Pages

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Pronta Ou Não, Lá Vou Eu

Um conto de Tatiana Ruiz


Céus, está aqui. Posso sentir em minhas entranhas. Ouço os passos na escada... O som agonizante de seus dedos passando pelas barras de ferro do corrimão é baixo, mas o escuto como se fossem badaladas de um sino. Ela salta os dois últimos degraus como criança. Mal pude abafar o grito que teimava em sair, junto com meu coração, quando a porta se abriu. Fechei meus olhos e prendi o resto que tinha de ar nos pulmões.”

- Dez! Te peguei...

Estava petrificada! Nesse momento vi novamente o rosto que tanto medo me causava... Por que de todos os monstros que me perseguiam, ela era a pior... E eu sabia o motivo. Eu sabia exatamente quem ela era...




***

- Nome?

- Anne...

- Anne de quê?

- Anne Moraes! – revirou os olhos, aborrecida.

- Idade?

- Oitenta! É que eu fiz algumas plásticas pra tirar todas as pelancas...

- Dezesseis, doutor... – disse a enfermeira. A menina mostrou a língua.

- Anne... Você sabe por que está aqui?

- Por que eu tentei matar meus pais adotivos.

- E você conseguiu?

- Claro que não né. Se tivesse conseguido eu não estaria aqui. – bufou, braços cruzados sobre o peito – Estaria em uma prisão cheia de detentas gigantescas e malucas, com tacos de beisebol ou até mesmo nas Bahamas... – disse com indiferença.

- E você não sente remorso? – o médico parecia inalterado. Uma peça feita em mármore, devido à pele extremamente branca que se fundia com o jaleco, que por alguma ilusão de ótica movia os lábios.

- Remorso de que? – Se curvou para frente, cenho franzido – Você não sabe o que é ter milhares de vozes dentro da sua cabeça te mandando fazer isso e aquilo, não é, Doutor? – a ironia bailava em cada silaba. Um sorrisinho surgiu no canto esquerdo da boca – Sabe qual é a diferença entre os loucos e os médicos? – ergueu a sobrancelha – É que loucos não tem diploma.

Remexeu-se rapidamente na cadeira, para sentar em posição de lótus. A enfermeira fez menção de se aproximar, mas um aceno de mão do profissional responsável fez com que recuasse. Não sem muitos palavrões mentalmente ditos, contrastando com o sorriso amarelo.

- Vocês estudam anos pra pirar... Nós já nascemos assim... – gargalhou – Eu poderia ser uma filósofa! A mais jovem filósofa do manicômio estadual, o que acha? – gesticulava como se desenhasse uma faixa no ar.

- Como assim a mais jovem? Você não disse que tinha oitenta anos? – perguntou-lhe o médico, acreditando que a pegaria e quebraria sua armadura.

- Oitenta anos não é jovem? Matusalém não viveu 969 anos? Perto dele uma pessoa de oitenta é um bebê de fraldas.

- Por que você tentou matar seus pais? – insistiu.

- Eles não são meus pais! São só pessoas que...

- Que te acolheram, te deram amor, carinho, proteção... – a interrompeu, o que de fato não agradou nem um pouco a adolescente.

- Proteção? Acha que se tivessem me protegido me ordenariam mata-los? – parecia perturbada.

- E quem ordenou que os matasse? – o homem sentiu que havia um pequeno progresso.

A jovem começou a chacoalhar a cabeça negativamente, olhos cheios de lagrimas. Eles não compreendiam... Nunca poderiam compreender.

- Por que queriam eles mortos? – tentou mudar a tática.

- Por quê... – o olhou – Porque eles sabiam demais...

