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sábado, 12 de janeiro de 2013

Na sombra do Cânion.


Silver Bullet. Uma cidade parecida com muitas tantas da região, a não ser por suas terríveis noites. Nas luas cheias são contadas muitas histórias, do tipo que fariam tremer do mais valente cowboy ao mais temível fora da lei. E é uma dessas histórias que iremos lhe apresentar.

O garimpo era a principal maneira de enriquecer, sendo seguido de perto pelas vias férreas que estavam em expansão e pelos caçadores de recompensa. A vida era fácil e maravilhosa para quase todos. Tinham famílias em casa, para satisfazer os egos e inflar o orgulho dos homens durante o dia; jogatina e mulheres, de corpos apertados e expostos, para a diversão durante a noite; uma vida invejável para qualquer um do velho oeste. Até que algo mudou.

Animais adoeceram e definharam de uma maneira absurdamente veloz, uma praga que se alastrava como cortina de areia em dia de ventania, deixando para trás apenas devastação. O prefeito não sabia como agir diante de tal pavor, os cidadãos cobravam dele alguma atitude, mas a única decisão tomada, talvez a melhor de sua vida, foi permanecer em silêncio por medo do que ainda poderia vir. Foi então, como um castigo divino pela falta de resposta, que tudo ficou pior. 


Os jovens começaram a morrer, sem causa aparente, no meio da noite. Pela manhã, quando seus pais iam acordá-los, apenas uma forma moldada em pele e ossos era encontrada. Novamente a resposta do prefeito a uma população apavorada foi o silêncio. Por causa disso, muitas famílias foram destruídas. Homens, que preferiram permanecer na cidade por ganância, viram suas esposas indo embora, carregando consigo os filhos que ainda tinham vida, para nunca mais se ouvir falar deles. Entretanto, poucas pessoas tiveram tempo de fugir: a ponte que atravessava a grande fenda nos limites da cidade desabou, levando consigo o sonho de liberdade de dezenas de arrependidos.

Durante muito tempo foram enviados trabalhadores para a reconstrução da ferrovia, que se empenhavam muito nas obras dentro do cânion, onde era feita a sustentação. A cada dia chegavam novos funcionários, pois era a mesma velocidade com que desapareciam. O prefeito, aproveitando que as obras se estendiam cada vez mais, começou a desviar parte da verba para um projeto pessoal: um forte logo abaixo de sua casa, onde poderia se esconder de tudo e todos e proteger os seus. Mal sabia ele que isso jamais seria o bastante para todos os perigos que aquela cidade proporcionava.

Por maiores que fossem os esforços, a ponte não era reconstruída, e o lugar continuava a engolir as almas de construtores, engenheiros e toda e qualquer pessoa que se atrevesse a ajudar. Era como se algo ali dentro tivesse acordado faminto, ou com uma enorme vontade de se vingar, impedindo quem vivesse naquela cidade, e qualquer desavisado que chegasse depois, de sair com vida. Com o fracasso de todas as tentativas, acabaram por desistir de criar qualquer vinculo com o mundo exterior, fazendo de seu maior orgulho – a cidade de Silver Bullet – seu maior pesadelo.

Quando a população já começava a se acostumar com a nova rotina, tratando com maior respeito aos poucos agricultores – agora detentores do poder, por ser a única fonte de alimento do local – e finalmente restaurando a lei e a ordem, algo pior se abateu sobre todos eles. As noites, que embora não fossem mais perfeitas eram ao menos tranquilas, passaram a ser um prenuncio de morte.

Tudo começou quando Billy Monstrengo colocou pra fora um dos engraçadinhos que se aproveitou da mercadoria de seu Saloon e se recusou a pagar. O homem caminhava cambaleante pela cidade, que naquela noite estava envolta pela névoa densa, xingando todas as gerações futuras do corcunda. Um canto doce e melodioso chegou até seus ouvidos. Uma pedra e o tropeço, a queda e a surpresa. Ao olhar para frente, tentando encontrar um meio de se erguer, só o que encontrou foi um par de pequenos e luxuriantes sapatos vermelhos. Foi subindo o olhar e deparou-se com pernas bem torneadas, envoltas em uma meia de renda, e os babados de uma saia, que eram pouco visíveis por conta da neblina. O maravilhoso canto voltou a preencher o ar, como se viesse de todos os lados. Ele fechou os olhos por um momento, se deixando levar pela música, e ao reabri-los apenas teve tempo de ver um pedaço do vestido e sua dona se afastando lentamente. A música havia cessado, mas a névoa parecia muito pior do que estava antes.

