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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Labirinto - Parte II

Não esqueça de ler antes Labirinto - Parte I


– Me deixe sair! Eu quero sair! – os gritos agudos rasgavam o peito, em conjunto com o choro convulsivo. Bater nas ramas não estava resolvendo.  Elas não se abriam de novo. – Por favor... Eu quero ir pra casa...
Aquele som horrível chegou a seus ouvidos, fazendo seu diminuto corpo tremer. Lembrou-se da ordem do pai e correu o máximo que suas pernas aguentaram, por horas. 
O sol já começava a nascer quando parou, sem forças. Mal podia respirar. Precisava descansar um pouco. Fechou os olhos por alguns segundos... Só alguns segundos...
***
– Será que está morta? Hey! Garota! – abriu os olhos ao sentir o chute e gritou, de dor e susto, ao ver um homem à sua frente. O brilho nos olhos dele era estranho. Por que a estava chutando? – Ah, está viva... – continuou ele enquanto a menina o observava, ainda sonolenta – Que bom. O que fez para estar aqui, han? – a rodeava – roubou algo? Matou alguém? – abaixou-se, deixando seu bafo quente e pútrido estapear a face dela. Esquadrinhou todo seu ser franzino e se deparou com a mancha rubra no chão. Sorriu, lambendo o canto da boca – Você é um sacrifício?
Antes que pudesse pensar em correr teve os cabelos agarrados por ele. Seu medo foi maior do que qualquer coisa que tinha sentido na vida, por isso ficou paralisada. Também não conseguiu fazer nada quando ele a jogou no chão e prendeu suas perninhas finas de criança entre as dele, ou enquanto ele lambia suas lagrimas – a aspereza daquela língua deixando um rastro de baba fétida lhe causava náuseas.
– Solta ela! – uma voz gritou e de repente uma garota surgiu, pulando sobre os ombros do homem. Ela o arranhava e lutava com ele, sendo jogada contra as paredes de planta e machucando as costas nos espinhos, mas por fim conseguiu derrubá-lo e acertou a cabeça do tarado com uma pedra que havia  no caminho. Ergueu os olhos para Diná, que ainda estava caída, petrificada. – Você está bem?
A cabeça do homem estava vermelha, as mãos da moça também... Só nesse momento Diná conseguiu gritar novamente. Primeiro foi um gemido, depois um grunhido e então foi crescendo e tomando proporções catastróficas.  Arrastava-se para trás, na vã esperança de se afastar daquilo, do nojo e do horror, de acordar em sua cama depois de um sonho mau, desejava encontrar-se com sua mãe outra vez, nem estava mais com raiva pelo tapa, só queria sair dali.
– Shhh! – A recém-chegada fez, correndo até ela e cobrindo sua boca com a mão, fazendo-a calar  – Se você gritar ou chorar ele nos encontra! Será que você não sabe? – parecia assustada, olhava para os lados – Venha, vamos! – a puxou para que se levantasse e arrastou como se fosse uma boneca de pano – Vem! Antes que ele acorde!
A pequena se deixava levar, sem animo nem vontade. Estava chocada com o que ocorrera. Por que, afinal, estava ali? Quem era aquela menina? Ela era mais velha, isso dava para ver. Estaria ali há muito tempo? Será que algum dia conseguiriam sair? E que lugar era aquele? Passavam por buracos nas folhagens, que funcionavam como portas, corredores que pareciam todos iguais, e Diná não fazia ideia de que horas eram, ou de a quanto tempo estavam correndo. Sentia fome, sede, sono, dor... E ainda nem sabia o nome de sua salvadora. Ou seria apenas mais um algoz?
– Melhor pararmos um pouco para comer e descansar. Logo ali na frente deve haver mais comida. Não sei como ela aparece aqui, mas sempre tem comida e água fresca... – disse ofegante. Seus olhos eram de um verde escuro, a fez lembrar os da mãe. Teve vontade de chorar, mas se controlou. Tinha perguntas a fazer. Tinha coisas a entender. Empacou a meio de caminho, fazendo o braço da outra esticar e ela se virar para trás, com ar de duvida.
– Quem é você?
– Jura? Agora? – tentou puxá-la outra vez, mas sentiu resistência. Olhava para os lados – Meu nome é Ananda! Agora podemos ir?
– Por que está aqui? – estava irredutível.
– Ele vai acabar nos encontrando... – seu tom era quase de suplica.
– Por quê?
- Sou um sacrifício. Garotas que menstruem antes dos treze anos, mulheres que tenham filhos antes da idade correta, as que sejam filhas ilegítimas, que vejam coisas que não deveriam ver, ou que tenham ficado órfãs no nascimento... Todas são classificadas como anomalias, e qual o fim das anomalias? O Sacrificio.
– Sacrificadas para que? – os olhinhos castanhos estavam cheios de água.
– Eu não sei, está bem? Eu realmente não sei. Simplesmente me jogaram aqui esperando que morresse, provavelmente. Mas não morri. Por alguma razão, que só os deuses sabem, eu consegui fugir até hoje. – tentou novamente seguir, sem sucesso.
– Há quanto tempo está aqui?
– É difícil dizer. – deu de ombros – podem ser meses, anos... Já vi tantas vezes o sol nascer e morrer no horizonte que já não faz diferença. Às vezes é triste e solitário, só quero que acabe... Mas nesses momentos algo se acende em mim, como fogo, algo que me diz que logo tudo ficará bem, então continuo. Hoje foi um desses dias... Antes de te encontrar. Simplesmente sentia que tinha de ir por aquele caminho... – o céu começava a alaranjar – Oh não... Temos de ir, por favor...
Recomeçaram a caminhada, até chegar a uma espécie de caramanchão, repleto de frutas e comidas variadas. Devia ser o local que seu pai falara, tirando o fato de não ser uma esquina e sim uma encruzilhada.  As forças pareceram retornar para o corpinho, que se jogou sobre a comida como se fosse a única coisa a existir no mundo.
– Assim não! – Ananda a segurou pelo braço – Temos de ser racionais! Está escurecendo, aqui nós somos a comida. Se ficarmos paradas, ele nos encontra. Seja esperta! Sempre que encontrarmos um desses devemos primeiro nos abastecer, pois nunca sabemos quando a ordem será correr.
A garota assentiu com a cabeça e se afastou, mesmo sabendo que seu estomago pedia desesperadamente por aquela coxa de frango que saltava à sua vista. A mais velha, então, retirou das costas um saco de tecido – provavelmente improvisado com restos de roupas encontradas – e começou a encher de laranjas, maçãs, bananas e todo tipo de frutas que encontrava e que durariam até o próximo ponto. Ao ver aquilo Diná lembrou vagamente que havia feito o mesmo antes de entrar então buscou a trouxa, mas se deu conta de que a havia perdido. Trazia apenas o pequeno cantil vazio amarrado à cintura. Seguiu o exemplo da companheira e o encheu de água  - tendo de repetir o processo algumas vezes, pois estava com muita sede.
– Meu pai me falou que só o que preciso é sobreviver um mês aqui, então encontrar o caminho de volta e poderei ir para casa. Você acha que consigo? – perguntou enquanto comia a carne que Ananda lhe ofereceu, tão logo terminaram de recolher suprimentos.
– Se manter viva ou sair? – a garotinha deu de ombros, indicando que daria na mesma – Não sei. Pelo seu tamanho, duvido muito. – aquelas palavras quebraram seu diminuto coração.

