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quarta-feira, 17 de abril de 2013

O Preço da Vaidade




Ao meu filhote Aigon Hel,
de quem surgiu a idéia original



As trancas giram lentamente, rangendo e fazendo clics e clacs altos – mas não ensurdecedores – e a porta se abre devagar, revelando uma forma frágil e abatida.

– Vejo que optou pelo tratamento... – disse uma voz vinda da enorme cadeira estofada, de costas para a recém chegada.

– Sim Mr Mathews.Pensei muito e... Não aguento mais!!! Preciso disso mais do que de qualquer coisa... – a frase já morria engolida pelas lágrimas.

A dona da fala não era velha e, apesar do psicológico destruído e do físico debilitado, ainda se via em seu rosto e porte resquícios de uma beleza típica dos nobres. Estava em trajes humildes, mas ele sabia que era apenas um disfarce.  Os poderosos odiavam se expor nesse estado.

– Não passo de uma sombra daquela que sempre fui. Essa maldita doença está me tirando de mim mesma. Quero que acabe com isso. – o tom autoritário apenas confirmava a teoria.

O homem sorriu, virando a cadeira até ficar de frente para a paciente. O ser humano é tão previsível na hora da dor. Principalmente os mais ricos, que sempre estão dispostos a pagar o que for preciso para ter de volta sua vaidade. Ah, como esse pecado é saboroso.

– A Sra tem certeza que vai aceitar todos os termos? Não aceito reclamações posteriores.

– Eu pago o que for necessário. Não me preocupo com preço e sim com resultados!

“Não me preocupo com preço.” Frase favorita! Abriu a gaveta e retirou dali um contrato. Todos os detalhes bem colocados em seus devidos lugares, incluindo a cláusula personalizada – adequada aos gostos e necessidades de cada cliente.

– Está bem. Aqui tem seus papéis e preciso que assine aqui e aqui. Só espero que não esqueça o que foi combinado. – disse estendendo as folhas e a caneta, com as mãos calejadas, para aquela que as recebia entre os dedos de pele pútrida e carcomida. Tudo assinado e sacramentado, o processo podia começar.

Adentraram uma sala grande e bem iluminada, semelhante a um ambiente cirúrgico. A maca ao centro, alguns armários e uma espécie de mesa cheia de luzes e botões eram os elementos que compunham o cenário. Um arrepio percorreu a coluna da mulher, mas já não tinha como desistir. Deitou-se e fechou os olhos. Já lhe disseram algumas vezes, antes, que era melhor não ver o que acontecia.

Mr. Mathews havia entrado no recinto com pompas de doutor dentro de seu jaleco branco. Caminhou decidido até a aparelhagem e moveu algumas alavancas, abrindo uma parede falsa, o que liberou a passagem de seres de aparência absurda: o corpo, semelhante ao de um humano, tinha a pele lisa e escura; os olhos eram duas bolas pretas e opacas; os dedos, grudados um ao outro por finas membranas, pareciam ser um só; na boca, fileiras circulares de dentes se distribuíam. Eram quase sanguessugas gigantes. Cinco no total. O olhar do homem faiscava de prazer enquanto suas criaturinhas se aproximavam da cliente decadente a fim de dar-lhe uma nova vida. Cada um tomou seu lugar – sendo um à cabeça, outros aos pulsos e os últimos aos tornozelos – e as gargalhadas de seu senhor se somavam aos gritos desesperados da vitima numa sinfonia macabra.

-x-

Madame Juliet se viu outra vez jovem e bonita. Que deliciosa sensação, poder novamente andar nas ruas sem medo de ser apontada, sem ter de usar andrajos para evitar ser reconhecida. Finalmente voltaria a viajar, conhecer pessoas, ter vários amantes novos e também poderia sentir o gosto de desprezar os antigos quando viessem arrependidos beijar seus delicados pés pedindo perdão.

Quem poderia acreditar? Realmente existiam seres capazes de sugar memórias, e junto com as vivências eles levavam os anos e as doenças. Era como se você tivesse uma nova oportunidade. E daí que a maioria de suas lembranças tinha sumido? Eram só coisas sem importância, daquelas que se perdem na correria do dia a dia, e você vira jovem de novo! Um preço baixo a ser pago.

– E que venha Paris, Madrid e todos os belíssimos lugares por onde a nova Juliet vai andar livremente!

Estava radiante. Só de pensar nas compras que faria e nas jóias que ganharia a mente já voava para bem longe no futuro, sem querer imaginar que na realidade tudo é sempre bem diferente dos sonhos.

