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sábado, 20 de abril de 2013

Rosa



Conto por Tatiana Ruiz.

Ao querido amigo Ednelson, que
é muito romântico e adora terror.
Feliz aniversário, muitos anos
de vida e olhe sempre para os lados. ;-)

— Meu nome é Nelson, sou um romântico incorrigível. Gosto de flores. Não qualquer flor. Eu gosto de rosas. Vermelhas, carnudas como os lábios da amante que se desnuda ante o prazer. E eu gosto dela... Rosa... Talvez seja por isso que eu goste tanto de rosas, por me lembrarem da musa que me acompanha em todas as horas solitárias. Não que ela realmente me acompanhe, mas eu gosto de pensar que sim. Deixe que eu explique. Está vendo aquela mulher de bunda empinada, cintura marcada, cabelo anelado e um jeito safado de falar “sou gostosa” só no balanço do andar? – apontou para uma jovem de longos cabelos castanho claro que conversava animadamente na porta da floricultura com duas amigas – Pois é... Aquela é a Rosa. Linda né? Ai, aqueles olhos negros... Essa mulher me deixa louco. Às vezes chego a acreditar que na verdade é um anjo e que Deus me deu a missão de cuidar para que o caído não a tome pra si, e é por isso que estou sempre por perto, sempre disposto... Tenho de protegê-la desse mundo de horrores... Oh, minha doce Rosa.
Ele a endeusava com ares sonhadores e acariciava o pequeno cão, que levara para um passeio e agora trazia no colo, da maneira como gostaria de afagar seus macios cabelos. Mal pôde perceber que ela já se afastava do local, caminhando despreocupada em sua direção.

