ali está ela. – a voz era baixa e um pouco rouca – Vê? Está recolhendo material para algum de seus hediondos feitiços.
- Devemos detê-la em nome do bom Deus, nosso Senhor! – o oficial estreitava os olhos para a figura esguia que balançava levemente ao som de sua própria canção. Parecia um coiote visualizando a presa, com olhos famintos.
***
- E tudo o que aconteceu a seguir foi muito rápido. O homem pegou a moça pelos cabelos quando ela se distraiu com o aroma do alecrim e a arrastou pelas árvores. A outra moça, que tinha dedurado ela, estava gargalhando e falava uma série de coisas ruins. Quer dizer, eu sabia que aquela mulher que levavam era eu, mas ao mesmo tempo estava assistindo tudo como um filme desses de terror! Foi horrível.
- Foi só um sonho Paloma. Sonhos não podem te ferir.
A jovem suspirou. O analista tinha razão, sonhos não podem nos ferir. Passou a mão pelos cabelos loiros e torceu os lábios. Sempre soube que era esquisita, mas quando começou a ter aqueles sonhos teve medo de ser louca. Não eram apenas sonhos... Era como se visse, revivesse, tudo aquilo mesmo quando acordada. Lembrava com assombro do dia em que caminhando pela rua se viu arder em chamas, sentindo a pele se consumir e a carne desprender dos ossos, se respirasse fundo podia jurar que o cheiro que exalava de seu corpo era de queimado. Por sorte estava com uma amiga que a ajudou a voltar a si rapidamente, antes que seus apelos de socorro e sua angustia chegassem até os demais transeuntes.  Claro que ainda não tinha falado sobre isso com o doutor, queria se sentir mais segura antes de fazê-lo, mas as sessões estavam realmente ajudando. Já não tinha tanto medo quando acordava pela manhã, suada e cansada de correr depois de fugir do tal homem. Aquele sonho que a atormentava há tanto tempo era como um quebra cabeças se formando - cada dia uma peça nova aparecia. Caminhou até seu carro e dirigiu o curto caminho que a levaria para casa.
Ao chegar foi logo arrancando os sapatos e correndo para a rede no jardim. Adorava estar entre as flores e árvores, por isso escolheu aquele lugar. Deixou-se abandonar no delicado balanço do tecido trançado, com o aroma das íris acariciando seus sentidos.
- Luna!
Ouviu um chamado distante. Aquele nome lhe era familiar, apesar de não conhecer ninguém que atendesse por ele. Ouviu outra vez. Sentiu um desejo irresistível de seguir aquela voz. Levantou-se e procurou, conforme ouvia aquele som abafado, até perceber que vinha do meio das árvores. Quando comprou o terreno disseram que aquele pequeno bosque tinha de ser preservado – o que a convenceu que aquele deveria ser seu lar! Respirou fundo e entrou no recanto verde, ainda inexplorado por ela, seguindo os gritos que ficavam cada vez mais altos.
- Luna, até que enfim os céus te enviaram! – gritou ao sentir a mão em seu ombro. Olhou para trás e viu uma garota sardenta de grandes olhos acinzentados – Minha avó está cada vez pior e simplesmente não conseguia encontrar-te. Pensei que já a tinham pegado.
Antes que pudesse compreender algo foi levada ainda mais para o meio das arvores, que começavam a ficar menos espaçadas, como numa floresta. Os galhos machucavam sua pele mas a outra continuava puxando sua mão, ignorando os pedidos de que esperasse. Pararam diante de uma casa de palha, parecia algo improvisado.
- Eu trouxe tudo o que me pediu da outra vez... Está tudo aqui, mas não me lembro de como tinha feito, então eu precisava te chamar. Sei que me disse que devíamos ser cuidadosas, mas... – a menina caminhava de um lado a outro, nervosa e chorando.
- Desculpe, mas não sei do que está falando. Não sei quem é você e sem duvida me confundiu com outra pessoa.
- Luna...
- Eu não me chamo Luna. Realmente tem algum engano aqui.
Tentou se afastar, mas ouviu a tosse de uma senhora já de bastante idade. Virou-se e sobre a mesinha notou diversas ervas e objetos.  Era como se a atraíssem. Em questão de segundos estava parada em frente à pequena mesa de madeira tosca, as mãos se movendo sozinhas, preparando algo. Queria parar, mas seu corpo não lhe obedecia. Quando terminou deu à mocinha o liquido verde espesso, que sem demora o deu para a avó.
- Obrigada Luna, não tenho maneiras de agradecer o que acaba de fazer. Sei que te arriscou ao máximo em vir aqui... – seus olhos estavam cheios de lagrimas.
- Eu... Não sei do que ou de quem fala, nem o que acontece aqui... Não sou essa tal Luna. Meu nome é...
- PALOMA!!! Loma! Cadê você? – os gritos vinham de trás, da direção de sua casa.
Reconheceu a voz depois de alguns segundos, era sua amiga Lucia. Saiu da casa e virou-se de costas quase sem nem se despedir. Deus dois passos e parou. Sentiu vontade de dar uma ultima vista naquela pequena choça, mas ao girar a cabeça levou um susto: não havia nada ali. A respiração acelerou. Não poderia ter sumido assim sem mais. Ela não tinha dado mais que um par de passadas, era fisicamente impossível algo assim. Deu um grito ao sentir a mão que pousava em seu ombro.
- Calma menina, parece que viu um fantasma... – Lucia a olhava com estranheza.
- Acho que estou ficando louca. – se abraçou à amiga com certo desespero. Seguiram o caminho de volta enquanto Paloma contava tudo o que acontecera.
- Eu já li muito sobre isso. Chamam de sonambulismo! A pessoa ta dormindo e começa a andar e fazer coisas, como se estivesse acordada. – gesticulava abertamente – E então acorda como se nada estivesse acontecendo... Normalmente as pessoas não lembram, mas vai que você é um tipo diferente de sonâmbulo? Um caso a ser estudado pela medicina?
- Ai, não se empolga Lu! – ambas riram. Preparavam um chá para tomar com biscoitos. – E se eu for maluca? Sei lá, já ouvi muito falar que a pessoa começou assim, tipo, vendo coisas e terminou no hospício.
- Credo! Vira essa boca pra lá! – Lucia bateu no armário de madeira três vezes – Você não tá doida! Só tá meio estressada. Esses sonhos que você tem te deixa apreensiva, daí sua mente tenta arrumar alguns subterfúgios pra tudo isso... – mexia os dedos como alguém que faz mágica.
- Subterfúgios? Tá brincando com o dicionário outra vez?
- Uma palavra nova por dia! É meu projeto 365 desse ano. – Ambas gargalharam.
***
- Confesse! – o homem gritava agarrado aos cabelos da ruiva.