-x-

– Estão bem acomodados? – perguntou com voz pouco preocupada, ouvindo apenas grunhidos como resposta – Foi o que imaginei que diriam.

O demônio saiu, fechando a parede atrás de si, deixando seus “filhos” presos no quarto. Tinha de preparar tudo para aquela que estava por vir.

-x-

A vida era uma enorme festa para Madame Juliet. Roupas novas e caras, colares, brincos e toda sorte de adornos a enfeitar seu corpo e suas gavetas; amantes chovendo em sua cama, um socialmente mais importante que o outro. Algumas pessoas diziam que ela tinha vendido a alma ao próprio caído, mas quem se preocupava com isso? Não era nenhuma carola e nem tinha intenção alguma de ir para o céu, lugar esse que acreditava ser uma chatice sem tamanho. Imagine, todos muito bem comportados tocando suas harpas, sem champagne, indecências ou qualquer tipo de jogatina. Essa sim era sua visão de inferno.

– Madame, a carruagem a aguarda – disse um homem, baixinho de bigodes finos e ar afetado.

– Merci – respondeu a dama com um sorriso de satisfação.

Ajeitou o belíssimo vestido de festa e desceu para o veículo onde um cavalheiro, um lindo Conde, já a esperava com certa impaciência pela demora.

– Perdoe-me tê-lo deixado aqui no frio monsieur. Prometo recompensar-lhe à altura. Será uma noite que jamais esquecerá. – dito isto entrou e o condutor os levou rumo ao restaurante, para darem inicio à diversão.

O jantar foi divino, tudo do melhor para ela, e saíram do local antes da sobremesa, tamanho era o desejo do Conde – incitado ainda mais por pés sapecas que massageavam o “entre pernas” do cavalheiro.

Para ela era sempre muito fácil convencê-los a deixar as luzes apagadas ou a utilizar vendas. Para os mais crédulos dizia ser uma jovem envergonhada e para os que já a conheciam melhor utilizava sua frase de efeito: Fica mais emocionante se você não vê. Não vai saber o que esperar e tudo fica mais excitante... – isso seguido de um bom sexo oral ganhava qualquer um. Até achava graça em como era fácil manipular os homens, quase agradecia por existir essa cláusula no contrato. Jamais havia pensado nisso, mas se divertia muito mais assim.

O que aconteceu a seguir foi rápido demais para ser entendido. Juliet mexia seu corpo sobre o do companheiro em um ritmo frenético quando um foco de luz atravessou a janela, vindo da rua, e passou por uma fresta na persiana, atingindo em cheio seu corpo. Uma transformação em sua imagem fez o rosto do homem se contorcer em espanto. O que se via era uma massa de carne putrefata. Os braços com nacos de carne faltando, as chagas abertas e com uma coloração estranha, os seios necrosados e as pernas já com ossos aparentes, nas mãos faltavam quase todos os dedos. O rosto era um caso a parte, já que o nariz não mais existia, um dos olhos parecia pendurado, pois a carne envolta já havia sido comida, a boca possuía feridas profundas e as bochechas estavam cheias de bolhas. Era como se sua doença tivesse voltado em um estágio mil vezes avançado, ou como se seu corpo já tivesse morrido, mas sua alma não soubesse disso.

Em poucos minutos a ambulância chegou ao hotel, mas o homem já estava morto. Ataque cardíaco fulminante. Claro que a história foi abafada, o local da morte foi trocado e muita gente foi paga para que nada fosse dito. O enterro do Conde se deu dois dias depois, estava cheio de pessoas importantes a consolar a viúva que tinha ficado com o casal de gêmeos, frutos do matrimonio de dois anos. Em seu longo negro estava a amante, chorando falsamente a morte do homem que estivera em sua cama. Ninguém falava, em respeito à jovem esposa, mas todos sabiam o motivo da morte do ente querido que jazia no caixão e secretamente amaldiçoavam a culpada, acreditando que ela havia capturado a alma do pobre homem para Satanás.

Os dias se passaram e a jovem continuava em sua busca pela vida que lhe fora presenteada, mal notando as pequenas mudanças em seu corpo: cabelos caindo durante o banho; unhas quebradiças; juntas dos dedos que às vezes simplesmente travavam, como que congeladas... Era inicio de inverno, tudo acontece em tempo frio... Mas aqueles eram pequenos sinais que ela ignorava em sua ânsia por prazer.

