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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Volume II


Para meus amigos escritores...
Às vezes bate aquela crise criativa né?
Momento tenso na vida de todos!
Feliz dia do trabalho...

– Preciso escrever, preciso escrever, PRECISO ESCREVER!!! - cada vez mais e mais Carolina repetia isso e a cada palavra a voz crescia, até ser apenas um grito agudo a rasgar as cordas vocais. O desespero da falta de idéias lhe desgastava e feria no mais íntimo.





‘Flores mortas de um jardim abandonado’, o trabalho de estreia de Carolina Benthan, é o mais comentado do momento. Os críticos tem sido bondosos, e isso tem feito muito feliz a autora, que a pouco tempo era desconhecida. Tanto que, segundo fontes de sua editora, já pensa lançar a continuação dessa belíssima história de amor. A obra ainda não tem título divulgado...





O barulho da explosão causada pelo choque do cinzeiro de pedra e o vidro do televisor é ensurdecedor e as faíscas voam para todos os lados. Pelo menos a maldita apresentadora de voz estridente e sorriso falso havia se calado. Buscou o objeto atirado – tão necessário naquele momento, já que a cinza do cigarro se recusava a continuar brincando de equilibrista – e o colocou encima da mesa de jantar. Passeou os dedos pelos entalhes do mogno, se detendo no tampo para tamborilar. A editora já tinha divulgado um segundo livro. Com permissão de quem? Não tinha sequer uma linha escrita! Idéias, era disso que precisava. Mas como faria? Tudo que conhecia sobre o amor fora tomado dos antigos diários de sua falecida mãe, exatamente a fonte de seu grande sucesso, mas eles tinham sumido.
Foi atrás de mais uma dose de uísque, a qual virou num gole só, e foi para a cama. Estava cansada demais para pensar. “Amanhã será um novo dia” disse para si, e se entregou a Morfeu.
***
Acordou empapada em suor, se limpando desesperadamente. Demorou alguns minutos até perceber que o que a recobria não era sangue. Respirou fundo e riu da própria bobagem.

– Foi só um sonho, sua tonta – repetia para si mesma enquanto se espreguiçava e caminhava de encontro a mais uma dose de bebida.
Sentou-se em frente à maquina de escrever – nem se lembrava o porque de ainda usar aquilo. Talvez fosse a sensação de nostalgia que aquela velharia trazia, talvez fosse só por ser bonito escrever assim...
– Ideias malditas! Por que não vem até mim? – gritou com a máquina, como se ela fosse a responsável por sua desgraça.
Levantou. Não suportava mais aquela ausência de palavras em sua cabeça. Caminhava de um lado a outro. Tentou se lembrar de onde terminara o livro anterior, mas nada vinha. Era normal um autor não recordar da própria obra? Mas claro Ela já tinha escrito milhares de textos, nada mais natural do que não recordar algo deles. Foi até a estante e pegou um exemplar. Sua letra parecia tão diferente na dedicatória... Balançou a cabeça. Só podia estar ficando louca. Estava dedicado à sua irmã. Aquela doida ainda não tinha pegado. Folheou até o fim.
E essa foi a última carta que recebi
– Credo! Eu escrevi esse final? – perguntou indignada – Como as pessoas ainda podem gostar disso? – o telefone tocou, mas algo dentro dela dizia para não atender – Tirei o dia para descansar! – disse para o aparelho.
“Oi, aqui é a Carol. Se você esta falando comigo agora eu sinto muito... Eu não to em casa e isso é só uma gravação. Deixa seus xingamentos e recado após o sinal. Beijos!”
– Como minha voz é feia... – comentou enquanto ouvia a secretária eletrônica. Percebeu que nunca tinha parado para prestar atenção em como era sua voz aos ouvidos alheios.
Oi Caca, é a The. Olha, desculpe não ter ido ao lançamento tá? Atende aí vai... Você não pode me odiar pra sempre por uma bobagem dessas... – Pausa – Ou talvez possa. Bom, você tem meu telefone. Me liga!
Bufou. Estava cansada de ficar em casa mas, por algum motivo, ir para a rua era assustador. Como se algo muito terrível pudesse acontecer. Stress, sem duvida! Não podia esquecer-se de chamar o editor de alguns nomes muito feios por isso. Sentou para escrever outra vez. Ensaiou uma ou duas frases, mas desistiu de todas. Quase podia ver as letras fugindo a gargalhar. Teve ódio delas! Queria matar todas as palavras do mundo. Melhor! Queria matar todos os que liam suas palavras... Caminhou até a janela. Estava tensa, tremendo. Pegou caneta e papel na mesinha do telefone. De repente o problema era o objeto, e não sua cabeça. Buscou mais uma dose de bebida, e aspirinas, para a terrível dor de cabeça que teria em breve, e deitou na cama para escrever, deixando a bebida e o remédio junto ao abajur e os instrumentos de trabalho no colo. A mão começou a correr pela folha como se tivesse vida própria. Se acreditasse nessas coisas até diria que psicografava! Depois de encher três páginas resolveu ler tudo. Tremeu quando seus olhos tocaram a folha. Só havia uma coisa escrita, repetidas vezes... “Farsa!




