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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Você é um demônio


Perseu não era um cara legal e tinha consciência disso.
Primeiro, ele era empresário, gerente de uma empresa de médio porte. Em outras palavras, ele era o Grande Chefe. E ele gostava disso, gostava de ser O Cara. Fazia com que todo mundo o chamasse de “doutor” – apesar de não ser médico muito menos ter um título de doutorado.
Todos os dias, sua rotina era mais ou menos a mesma: gritar com sua secretária, com a diretora executiva, gritar com os funcionários, xingar outros, falar vários palavrões, mandar em todo mundo e gritar mais um pouco. 

Era uma sensação fantástica.
Naquela manhã fez tudo do mesmo jeito. Gritou tanto com uma menina (talvez fosse uma estagiária, parecia tão nova e idiota) que ela saiu chorando do seu departamento. Mas não antes de dizer meia dúzia de palavras petulantes:
- Você é um demônio. 

Claro que foi demitida. Isso aumentou ainda mais o bom humor de Perseu que logo depois foi almoçar em seu restaurante preferido: o mais caro da região.
Estava saboreando uma ótima picanha bem mal passada quando viu a mesma menina encarando-o do outro lado da vidraça que separava o restaurante da rua. A menina tinha as mãos postadas no vidro e o encarava de olhos bem arregalados e uma expressão maníaca no rosto.
Louca. Ainda bem que a demitira o quanto antes. Imediatamente chamou o garçom e mandou que removessem aquela poluição visual. Estava atrapalhando sua digestão. Perseu acompanhou com os olhos enquanto um segurança parrudo expulsava a menina. Ela até parecia alegar que a calçada era pública, mas o segurança era duas vezes maior que ela e três vezes mais largo. Obviamente ela se afastou, mas não sem antes lançar um olhar fulminante para Perseu, que apenas ergueu sua taça de vinho.
Mais tarde, naquela noite, ele teve um sonho muito estranho.
Sonhou com a menina, só que ela tinha chifres e um rabo enorme. Estava vestida apenas com um corpete vermelho sangue. Ela lhe entregou um tridente negro que carregava e disse:
- Você é um demônio.
- Você está demitida! – Perseu esbravejou de volta. Ela apenas riu.
- Você é meu escravo. – ela retrucou e estalou os dedos na frente dos seus olhos.
Perseu acordou sobressaltado e excitado. Praguejou bem alto para o quarto vazio.
- Filha da puta!
Caminhou até o banheiro a passos trôpegos. Aliviou a excitação no chuveiro. Quase ligou para a sua secretária, para exigir que viesse lhe satisfazer. Estava pensando nisso quando se olhou no espelho do banheiro, pela primeira vez depois que acordou daquele pesadelo.
Gritou.
Passou a mão na testa para verificar se aquilo era mesmo real. Não era possível. Só poderia ainda estar dentro de um sonho maluco. Um sonho dentro de outro sonho. Ele não estava vendo aquilo, não estava.
Havia dois chifres vermelhos despontando de sua testa. Sangue escorria por seu rosto pálido. Os chifres tinham aberto a carne à força. Mas o pior foi quando o seu reflexo na parede piscou para ele e sorriu malevolamente.
- Você é um demônio. – o reflexo disse roubando sua voz.
Perseu correu, tropeçando nos próprios pés. Jogou-se na cama debaixo das cobertas. Aquilo era loucura. Estava sonhando, precisava acordar. Era tudo um terrível pesadelo e aquela menina estúpida e maluca era a culpada.
- Pare com isso! Estou mandando! – ele gritou para o quarto vazio.
- Olhe ao seu lado. – ele ouviu a voz da menina na sua cabeça. – Tenho um presente. Olhe agora.
Era uma ordem.
Lentamente, cuidadosamente, Perseu ergueu a cabeça e saiu debaixo dos lençóis. Ele virou a cabeça bem devagar e observou. Ao lado de sua cama havia um embrulho negro.
- Abra. AGORA.
Perseu não estava acostumado a receber ordens, mas sabia que quando alguém era mais forte, o sensato era obedecer. E, naquele momento em particular, ele se sentia muito fraco.
Abriu o embrulho negro, rasgando o papel.
Dentro havia o tridente do sonho.
- Olhe para mim. Erga a cabeça, demônio.
Ele não queria olhar, mas era como se uma força invisível o forçasse.
Perseu ergueu os olhos. À sua frente havia um grande espelho que tomava toda a parede. Primeiro viu apenas seu rosto assustado, os chifres sanguinolentos em sua testa. Em seguida, viu a garota, exatamente como no sonho, bem atrás dele.
Ela lambeu seu pescoço sedutoramente para depois puxar sua cabeça para trás, pelos cabelos. Agora Perseu a via cara-a-cara. Os olhos dela eram vermelhos e ardiam como fogo.
- Você é meu. Você é meu escravo. Você é um demônio. 