No sétimo dia após o ocorrido as coisas pioraram. Enquanto se arrumava para mais um encontro parou em frente ao espelho para se admirar, coisa que com a correria dos últimos dias não tinha feito mais e notou que o cabelo já começava a apresentar falhas grandes e que os tufos já saíam na escova a cada passada. Não entendia como isso poderia acontecer, como não tinha visto antes. Acreditou ser um sonho, que acordaria em sua cama depois de mais uma bebedeira, mas sentiu a pele ferver e todo seu corpo doer, o que derrubava por terra sua teoria. Lembrou-se então do que aconteceu na noite da morte do ex amante e das palavras do doutor “E lembre-se, jamais deve deixar que durante o ato sexual alguém a veja, pois verão sua verdadeira face, e as conseqüências serão desastrosas para você”.  Nunca tinha parado pra pensar em que tipos de consequencias desastrosas seriam essas. A cabeça rodava e uma gargalhada ecoava em sua mente. Foi quando viu pelo reflexo aquele que tinha lhe dado a cura para seus males.

– O que diabos fez comigo??? – Juliet gritava a plenos pulmões enquanto se olhava no espelho e via seu corpo, outrora lindo e majestoso, se transformar no de um monstro. Os pelos caíram todos, sem exceção, os olhos verdes perdiam a vida e a cor, tornando-se duas esferas de um negrume quase impossível e a pele branca queimava e escurecia rapidamente. Sua aparência era repugnante até para ela mesma.

– Até que a Sra foi rápida. As pessoas costumam seguir as regras por anos. Mas foi até melhor para mim. Estava mesmo precisando de outro servo, já que os negócios estão prosperando graças a essa nova doença que espalhei.

– Por quê? – foi a única frase que conseguiu articular antes que a estrutura de seu rosto se modificasse por completo, criando as fileiras de dentes necessárias para o serviço sujo ao qual era destinada sua existência.

O doutor trazia na mão os papéis assinados pela caligrafia feminina e jogou sobre ela as folhas.

– Isso estava escrito no contrato, mas vocês ricos e poderosos jamais se recordam de ler antes. Eu disse que havia uma ou outra clausula a ser levada em consideração, cheguei a citar uma em especial se bem me recordo... Será que citei as outras? Bem, – deu de ombros – agora também já não faz a menor diferença. Quando chegarmos seus irmãos te explicarão o trabalho. É bem simples na verdade, puramente instinto.

O ser de pele levemente avermelhada, escondida por uma fina camada de pó de arroz, e pequenos chifres no alto da testa, que seguravam com maestria o chapéu na cabeça do demônio, estalou os dedos. A esse som logo apareceram dois ajudantes que a jogaram em um tanque de água e cobriram com um grosso tecido, a fim de levá-la escondida até o laboratório.

Tinham muito trabalho pela frente. Logo Madame Luzia chegaria e tudo precisava estar pronto e perfeito.

-x-

–Vejo que optou pelo tratamento... – disse uma voz vinda da enorme cadeira estofada, de costas para a recém-chegada.

– Sim Mr Querodia. Pensei em tudo que me disse e não quero morrer desse jeito!

O homem sorriu, virando a cadeira até ficar de frente para a paciente.

– A Sra tem certeza que vai aceitar todos os termos? Não aceito reclamações posteriores.

– Aceito tudo! Preciso que me devolva a vida e a beleza que perdi!

O homem abriu a gaveta e retirou dali um contrato.

– Está bem. Aqui tem seus papéis e preciso que assine aqui e aqui. Só espero que não esqueça o que foi combinado. – disse estendendo as folhas e a caneta, com as mãos calejadas, para aquela que tremia e mal podia se mover para escrever o próprio nome. “Ah, a vaidade... Tão saboroso pecado...” pensava enquanto conduzia a cadeira de rodas até a sala branca e cheia de aparatos onde a mágica se daria. Agora tinha uma nova cria que precisava alimentar...

Tudo assinado e sacramentado, o processo poderia começar.

2 comentários:

  1. Nossa, Tati! Fantástico esse conto, você se superou! Como tu pensou nisso, cara? Muito louco!!! Foi perfeito para ser o primeiro como membro oficial do nosso grupo. Parabéns, lindona! Tu é demais!!!
    E seja muitíssimo bem-vinda! (se bem que, de coração, você já era membro, né? ^^)

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  2. Uau Tati... que conto eh esse menina!!!! Fiquei arrepiada... E acho q algumas pessoas deveriam ler esse conto a fim de deixarem de se importar tanto com o exterior... mas tb seria importante para lembrar que o mundo eh cruel e está nas maos erradas!
    Bjs
    Nica

    Drafts da Nica

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