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sexta-feira, 29 de março de 2013

Homem Três


Ninguém jamais entenderia o que aconteceu com o homem que foi encontrado morto na calçada naquela manhã fria e nevoenta de agosto. Havia algo horrível e sinistro naquele corpo e não era apenas porque ele era uma constante lembrança da violência que rondava o local. Havia algo mais... Algo sombrio, até mesmo místico, que envolvia a morte daquele infeliz.
Quando um velhinho que estava voltando da padaria encontrou o corpo naquela manhã, seu grito de horror se espalhou pelo bairro. Foi por muito pouco que Seu José não teve um ataque do coração. O corpo estava transfigurado. “Nada humano poderia fazer aquilo” – disse Seu José à polícia. Havia gente no bairro que dissesse ser obra do demônio.
Não sei se poderia chamá-la assim, mas certamente o que vi não era humano. Aquelas pessoas jamais saberiam a verdade. Nenhuma investigação é capaz de resolver o mistério. O único que pode contar essa história está morto.
Mas até os mortos podem contar histórias.
Essa é a minha história.

Eu era um homem que sempre procurou pela morte, mesmo sem saber. Chamava isso de ousadia. Hoje, acho que entendo as coisas um pouco melhor, apesar de estar morto: na verdade eu era um covarde.
Covarde porque fugia da minha própria vida, das responsabilidades, dos erros, até mesmo dos acertos. Não sabia o que era família há muitos anos. Nunca durei com uma namorada. Não tive filhos. A única coisa boa disso é que não passarei meu legado maldito adiante.
Gostava muito de jogar e de beber. Quando as duas coisas se encontravam – o que geralmente acontece – meu dia estava feito.
Encontrei a morte em um bar pequeno e fedorento que se localizava num beco escuro e sujo lotado de cartazes: propagandas de bebidas, fotos de mulheres nuas, telefones de prostitutas. Ao lado do bar havia um grande FODA-SE pichado na parede. Parecia um bom sinal.
Pedi uma cerveja, só para começar, mas logo estava entornando doses e mais doses de uma boa cachaça. Reparei que um homem corpulento me observava de uma mesa no canto. Ele usava um capuz, de modo que não conseguia ver seu rosto; não era algo tão estranho em vista do local onde me encontrava. Só havia tipos suspeitos nesses botecos que frequentava. Porém, aquele cara era um pouco mais do que estranho: ele me incomodava. Parecia estar me encarando e não virava o rosto nem quando eu o encarava de volta. Aquele cara queria briga.
Levantei, movido por álcool e pura valentia, e bati com força a mão na mesa, bem na frente do homem.
- Que foi, camarada? Que tá me encarando?
O homem ergueu a cabeça para mim, mas ainda assim não conseguia ver seu rosto: apenas o brilho rápido de seus olhos, que me perturbaram. Porém, ainda assim, permaneci firme na pose de macho valente que era.
O encapuzado moveu um copo sobre a mesa. Ele estava vazio, virado de cabeça para baixo e dentro dele estavam aprisionados dois dados vermelhos e enegrecidos.
- Quer jogar?
A voz do homem rasgava como uma faca. Senti um arrepio que atribuí ao álcool – qualquer outro motivo seria simplesmente idiota. Medo certamente era uma palavra que não estava no meu vocabulário.
- Valendo o quê?
O homem deu de ombros, como se aquilo fosse óbvio.
- Bebida, claro. Vi que também gosta de uma boa branquinha.
As coisas ficaram mais interessantes a partir daí. Uma excitação correu pelo meu corpo e sentei-me de frente ao homem, alisando as mãos em antecipação.
- Qual o jogo?
- Que tal... Homem Três? – perguntou o homem, balançando o copo com os dados vermelhos. Eles faziam barulho ao baterem contra o vidro. O homem fez um sinal para o garçom e pediu uma garrafa inteira de cachaça e dois copos. – Funciona assim: nós jogamos os dados até que a soma deles dê três. Quando isso acontecer, saberemos quem é o Homem Três. E toda vez que sair três no dado... o Homem Três bebe. Aceita?
Abri um sorrisinho.
- E se eu for o Homem Três... você paga a bebida?
- Mas é claro, amigo. É a sorte.
O homem jogou os dados na mesa. Saiu um cinco e um seis.
- Onze. – eu disse sorrindo. – Está muito longe de ter sorte, camarada.
- Sua vez, amigo.
Joguei os dados. Um mais um igual a dois.
- Quase lá. – disse o homem. Ele tentou novamente: sete foi soma. Na minha vez deu quatro. Tentamos mais uma rodada até que, finalmente, consegui tirar dois e um.
- Vitória! – gritei extasiado, tentando pegar a cachaça. O estranho segurou a garrafa.
- Ainda não, amigo. Agora você é o Homem Três, mas o seu número ainda precisa sair nos dados. Se cair cinco, eu bebo. Esqueci de mencionar isso nas regras.
- Tá certo, tá certo. Vamos logo.
Jogamos. Os dados pareciam viciados. Nenhum dava três ou cinco. Eu já estava impaciente quando, depois da sexta rodada, o homem rolou os dados e saíram três e cinco.
- Parece que nós dois bebemos, amigo. Saúde!
A cachaça desceu minha garganta rasgando e parecia muito mais amarga do que jamais provei. Soltei um palavrão, mas não deixei que aquilo me incomodasse.
A partir daí a “sorte” começou a sorrir para mim. Outros três apareceram nos dados. Algumas vezes, dois três caíam e eu bebia duas vezes. Joguei, bebi e conversei com aquele estranho por horas. Ele também gostava de jogar. Disse que me levaria a um lugar onde se podia jogar para sempre – e sem perder.

