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quarta-feira, 29 de maio de 2013

Labirinto Parte IV

Não esqueça de ler antes: Partes I, II e III


– Você ainda não me contou por que está aqui...
A garota insistia nisso a tempos. Ananda olhou para aquele rosto miúdo, manchado pelo barro da terra com sangue, magoado por espinhos teimosos, que passavam em sua pele deixando rastro. Sorriu. Algo nela lhe causava tranquilidade.
– Estou aqui por dois motivos... Ambos terriveis demais... – sentaram-se para descansar. Com a luz do sol por companhia não havia o que temer.
***
– Santa Mãe da Terra – disse a mulher antes de romper porta afora.
– O que? O que houve mamãe? – a jovem tentou perguntar, mas a senhora já tinha saído com o embrulho nos braços. Pensou em ir atrás, mas sentia o ardor da pele da irmã a queimar a sua. Não poderia deixa-la sozinha – Tudo ficará bem, você verá. Tenha força Maria. 

Cerca de duas horas depois a matriarca voltou, com nada além de um pano ensanguentado nos braços. Um vendaval se formava do lado de fora da casa.
– Como está sua irmã?
– Está igual, minha mãe. A febre não baixa, os delírios persistem... Temo que não passe dessa noite... – mal pôde terminar a frase, dada a violência da mão que lhe fazia brotar um botão de rosa sangrenta nos lábios.
– Nem mesmo pense nisso outra vez, me entendeu?
Assentiu com a cabeça. Estava assustada. Então se deu conta. Não vira o bebê em nenhum momento, sua mãe o havia levado embora e não voltara com ele.  Algo estava estranho. Quando abriu a boca para perguntar, Maria se ergueu da cama.
– Meu bebê... Onde está meu bebê? – perguntava delirante.
– Sinto muito, querida. Ele nasceu morto. – mas a moça não parecia ouvir. Seguia perguntando e tentava andar. A irmã não tinha forças para contê-la, o pai ainda não estava em casa, mas o dia começava a pensar em clarear – o que trazia esperanças ao coração da caçula.
Maria caminhava pelo quarto, buscando o rebento, cantarolando musicas de ninar e cambaleando. Em vão as duas outras tentavam coloca-la na cama outra vez. Foram exaustivos quarenta minutos até que ela perdesse os sentidos outra vez.
Uma semana se passou nessa agonia. Inicialmente os momentos de lucidez eram escassos, mas ao cabo da primeira semana passaram a vir em quantidade maior. O problema foi que, junto com o bom funcionamento de suas faculdades, vieram também as noticias ruins, a dor, a perda, a angustia, o desespero, e todas as coisas mais terríveis que uma mãe possa sentir ao saber que aquele ser tão pequenino que carregava dentro de si não poderá jamais ser acalentado por seus braços protetores... Outra semana se foi, perdida em um rio de lagrimas e sofrimento, até que nova luz tocasse a casa.
De um parto quase sem complicações veio ao mundo uma menina. Pele clara, grandes olhos que já esquadrinhavam todo o ambiente e um sorriso capaz de derreter geleiras. O avô, que a pouco tinha retornado de uma viagem de trabalho, ficou mais que encantado com aquele diminuto pedaço de seu coração.
***
– Uma filha? Então foi por isso que você veio? Por ter uma filha antes da hora? – a menina disse meio sonolenta.
– Não exatamente... – respondeu Ananda, pensamento longe no tempo, enquanto acariciava os sujos cabelos da criança.
***
– O que? Não! – a ideia era um punhal cravado em seu peito – Não pode fazer isso comigo papai... Não pode me tomar minha filha!
– Maria perdeu o bebê legitimo que tinha, conseguimos a muito custo esconder sua gravidez... Se souberem que teve uma cria antes de casar, e principalmente de quem é, você será uma desonrada, sua filha será uma bastarda e ambas serão apontadas e apedrejadas na rua. É isso que quer pra sua vida? – o tom de voz era inflamado pelo ódio, mas em nenhum momento era alto.