Com um grito jogou tudo ao chão. A respiração agora estava ofegante. Que tipo de brincadeira era aquela? Olhou para o criado mudo e o tom quase dourado apoiado sobre ele. Moveu as mãos e o agarrou por preciosos segundos, antes de ver como o uísque voava em câmera lenta junto com o copo, espalhando gotículas por todo o caminho até a porta. Tinha que se manter firme, com certeza era algum tipo de alucinação. Estava bêbada, era isso... Nada mais... Só podia ser! O coração – DJ da balada interna – tocava sua batida frenética, fazendo o cérebro rodar. O engraçado de tudo era que o estômago ficava tonto em seu lugar, e tudo isso junto a obrigou a correr pro banheiro, a fim de ser a adulta chata que põe fim à festa dos adolescentes. Não se lembrava de alguma vez já ter bebido tanto, mas também não sentia como se fosse a primeira vez que se abraçava à privada daquela maneira. Estava mareada demais para pensar. Quando conseguiu controlar a bile que teimava em subir, queimando como lava tudo que havia pelo caminho, se apoiou na parede para levantar e ir até o lavatório. Encheu as mãos de água e se refrescou um pouco, fez bochecho para tirar o gosto ruim da boca e se olhou. O rosto no espelho – semelhante, mas de alguma forma diferente demais do seu – se contorcia em espantosas caretas enquanto a figura em frente a ele estava com medo demais para esboçar qualquer reação. Era como se o reflexo tivesse vida própria, ou como se o objeto estivesse possuído por algum tipo de entidade demoníaca. Os lábios da imagem começaram a se mexer sozinhos e com uma voz que parecia saída da parte mais profunda do inferno disse:
– Você não é ela! Jamais será!!! Você não é nada, é só uma pústula na sociedade!
Gritou como jamais havia gritado antes e correu de volta para debaixo das cobertas. Estava dormindo, estava tendo um pesadelo... Não podia encontrar outra explicação. Então algo chamou sua atenção... A porta da frente rangeu. Olhou em volta e só o que encontrou foi um feio elefante de porcelana. Pegou-o e foi pé ante pé até a sala. Deparou-se com uma mulher assustada, com olhos arregalados.
– Quem é você? O que fez com a minha casa? – a estranha perguntou. A resposta foi uma pancada na cabeça que a fez desmaiar.
***
– Quem te mandou aqui? – os olhos da outra ainda ardiam e a cabeça doía como se mil agulhas se enfiassem nela. A mulher se aproximou e repetiu, aos gritos – Quem te mandou aqui? Foi o pessoal da editora? Foi algum dos meus ex? Quem foi? – estapeou a moça.
– Como assim quem me mandou aqui? Pelo amor de Deus, que tipo de brincadeira é essa? O que esta acontecendo? – chorava a recém-chegada, e apanhava ainda mais ao som de diversos “Cala a boca, vadia”. – Quer dinheiro? Eu tenho um cofrinho cheio de joias na gaveta da penteadeira. Ele não tem segredo, nem nada... É só uma caixinha de madeira que parece um cofre... Só, por favor, não me machuque mais... Por favor...
– Eu disse CALA A BOCA, VADIA! – deu mais um tapa na cara dela – Me deixa pensar, ok? O que você está fazendo aqui? Quem é você? Essa casa é minha! Não se atreva a dizer que é sua... Eu batalhei muito pra estar aqui, você é só mais uma vagabunda qualquer!
Passava a mão pelos cabelos, desesperada. O que estava acontecendo ali? Em sua mente a imagem de si própria se distorcia. Quem era aquela mulher?