Com um esforço sobre-humano conseguiu seguir os passos daquela mulher misteriosa. Quando deu por si estava na beira do precipício, quase para cair. Sentou-se e pôs-se a pensar para tentar descobrir em que momento a perdera de vista. A mente vagueava em libidinosos pensamentos, a necessidade de desvendar aquele enigma que se mostrava na forma de uma charmosa dama era gigantesca. Precisava urgentemente saber como ela se parecia, ou acabaria louco.  De repente o canto voltou, dessa vez vindo de dentro da imensa garganta do deserto. Inclinou-se um pouco mais para ver melhor, e o grito que saiu de sua boca mais parecia vindo do inferno, e embora fosse alto, ninguém ouviu; a neblina, que antes propagava o som, agora abafava qualquer ruído. Os passos eram rápidos e vacilantes, uma tentativa de corrida extremamente desastrosa. Muitas quedas se sucediam e o ser continuava a se aproximar. Pensou em usar sua arma, mas ao levar a mão à cintura se lembrou de que havia deixado-a na mesa de jogo. Grave erro. Imperdoável para a época em que vivia, principalmente nas condições em que se encontrava a cidade.

A cortina branca tornou-se um pouco mais transparente, quase um véu, apenas por tempo suficiente para que ele vislumbrasse aquilo. Era a coisa mais feia que já tinha posto seus olhos! Um par de pernas femininas – delicadas e bem feitas – penduradas no corpo; seis enormes e peludas patas de aranha, com quase o dobro do tamanho das humanas, que a faziam andar mais rápido. Tudo coberto por um vestido de dançarina de cancan, que escondia as pernas mais longas quando a figura se abaixava, para atrair incautos com seus belos tornozelos; a cintura, fina e delicada, parecia ser apenas uma base para o horror que se via acima dela: quatro cobras no lugar de braços, com as cabeças onde deveriam ser as mãos, todas sibilando; a cabeça, com feições humanas e coloração azul-acinzentado, parecia estar em um estágio avançado de decomposição, mas ao mesmo tempo estava extremamente conservada, como se tivesse sido mumificada tardiamente.

A coisa continuava a se aproximar, o desespero toma conta da alma do pobre homem, que já se arrependia amargamente de ter seguido aquelas pernas torneadas. Ele ouviu um som esganiçado, mas não foi com os ouvidos, foi dentro de sua mente. A melodia se fez ouvir novamente, e enquanto ele estava inebriado por aquela música, sentiu uma dor forte no tornozelo. Seu olhar atingiu o ponto e ainda pôde ver uma das cobras grudada em sua perna. Tentou gritar, mas a voz lhe faltou. Foi quando percebeu que não podia se mover. Estava paralisado dos pés à cabeça. A última gravação efetuada por suas retinas foi a daquele ser quase mitológico se aproximando lentamente e o engolindo, naco por naco, enquanto ele sentia as dores atrozes da morte certeira. A cada pedaço de carne arrancado os olhos da criatura iam se iluminando, enquanto a vida dele ia se esvaindo.

Ao final da refeição o monstro reuniu as sobras, levando ao local onde encontrou seu jantar. Era a primeira vez que se afastava tanto de seu lar, e não havia nenhum motivo aparente para tal coisa, mas ela agia como se fosse o mais importante a ser feito naquele momento. Não se sabe ao certo o por que de os restos serem abandonados na porta do Saloon. Uns acreditam que o assassino queria dar-lhe o direito a um enterro digno, outros acham que foi alguém querendo se vingar do Monstrengo – que tinha muitos desafetos na cidade – e também havia quem dissesse que o próprio homem expulso colocou aqueles restos malcheirosos de carne, ossos e roupas ali, fugindo da cidade em seguida. O que esses últimos não sabem explicar é de que maneira teria ele conseguido escapar.

Dias depois algumas crianças, que brincavam à beira do abismo no fim da tarde, juraram ter visto um brilho vermelho alaranjado, como duas velas acesas no meio da escuridão. Os adultos não tinham certeza se acreditavam ou se era só mais uma peraltice, mas o medo os impedia de comprovar. Há muito tempo trocaram o senso de aventura pelo instinto de sobrevivência.

Outras mortes se seguiram, todas com o mesmo padrão. Aquilo parecia perdoar apenas as crianças – nascidas ou no ventre de suas mães – pois nenhuma, nem mesmo as que saíam no meio da noite por alguma aposta infantil ou simples curiosidade descuidada, foi atacada.

Havia também um jovem que dizia ter sobrevivido ao ataque, e foi justamente quem descreveu a criatura para o restante da população. Ninguém sabia precisar se ele dizia a verdade, se era louco ou apenas um mentiroso tentando tirar proveito da situação, mas era mais fácil acreditar em algo fantasioso do que morrer sem nada a que se agarrar. O fato é que a partir disso todos passaram a ter medo de sair depois do crepúsculo. Não existe naquela cidade viva alma que seja louca de se arriscar a tal ponto, afinal, para todos os efeitos a criatura continua faminta, desperta e à espera de uma nova vitima, na sombra do cânion. 