— Oi, Sissinho – ela lhe sorriu, tirando-o de seu torpor. Era incrível como ainda recordava seu apelido de infância! Ela realmente era um anjo, só poderia.
— O-oi, Rosa. Como vai?
Uma vermelhidão foi subindo desde seu dedão do pé até o couro cabeludo. Ela estava MESMO falando com ele ou era um sonho? Rosa sempre fora muito gentil e atenciosa, mas era a primeira vez que realmente falava com ele mais do que um “oi” seguido de um sorriso e um aceno... E justamente seu apelido de infância, dado pela falecida avózinha, foi a palavra escolhida para complementar a frase nesse dia. Só podia ser um sinal dos céus. Com uma passada de mão na cabeça do animal, e um aceno para o jovem, a perfumosa mulher se afastou, balançando os cabelos ao vento e deixando sorrisos de orvalho no sofrido coração do rapaz. Ele suspirava com o simples fato de ela existir. Poderia haver no mundo perfeição maior? Impossível! Ela deveria ser proclamada uma das maravilhas do planeta. Melhor! Deveria ser canonizada! Era uma santa, aquela mulher!
Todos os dias Nelson ia à biblioteca da cidade fazer alguma pesquisa, sempre relacionada à sua formosa dama. Mitologia envolvendo a flor, significado do nome, pessoas importantes de mesmo nome ou sobrenome, tudo o que podia encontrar era devorado com enorme apetite. Ela era sua obsessão, seu desejo, seu tudo! Chegara mesmo a fazer a árvore genealógica de sua musa, como um presente, e esperava poder algum dia criar a coragem necessária para entregar-lhe o mimo.  Depois daquela demonstração clara de afeto – recordar seu apelido de infância era um feito único
– ele decidiu: o dia era aquele! Estava tão encantado com a ideia de que ela correspondia a seus sentimentos.  Por qual outro motivo teria sido tão simpática? Com certeza tinha finalmente percebido a química que havia no ar sempre que se encontravam. O rapaz voltou para casa com o peito cheio e a mente flutuando. Largou o cachorro no quintal, dançou uma valsa solitária no caminho até o banheiro e, depois de um banho regado a cantorias, pegou seu singelo gesto de amor, indo com o coração aos saltos até o local onde Rosa almoçava.
Ao chegar, a flor em seu coração se despetalou. Ela estava com um homem. Respirou fundo. Poderia ser um parente. Talvez um primo ou um irmão... É, tinha que ser irmão dela! Mas irmãos não se beijam... E ele a estava beijando! Estava beijando sua Rosa! Nelson não poderia aceitar isso. Tinha ganas de ir lá e arrebentar a cara do desgraçado, mas tinha também de manter a cabeça fria. O problema era que só de pensar naquelas mãos grandes e grossas de trabalhar tocando no corpo delicado de sua musa... Era demais para um ser humano. Em meio à sua raiva correu para casa, onde a mãe tentou perguntar o que havia, mas o rapaz apenas passou por ela como um furacão, transtornado como estava, e se trancou em seu santuário. O ódio das imagens em sua mente passou como um raio por todo seu corpo se canalizando nas mãos, que rasgaram o cartaz, fruto de meses de trabalho, com toda a força que sua fúria insana era capaz de produzir. Em poucos minutos estava tudo reduzido a nada.
Foi então que algo surgiu em sua mente. Lembrou-se de algumas lendas que vira antes e em seu íntimo tudo fez sentido: Rosa era uma Deusa e ele era seu guardião e adorador. Como tal seu dever era protegê-la a todo custo. E era o que ele faria!
Na semana seguinte esquematizou tudo. Um plano tão bem arquitetado que chegava a duvidar que fosse seu. Na verdade, acreditava que fosse obra de uma inteligência maior. Rosa estava na floricultura, como todos os dias, e Nelson a observava de longe, com um sorriso enigmático no rosto, um belo buquê de rosas vermelhas nas mãos, que continham uma esponja encharcada e muito bem escondida entre as flores, e frascos misteriosos na mochila.  Esperou pelo momento exato em que ela passava por ele, coração aos saltos, para chamá-la.
– Rosa! – a moça deu um pulo de susto.
– Oi, Sissinho – colocou a mão no peito, rindo. O decote balançando quase hipnoticamente, mas não poderia se distrair. – que susto me deu... Como vai? E a Dona Neuza? – aquele sorriso... Seria mesmo preciso o que estava para ser feito?
– V-vai b-bem – gaguejou e fraquejou. Conseguiria levar a cabo seu plano? Se fosse para seguir adiante, que Deus lhe desse um sinal – Rosa... Eu sei que você é ocupada e tudo, mas... Será que poderia almoçar comigo hoje? – o buquê rolava de uma mão pra outra. Queria desistir de tudo e tomá-la nos braços.
- Ah, desculpe... Não vou poder. Fiquei de ir com o Roger almoçar no Quincas hoje. Mas podemos marcar – tocou o ombro dele e sua mão parecia em brasa. Era esse o sinal! Deus havia lhe falado através daqueles lábios sedutores.
- Claro. Podemos marcar... – Ela já começava a se afastar quando ele a segurou pelo pulso. Isso a pegou desprevenida e fez com que prendesse a respiração – I-isso é pra você. – estendeu o braço com as flores. A moça soltou o ar e sorriu.
- Ah Nelsinho, que coisa mais linda... Como sabia que eram minhas preferidas? – pegou o embrulho vermelho e acariciou o laço. Lentamente aproximou-o e aspirou ao doce aroma. Estava levemente diferente do comum, mas ainda assim era bom.
