Pages

sexta-feira, 22 de março de 2013

Tique Taque


Tique. Taque. – dizia o relógio em cima da porta.
Fernanda não a enxergava muito bem. Havia uma luz brilhante nela, como se mil vagalumes tivessem resolvido dar uma festa ali. E o formato de alguém... uma pessoa...
Ela estava muito cansada...
Fechou os olhos.
Quando os abriu novamente, viu um corredor comprido, largo e escuro. Havia um piso no chão que imitava um tabuleiro de xadrez: preto e branco, branco e preto. Havia também largas janelas que traziam pouquíssima luz. Uma névoa estranha e turva flutuava lá fora, como o ar soprado através dos lábios em um dia de inverno.
Fazia frio também. Fernanda desejou ter um casaco, mas vestia apenas uma roupa fina e comprida, parecia um vestido ou algo do tipo. Era azul, porém... havia marcas vermelhas... Sangue?

Ela levou a mão até a barriga e a tocou. Seus dedos se tingiram de vermelho. Foi só aí que sentiu uma dor profunda no abdômen. Era realmente sangue. Estava ferida.
Fernanda começou a caminhar, praticamente se arrastando. Seus pés descalços aderiam ao piso gelado e produziam um barulho grudento ao caminhar. Ela gritou, pedindo por ajuda. Encontrou portas, mas todas estavam trancadas. Ouvia, muito distante, o barulho de sirenes. Bem ao longe viu alguém correr, cruzando o corredor enquanto empurrava uma maca.
Ei!, ela gritou, mas a pessoa não a ouviu e foi embora. Me ajude!
Parecia que estava em um hospital. Por que ninguém a ajudava? Por que estava tudo tão vazio e silencioso?
Ela continuou se arrastando, segurando a barriga que sangrava, consciente da dor que percorria cada pedaço do seu corpo. Testou mais portas, bateu nelas e gritou, mas ninguém a ouvia. Ninguém respondia.
Fernanda chorou. Seu corpo doía muito, o sangue não parava de escorrer e estava cansada, tão cansada... Não queria morrer. Ainda tinha tanto o que fazer. Tinha uma vida, uma família. Onde estavam todos? Chorou ainda mais e cada lágrima trazia mais dor.
Estava completamente só. E era isso que mais doía. Será que isso era morrer? Será que morreria sozinha ali, naquele corredor escuro? Será que morrer era ficar sozinha para sempre?
Quando pensou que não conseguiria mais suportar, que o melhor a fazer era simplesmente desistir e se entregar, ela finalmente encontrou uma porta que se abriu.
E havia várias pessoas lá. Médicos, enfermeiras... Todos estavam concentrados, tentando reviver alguém que jazia deitado em uma mesa cirúrgica. Uma das mãos da pessoa estava caída ao lado da mesa, as palmas viradas para cima, parecendo entregue e sem vida.
Fernanda se aproximou. E chorou ainda mais.
Ela se viu deitada naquela mesa, sua barriga aberta e sangrando. Seu rosto estava pálido e machucado. Ela levou as mãos à cabeça e sentiu os ferimentos. Havia tanto, tanto sangue. Sangue por toda a parte...
Ela não queria morrer.
Por favor, por favor, pediu a alguém invisível em que jamais acreditou. Ela pensou em tudo que ainda poderia fazer, tudo o que queria fazer e percebeu que era cedo demais para ir embora, para encontrar o fim, para ficar sozinha.
Não queria ficar sozinha. Era tudo o que não queria.
Ela abraçou a si mesma, um abraço de lágrimas e sangue, pedindo e implorando para viver...
Tique. Taque. – disse o relógio em cima da porta.
Fernanda não conseguia ver direito a porta. Ela brilhava, brilhava tanto que seus olhos pareciam cegos por toda aquela luz. Então ela piscou e viu, acima de si, a fonte de toda luz que brilhava: era uma lâmpada que estava sobre sua cabeça. Percebeu que estava de volta à mesa de cirurgia e havia rostos com máscaras ao seu redor. Foi com alegria que percebeu que estava deitada e não de pé, deitada e viva.
Tique. Taque. – disse o relógio novamente.
Ela olhou para a porta e a luz estava indo embora, assim como a silhueta de uma pessoa. Fernanda não sabia se tinha vindo da sua própria cabeça, mas ouviu a frase e sentiu que foi aquela pessoa quem falou:
O relógio está correndo, meu bem. Tique. Taque.

2 comentários:

  1. Caramba!!! De todos os contos que você publicou aqui esse foi, na minha opinião, o mais incrível. Valeu por ser tão talentosa e dar medo as minhas noites de sexta. O ''Eu, Papel e Palavras'' também é muito da hora ^ ^.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Uau, obrigada, Marwin! :D
      Volte sempre todas as sextas (e nos outros dias da semana também!). Fico feliz em colocar sombras de medo nas suas noites! rsrs
      Então você visitou meu blog?! Que ótimo! Fica de olho lá, provavelmente terei novidades bem legais em breve... *mistério* :)

      Excluir