***

Minha cela é pequena o suficiente para só caber uma cama e uma pequena pia. Não tem mesa, cadeira ou espelho. Há dias não sei como está meu rosto ou meu cabelo. Devo parecer um monstro. Apesar disso a vida aqui não é tão ruim. Três refeições ao dia, duas horas na sala de TV e jogos ocasionais na quadra de esportes. O problema são os gritos de noite, os gemidos e os sussurros.
Esquizofrenia Hebefrênica eles dizem... A verdade é que não sabem o que tenho e inventam qualquer nome maluco. Eu não falo coisas sem sentido, eles é que não entendem o que quero dizer! Eu não tenho delírios, as coisas realmente estão lá... Principalmente, ela está lá... Ela só quer um meio de me pegar... O doutor disse que eu não sei o limite entre a fantasia e a realidade... Que o mundo que eu vejo está só dentro da minha cabeça. Mas dentro da minha cabeça ou fora, ele é real... ELA é real! Eu sei que é... Tem que ser!

***

- Anne? – a mocinha de vestido branco e casaquinho rosa sorriu – Olá, sou Samantha. Vou cuidar de você hoje...

- Tanto faz... – se encolheu no canto da cama. Odiava enfermeiras novas.

- Já tomou seus remédios?

- Já... Óbvio! O grandalhão por acaso me deixa não tomar?

- Andrej? Ah, ele é assim mesmo. Não fala bem nossa língua, mas sabe ser persuasivo. – riu baixinho – Bem, se precisar de mim, é só chamar ok?

A menina balançou positivamente a cabeça, mesmo sabendo que se ela realmente precisasse nunca ninguém poderia ajudá-la...

***

"Estão acontecendo umas coisas estranhas no hospício... Eles dizem que não, mas eu sei. A enfermeira Samy não voltou mais e minha companheira de quarto anda com medo de tudo. Eu também tenho medo. Desde que a garota nova chegou. Evito ao máximo olhar para ela, mas é difícil. Ela está sempre por perto, sabe aonde vou e o que faço... Pensando bem, ela sempre esteve lá... Sempre, em todos os momentos da minha vida, ela esteve me observando e fazendo coisas ruins... Foi por causa dela que quiseram que eu matasse meus pais... Por que eles sabiam sobre ela. Sobre o que ela fazia... Mas eu não! Eu não sei de nada, eu juro! Por que ela me persegue? Tenho medo...

***

- Eu quero esse bolinho! – disse grudando a outra pelos cabelos.

- Não, por favor... Foi minha mamãe que me trouxe ele! – a menina de feições e trejeitos infantis pediu.

- Ok... – sorriu maldosamente – Vou contar até três e você se esconde. Se eu procurar em dez lugares e não te achar, pode ficar com ele. Se eu achar... – a outra tremeu de medo. Virou de costas – Um...

A garota ficou em pânico. Começou a correr e se escondeu dentro de um quarto. Foi encontrada rapidamente, e teve sua sobremesa tomada violentamente. A maior enfiou a fatia inteira na boca. Enquanto a menor chorava algo chamou sua atenção. Saiu caminhando a passos largos, ainda cheia de farelos pela roupa, e parou diante da grande lata de lixo. Com uma felicidade perversa empurrou de um golpe o objeto para longe e se deliciou com o grito daquela que se escondia ali.

- Sua mãe nunca te ensinou que é feio espionar... Anne?

As lagrimas começaram a escorrer pelo rosto dela, enquanto olhava bem fundo nos olhos de sua captora. Era a primeira vez que o fazia e o que viu a mortificou.

- Vamos fazer o seguinte... Eu vou contar até três e você se esconde. Se eu procurar em dez lugares e não te achar, você está livre... Mas seu achar... – uma gargalhada pavorosa preencheu o local. A menina do bolo já tinha aproveitado para escapar, e com certeza não pediria ajuda – Vamos começar...

Ao ver a outra se virando e iniciando a contagem, Anne correu. Precisava se esconder e achar um lugar seguro, esquecer o que vira; precisava de muitas coisas... Desceu as escadas o mais rápido que pôde e chegou a um longo corredor, cheio de portas. Os quartos. Testou-as e todas estavam trancadas, menos uma: a sala de limpeza, espaço reaproveitado abaixo dos degraus. Por algum descuido da zeladoria o único lugar que deveria estar fechado estava aberto. Acreditou que aquela coisa jamais a encontraria ali. 

Finalmente estaria a salvo.