***
Rosa despertou em um quarto desconhecido, sobre uma cama de pétalas rubras. Sentou-se de um pulo, assustada e zonza. Não sabia como chegara ali, só o que recordava era de Nelson dando-lhe flores e, depois disso, tudo não passava de um borrão. O rapaz logo apareceu sorridente à porta.
– Que bom que acordou! Estava ficando preocupado.
– Eu... O que houve? Eu estava indo pro trabalho e...
– E aí sua pressão caiu e você simplesmente desmaiou. – ele a interrompeu – Tem comido direito? Precisa se cuidar! Imagina se eu não estivesse ali pra te socorrer? Poderia ter sido qualquer um com pensamentos e objetivos menos nobres. – pensamentos e objetivos menos nobres... De fato o que ele planejava era bastante nobre, levando em conta o que havia por trás, então não estava errado em dizer algo como isso. – Venha. Eu te ajudo.
Ela olhou ao redor e notou um aparelho de pressão estrategicamente colocado sobre a mesinha de canto. Ele devia ter razão.  Ainda assim, precisaria ir trabalhar. Até tentou dizer isso, mas ainda estava muito mareada e mal podia ficar de pé, então desistiu. Depois inventaria uma desculpa qualquer. Aceitou a mão oferecida e caminhou até a cozinha, onde o cheiro da comida se espalhava pelo ar. A casa parecia velha e abandonada, mas ao mesmo tempo havia certo capricho ali. Dava pra notar que Nelson era um jovem de muitos dons e que era zeloso. A mulher por quem se apaixonasse seria uma sortuda.
– Frango assado de padaria, arroz, feijão e salada... Queria poder te oferecer um banquete dos deuses, mas infelizmente foi o que conseguia arrumar enquanto você descansava.
– Que carinho, Sissinho... Tão delicado de sua parte. – beijou-lhe a face e novamente ele tremeu diante de sua decisão. Estaria mesmo fazendo o certo? A resposta veio como um chute nos ovos. – Tenho certeza que o Roger vai ficar muito agradecido! Talvez até mais do que eu... Ele é todo cuidadoso quando o assunto sou eu e o bebê.
– Be... Bê? – uma lagrima escapou. Parecia que a vida estava fazendo uma piada de muito mau gosto. Ele havia profanado a castidade de sua mulher! Sim, pois era como a via, como sua!
– É. – ela sorriu – Foi muito inesperado e talvez nem seja mesmo... Mas eu estava indo encontrá-lo hoje para abrirmos juntos o resultado do exame. Ai, eu nem acredito que disse isso a alguém, prometemos não espalhar pra não criar expectativas e não ser nada entende? Promete que não diz a ele que te falei? – a animação na voz dela só o feria mais. O que por um lado era bom. Assim sua vontade não se esmorecia. 
– Pro... Prometo. Agora, coma enquanto está quente.
O prato foi servido, Nelson alegou uma dor de estômago que o impedia de ingerir qualquer coisa, e Rosa comia com gosto. O homem apenas a observava, num misto de tristeza e resignação. Era sua missão, afinal. Aquilo já tinha ido longe demais, não havia volta. E era o melhor para aquela alma. Ela era pura e casta, não sabia o que estava fazendo, fora corrompida por aquelas mãos mundanas e sujas! Tinha de ser purificada, protegida...
– O que foi Sissinho? Por que está me olhando desse jeito? – perguntou-lhe tão logo terminou de comer e notou o ardor daquelas retinas sobre si. – Acho que comi demais... Tá me dando um sono... – riu.
— Ah, nada... Bom, tem uma coisa.  Espero que não se incomode, mas coloquei um pouco de algo chamado Tetrodoxina1 em sua comida... Dizem que é rápido, mas eu não sei quanto tempo demora até agir. Se bem que a dose que coloquei não era tão alta assim... Quer dizer, não sei ao certo. Nunca fui bom com essa coisa de medidas.
Rosa inicialmente achou que era algum tipo de brincadeira. Riu, mas notou que ele não ria. Engoliu em seco. Estava mesmo falando sério? Seria possível? Não podia - nem queria - esperar pra ver. Tinha que chegar até seu celular – que ficara dentro da bolsa, no quarto. Por instinto decidiu correr, mas as pernas não obedeciam. Era como se tudo se movesse em câmera lenta. Caiu no chão e ainda tentou se arrastar, mas seu corpo já não era seu. Sentia-se uma marionete de fios cortados. Um formigamento subia de seus pés com rapidez até a cintura, e só então se deu conta que as pernas já estavam adormecidas enquanto comia, mas acreditou que era normal, devido ao tempo deitada e sentada.
— O que vai fazer comigo? – a voz se tornava pastosa, mas o cérebro insistia em se manter lúcido.
— Não se preocupe... Não pretendo ofender sua virtude – tinha o olhar de um devoto diante do altar de seu santo – jamais faria tal disparate. Não sou aquele impuro! Eu vou cuidar de você. Proteger-te... Eu te amo! – se aproximou dela com a caixa de ferramentas, que tinha pegado no armário enquanto ela tentava em vão fugir – Rosa... Rosa... Morosa, amorosa, calorosa ou maldosa, não importa o que sejas desde que seja minha, Rosa.
Nelson se aproximava vagarosamente enquanto dizia essas palavras e a boca de sua vitima tentava em vão soltar o grito que trazia na garganta sem ar. Não podia mais se mover um centímetro que fosse, nem emitir som algum... Pedir socorro era algo fora de sua alçada. Sequer podia implorar por sua vida, pois nem os lábios se mexiam mais. Era um pesadelo do qual ela queria desesperadamente acordar. O sorriso singelo no rosto dele contrastava com as lágrimas que escorriam pelo dela quando o homem se agachou a seu lado.
