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sexta-feira, 5 de abril de 2013

A dona aranha



Quando eu era menina havia um boato – quase uma lenda – no orfanato em que vivia de que havia uma criatura que matava uma criança a cada ano, sempre no final de agosto. Havia várias versões dessa história.
Quando algumas crianças corajosas (ou medrosas, depende do ponto de vista) perguntavam às irmãs sobre o assunto, elas sempre desconversavam, ficavam nervosas, negavam, falavam que isso era coisa do demônio e muitas vezes colocavam o pestinha que fez a pergunta de castigo, geralmente no porão. Junto com as coisas velhas.
E era lá que diziam que vivia o monstro.

Pelo menos essa era a única coisa que não mudava nas inúmeras versões da história. Porém, fora isso, diziam que o monstro era várias coisas... Um bicho enorme, sem cabeça, que arrancava as cabeças das crianças a dentadas (certo, eu sei que isso não faz sentido, afinal, como um bicho sem cabeça arranca cabeças às dentadas? Bem, não me pergunte, isso é coisa de criança); um fantasma que matava as pessoas de susto; uma mulher de cabelos compridos que bebia o sangue das criancinhas... Eram várias histórias.
 Ninguém sabia se qualquer uma delas era verdadeira. Essas histórias eram sussurradas no escuro dos quartos, quando as freiras já tinham botado as crianças para dormir faz tempo. Todo mundo tinha muito cuidado para não fazer barulho – por causa do monstro e por causa das irmãs.
Numa manhã fria do final de agosto de 1922, um menino muito mal educado e grosseiro chamado Adalberto roubou meu pão no café da manhã. Fiquei furiosa, gritei e briguei com ele, chutei-o em meio às lágrimas de raiva. Era um ótimo sanduíche de mortadela e não era sempre que tínhamos mortadela no orfanato, geralmente era apenas pão com manteiga e não-reclama-ou-fica-de-castigo. Eu e Adalberto brigamos no meio do pátio, com as crianças gritando ao redor. Eu era uma menina pirracenta que não tinha medo dos meninos. Adalberto terminou no chão segurando suas bolas e gemendo para todo mundo ver. E eu comi meu delicioso sanduíche.
Claro que isso que não ficou barato. Irmã Dulce, a mais temida de todo orfanato, viu tudo o que aconteceu. Houve vários gritos de “foi ele quem começou”, “ela me bateu”, “ele roubou meu sanduíche”, “ela é perigo para as outras crianças” e até mesmo “ela é má”. Irmã Dulce nos pegou pelas orelhas dolorosamente e nos colocou de castigo. No porão.
O porão cheirava muito mal e tinha ratos passeando pelos cantos. Várias aranhas pendiam do teto em teias enormes. Adalberto estava aterrorizado, encolhido a um canto. Eu não entendia como aquele garoto poderia ser tão maricas. Vai ver eu tinha arrancado suas bolas quando o chutei de manhã.
Ficamos lá até o dia seguinte, sem comida. Fiquei feliz por ter comido todo meu sanduíche antes da irmã aparecer para nos castigar. Mas isso não impediu meu estômago de reclamar de fome quando a noite chegou junto com a escuridão.
Quando a noite era alta e minha fome estava insuportável, ouvi o idiota do Adalberto choramingando num canto.
- Por que está chorando, seu tonto? – perguntei.
- Fi-fica longe de mim! – ele gaguejou entre lágrimas.
- Vai fazer xixi nas calças, é?
- Vai embora!
- Não tem como eu ir embora, seu idiota. – respondi já furiosa. Talvez furiosa como há muito,
muito tempo, não me sentia. Apenas chutar as bolas daquele menino não fora suficiente. – Estamos presos aqui, não reparou?
- FIQUE LONGE! – ele gritou, chorando de se esgoelar.
Soltei um barulhinho de desdém que esperei que ele ouvisse. Desprezava os meninos, principalmente os covardes.
Sentei num canto do porão, observando as aranhas, enquanto Adalberto choramingava. Estava entediada e com fome. E o choro daquele menino só me deixava com mais raiva e ainda mais faminta.
“A dona aranha subiu pela parede...”
­- CALE A BOCA! – Adalberto gritou ao me ouvir cantar. Sorri. Aquilo era uma boa diversão.
“...veio a chuva forte e a derrubou...”
- PARE! Pare, por favor...
“Já passou a chuva e o sol já vai surgindo... E a dona aranha continua a subir.”
O menino se encolheu mais e mais, seu choro alto e agudo, seguido de gritos desesperados.
- SOCORRO! – ele chegou a gritar, porém eu sabia que seu grito jamais seria atendido. As freiras não viriam resgatá-lo. Elas sabiam que não poderiam fazê-lo. Elas sabiam que era agosto e um sacrifício era necessário. Pelo bem de todos.
“Ela é teimosa e desobediente. Sobe, sobe, sobe e nunca está contente.”
O menino estava tão aterrorizado que mal conseguia falar. Logo, ele estava envolvido por vários fios brancos e muito finos. Tão belos quanto as teias que pendiam do teto.
“A dona aranha subiu pela parede... Veio a chuva forte e ELA MATOU.”
Os covardes tinham um gosto melhor.



5 comentários:

  1. Agora sim... Com uma abordagem tão criativa de uma canção infantil, nosso blog alcança novos patamares. Ótima abordagem, Karen. Realmente interessante a sua versão de Dona Aranha. O mal tem inúmeras faces e, certamente, ganhamos uma nova com seu conto.
    Parabéns...

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    1. Obrigada, Franz! :) Fico muito feliz que gostou. Toda semana é uma grande responsabilidade escrever contos dignos do blog. Fico muito contente que tenha gostado!
      Essa semana a Vingança de Kali é minha! Que medo!

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    2. Todos que escrevem no blog estão 100% à altura. Aliás, já bate até uma sensação de nostalgia quando penso que o ano está voando. Logo, iremos findar tão belo projeto. Mas sei que ele renderá belos livros de todos nós.
      Quanto à Kali, você vai conseguir. Porém ainda acho que este final não será jogado na mão do Ednelson, sobrando para mim ou o Rainier. Quer ver?
      Bjs.

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    3. Obrigada, Franz! :) Você sempre um grande incentivador.
      O ano tá passando rápido mesmo... vai ser estranho quando terminar porque escrever esses contos e postar aqui já virou um hábito.
      Você acha? E o conto do convidado, entrou alguém no lugar? Porque a Tati já fez o dela.

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    4. Vou buscar contato com o Edilton. A situação dele está braba. Mas vamos contornar.
      Boa sorte com Kali. Ela é uma deusa muito temperamental.

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