Sobre a autora:

Meu blog é o http://ladybigby.steambook.com.br e tenho meu deviant com alguns dos meus trabalhos de imagem http://tatianaruiz.deviantart.com/gallery/

Bio:

Tatiana Ruiz é cidadã espanhola nascida no Brasil. Membro do Conselho Steampunk, a entusiasta ajuda a divulgar a literatura fantástica nacional. Capista e atriz, descobriu na escrita o prazer da vida. Possui várias poesias no web jornal Recital Rotativo e contos em antologias como Insanas... Elas Matam, Steampink, Angelus, Piratas - Os Senhores das Aguas Sombrias, À Beira da Loucura, SOS - A Maldição do Titanic e Eu Acredito - Fadas e Duendes. Também é organizadora das antologias Steampink, Erótica Steampunk: Por Trás da Cortina de Vapor e co-organizadora de Deus Ex Machina: Anjos e Demônios na era do Vapor e SOS - A Maldição do Titanic. Atualmente trabalha em seu primeiro livro solo.
Twitter: @LadyBigby /e-mail:  taty.ruiz@gmail.com

14 comentários:

  1. Uwow... Velho oeste + terror = história super legal rsrs. Você me deu uma ótima ideia para um conto ambientado nesse cenário rs. Parabéns pelo conto. Ficou show!

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    1. Muito obrigada. Que bom que te inspirei Fico realmente muito feliz^^

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  2. Óia, gostei muito. Tem o tom certo de sobrenatural e estranheza, algo que aprecio muito. Só faltou um John Marston, na história. ;)

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    1. Obrigada Emanuel... Opa, isso é idéia pra um outro conto nessa cidade... rsrsrs

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  3. Conto claustrofóbico, apesar do cenário ser uma cidade inteira. Imaginar estar preso com uma criatura daquelas, seja em qual espaço for, é angustiante.

    Conto bacana e arrepiante. Gostei bastante.

    Grande abraço!

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    1. Sem querer parecer sádica, fiquei feliz de saber que sentiu isso! Eu também senti! rs

      Gosto de buscar meus próprios medos pra tornar tudo mais real. (Tenho medo de aranhas, pra mim elas são monstros mitologicos... kkkkkkkkkk)

      Obrigada pelo carinho do comentário. Espero vê-lo mais vezes aqui no projeto. Tem muita gente bacana ainda pra publicar *.*

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  4. Tati, muito dez o conto! Desculpe a demora para comentar, mas assim que consegui vim aqui porque ele merecia e muito. Foi uma ótima estréia para os autores convidados.
    Gostei do clima de velho oeste e principalmente do monstro. Ficou uma atmosfera muito boa. Como disse o Mano, Red Dead Redemption encontra Dead Space!

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    1. Muito obrigada pelo carinho de ter vindo comentar Karen^^ Fico muito feliz que tenha gostado!

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  5. Há algo muito bom neste conto, Tatiana... a face que não gostamos de ver, o mal triunfante. Nem sempre o mocinho vence. Mas não culpemos o mal, pois há coisas muito além de nosso conhecimento, agindo por instinto.
    Assim foi com esta história. Tensa e com uma ótima ambientação. Não é fácil falar sobre algo que conhecemos apenas a distância, mas você obteve um grande resultado.
    Parabéns.
    P.S.: demorei a perceber quem era Engel rsrsrsrsrs.

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    1. Muito obrigada Franz. Minha mãe ficou revoltada que o monstro saiu vitorioso... rs Ela disse que a gente sempre espera que pelo menos nas historias o bem prevaleça... E é verdade. Mas não gosto muito de seguir a maré rs

      Concordo com você que há muitas coisas além de nosso conhecimento, e é por isso que gosto tanto de escrever terror... Gosto de criar os motivos por trás de meus medos e, por consequencia, dos de muita gente.

      PS: Meu apelido é Angel desde a adolescencia, daí às vezes uso variações dele em outras linguas pra assinar rs

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  6. Uma conhecida postou (com foto)no facebook: "Grand Canyon - um sonho de consumo realizado" e eu fiquei pensando: "Fuja, saia daí, antes que seja tarde..." kkkkkk
    Muito bom, Tati. Realmente eu gosto de finais felizes, mas não dos óbvios. Seu conto teve um final inexperado isso atrai também. Parabéns!!!

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    1. Vlw *.*

      Viu? Eu posso dizer "meu conto tá lindo! Mamãe disse que adorou!" e ninguem vai poder dizer que é mentira, pq aqui ta a prova! kkkkkkkkkkkkkk

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  7. Parabéns, curti o conto! Terror no velho oeste foi bem legal! A escrita está ótima, é possivel ver o monstro saindo das sombras devagar rs... parabens!

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