– Não... Claro que não. – o coração de mãe falava mais alto. Os olhos se debulhavam em lagrimas e já não tinha argumentos contra aquilo.
Acompanhou o homem até o quarto e tentou controlar os soluços ante a conversa que assistiu. Iriam levar para longe sua menininha...
– Por que não vem conosco? Precisarei de alguém que cuide de minha nova filha enquanto trabalho na casa e bordo. Pode ser sua babá.
A luz voltou aos olhos de Ananda, que se jogou aos pés da irmã, beijando sua mão de quando em quando, recitando “Obrigadas” como poesia. Na manhã seguinte as malas estavam prontas e a família partia. O esposo de Maria havia ido busca-la e ficou surpreso ao saber que a cunhada moraria com eles. A jovem, que então contava com não mais que dezessete anos trazia nos braços o pequeno embrulho cor de rosa como um tesouro. Estava tão feliz que sentia que nada poderia estragar isso.
O tempo passou depressa. Dias se transformaram em semanas e em meses, e logo sua princesa tinha seis meses. Ananda estava sentada sobre o tapete de pele da sala, brincando com ela quando uma sombra se aproximou das duas sem que ela percebesse. Uma pesada mão tocou seu ombro, e em assombro a jovem gritou.
–Quer me matar do coração? – disse se erguendo com a criança nos braços, tentando acalmar o choro que seu susto havia provocado.
– Jamais... Jamais desejaria seu mal. – sorriu, se aproximando, mas ela o afastou.
– Vocês se casaram. É isso. Você é dela e não tenho nada aqui para mim além de cuidar da filha de vocês. – disse o mais friamente que pôde.
– Você quer dizer nossa filha – aproximou-se mais.
– Não repita isso outra vez. Ela pode ouvir! – disse olhando para os lados.
– Deixe que ouça. Estou cansado de mentiras. Tem sido um tormento para mim, estar tão perto e tão longe de você. Sabe que só me casei com sua irmã por pressão, por achar que não me querias...   – pegou no braço dela – Não sabe o quanto me arrependo. De ter me casado, não do que vivemos... Disso jamais me arrependeria...
Os olhos se fecharam e uma lágrima escapou. Maria estava ali, escondida atrás da porta, ouvindo a tudo sem acreditar. O coração esmagado no peito, o sufoco das lagrimas que a estrangulavam, o ódio crispando-lhe a face... Sequer pensou no que estava prestes a fazer quando saiu como louca de casa. Alheios a esse fato o casal continuava conversando.
– Mas eu sim! – se soltou da garra de ferro – me arrependo de tê-lo conhecido, de ter me apaixonado e me deitado com você. Mas pelo menos sei que isso foi para um propósito maior! Isso aconteceu para que minha irmã não tivesse que sofrer tanto a perda do filho.
– Esse filho só morreu por que os deuses acharam abominação demais uma criança que não era fruto de amor. Nossa menina nasceu forte e saudável enquanto o filho dela sequer passou da primeira hora. Não vê isso como um sinal?
A porta se escancara repentinamente.
– É ela senhores! Ela pode ver o futuro, e faz horríveis feitiços. Não duvido nada que me queira tomar a filha em pouco tempo.
Maria correu ate a irmã, que nada entendia, e tomou-lhe a bebê dos braços. Dois dos guardas a tomaram pelo braço e caminharam impassíveis, enquanto outros tratavam de segurar ao homem. Ananda gritava, tentando se soltar e entender o que ocorria, pedindo socorro, mas Maria se limitava a olhá-la com ar vitorioso. Finalmente a justiça seria feita... Com sorte logo a irmã não passaria de um sonho mau e restos de comida de monstro. Todos ficariam felizes, principalmente ela. Foi até a porta, com ar de vitima, para gozar daqueles momentos tão preciosos, o momento que via aquela que tanto amara, e que a traíra, indo em direção ao templo do sacrifício: o labirinto.

[Continua]

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