Ri tão alto que todo mundo no bar olhou para nós.
- Tá de brincadeira?
- Não, no duro. Eu o levo lá.
O estranho pagou pelas bebidas – todas – e saímos. A sorte e a adrenalina corriam pelas minhas veias junto com o álcool. Sentia-me poderoso, invencível. Que tolice a minha; é exatamente nessas horas que somos mais vulneráveis – quando nos consideramos invencíveis.
O homem me conduziu pelo beco comprido até o final dele. Ali, ele disse que antes de me levar àquele lugar ele precisava se apresentar.
- Você tem certeza que quer vir comigo? – ele perguntou.
- Claro, camarada!
- Você tem certeza? – ele repetiu. – Preciso da sua palavra.
Ele parecia falar sério. Sua voz rasgava agora mais que caco de vidro na pele macia. Senti novamente um arrepio na espinha, apesar de toda a bebida e apesar de negar a mim mesmo, soube que aquilo era medo.
- É claro que eu tenho, porra. – respondi não tão convicto quanto minhas palavras. - Vamos logo!
A pouca luz iluminou um sorriso no rosto do estranho. Ele começou a abaixar o capuz, lentamente. E o que eu vi me fez soltar um grito alto e cheio de horror.
- Eu sou a morte. – disse o estranho e a última coisa que eu vi foram seus olhos vermelhos como os dados do jogo.
O inferno é um cassino. E a morte joga com a minha alma. 

Nota: As três imagens que ilustram o post foram a inspiração para esse conto. Meu marido me propôs um desafio e me passou as três imagens: a partir delas, eu deveria criar uma história. E essa foi a história que eu fiz.

2 comentários:

  1. Bem cruel esse final, essa ultima frase foi incrível . Muito da hora, você é muito boa.
    A sua resenha da Câmara Secreta ficou muito show, vou dar mais valor a esse livro agora(eu já dava bastante).Mas ainda prefiro o enigma do Príncipe, que me fez chorar litros .Estou comentando aqui porque tive uns probleminhas em comentar no Por essas Paginas, espero que não seja um problema .

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    Respostas
    1. Oi Marwin! xD
      Fiquei contente que gostou do conto. Sabe que a última frase eu quase no coloco? Foi só muito depois de reler e revisar algumas vezes que ela apareceu na minha mente. :)
      A Câmara Secreta é muito show. Releia, é um livro que parece simples, porém é super complexo. Acho que a gente o valoriza mais também depois de ler O Enigma do Príncipe. Eu também chorei bastante nesse livro. É tão difícil escolher um favorito, não? Fiquei muito feliz de saber que você também é fã de Harry Potter!!!
      Mas o que aconteceu quando você tentou comentar no Por Essas Páginas? É que se for um problema nos comentários, nós precisamos tentar resolver.
      Até a próxima! xD

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