– Olha, eu sou uma escritora nova no mercado, to começando a fazer sucesso agora, e só por que consegui uma oportunidade... Ainda não tenho muito dinheiro, eu juro! – gaguejava e ofegava, tossindo muito – Não sou absurdamente rica e famosa. Ninguém no Brasil fica rico com literatura... Só tenho um pouco de dinheiro junto com as joias. São joias de família, meu pai as deu para minha mãe há muitos anos... – tinha visto em algum lugar que quanto mais você contar da sua vida pessoal mais difícil a pessoa te matar. Não custava tentar – Quando era criança eu pedi à minha mãe para ficar com algumas, ela dividiu entre eu e minha irmã Tereza antes de falecer, doía anos atrás...  Eu as amo pelo valor sentimental que tem para mim, mas elas valem muito em dinheiro também... São as que estão no meu livro. Você já leu? Flores mortas de um jardim abandonado? – Viu como a mulher se virava para ela, com olhos inflamados – É eu sei que é um titulo horrível! Eu tentei barrar, só que não deixaram... Mas a historia é real... É sobre um amor intenso e... – gritou quando teve o cabelo puxado com força.
– Que tipo de piadinha você pensa que está fazendo? É divertido vir aqui na minha casa e fingir ser eu? Pois eu te digo que não! E sabe do que mais? Vou chamar a policia!
– Isso! Chama! – caminhava ate o telefone a passos largos, mas se deteve a meio do caminho ao ouvir a mulher – De verdade ficarei feliz em ver como te levam embora! E-Eu ainda não entendi o que diabos você quer de mim! Não quer o dinheiro e as joias, isso eu já saquei, então por que continuar com isso? Se quer me matar, me mata logo! Mas eu não aguento mais isso!!! – a moça gritava e chorava, não queria mais se controlar.
– CHEGA! EU não aguento mais isso! – voltou, chutando furiosamente a cadeira, derrubando a intrusa e fazendo-a bater a cabeça. Olhou para o que tinha feito... O sangue que escorria da cabeça dela – Oh meu Deus! O que foi que eu fiz... Dona? Dona, por favor, acorda... Fala comigo. – a chacoalhava agoniada. Soltou-a da cadeira e se preparava para puxa-la para o sofá quando se viu sendo jogada para trás com a força de um soco.
Tudo a seguir foi mais rápido do que sua mente conseguia acompanhar.
***
– Está tudo bem com a senhora agora? – o oficial perguntou.
– Sim, eu acredito que sim... – soltou um som abafado de dor, enquanto o paramédico a examinava e fazia os curativos necessários.
– Mas afinal, o que aconteceu aqui? – o homem perguntou, bloquinho na mão, preparado para anotar tudo.
– Como vou saber? Eu tive uma viagem não planejada depois do lançamento do meu livro, fiquei alguns dias fora, e quando voltei estava tudo assim e ela me atacou! – apontou para a mulher do outro lado da sala, que se encontrava já devidamente sedada e enfiada em uma camisa de força. – Quem é ela afinal?
– Acreditamos que seja uma carinha conhecida nossa... Uma jovem de nome Ticia. Desde muito pequena sempre foi e voltou de instituições. De inicio acreditava ser personagens de livros, depois passou a se identificar com a ideia de ser escritora... Até hoje nunca tinha sido violenta com ninguém além de si mesma. Não conhecemos muito sobre sua vida, mas o que sabemos é que era ruim o suficiente pra que ela nunca quisesse ser ela mesma... Algumas vezes chegou mesmo a fazer cirurgias plásticas com o propósito de parecer com quem queria imitar... É uma pobre mulher...
– Que coisa horrivel...
– Pois é... Bem, se a senhora nos dá licença, temos trabalho a fazer.
– Claro oficial, à vontade... – deu lugar para que ele passasse.
– Eu sou Carolina Benthan... Eu sou Carolina Benthan... Por favor, me escutem... – a moça repetia molemente enquanto era levada de maca para a ambulância. A escritora ficou parada na porta, observando a partida de todos. Enfim o pesadelo havia acabado. Tinha muito que fazer, já que a droga da editora tinha anunciado que seu livro teria continuação.
– Mas que merda... Pra que eles foram fazer uma coisa dessas? Eu preciso escrever... Preciso escrever... – repetia para si mesma, enquanto caminhava em busca de outro drink...

 

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