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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Labirinto - Parte III



Não esqueça de ler antes Parte I e Parte II

O suspiro era a voz da dor daquele homem. Seguia o caminho para sua casa com o peso do mundo sobre seus ombros.  Ao passar pela soleira deparou-se com um par de olhos vermelhos e raivosos que o esperavam.
– A deixou lá?
– O que acha? Que a trouxe de volta na manga? – disse rispidamente, de certo sem vontade alguma de conversar.
– Não seja assim comigo que a culpa é sua! – balançou a cabeça – É uma maldição! E você é o causador disso, eu tenho certeza! – se aproximava pronta para desferir-lhe um golpe, mas o homem foi mais rápido e segurou seu braço, girando-a e jogando na cama.
– Deixe de bobagens mulher! De onde tirou isso?
– Nada disso teria acontecido se não fosse por você! – se ergueu da cama – Nunca uma filha minha estaria dentro daquele maldito labirinto. Isso é um castigo! – gritava como louca.
– Castigo pelo que? Está perdendo seu juízo? Nossa filha está la dentro, presa com um monstro que nenhum de nós conhece a face, e você vem me falar que é culpa minha? Que é um castigo? O que fiz para ser castigado dessa forma?
– SUA FILHA! Só sua, e você sabe muito bem qual o motivo! – se deixou cair na cadeira de carvalho, junto à mesa – conhecer você foi o que destruiu minha vida. Realmente achei que poderia deixar os fantasmas para trás, que seriamos felizes... Mas se os Deuses acharam pouco e decidiram aumentar sua dor, quem sou eu para ir contra eles? Quem sou eu para dizer que estão errados?
– Você está doente! Só pode estar! Como tem coragem de me falar todas essas coisas? Como tem coragem de falar assim da sua própria filha?
– Ela não é minha filha! – o interrompeu aos gritos, saltando da cadeira – E você sabe tão bem quanto eu que não é! A minha filha morreu por sua culpa! Foi você quem nos envenenou com suas mentiras, ao bebê e a mim... Sinto-me livre em finalmente poder dizer isso! Aquela bastarda não é nada minha!
O ódio era palpável entre os dois naquele momento. Os olhos cansados do esposo estavam marejados. A máscara daquela com quem se casou enfim caíra. Então aquelas lágrimas, aquele desespero, toda a reação... Tudo havia sido mentira? Por quê?
– Não diga isso... Você a criou desde que nasceu. Amamentou e deu-lhe um lar, uma família, uma vida... E, além disso, ela é filha da sua...
– Não ouse falar dela! – foi interrompido pela ira da mulher novamente – Foi por causa dela que a desgraça se instaurou sobre essa casa. – se aproximou dele, até ficar a dois passos – Não me venha dizer sobre ter coragem de falar algo quando você teve coragem de fazer pior.
– Cale-se...
– E por que deveria? Já me calei por tempo demais! Me calei quando meus pais me pediram que viajasse para a casa deles, me calei quando vi o bebê morto em meus braços, calei também quando trouxe aquela imunda para dentro da minha casa, em nome do amor de família. Por todo esse tempo tive de fingir que estava feliz vivendo aquela mentira. A cada aniversário, a cada festa do povoado, a cada reunião. Nem mesmo gritei ao mundo quando soube que ela era sua filha. Deveria... Mas não o fiz. Mesmo miseravelmente infeliz, mesmo morrendo de tanta dor, me mantive em silêncio.
– Em vez disso denunciou duplamente sua irmã. Sangue de seu sangue.
– Ela mereceu! – estava histérica – Se deitou contigo e deu luz a uma bastarda! Minha criança, que era legitima, morreu para dar lugar à dela. Aquela bruxa! Tenho certeza de que foi algum feitiço ou algum demônio servo dela...
– Definitivamente perdeu a cabeça. – deu-lhe as costas.
– Não me deixe falando sozinha! – puxou-o pelo braço, mas foi novamente jogada com força para a cama. Mal teve tempo de ver a porta se fechando. Correu até a rua e o vulto se afastava a uma velocidade inacreditável – Volte aqui! Ainda não terminamos!
Os vizinhos começavam a sair para tentar averiguar o motivo de tantos gritos, fofocar talvez. O homem caminhava decidido em direção à pequena casa que lhe servia de gabinete de trabalho. Era onde recebia os companheiros de vilarejo quando precisavam de algo, e também onde vivia a pessoa mais velha de todo o local. Precisava de um conselho e não poderia esperar. Após três toques, e um quase sussurro de permissão, a porta se abriu rangendo tristemente.
– Sabia que viria... – um sorriso se abriu nos lábios ressecados e enrugados, e os olhos esbranquiçados brilharam de felicidade. Embora não pudesse ver o recém-chegado já sabia perfeitamente quem entrava em sua casa – O que exatamente o trás aqui, meu filho?
– Ela está lá... Eu fiz o possivel para mantê-la a salvo, livre de qualquer coisa que pudesse machucá-la, mas ela está lá... – caiu de joelhos em frente ao velho pai, que esticou a mão de longos e esqueléticos dedos em direção à sua cabeça e acariciou, como a uma criança pequena.
– E a historia se repete. Você conhece as regras, meu filho. Se ela não fosse por um motivo, iria por outro, assim como a mãe. Ninguém pode fugir do destino.
– Mas ela era muito jovem, meu pai... Como vai sobreviver ali? – todo o peso que tinha nos ombros o empurrava, seguindo a força da gravidade, rumo ao chão, em meio à dor e vergonha.