8 comentários:

  1. A trama é interessante, Karen. A explicação para o fato de ele ser tão mal, sentir tanto prazer com o que fazia ficou ótima. Creio que deveria, entretanto, desenvolver mais as sensações e o tormento do empresário, mostrar o quanto ele temia e sofria, principalmente no final do conto.
    Entretanto, gostei do vinculo que estabeleceu entre ele e a empregada.
    Parabéns pelo primeiro conto no Um Ano de Medo...

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  2. Obrigada, Franz!
    Trabalhar aqui com vocês em Um Ano de Medo é uma oportunidade e uma escola, obrigada pelas dicas!
    Abraços!

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  3. Aparecendo pra comentar (finalmente rs)

    Concordo com o Franz, achei a historia muito boa, prende a atenção, mas senti falta de um pouco mais de detalhes. Às vezes uma coisa que pra você é pequena, a descrição de um simples olhar, pode ser o ponto chave. Minha dica é experimentar... Se soltar e realmente se permitir sentir o medo junto com o personagem. Eu falei sobre isso numa palestra aqui... Quando você realmente sente o que o personagem está sentindo fica mais facil de passar isso adiante. Sentar e pensar como reagiria se estivesse naquela situação costuma ser um bom exercicio.

    No mais, imaginação é o que não tefalta anjinho, apoie-se nisso e seja livre! Está de parabéns! Um ótimo inicio para o projeto^^

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    1. Pois é, você e o Franz não foram as primeiras pessoas a me dizerem isso, vou me inspirar nas dicas de vocês e tentar sentir mais o medo do personagem. Gostei da sua ideia de sentar e pensar o que eu sentiria nessa situação, vou fazer exatamente isso. :)
      Obrigada! Esse projeto tá sendo um ótimo exercício, porque como são tantos contos a fazer, a gente acaba perdendo a vergonha de botar no papel as ideias mais absurdas. O próximo conto que eu vou postar é bem absurdo, mesmo! ^^

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Oi Karen,
    Gostei muito do conto, só achei que ficou faltando espaço para que ele respirasse melhor. Mas a ideia foi muito boa e sua escrita é fluída e agradável, ao mesmo tempo gerando expectativa no leitor.
    Você poderia aprofundar mais o medo do protagonista explorando sua perda de controle e de poder (seus valores principais) de uma forma gradativa. Por outro lado, se quiser, poderia explorar mais o toque de erotismo que você colocou, alternando com a perda de controle, o que vai gerar ainda mais ansiedade e potencializar o medo na narrativa.
    Fiquei com algumas duvidas: Perseu já era um demônio em forma humana ou ele era um humano que com sua maldade foi tornando-se um demônio? A menina era um demônio também ou tudo foi parte de algum pacto? Teria a menina sido algum teste para que Perseu se tornasse um demônio? Tudo isso muda a forma e direção da história.
    Seria muito legal ver uma versão ampliada deste conto em uma antologia como a Daemonicus da Literatta ou a Erótica Fantástica 2 da Draco :)
    Boa sorte!
    Sandro Quintana

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    1. Obrigada, Sandro! Acabei realmente não me estendendo muito nesse conto, já que a nossa proposta aqui são contos curtos, porém fiquei lisonjeada com seu comentário e certamente vou colocar em prática suas sugestões. Você acha que eu poderia então ampliá-lo e enviar para alguma das antologias que citou? Realmente seria ótimo! Estou sempre de olho nessas antologias, inclusive cheguei a ser publicada na antologia Dragões, da Draco, que está para ser lançada esse mês.
      Sobre os seus questionamentos, eu quis passar que Perseu era um homem ruim que, devido à sua própria maldade atraiu demônios de verdade e acabou virando um deles. A menina seria realmente um teste, pensei nela como um demônio à procura de escravos. =)
      Obrigada pelo comentário! Vou seguir suas dicas!

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