– Segundo a lenda todas as rosas têm espinhos por que a flor era uma ninfa, o grande amor de Cupido, que morreu e foi transformada por Flora. Cupido zelava por ela, cuidava para que nada acontecesse, mas um dia as abelhas decidiram se aproximar, devido a seu aroma tão delicioso. Cupido se sentiu na obrigação de fazer algo a respeito e atirou uma flecha na flor, fazendo com que ela criasse espinhos para se proteger. Você, Rosa – acariciou a face delicada – não tem espinhos... Por isso aquele zangão ousou tocá-la. Mas eu prometo que resolverei isso. Você não precisará mais sofrer os abusos de uma natureza inclemente! – a insanidade brilhava nas orbitas onde deveriam estar duas íris doces e juvenis. – Assim como Cupido, minha missão é te ajudar a se defender, eu sei, eu sinto! Todos esses anos te observando em silêncio e me perguntando o motivo de tudo... Agora eu sei, eu finalmente sei!
E, como a de Pandora, a caixa de Nelson foi aberta revelando todos os tipos de males: pregos, pedaços de arame com pontas afiadas, velas, fósforos, facas e alicates, tudo o que ele precisava para dar à Rosa sua roupagem nova. Mas, diferente da mitológica, aquela pequena maleta de metal não continha a esperança em seu interior. Esse era um mal que já não afetava sequer o coração da jovem estirada ao chão.
Os olhos arregalados de pupilas dilatadas presenciavam o horror da chama recém-acesa avermelhando a ponta do objeto de ferro. A alma fazia a vez do corpo, urrando de dor enquanto o calor metálico perfurava a pele, pouquinho por pouquinho, encontrando certa resistência em pedaços teimosos de músculo que se punham no caminho. A partir do décimo espinho Rosa já nem sentia mais. Buscou levar sua mente para outro lugar, longe e bonito, devastado e vazio de qualquer tipo de vida. Era tudo uma solidão desértica e perfeita. Nesse local de paz seu coração encontrou descanso, deixando por fim de bater, ao contato da flecha que o rasgou de um lado a outro.
***
Quando a policia chegou, a cena era completamente fora de comum: Um corpo preso à parede de madeira por uma flecha que atravessava seu peito, diversas pontas na carne inchada daquilo que um dia havia sido uma bela mulher, a seus pés dezenas de flores de todos os tipos, grama e terra, compondo um jardim. Seu corpo inteiro cheio de pétalas de rosas, como se uma chuva das mesmas tivesse caído para aliviar o sofrimento dela.
– Chefe, olha isso aqui. Ela não tem nenhum documento na bolsa, mas tem uma foto e um envelope. É um desses resultados de exame, o nome é Rosa Amarantes, será que é ela? – disse um dos agentes, lendo o conteúdo do envelope, atrás de um possível motivo para a cena à sua frente – Negativo... Não entendo! Se fosse positivo até poderia dizer que ela traiu o namorado ou marido e ele descobriu, mas... – caminhava com cuidado para não pisar sobre o sangue, que pintava boa parte do chão.
– De repente o cara era broxa – riram – ou não podia ter filhos. Vai saber. Se você descobre que sua mulher ta com um teste de gravidez na bolsa e sabe que o filho não tem como ser seu... bem, acho que nem preciso dizer mais não é?
– É verdade... Seja lá quem fez isso, tinha que ser muito doente! Olha só essa foto. – mostrou o pedaço de papel – Se era essa moça aqui, o cara tem que ser muito demente...
– Ou muito apaixonado! – Nelson apareceu de dentro do quarto, todas as armas apontadas para si – sabe qual o problema com vocês, abelhas? Não podem ver uma bela flor... Mas essa vocês não vão despetalar! – Tentou alcançar a aljava, mas antes que o fizesse foi alvejado por todos os calibres presentes. Sentia a vida se esvaindo, a visão escurecendo, era o fim... Mas pelo menos sabia que tinha cumprido sua missão. Sua Rosa era pura outra vez, delicada e santificada, devolvida ao paraíso. Com um sorriso no rosto deixou-se partir, sem imaginar que o que o esperava do outro lado não era exatamente os louros da vitoria, mas sim um ser com enorme sede de vingança.


1 Tetrodoxina: um veneno presente em certos peixes, mais letal que cianureto, que se ministrado em pequenas doses é capaz de apenas paralisar a vitima. É um dos componentes do Coupe Poudre – o “pó zumbificador Haitiano”.

4 comentários:

  1. Tati, o conto ficou primoroso, oscilando entre o romantismo e o mal puro.... Gostei muito dessa poética e bela homenagem ao nosso amigo Ednelson. Mas gostei ainda mais da conclusão.
    Ps. Seja bem-vinda em definitivo ao Um Ano de Medo!

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  2. Taty, agradeço demais este presente! Garota, você usou tão belamente o terror para construir uma história morbidamente (nesse caso, é um elogio) romântica, amei! Lacrimejei de tão emocionante que foi o desenrolar e o desfecho :´) Você me ensinou (e continua) muitas coisas! Seu tempo de conversa comigo é sempre precioso ^.^ Você é uma amiga 1000000000000000000000!

    Beijos!

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  3. Ficou excelente, Tati. Gostei pra caramba. Parabéns ao Ednelson pelo aniversário.

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  4. Perfeito. Nao tem melhor palavra pra definir.

    Bjs
    Nica

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