– Só os Deuses sabem se ela deverá sobreviver. Se for da vontade deles, ela sairá em um mês, mas se não for... Não cabe a nós pensar mais nisso.
– Não posso perdê-la, pai. Ela é tudo que me sobrou da minha... – respirou fundo, sem conseguir terminar a frase, voz trêmula pelo choro – Ela é tudo o que me sobrou de Ananda...
-♣-
Anos Antes...
– Você trouxe a desonra para nossa família!
– Por favor, papai... Não... – os olhos verdes brilhavam de lagrimas. O corpo inteiro trazia hematomas de tonalidades diversas.
– O que espera que eu faça? Que simplesmente perdoe essa desgraça que jogou sobre todos nós?
– Eu não tive intenção de nada disso, por favor, papai, perdoe-me... – implorava enquanto tentava se defender do couro que atingia sua pele.
– Ela não merecia isso! Você sabe que ela não merecia! – a fúria era transmitida para a cinta de couro cru, normalmente utilizada para açoitar empregados preguiçosos – E nem sua mãe ou eu. Deveria era te expulsar dessa casa! Mas o que diria para sua irmã? Ela não aceitaria que nos arrependemos de apoiar essa sua gravidez fora de tempo. E como eu contaria o que você fez?
– Não, papai, tudo menos isso. Ela não pode saber! Meu amor por ela, que é meu sangue, é maior do que o que sinto por ele, que não é nada para mim. Não quero que ela sofra por meus maus atos. – se agarrou ao tornozelo do pai, submissa à sua vontade, suplicante...
– Ela não saberá. – puxou a perna, deixando-a estirada – mas não é por sua causa. Ela está sensível, tem um filho legitimo em seu ventre esperando para nascer, não pode ter esse desgosto.
– Obrigada, meu pai...
O velho partiu, sem olhar para trás, em direção aos campos. Precisava pensar, e nada melhor que olhar a colheita para pôr as ideias no lugar. A mãe da moça, que até então se mantivera distante, a ergueu do chão e ajudou a caminhar até o quarto, onde a deixou deitada e sozinha. Ananda chorou amargamente todo seu desespero, toda sua desdita, então adormeceu. Em seus sonhos viu morte, rios de lagrima e dor. Viu sangue, sombras à luz da lua e uma cobra que rodava e mordia o próprio rabo. Acordou sobressaltada, suando frio. Precisava dar um jeito de que sua irmã fosse ter com eles. Precisava protegê-la, pois o mal estava a caminho.
Em dois dias conseguiu convencer a mãe de que seria melhor se a irmã estivesse com eles em seus últimos meses de gravidez. Disse que a queria por perto para aprender a ser boa mãe, para se redimir por seu erro, ajudar com o bebê que viria... Não queria estar sozinha. O coração duro do pai amoleceu um pouco, até hoje ninguém sabe o porquê, e trouxeram-na. Ananda estava feliz por tê-la ali. Maria, sua irmã mais velha, seu ideal de pessoa. Sonhava desde menina com o dia que poderia ouvir alguém dizer o quanto se pareciam. Agora tudo estava tão distante. Abraçaram-se, trocaram confidências a respeito dos bebês, da casa... Eram amigas. E nessa paz viveram por um mês...
– Mamãe! Corra aqui! Acho que é hora! – a garota correu atrás da senhora de cabelos grisalhos, para pedir ajuda. Estava preocupada, pois o sonho que tivera um mês antes vinha se repetindo nas ultimas três noites.
– Como assim é a hora? – perguntou a matriarca, vindo do quintal. Trazia um avental branco de flores vermelhas, pintadas à mão, amarrado na cintura. Havia pequenas manchas de sangue nele, provenientes da carne recém-abatida do almoço – Ele ainda não está maduro suficiente!
Ambas voltaram ao quarto e a situação não era boa. Havia sangue e liquido amniótico por toda a cama, Maria estava febril e delirante. Não tinha mais como voltar atrás ou o que fazer: a criança nasceria. Todos os preparativos foram feitos às pressas, as mulheres da vizinhança se ofereceram para ajudar no que fosse necessário, e em pouco tempo a casa estava cheia de pessoas correndo e arrumando. Dentro do quarto, apenas mãe e filhas.
– Vamos Maria, força... Você consegue!
Ananda segurava a mão da irmã, dando-lhe apoio, enchendo-a de incentivos. Vez ou outra passava um pano de linho branco, embebido em água fresca, para retirar o suor e aliviar a febre. A idosa senhora se mantinha a postos, esperando a vinda do bebê em silêncio, como se qualquer palavra pudesse assustá-lo. Horas se passaram, a cada minuto Maria ficava mais fraca, a mais moça fazia o possível para mantê-la desperta e viva. Tinha firmeza nos olhos, mas a alma já se desmanchava em agonia. Rezava, sempre segurando a mão fria daquela que já não suportava mais o peso do momento, pedindo aos Deuses que a poupassem.
O sofrimento durou por quase um dia inteiro. Na madrugada que fecharia as vinte e quatro horas, luz cheia alta, um choro se fez alto. Não era comum, mas sua origem tampouco o era. Enquanto Maria perdia completamente a consciência sua mãe erguia a criança em direção à luz que entrava pela janela.
– Santa Mãe da Terra – foi a primeira e única coisa que se ouviu da parteira antes de a mesma sair em disparada pela porta do casebre – Não de novo... Nunca mais! – repetia olhando para aqueles pequenos olhos vermelhos que trazia nos braços, enquanto se esgueirava pelas ruas em direção ao rio que cortava a cidade. Pouco tempo depois, tendo apenas a magnitude lunar por testemunha, dois pontos escarlates afundavam nas águas escuras e profundas do Rio das Almas.

[Continua]

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