- Não fui eu... – escapava de seus lábios inchados – Juro que não... Fiz nada errado...
- Você jura? Quem jura mente! – a atirou de encontro à parede outra vez, fazendo com que mais dois dentes voassem – Seres como você mereciam mais do que esse lugar! – aproximou-se dela e sorriu ao ver o sangue que escorria livre de sua boca – Infelizmente o bispo ordena que ninguém seja torturado a ponto de perder membros ou morrer. Mas ele não disse nada sobre eventualmente privar algumas coisas... Como ar... – apertou firme, mas rapidamente, o delicado pescoço – Ou sobre... Purificar seu corpo. Acho que o demônio não vai se incomodar de dividi-la comigo.
Ria como um maníaco enquanto esfregava a mão pelo rosto e colo, doloridos e arroxeados, da garota, se deliciando com seu medo e desespero. Sentia o prazer e o desejo crescendo ao mesmo tempo em que reduzia as roupas dela a farrapos.  Os poucos guardas que ficaram do lado de fora se deleitavam com os sons vindos do interior das portas de carvalho.
***
- Acorda! Ta maluca?
Paloma debatia-se, em desespero, gritando que não e foi necessário mais que um par de tapas e outro de chacoalhões para que pudesse voltar a si. Ao abrir os olhos, ainda sem ar, viu um homem com ar de poucos amigos. Ricardo... Verdade... O tinha conhecido na noite anterior e foram para casa dele depois de alguns drinks.
- Desculpe, eu... Eu tive um pesadelo... – estava atordoada.
- É eu notei quando você partiu pra cima de mim e começou a me arranhar todo e me bater. Olha, o banheiro é naquela porta ali e a saída é a do fim do corredor. De gente maluca eu to é fugindo!
Levantou-se da cama e foi para a cozinha. Paloma ficou sentada, abraçada ao lençol, mal podendo conter as lagrimas. Aqueles malditos sonhos estavam acabando com sua vida! Humilhada, recolheu suas roupas e se vestiu. Queria sumir dali o mais rápido que pudesse. Sem nem ser vista partiu para sua casa, onde entrou no banho e chorou amargamente. Esmurrou a parede até as mãos sangrarem. Estava com ódio. Aquilo tinha que parar! Colocou o primeiro vestido que encontrou no armário, fez um curativo rápido nas feridas, e ganhou as ruas vazias. Gostava de morar ali. Era tranquilo e quieto. Sem vizinhos chatos para irritar. O som da sandália batendo no pé dava ritmo a sua marcha. Já tinha ligado para o psicólogo e em minutos o veria para pedir a sessão de hipnose que ele havia sugerido. Fosse como fosse aquilo teria um fim, e esse dia ficaria marcado para sempre em sua memória. Era nisso que acreditava e era a isso que se agarrava.
Paloma estava tão perdida em suas próprias resoluções que não viu o apressado homem de óculos que vinha da direção oposta à sua, igualmente absorto. Chocaram-se e os livros que ele trazia voaram, espalhando-se pela calçada.
- Perdão, eu realmente não queria... – disse enquanto o ajudava a recolher tudo – Malleus Maleficarum... – sussurrou ao ler a capa de um dos exemplares mais grossos, que foi brutalmente tomado de suas mãos.
- Não sabe que é falta de educação mexer no que é dos outros? – o rapaz falou, alterado, perdendo a voz e o senso de direção ao olhar para aquele par de olhos negros.
A moça ergueu as mãos como em sinal de paz e saiu andando novamente, em direção ao carro. Deixava o veiculo sempre a alguma distância de casa para se obrigar a uma pequena caminhada, na ida e na volta, já que raramente se exercitava. Maluco. De nada para você, pensou. Estava de frente para a porta do motorista, prestes a apertar o botão e destravá-la quando sentiu a pancada na nuca e tudo escureceu.
*** 

[Continua]

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