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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Monstro (Parte I)



Se havia alguma coisa da qual se orgulhasse em si mesmo era de sua prodigiosa memória. Lembrava-se de fatos, datas, cenas, nomes e rostos como ninguém. Por esse motivo, talvez, fosse advogado; tinha muitas coisas a memorizar.
Porém, havia essa lacuna nas suas lembranças. Essa, que aparecia de vez em quando, sem bilhete nem aviso, instalava-se na sua cabeça e apagava suas memórias daquelas noites, e tudo o que sentia no dia seguinte era um enorme vazio.
E a dor, que sempre lhe acompanhava depois dos apagões.
Já tinha procurado vários médicos, até mesmo especialistas em outros países, mas aparentemente não havia nada de errado com ele. Tomou medicações, vitaminas, mudou a alimentação, mas o fato é que o vácuo continuava ali, vigilante, esperando sua noite, seu momento, como um felino à espreita do alimento.
E tudo o que restava para ele no dia seguinte eram a dor, o sangue e a manchete no jornal da manhã. Mais um. E ele não conseguia se lembrar de mais nada.


Mas havia ainda essa última memória que não se apagava. Ele achava que aquele dia tivesse acontecido em março daquele ano, talvez. Não tinha certeza. Isso lhe dava ainda mais raiva, porque ele sempre teve certeza de tudo e agora não tinha de mais nada. Era como se as lembranças que ainda lhe restavam estivessem se fragmentando, deslizando por seus dedos como água fria e escorregadia.
No entanto, o rosto daquela mulher ainda permanecia lá, no fundo da sua mente e o revisitava até mesmo acordado, mas sempre em seus pesadelos.
Estava chovendo. E muito. Era uma noite solitária e triste de março, ou pelo menos era o que ele achava. Nada daquela loucura tinha começado ainda. Ele era normal, com sua vida normal, seu carro esporte de luxo e uma pilha de casos e livros jogados no banco do passageiro. Ainda tinha uma esposa, sim, lembrava-se bem disso, mas quase nunca a via. O trabalho o consumia e ele consumia o trabalho. Era tudo que precisava. Ela poderia esperar.
Parou num sinaleiro na Avenida Pacaembu, batucando no capô. A chuva batia com insistência no para-brisa, mal dando tempo do limpador fazer seu trabalho. O barulho da tempestade era tão alto, que ele mal conseguia ouvir a música que tocava no rádio; inclinou-se, aproveitando o farol vermelho, para aumentar um pouco mais o som. Era uma de suas divas favoritas do jazz que cantava. Ergueu a cabeça satisfeito quando conseguiu apreciar, finalmente, aquela voz rouca, e foi necessário apenas um segundo para que acontecesse.
Ao seu lado, também parado no sinaleiro, estava outro carro. Ele primeiro viu uma mulher dirigindo, jovem e bonita, mas com a aparência cansada e mal tratada. Ela parecia nervosa, quase incomodada e, como ele, também batucava, mas no volante. No entanto, quem realmente importava estava sentada no banco do passageiro.
Essa mulher era bem mais velha. Parecia ter tantos anos que os mesmos seriam impossíveis de se contar no calendário. Tempo. Ela dava a sensação do tempo passando, do tempo escoando como a areia em uma ampulheta. E ela lá, no meio disso tudo, impenetrável, imutável, inabalável. Tinha os cabelos vermelhos como labaredas e usava pulseiras douradas nas mãos magras demais, cheias de anéis, com as quais segurava um embrulho de cobertores. As roupas eram maltrapilhas, mas coloridas, predominando sempre o vermelho. Ela dava a impressão de ter sido forjada no próprio fogo ardente.
E ela olhou diretamente para ele. Bem no fundo dos seus olhos. Poderia ter durado apenas um segundo, mas naquele segundo, não conseguiria nem que tentasse desviar o olhar. Estavam conectados. Foi a primeira vez que ele sentiu aquela dor. Pensava ter visto nos olhos da mulher as chamas em que fora feita. Talvez tivesse sido apenas imaginação – por mais que isso fosse algo que ele não aprovasse. Ou sua cabeça lhe pregava peças?
Mas de uma coisa ele tinha certeza. A mulher pronunciou apenas uma palavra, só uma, em silêncio, apenas com o movimento dos lábios. Ela juntou com força os dois lábios, abriu-os por instante infinito e fechou-os apenas o suficiente para que a língua estalasse no céu da boca. E lá estava sua palavra. Aquela que ecoava dentro da cabeça dele, todas as noites e todos os dias desde aquela tempestade. 

Continua na próxima sexta-feira...

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