A lua já despontava no céu quando resolveram voltar a caminhar. A noite era mais curta naquela época do ano, mas isso não significava menos perigosa. Não podiam confiar demais. A mais velha sempre olhava com atenção todos os corredores antes de decidir por qual ir, era quase como se possuísse um mapa mental.  A mais jovem se limitava a segui-la, apavorada com cada sombra de ave noturna, cada mínimo som do vento... Num dado momento Ananda parou e segurou o braço de Diná para que não prosseguisse. Estava escutando um som estranho e queria ter certeza de que caminho seguir. O tempo então simplesmente ficou louco, uma hora correndo e na outra parando. O homem que atacara a menina pela manhã havia reaparecido e a pegara pela cintura. Ela queria gritar, sua nova amiga tentava ajuda-la, mas ele estava com muito ódio para se importar. Tinha sangue por todo o corpo, marcas de arranhões e a ferida na cabeça inchada.
– Vocês vão se arrepender do que me fizeram mocinhas! Se arrepender muito!
Caminhava de costas, com uma das mãos apertava contra si a carne jovem e macia do próximo jantar – que não seria degustado apenas por sua boca – e na outra trazia um enorme galho, repleto de espinhos, que nenhuma das duas conseguia imaginar a enormidade da força necessária para arrancar da parede, a arma que garantiria sua segurança. A pesada massa sanguinolenta foi ao chão antes da saída do longo caminho, devido a um tropeço. Imprecou contra o que havia pisado, e se deparou com ossos espalhados. Diná aproveitou a distração do susto e soltou-se do abraço fatal, mas ele ainda teve tempo de segurar-lhe o pé, fazendo com que tombasse sobre costelas, ferindo a frágil pele. Ananda correu para socorrê-la e uma grande sombra cobriu o trio.
– Meus céus...É ele!
Foi a única coisa que saiu dos lábios da veterana antes de intensificar os esforços no resgate da companheirinha de viagem. O homem ainda tentava se agarrar à sua joia e levantar, mas o pé que estava solto era usado para chutá-lo em busca de liberdade. A sombra só fazia aumentar, assim como o desespero das meninas, e um terrível esgar crescia em seus ouvidos , formando um conjunto que aniquilava qualquer traço de esperança. Quando a razão se sobrepôs ao ódio já era tarde demais para o criminoso: Uma boca gigantesca se apoderava de sua cabeça e parte do tronco. Com um grito Diná conseguiu força para se livrar do cárcere provocado pela mão morta e correu com Ananda sem nem olhar para trás. Não queria saber o que era aquela coisa que se deliciava com o cérebro quente, não queria pensar na dor que o homem devia estar sentindo por ter seu corpo desmembrado e saboreado enquanto vivo.  A única coisa que queria era poder sair dali. Já sua companheira só esperava um dia poder esquecer o horror que aquela imagem gravara a fogo em suas retinas. Em todo aquele tempo, mesmo com todos os ferimentos, jamais tinha sentido tamanha dor. E essa dor tinha apenas um nome: realidade.
 

[Continua]

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