- Pronta, ou não lá vou eu! – o grito chegou distante – Anne, Anne, cara de salame... Vamos brincar, agora eu vou contar... Um, dois, três, quatro, cinco e até dez, se não te achar, nós brincamos outra vez... Mas se invés disso antes do dez eu te encontrar, Anne, Anne, Anne, você vai querer gritar... – cantava enquanto descia com pequenos saltos os degraus da curta escadaria que levava ao primeiro andar.

- Um... – a primeira porta foi forçada, mas não cedeu – Dois... – o mesmo com a segunda e todas as seis que se seguiram. Os pés batiam no solo quase sem fazer barulho, como um gato à procura de seu ratinho... Lentamente a sétima porta se abriu, rangendo baixinho como um pedido de desculpas.

- Oito... Estou esquentando? – disse ao olhar embaixo da escrivaninha de madeira que seria de suporte para um armário – Nove... Sei que está aqui. – jogou para longe uma cadeira. Sorriu ao ver um pequeno armário vermelho no canto do quarto. Em seu caminhar felino se colocou frente ao móvel e o empurrou...

***

Me escondi atrás do pequeno armário de desinfetantes. O cheiro de todos misturados me causa náuseas, mas se sair daqui não terei chance alguma. Sua voz chega cada vez mais perto... Aquela musica...
Céus, está aqui. Posso sentir em minhas entranhas. Ouço os passos na escada... O som agonizante de seus dedos passando pelas barras de ferro do corrimão é baixo, mas o escuto como se fossem badaladas de um sino. Ela salta os dois últimos degraus como criança. Mal pude abafar o grito que teimava em sair, junto com meu coração, quando a porta se abriu. Fechei meus olhos e prendi o resto que tinha de ar nos pulmões.”

- Dez! Te peguei...

Estava petrificada! Nesse momento vi novamente o rosto que tanto medo me causava... Por que de todos os monstros que me perseguiam, ela era a pior... E eu sabia o motivo. Eu sabia exatamente quem ela era...
Eu...









9 comentários:

  1. Tati!
    Então esse é o conto da gravação! Essa gravação é tensa, eu a escutei enquanto lia o conto! O_o
    Ficou muito, muito legal! Gostei de se tratar de loucura. Tensíssimo. Só tenho a reclamar que acabou cedo demais. Queria ler mais!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ai linda, obrigada!!! ^^

      Esse conto foi o que te disse, que pensei quando ia buscar meu filho na escola. Tenho essa mania de ficar passando a mão pela grade do corrimão, ouvindo os barulhinhos que os dedos fazem nas barras...

      Excluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Taty, o que posso lhe dizer sobre esse conto que ainda não comentei? Fico feliz em ser um beta seu ^.^ Você, além de ser uma musa para mim, pois sempre me incentiva e torna melhor o que faço, é uma escritora fenomenal! :) A musiquinha, aparentemente inocente, deu o tempero ideal para a história. O horror da inocência, transformar algo típico das crianças (esconde-esconde) em razão para arrepios, é maravilhoso! Parabéns!

      P.S: Meu comentário anterior tinha um erro.

      Excluir
  3. Muito bom, Tati. A gente lê e vai se pondo no lugar da Anne... A história nos leva a tomar os mesmos sustos... rsrs Parabéns.

    ResponderExcluir
  4. Sensacional Tati!
    Passou uma puta agonia a cena da procura e quando finalmente chegou ao dez!
    Até eu prendi a respiração!
    Parabéns moça! Como sempre você manda bem pacas!

    ResponderExcluir
  5. enquanto eu lia, me senti escodido com a Anne, e quando a garota se aproximou, eu pude sentir sua mao gelada em mim.

    Provavelmente ele vai ser encontrada morta, e vai ser dada como suicida e ninguem nunca mais vai tocar no assunto.

    ResponderExcluir
  6. Tati parabéns, adorei o conto! A musiquinha é sinistra, devia colocar mais pra perto da fala! bjs

    ResponderExcluir
  7. Otimo curta. Daria um episodio melhor q muitas series.

    ResponderExcluir