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sexta-feira, 10 de maio de 2013

O Silenciador


Naquela noite o vento assoviava. Estava frio e a ventania parecia um prenúncio de algo maior e mais assustador. Era como se falasse, sussurrando, e as palavras fossem desconexas, sem sentido.
Era difícil dormir naquela madrugada. O barulho das janelas batendo em meio ao vento sussurrante era de gelar os ossos. Histórias de terror poderiam muito bem ser criadas e murmuradas sob a fraca luz das lâmpadas no quartos de crianças insones.
O que elas não poderiam saber é que uma história de terror estava acontecendo naquele mesmo instante.


Porque era sempre em uma noite como aquela, após um longo ciclo de espera, que ele retornava.
Ele era um homem – ou ao menos deveria ter sido um dia. Usava uma capa longa e escura com um capuz negro que deixava seu rosto oculto nas sombras. Ele estava parado à frente de uma casa – uma casa simples e comum, sem nada que lhe fizesse especial – e observava o muro de paredes descascadas como se conseguisse enxergar através dele. Permanecia tão imóvel que poderia ser confundido com uma estátua.
A rua estava vazia. Ninguém vira aquele homem naquela noite.
O fato é que ninguém viu também quando ele finalmente se mexeu. Foi depois de um longo período de espera, talvez horas. O vento ainda assoviava e encobriu seus passos secos na noite escura. Com um gesto displicente da mão ele abriu uma passagem no sólido muro da casa e por ali adentrou.
A passagem se fechou atrás dele como por mágica.
Ele caminhou, sem pressa nem afobamento, em uma perfeita linha reta em direção a casa. Se alguém o visse perceberia logo que era preciso e obstinado. Ele tinha uma tarefa a cumprir, talvez a mais importante delas. E continuava a seguir em seus passos calmos, imperturbáveis.
Atravessou não apenas mais uma, mas outras duas paredes e subiu as escadas da casa. Sabia muito bem aonde ir. Passou pelo quarto dos adultos, que dormiam um sono tranquilo, sem imaginar o que estava para acontecer.
Caminhou até o próximo quarto. Era pequeno, porém aconchegante, pintado de azul. Havia pôsteres de desenhos animados e super-heróis nas paredes. Brinquedos estavam jogados no chão. Havia também um beliche onde dois meninos aparentemente dormiam sem perturbações.
Aparentemente era palavra certa, porque um dos meninos, apenas um deles, estava muito bem acordado.
Ele entrou no quarto. Por um instante, a luz da janela entreaberta iluminou seu rosto debaixo do capuz. A visão era aterradora. No lugar dos olhos havia dois buracos, negros e infinitos. Porém, a parte mais assustadora eram seus lábios: estavam costurados, impedindo que ele falasse ou produzisse qualquer som.
O menino que estava acordado quis gritar, porém viu muito bem quando o homem – ou o monstro – levou apenas um dedo aos lábios costurados e sinalizou silêncio.
De qualquer jeito, o grito tinha mesmo morrido na garganta do menino, que mal conseguia respirar. Ele caminhou devagar, sem nenhuma pressa, em direção ao beliche. Apesar de seu rosto estar encoberto pelas sombras e ele não ter olhos, o menino sentiu nos ossos que o homem o encarava. Vários minutos se passaram assim, em silêncio, apenas o barulho do vento murmurando palavras incompreensíveis lá fora. Então, finalmente, ele se abaixou e olhou para o segundo menino, que estava na cama logo abaixo.
Esse menino realmente dormia. Era pequeno e frágil e desconhecia o perigo que corria.
Quando ele se ergueu novamente, o menininho estava em seus braços longos, ainda dormindo.
O menino maior, que estava acordado, quis falar, gritar, chamar os pais e pedir ajuda, porém a sua voz não saía. Ele viu novamente, iluminado pela luz da lua, os lábios do homem costurados. Levou as mãos ao rosto, tocou sua boca e então sentiu, com pavor, que seus próprios lábios também estavam costurados.
Ele se virou, caminhando ainda sem pressa e sem barulho, em direção à porta. O menino queria fazer alguma coisa, porém sentia-se impotente e sem voz, o desespero consumindo silenciosamente suas entranhas.
Antes de sair, porém, ele se virou, ainda com o menininho nos braços e encarou o outro
menino. Com habilidade, segurando a criança com firmeza em apenas um dos braços, ele levou novamente os dedos aos lábios costurados e indicou silêncio.
E saiu, deixando o menino para trás, sozinho e aterrorizado. Foi apenas depois de muito tempo que o menino conseguiu tocar seus lábios e perceber que não estavam mais costurados. Então ele gritou.
- Mas quem era ele? – perguntou o médico. Usava óculos fundo de garrafa e tinha um olhar curioso no rosto rechonchudo.
O homem, deitado em um divã, olhou devagar para o rosto do médico. Por um instante, achou ter visto seus lábios costurados, mas era apenas sua imaginação lhe pregando peças novamente. Ele sempre via aquelas lábios costurados em seus pesadelos.
- Ele é conhecido pelas crianças como “O bicho-papão”. Porém, eu o chamo “O Silenciador”.

4 comentários:

  1. Maldade sua, crianças sempre apelam mais pro emocional das pessoas. E esse final, macabro.Maldade, maldade sua. Gostei muito , continue com seu ótimo trabalho ^^

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    1. Sou muito, muito má!!! muhauauhauhauhauha
      Ah, vai, eu nem faço tantos contos com crianças... fiz a da aranha outro dia... e agora esse. =))))
      Sempre fico aguardando seus comentários, marwin! Fiquei mal acostumada!

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  2. Muito massa... Legal ter deixado a criança maior como prova do fato.

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    1. Valeu, Rainier! =)
      Eu sonhei com isso. Foi tenso! O_o

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